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Bruno Batista lança hoje (27) em São Luís videoclipe de Caixa preta

Divulgação

 

Logo mais às 20h, de graça, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), o cantor e compositor Bruno Batista lança o videoclipe de Caixa preta (classificação indicativa: 14 anos), faixa de Bagaça (2016), seu quarto disco.

Este que vos perturba terei o prazer de mediar um papo entre o artista, o diretor Arturo Saboia, a produtora Luna Gandra e o ator Raffaele Petrini, diretor do Cine Praia Grande. Após a conversa e a exibição do videoclipe, uma after party com entrada gratuita aguarda o público no Chico Discos (esquina de 13 de Maio com Afogados, Centro), em que Petrini assume seu terceiro papel: o de dj da festa.

Com patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, o videoclipe Caixa preta foi rodado em dois dias em um casarão do Centro Histórico ludovicense. É estrelado por Ana Carolina De Dea e Petrini e a equipe técnica se completa com Arturo Saboia (roteiro e direção), Luna Gandra (produção executiva/set), Elden Magrão (direção de fotografia), Cris Quaresma (direção de arte/figurino), Manoel (logger/drone) e Magaive (gaffer).

Nesta faixa de Bagaça, Bruno Batista (voz) é acompanhado por Rovilson Pascoal (violão e produção), Gustavo Ruiz (guitarra e synth), Meno del Picchia (contrabaixo), Felipe Roseno (percussões e percussões eletrônicas), Pedro Mibielli (violino), Glauco Fernandes (violino), Dhyan Toffolo (viola) e Marcus Ribeiro (violoncelo). O arranjo de cordas é de João Carlos Araújo.

Letra de Bruno Batista e música de Demetrius Lulo, Dandara e Paulo Monarco, Caixa preta é uma canção de amor com referências que vão de Caetano Veloso a Mestre Leonardo. Ouça e chegue cantando ao lançamento do videoclipe:

Música para crianças de todas as idades

Antes de ser pai, meu interesse por música infantil era quase zero. Julgava o nicho de uma tremenda pobreza (letras pobres, arranjos idem etc.), o que não me despertava o menor interesse. Exceções havia, é claro, casos da Arca de Noé, de Toquinho e Vinicius, e de Os Saltimbancos, trilha da peça homônima, formada por versões de Chico Buarque para composições de Luiz Enriquez Bacalov e Sergio Bardotti, entre poucos outros.

Com algum atraso, no início dos anos 2000, o amigo Glauco Barreto apresentou-me aquele que considero um dos melhores discos de música infantil já produzidos no Brasil: Monjolear [1996], dos irmãos mineiros Dércio e Doroty Marques, cujos trabalhos “adultos” eu já conhecia e apreciava – em Erva cidreira [1980], ela gravou Chico Maranhão (Arreuni) e Sérgio Habibe (Cavalo cansado); em Fulejo [1983], ele gravou Cesar Teixeira (Namorada do cangaço).

José Antonio tem microcefalia e um ano e três meses e entre todas as experiências maravilhosas que me tem proporcionado está a revisão do repertório infantil. Desde a gravidez de Graziela intensifiquei a compra de discos de música infantil – com a desculpa de Homem de vícios antigos de presentear o que estava por vir, as recomendações de pediatras de ouvir música desde a barriga etc.

Não sei o que José Antonio vai ser quando crescer, nem se vai detestar música como João Cabral ou detestar poesia como João Donato. Não prevejo nada: tento fazer o melhor possível, o que inclui deixá-lo livre – sem condená-lo a ser como eu, o que seria uma grande crueldade, como já disse o amigo tetra-pai Jotabê Medeiros, com quem sempre aprendo bastante, para além do jornalismo.

O fato é que, desde a barriga, e desde antes, se isso for possível, meu filho sempre ouviu muita música. Do que eu ouvia em casa e no carro, entre minhas preferências e o que chega para resenhar, até os sambas que lhe cantava acalentando – o que gerou um comentário bem humorado do amigo também pai Fernando Matos: “com o pai cantando sambas, sem dúvidas o menino será roqueiro”.

Na crônica Dormir é para os fracos [Folha de S. Paulo, 19/7/2015], compilada em Trinta e poucos [Companhia das Letras, 2016], Antonio Prata, maior cronista brasileiro em atividade (sorry, Veríssimo!) e também pai, lista “catorze constatações a partir da paternidade”, incluindo: “11) Galinha Pintadinha é a imagem da Besta. 12) Galinha Pintadinha é uma bênção divina.”, referindo-se, obviamente, ao poder hipnótico que a azulzinha tem sobre os bebês – por isso o sarro de Diego Freire me fez gostar tanto mais de Bumba, nosso boi [Empíreo, 2016].

Digo, pois, sem falsa modéstia: José Antonio passou incólume por Galinha Pintadinha, amém! Se sobra na tela, até vê, sem reclamar – como o pai vendo, sei lá, uma Ana Maria Braga, por exemplo. Não ligo naquele canal, naquele horário, mas se tem alguém vendo não é necessário instaurar um conflito familiar.

Este texto não é ou se pretende um tratado sobre bom gosto musical infantil (ou adulto). Mas sabemos que, como em qualquer nicho, o que é melhor às vezes fica escondido pela mídia, cujo interesse, antes de informar, é simplesmente vender. José Antonio vê muito Palavra Cantada, Tiquequê, Grupo Triii, Partimpim (a persona “infantil” de Adriana Calcanhotto), o Zoró de Zeca Baleiro e a Arca de Noé (com grandes nomes da MPB interpretando composições de Toquinho e Vinicius), entre outros.

Um exercício a que me proponho é eliminar a barreira – se é que ela existe – entre música adulta e música infantil e os exemplos acima são ótimos. Brinco de aterrorizar minha esposa dizendo que ouvindo o que ouve na infância, o menino será admirador de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Premeditando o Breque – que eu adoro e ela detesta! –, entre outros.

Fora o terrorismo conjugal, faz sentido: a Palavra Cantada, por exemplo, é formada por Sandra Peres e Paulo Tatit, este, ex-integrante do Grupo Rumo, outro nome fundamental da chamada Vanguarda Paulista. Aqui e acolá pintam parcerias com Arnaldo Antunes, além da participação do ex-Titãs em músicas, bem como Mônica Salmaso – outro nome cuja voz agrada bastante adultos que apreciam boa música. No que a dupla é craque: fazendo música para crianças, não se despreocupa da qualidade nas letras, melodias e arranjos, mesmo quando estão apenas interpretando alguma cantiga de roda ou tema de domínio público.

A seguir, 12 (+2) clipes musicais infantis, escolhidos entre o lobby de José Antonio (suas preferências) e o que mais agrada este pai coruja entre o que ele vê.

Cuida com cuidado (Paulo Tatit e Zé Tatit), Palavra Cantada
Esta chegou a integrar minha lista de melhores videoclipes de 2016, na tradicional eleição do site Scream & Yell – não fosse José Antonio, provavelmente eu nem a conheceria

O pinguim (Toquinho, Vinicius de Moraes e Paulo Soledade), Chico Buarque
Meu sogro é professor de matemática aposentado. Brinco com José Antonio dizendo que este é o clipe do avô dele

O gigante (Angelo Mundy), Tiquequê
Um grupo bastante interessante em um videoclipe realizado pelo mesmo estúdio que produz a Galinha Pintadinha (viram? É possível!)

Lindo lago do amor (Gonzaguinha), Adriana Partimpim
Música de adulto em belo videoclipe de roupagem infantil

Ciranda da bailarina (Chico Buarque), Adriana Partimpim
Para adultos e/ou crianças Chico é gênio! Pena que os filhos de pais de direita demorarão mais a perceber

Bolacha de água e sal (Sandra Peres e Paulo Tatit), Palavra Cantada
Saquem a pegada rock’n roll que agrada o menino. Talvez a piada de Fernando Matos não fosse apenas uma piada

Eu sou um bebezinho (Paulo Tatit), Palavra Cantada
Sem chiliques, José Antonio!

O ornitorrinco (Zeca Baleiro e Tata Fernandes), Zeca Baleiro
Entre os bichos esquisitos do maranhense há uma girafa regueira e uma onça pintada, entre outros

Rato (Paulo Tatit e Edith Derdyk), Palavra Cantada
Letra longa, cerzida a valsa e choro, mostra o capricho das produções da dupla

A Galinha d’Angola (Toquinho e Vinicius de Moraes), Ivete Sangalo
Clássico infantil originalmente interpretado por Ney Matogrosso

O ar (O vento) (Luiz Enriquez Bacalov, versão de Toquinho e Vinicius de Moraes), Boca Livre
Apesar do erro teórico, garante a diversão dos adultos. Sempre ouvi um ditado, ainda bem que nunca comprovado, que diz que “quem ri de peido caem os dentes”

História de uma gata (Luiz Enriquez Bacalov e Sergio Bardotti, versão de Chico Buarque), Nara Leão e Miúcha
Da trilha sonora de Os Saltimbancos. Há várias músicas com gatos – estes seres que adoram jazz – como protagonistas dos videoclipes

Bônus track

Completado o top dúzia, mais dois clipes animados. Não são infantis, mas José ficou quietinho vendo as novidades. Um prêmio para papais e mamães que se renderam aos encantos da boa “mpbaby”, aguentaram textão e perdoaram o clichê publicitário do título, vocês merecem!

Burn the witch (Radiohead), Radiohead
De A moon shaped pool, disco mais novo dos ingleses

The girl in the yellow dresses (David Gilmour e Polly Samson), David Gilmour
Clipe sensacional e jazz classudo do ex-Pink Floyd, aqui acompanhado pelo The Julian Joseph Quintet

Melhores de 2016

Quase nunca me arrisco em listas de melhores do ano. Apesar dos olhos e ouvidos atentos ao que rola no mundo da arte/cultura/entretenimento, sei que ando longe de ter lido/ouvido/assistido a tudo, ou ao menos a maior parte, além do fato de o Maranhão ser um tanto fora de rota (apesar de louváveis esforços mais ou menos recentes) e as coisas (livros, discos, shows, filmes, peças etc.) demorarem (ou nem) a chegar(em) até aqui. O fato é que sempre acho que minhas listas estão aquém do que poderiam/deveriam ser. E nisto, certamente os poucos mas fiéis leitores concordarão comigo. E concordarão mais ainda os que discordarem da lista, vocês entendem.

O fato é que Marcelo Costa, um dos pioneiros do jornalismo cultural na internet brasileira, editor do Scream & Yell, convidou-me (baita honra!) para votar nos Melhores de 2016 de seu site. Ele esteve em São Luís em novembro passado, participando do Festival BR 135/ Conecta Música, ocasião em que mediei uma mesa com ele, Alexandre Matias (Trabalho Sujo) e Roberta Martinelli (Cultura Livre, Som a Pino).

Até o final de janeiro Scream & Yell publica seu resultado final, compilando os votos de cerca de 100 formadores de opinião de todo o Brasil – esta sim, a lista que vale a pena. Torno públicos, a seguir, meus votos, tendo deixado algumas categorias incompletas e outras sem preencher – ambos os casos frutos do exposto no parágrafo inicial.

MELHOR DISCO NACIONAL

Só vou chegar mais tarde. Capa. Reprodução

1. Só vou chegar mais tarde, Edvaldo Santana – O cantor e compositor de São Miguel Paulista já citava São Luís e o tambor de crioula na letra de Jataí, faixa-título de seu álbum anterior, com cujo show (no formato voz e violão) passou pelo Cine Teatro da Cidade de São Luís em novembro daquele ano. Neste novo disco volta a surpreender: o bolero Ando livre cita o Bar do Léo, que ele conheceu naquela viagem, e conta com a participação especial de Rita Benneditto. Mas ele não encabeça essa lista por puro bairrismo. Ouçam e entendam!

Tropix. Capa. Reprodução
Tropix. Capa. Reprodução

2. Tropix, Céu – Perfume do invisível estava na trilha de Velho Chico, o melhor acontecimento da teledramaturgia brasileira em 2016. Orgânico e eletrônico, o disco tem produção do francês Hervé Salters (General Elektriks) e Pupilo (Nação Zumbi). Merece destaque a regravação de Chico Buarque song, da mítica Fellini.

Fábrica de animais. Capa. Reprodução
Fábrica de animais. Capa. Reprodução

3. Fábrica de Animais, Fábrica de Animais – Não foi à toa “Fazendo do mundo um lugar mais legal pra viver” ter dado título à minha resenha do segundo disco da banda liderada por Fernanda D’Umbra, batizada por romance de Edward Bunker. Rock’n roll de alta voltagem poética.

Hóspede da natureza. Capa. Reprodução
Hóspede da natureza. Capa. Reprodução

4. Hóspede da natureza, Cátia de França – Disponível para download gratuito e legal na web, o disco novo de Cátia de França levou 10 anos maturando. Gravado em 2005, com músicos que tocaram com Cássia Eller, só foi lançado ano passado, revelando a força da autora de Kukukaya, gravada por Xangai e Elba Ramalho.

Bagaça. Capa. Reprodução
Bagaça. Capa. Reprodução

5. Bagaça, Bruno Batista – O quarto disco de Bruno Batista é o primeiro em que ele grava parcerias. Sempre que ouço o artista, em discos ou shows, me pergunto: quando é que Maria Bethânia e/ou Ney Matogrosso irão gravar suas canções?

MELHOR DISCO INTERNACIONAL

Day breaks. Capa. Reprodução
Day breaks. Capa. Reprodução

1. Day breaks, Norah Jones – O retorno da artista ao jazz.

You want it darker. Capa. Reprodução
You want it darker. Capa. Reprodução

2. You want it darker, Leonard Cohen – 2016 foi um ano de grandes baixas. A exemplo de Bowie, Cohen deixou um belo disco antes de partir.

Blue & Lonesome. Capa. Reprodução
Blue & Lonesome. Capa. Reprodução

3. Blue & Lonesome, Rolling Stones – Se o blues é o pai do rock, os vovôs Stones seguem na ativa com um belo disco na volta às origens.

Blackstar. Capa. Reprodução
Blackstar. Capa. Reprodução

4. Blackstar, David Bowie – A “necrofilia da arte” (como cantou o Pato Fu) em torno do camaleão ter previsto a própria morte não ofuscou (ainda bem!) a beleza e a importância de seu derradeiro registro.

I still do. Capa. Reprodução
I still do. Capa. Reprodução

5. I still do, Eric Clapton – Título autoexplicativo.

MELHOR SHOW NACIONAL

Foto: divulgação/ BR 135
Foto: divulgação/ BR 135

1. Nação Zumbi, Afrociberdelia – 20 anos, Festival BR 135, Praça Nauro Machado, São Luís – Uma noite mágica!

 

Foto: Marco Aurélio/ BR 135
Foto: Marco Aurélio/ BR 135

2. Di Melo, O Imorrível, Festival BR 135, Praça da Criança, São Luís – Outra noite mágica! O lendário Di Melo, pela primeira vez na ilha, acompanhado por instrumentistas locais. Show ao vivo não deixou nada a dever ao groove do disco inaugural de Di Melo, de 1975, um dos grandes álbuns do soul/funk brazuca. Apresentação misturou músicas daquele com faixas de O imorrível [2016], segundo álbum oficial de Di Melo.

Foto: Jotabê Medeiros
Foto: Jotabê Medeiros

3. Tássia Campos, Encontrando Belchior, Odeon Sabor e Arte, São Luís – 2016 foi o ano do #foratemer e do #voltabelchior. O show que a cantora dedica ao repertório do cearense teve algumas edições. Esta, particularmente, contou com a participação especial de Jotabê Medeiros, que contou uma história, uma das muitas que conta/rá em Pequeno perfil de um cidadão comum, belchiorgrafia que publica este semestre. O jornalista esteve em São Luís participando da Feira do Livro, ocasião em que leu um trecho inédito do livro que está escrevendo.

Foto: Márcio Vasconcelos
Foto: Márcio Vasconcelos

4. Bruno Batista, Bagaça, Mandamentos Hall – “O melhor show de Bruno Batista (até aqui)”, anotei em texto sobre o show.

Fotosca: ZR
Fotosca: ZR

5. Alexandra Nicolas, Eu vou bulir com tu, Espigão Costeiro da Ponta d’Areia, São Luís – A cantora realizou sete apresentações em praças públicas de São Luís, com repertório baseado em ritmos consagrados no Nordeste, pitadas de duplo sentido e um pé também no carimbó paraense. Os shows serviram também de teste de repertório para seu segundo disco, provisoriamente intitulado Bulir com tu, que ela começa a gravar neste primeiro semestre, a ser lançado ainda em 2017.

MELHOR FILME NACIONAL

Aquarius. Cartaz. Reprodução
Aquarius. Cartaz. Reprodução

1. Aquarius, de Kléber Mendonça Filho – Por tudo.

Matheus Nachtergaele e Rafael Nicácio em cena de Big jato. Frame. Reprodução
Matheus Nachtergaele e Rafael Nicácio em cena de Big jato. Frame. Reprodução

2. Big Jato, de Claudio Assis – Baseado na autoficção homônima de Xico Sá, o filme tem Mateus Nachtergaele em dois papéis e a participação especial de Jards Macalé interpretando o príncipe Ribamar da Beira Fresca, espécie de louco da aldeia.

Lua em sagitário. Cartaz. Reprodução
Lua em sagitário. Cartaz. Reprodução

3. Lua em sagitário, de Márcia Paraíso – Belo romance juvenil merece destaque por abordagem diferenciada em relação ao (quase) sempre criminalizado MST.

MELHOR LIVRO

O conto zero e outras histórias. Capa. Reprodução
O conto zero e outras histórias. Capa. Reprodução

1. O conto zero e outras histórias, Sérgio Sant’Anna – Melhor contista brasileiro em atividade.

Visões de um Poema Sujo. Capa. Reprodução
Visões de um Poema Sujo. Capa. Reprodução

2. Visões de um Poema Sujo, Márcio Vasconcelos – O fotógrafo faz sua releitura particular da obra prima de Ferreira Gullar. Este mês ele inaugura exposição em São Paulo.

Ostreiros. Capa. Reprodução
Ostreiros. Capa. Reprodução

3. Ostreiros, Bruno Azevêdo e Ana Mendes – Fotos e perfis de ambulantes da orla de São Luís. Um livro necessário e divertidíssimo.

Trinta e poucos. Capa. Reprodução
Trinta e poucos. Capa. Reprodução

4. Trinta e poucos, Antonio Prata – Coletânea de crônicas publicadas na Folha de S. Paulo do melhor cronista em atividade no Brasil (sorry, Luis Fernando Veríssimo).

Os visitantes. Capa. Reprodução
Os visitantes. Capa. Reprodução

5. Os visitantes, B. Kucinski – O autor confirmou seu nome entre os grandes da literatura brasileira já em seu livro de estreia (na ficção), K, de 2011. Os visitantes é uma espécie de errata literária: Kucinski faz um novo livro a partir de incorreções de obra anterior, com a ditadura militar brasileira como tenebroso cenário.

O MELHOR DA TV

Reprodução
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1. Cultura Livre, TV Cultura – Roberta Martinelli conviveu alguns anos com Fernando Faro, o nome mais importante para a música na televisão brasileira. Após sete temporadas de resistência com o Cultura Livre, ela estreou o diário Som a Pino, na Rádio Eldorado e assina uma coluna com o mesmo nome nO Estado de S. Paulo. Martinelli é uma das mais atentas observadoras da cena musical contemporânea no Brasil. Fernando Faro não deixa lacuna e certamente se orgulha dos esforços e resultados da discípula.

2. Baile do Baleiro, Canal Brasil – O maranhense Zeca Baleiro transformou em programa de tevê a ideia simples e eficiente de um show/festa em que se une a nomes das mais variadas gerações e estilos musicais para cantar suas memórias afetivas. Primeira temporada teve seis episódios e em seu palco nomes como Blubell, Wado, Odair José, Maria Alcina e Luiz Ayrão, entre outros, entre música e conversa. Que 2017 traga outra temporada, tão inspirada quanto.

Foto: divulgação/ Canal Brasil
Foto: divulgação/ Canal Brasil

3. Transando com Laerte, Canal Brasil – Nos últimos anos, Laerte deu algumas guinadas em sua vida/carreira, mostrando-se bastante competente em todas. No programa, explora sua veia de entrevistador e segue como a cartunista que melhor traduz a tragédia brasileira em tempos de golpe.

4. Velho Chico, Globo – A novela merece destaques pelo elenco, fotografia, locação e trilha sonora. Quase naufraga com a tragédia que levou Domingos Montagner, o Santo dos Anjos, um de seus protagonistas, que morreu afogado nas águas do Rio São Francisco, cujo apelido batizou a trama.

MELHOR VIDEOCLIPE

1. Perfume do invisível, Céu

2. Cuida com cuidado, Palavra Cantada

3. Bulir com tu, Alexandra Nicolas

4. Vida em vermelho, Blubell

A guinada tropixelada de Céu

Tropix. Capa. Reprodução
Tropix. Capa. Reprodução

 

Bastam algumas gotas, ou segundos, de seu Perfume do invisível, faixa de abertura de Tropix, novo disco da cantora Céu, para inebriar os ouvintes: “no dia em que eu me tornei invisível/ passei um café preto ao teu lado/ fumei desajustada um cigarro/ vesti a sua camiseta ao contrário”, revela-se, “para me despir/ e ser quem eu sou”, prossegue, provocativa, inaugurando seu quarto disco de estúdio, o quinto da carreira, com este incontestável hit.

Os tons de cinza do projeto gráfico revelam um disco orgânico, calcado em timbres eletrônicos, em boa parte graças ao tecladista Hervé Salters (General Elektriks), um dos produtores do disco – o outro é o baterista Pupillo (Nação Zumbi). A banda se completa com Pedro Sá (guitarra) e Lucas Martins (contrabaixo). Tropix tem ainda participações especiais de Tulipa Ruiz (vocais em Etílica/Interlúdio) e Rosa Morena (vocais em Varanda suspensa), filha da cantora, a quem Céu dedica A menina e o monstro e o disco.

Arrastarte-ei (sic) é uma espécie de Dorival Caymmi feminino em pleno século XXI, o mar como metáfora para um flerte, um caso de amor. Céu é autora solitária de quase todo o repertório, lírico, noturno, “anunciando a noite néon”, como diz um verso de Varanda suspensa (parceria com Salters). Em Amor pixelado promete: “saiba, meu amor/ cuidarei de nós/ mesmo quando eu for/ em busca de mim”.

Outros parceiros são Lira, na abolerada Sangria, e Fernando Almeida, em Camadas. De Jorge Du Peixe Céu registra A nave vai e recria, do repertório pouco revisitado da oitentista Fellini, Chico Buarque song (Ricardo Salvagni/ Cadão Volpato/ Jair Marcos Vieira/ Thomas Pappon), a única do disco cantada em inglês.

Com bonito videoclipe, disponibilizado na rede antes mesmo do lançamento do disco, a faixa de abertura parece ligar este aos discos anteriores de Céu. Mas a maior parte das 12 faixas de Tropix pode soar um pouco mais difícil a fãs menos acostumados a guinadas. Pois é justamente o que este novo disco representa: uma guinada na carreira da artista, cujo talento incontestável é reafirmado com este tipo de ousadia.

Assista o clipe de Perfume do invisível:

Os franco-sambas

Pas à pas. Capa. Reprodução
Pas à pas. Capa. Reprodução

A dupla francesa Aurélie & Verioca lançou, ano passado, seu segundo disco, o ótimo Pas à Pas, em que apresentam temas instrumentais e cantados, em francês e português, com sonoridade brasileiríssima: estão lá o choro, o samba e a bossa nova.

Gravado entre a França e o Brasil, o álbum é recheado de participações especiais daqui e de lá: [a flautista] Cléa Thomasset, Flor de Abacate [grupo formado por Marcos Flávio (trombone), Rubim do Bandolim, Silvio Carlos (violão sete cordas), Dudu Braga (cavaquinho) e Oszenclever Camargo (percussão)], [a cantora e compositora] Joyce Moreno, [o violonista] Luís Filipe de Lima, [o violonista e bandolinista] Marco Ruviaro, [o baterista e violoncelista] Médéric Bourgue, [o cavaquinista] Osman Martins, [o percussionista] Stéphane Edouard, [o violonista] Swami Jr., [o saxofonista] Thomas Vahle e [o percussionista] Zé Luis Nascimento.

Além de músicas autorais, o disco traz composições de nomes como Joyce Moreno [Chocolate for (h)all, versão delas para For hall], Swami Jr. [Le temps d’un samba, versão delas para O tempo de um samba] e Egberto Gismonti [À la dérive, versão delas para Loro].

Em abril elas voltam ao Brasil para uma turnê, o que fazem regularmente desde 2012. Já estão agendadas duas apresentações no Rio de Janeiro: dia 28 de abril, no Vinicius Bar (Rua Vinicius de Moraes, 39, Ipanema), com repertório mais voltado à bossa nova; e dia 30 de abril, na Casa das Artes da Ilha de Paquetá (Praça de São Roque, 31, Paquetá). Elas demonstram interesse em passar também por Brasília, Goiânia e São Luís – atenção, produtores! –, onde o público mais afeito a choro já ouviu faixas de seu disco mais recente no Chorinhos e Chorões de Ricarte Almeida Santos.

Aurélie Tyszblat (voz e letras) e Verioca Lherm (violão, voz, cavaquinho, percussões vocais e músicas) conversaram por e-mail (em português) com o Homem de vícios antigos.

Verioca (de óculos) e Aurélie. Foto: José Feijó
Verioca (de óculos) e Aurélie. Foto: José Feijó

 

Está anunciada uma turnê de vocês pelo Brasil que pode passar por São Luís. O que está fechado e o que está faltando?
Aurélie – Estamos fazendo uma turnê por ano no Brasil desde 2012. Até o ano passado, essa turnê passava por Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Para 2016, o nosso desejo é tentar atingir outros espaços. Pensamos em Goiânia, Brasília e São Luís do Maranhão, por que as nossas produtoras têm conexões nesses estados. A nossa experiência mostra que a maioria dos shows dessas turnês é fechada entre um e dois meses antes do início da temporada. Temos já dois shows marcados no Rio e ainda algumas semanas para completar a temporada.

Vocês são francesas. Como se conheceram? Algum parentesco? E como se apaixonaram pela música brasileira?
Verioca – Eu nasci perto de Clermont-Ferrand, no centro da França, e moro em Montpellier, no sul da França perto do mar, há mais de 10 anos. Não tenho nenhuma ligação familiar com o Brasil. Eu toco música brasileira há 30 anos, então essa música é mais que uma inspiração para mim, ela virou a minha música! Primeiro foi quando estudei violão clássico no conservatório. Tinha estudado algumas obras de [Heitor] Villa-Lobos, [Tom] Jobim, e logo depois eu descobri a pianista e cantora [maranhense] Tânia Maria. Foi como uma revelação: eu soube imediatamente que era este tipo de música que eu queria tocar. Desde esse tempo eu comecei a estudar e nunca parei. Hoje, além do meu violão de seis e da minha voz, eu toco percussões – surdo, pandeiro, tantan, repinique, alfaia, tamborim etc. –, cavaquinho, violão sete cordas. Como multi-instrumentista, eu toco em vários grupos de música na França. A maioria são grupos de música brasileira – o grupo Madrugada, que faz samba, Choro Sorrindo, que toca choro, Guaraná Samba, que toca música afro-brasileira, Onda Maracatu, que toca maracatu –, mas também com cantoras de canções francesas, Marie Busato, ou grupos de crianças, Les P’tits Loups du Jazz.

Aurélie – Eu nasci em Paris e moro lá desde sempre. O meu avô do lado do meu pai era da Polônia e a minha mãe nasceu na Argélia. Do meu lado também não tem nenhuma ligação com o Brasil na minha família. Quem sabe numa outra vida éramos formigas brasileiras… ou bem-te-vi talvez… Eu ouvi o meu primeiro disco de música brasileira quando tinha 14 anos de idade. Era um disco de Chico Buarque e a gravação ao vivo de Vinícius [de Moraes] com Toquinho e Maria Creuza, En La Fusa [gravado na boate homônima em Buenos Aires]. Depois comecei a cantar a música de [o pianista] Michel Legrand e standards de jazz. Mas nas partituras do Real Book, queria sempre cantar os temas brasileiros. Foi anos depois, em 2003, que encontrei um professor muito querido, Eduardo Lopes, que mora na França e faz oficinas sobre a música brasileira. Foi graças a ele que desenvolvi a minha paixão pela música brasileira de uma forma muito profunda, longe dos clichês. Comecei a minha vida profissional trabalhando com cinema, primeiro com produção e logo depois como roteirista. Eu queria contar histórias e acho que é exatamente o que eu quero fazer no palco hoje.

Verioca – Nós nos cruzamos pela primeira vez em 2002 numa oficina de jazz que eu estava dando. Depois a Aurélie me contatou em 2007 para me propor de montarmos juntas um repertório de versões de [o violonista] Guinga e [o compositor] Aldir Blanc. Eu só podia aceitar, pois admiro desde sempre o trabalho deles. Nós preparamos então umas vinte músicas e começamos a viajar com o show.

Aurélie – A Verioca tinha acabado de abrir o show da Tânia Maria no Olympia de Paris e eu fiquei muito fã do trabalho dela. Eu escutei os seus dois primeiros cds sem parar durante um certo tempo, antes de pensar em propor minhas letras. O começo da parceria na composição é mais recente, do final de 2009.

É interessante vocês falarem nesta distância de clichês. Em seu novo disco, por exemplo, vemos, entre os compositores, os nomes de Joyce Moreno e Egberto Gismonti, entre outros, além do nome dela e de Swami Jr. entre as muitas participações especiais. Gostaria que vocês comentassem um pouco o processo de realização deste disco.
Aurélie – Temos uma relação específica com cada músico que participou do nosso disco. Vamos começar com a Joyce. Ela conhece o trabalho solo da Verioca há mais de 15 anos, pois a empresária dela à época, Beth Bessa, que é agora a nossa produtora no Rio, tinha oferecido os dois primeiros discos dela. Ela já tinha gostado muito. Finalmente, nos encontramos no Rio em 2010 durante uma oficina sobre a música brasileira conduzida por meu professor Eduardo Lopes. Cantamos Essa mulher para ela e ela gostou. Uma amizade nasceu assim. E quando escrevi essa letra na música instrumental dela, For hall, pedi a autorização e ela me deu na hora. Ela fala fluentemente francês e aceitou o convite para participar do disco com a maior simplicidade e alegria. Ano passado foi uma alegria poder convidá-la no palco do Sesc Tijuca, onde tocamos uma das músicas mais recentes dela, chamada Claude et Maurice, em homenagem a Claude Debussy e Maurice Ravel. Com Gismonti foi diferente. Quando escrevi a letra do Loro e quando a Verioca chegou a um arranjo interessante, consegui o e-mail dele e pedi a autorização de mostrar essa versão. Ele demorou um pouco para me responder, mas quando respondeu, nos acolheu com uma generosidade incrível. Ele tinha “estudado” o nosso trabalho com muito carinho e nos deu sugestões e opiniões que vão ficar para sempre nos nossos corações. Com Swami Jr. foi um pouco do mesmo jeito, a gente tinha um amigo em comum, o [cantor] Marcelo Preto, que já tinha gravado no nosso primeiro disco [Além des nuages, 2011]. E quando eu fiz a versão de O tempo de um samba ele aceitou de nos encontrar para ouvi-la. Na época não sabia que ele falava francês, pois tinha morado em Paris alguns anos. De lá ele topou gravar na música dele e ficou lindo! É interessante notar que tanto a Joyce quanto Gismonti e Swami Jr. falam francês muito bem. Só pra dizer que essa ponte franco-brasileira funciona nos dois sentidos. Os outros convidados do disco são amigos que a gente escolheu com muito carinho para participar de tal faixa. Pode parecer esquisito, mas a gente gosta de apresentar músicos brasileiros que não se conhecem. Foi assim que o Luís Filipe de Lima faz um duo com Osman Martins no cavaquinho. Os dois nunca se encontraram – Osman mora na Bélgica há anos e Luís Filipe é radicado no Rio –, mas a musicalidade deles juntos é impressionante. Flor de Abacate que toca no Pas à pas são [nossos] amigos desde 2012, a primeira turnê que fizemos em Minas. Temos uma admiração muito grande pelo trabalho deles juntos e separados também. O irmão de Dudu e Ramon Braga até gravou uma música nossa no primeiro disco dele, Reconciliação. Mas também tem participações de músicos daqui: o Médéric Bourgue no cello é um dos raros músicos daqui que conhece bem a música brasileira e a suas síncopas tão particulares. Ele também toca bateria, mas tem um som lindo no cello. A Cléa Thomasset é uma amiga de longa data que tem uma relação muito forte com o Brasil, dedica a sua música ao chorinho. Ela faz parte da boemia de Paris, do que falamos em Naquele bar [faixa de Pas à pás]. O Marco Ruviaro é amigo dela, chorão de primeira, compositor, bandolinista e toca até clarinete muito bem! No total, levou um ano de produção para finalizar o disco, gravando no Rio, Belo Horizonte, São Paulo, mas também Paris, Bretanha. Pode parecer muito, mas é o tempo que precisamos para amadurecer cada música. Deveria dizer cada compasso de cada música [risos]. E também a vantagem de não ter gravadora. Como independente, podemos ter o tempo que precisamos. Basta ficar focadas. Vou acrescentar aqui que, como trabalhei com produtora de cinema na minha primeira experiência profissional, sei mexer nessa burocracia chata. Não é a minha praia como vocês falam, mas tem que fazer para poder viabilizar os nossos sonhos…

Pas à pas é um disco bilíngue. Mesmo quando cantando em francês, as músicas compostas por vocês, é um disco que soa brasileiríssimo. Quais os principais canais de fruição de música brasileira para vocês? Discos chegam ao mercado, vocês importam, baixam, ou um pouco de tudo isso?
Verioca – Comecei a me interessar por música brasileira nos anos 1980. Nesta época não tinha internet! Então eu sempre procurava discos de vinil. Tenho mais de 600 LPs de música brasileira e mais de 500 CDs, viajava no Brasil quando eu podia para caçar as pérolas que podia achar. Também assistia, sempre que possível, os brasileiros que tocavam na França, como por exemplo Les étoiles, com [os cantores] Rolando Faria e Luiz Antônio, ou Tânia Maria, que vem de São Luís do Maranhão, ou [a cantora e violinista] Mônica Passos. Nas minhas viagens, procurava partituras e voltava na França para estudar.

Aurélie – Hoje é mais fácil. Facebook é uma ferramenta que pode ser muito ruim, mas que é, sem dúvida, uma fonte incrível para descobrir novos talentos. Essa semana descobri o grupo vocal Ordinarius [formado pelos cantores André Miranda, Augusto Ordine, Letícia Carvalho, Luiza Sales, Maíra Martins e Marcelo Saboya] e me encantei! Mas cada vez que viajamos, a nossa mala volta cheia de discos novos. Pois o que é incrível no Brasil é que, apesar das dificuldades que têm os músicos bons para ter visibilidade na grande mídia, tem sempre novos compositores, intérpretes, talentos que surgem.

Vocês falaram na paixão inicial pela obra de Villa-Lobos. São Luís do Maranhão, de onde escrevo, é a terra de Turíbio Santos, um dos maiores divulgadores da obra de Villa mundo afora, já tendo morado na França, gravado diversos discos aí e vencido alguns concursos de violão. Vocês conhecem seu trabalho?
Verioca – Eu conheço Turíbio Santos, sim! O [violonista] Roland Dyens foi o meu professor e com certeza, quem estuda violão clássico conhece Turíbio Santos.

Aurélie – Não conhecia, mas gostei muito.

Foi a música brasileira que levou-as a aprender português?
Aurélie – Sim, foi por causa, ou seja, graças a música que a gente começou a estudar a língua portuguesa. Antes de me interessar nessa música, nunca tinha achado letras tão poéticas, tão ricas e com uma poesia do dia a dia que ajuda a viver.

Verioca – Eu também aprendi o português viajando para o Brasil e através das letras, mas também dos gibis do Zé Carioca. Por esse motivo o meu português é mais coloquial.

Sua nova turnê brasileira deve ser focada no Pas à pas, mas passar também pelo primeiro disco e outras afetividades, digamos assim. O que o público brasileiro das cidades por onde vocês passarão pode esperar de Aurélie e Verioca no palco?
Aurélie – A turnê oficial de lançamento de Pas à pas foi feita ano passado. Mas para muitas pessoas, esse disco ainda é novidade! Então pretendemos continuar a divulgar esse trabalho. Porém, como sempre, costumamos viajar com muitas coisas diferentes no nosso repertório. Temos por exemplo um repertório dedicado ao choro cantado, com obras de Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Jacob do Bandolim… São letras um pouco esquecidas que gostamos de resgatar, e também algumas surpresas em francês. Também, nesta temporada, faremos no Rio um show de homenagem a bossa nova, no Vinicius Bar, em Ipanema. Na França, apresentamos esse ano um show com um escritor francês, Jean-Paul Delfino, que inclusive viajou à São Luis em novembro de 2015, e que escreveu há alguns anos um livro sobre a bossa nova. Com ele, o nosso show mistura histórias ligadas a bossa nova e músicas de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powell que têm versões em Francês. Além disso tudo, gostamos sempre de homenagear os compositores que alimentaram a nossa identidade franco-brasileira: Guinga, Eduardo Gudin, Joyce Moreno e Egberto Gismonti fazem parte desse grupo. Mas o que eu posso dizer é que, independentemente do repertório, procuramos sempre fazer um show que mistura emoções, contando histórias, anedotas que nos levam também do lado da infância, da saudade e da joie de vivre. Isso tudo para que o nosso show vire um momento de encontro autêntico com o público.

Já é possível falar em disco novo? Se sim, o que vocês estão preparando?
Aurélie – Para o próximo disco temos ideais. Mas são apenas desejos que não podemos comentar ainda. Como eu já falei para você, produzir o Pas à pas foi um processo demorado e exigente de um ano de produção, sem falar dos inúmeros meses que a gente levou para escrever e selecionar o repertório. Então acho que ele merece uma vida longa  e vamos fazer tudo para defendê-lo no palco durante mais um tempo.

Vejam o clipe de Pas à pas:

Marcos Magah e Bruno Batista lançam videoclipes

Os cantores e compositores Marcos Magah e Bruno Batista disponibilizaram esta semana seus novos videoclipes.

Rodado na Praia Grande, o primeiro, O dia em que o homem lúcido e perigo quase encontrou Henry Dave Thoureau em São Luís do Maranhão, é faixa de O inventário dos mortos (ou Zebra circular), com que Magah venceu o mais recente Prêmio Universidade FM, na categoria melhor cd de música pop.

O segundo, Nigrinha, parceria de Zeca Baleiro com Bruno Batista, é faixa de Bagaça, novo disco que este lança em 2016.

Assista os videoclipes.

EP Descostura marca estreia de Valéria Sotão

Artista disponibilizou três faixas, antecipando o álbum que gravará em 2016. Também já está no ar o videoclipe de Chocolate meio amargo, uma das faixas de Descostura

 

Este é o videoclipe de Chocolate meio amargo, uma das três faixas de Descostura, EP que Valéria Sotão acaba de disponibilizar na internet. Compositora e cantora – é ela quem prefere ser chamada nesta ordem – que acrescenta um “de voz miúda” ao se apresentar nas redes sociais.

Descostura. Capa. Reprodução
Descostura. Capa. Reprodução

Chocolate meio amargo tem direção de Emilio Andrade e atuação de Luciano Teixeira e Larissa Ferreira. Descostura, o EP, está disponível para audição no soundcloud da artista, que promete para ano que vem o álbum completo de estreia. Apesar de jovem, Valéria já deu algumas guinadas na vida.

Primeiro, abandonou o jornalismo. “Fiz jornalismo porque queria mudar o mundo, mas aprendi logo a falta de autonomia na área. Sempre quis música; mas minha família queria uma garantia, então fiz faculdade e adiei a música”, conta. Dedicou-se por algum tempo à fotografia, profissionalmente. Com Descostura alça, agora, voo musical.

“Acho que o jornalismo me trouxe uma bagagem cultural única, que posso usar na música, e a fotografia é uma arte e todas as artes são relacionadas”, afirma, costurando suas áreas de atuação.

Valéria Sotão, compositora e cantora "de voz miúda". Foto: divulgação
Valéria Sotão, compositora e cantora “de voz miúda”. Foto: divulgação

Ela compõe desde os 15 anos, mas só recentemente fez sua estreia num palco, durante o evento Lição de moda, no recém-inaugurado Shopping Passeio, no Cohatrac. “O produtor do evento me chamou sem nunca ter me ouvido, pois disse que confiava no meu bom gosto. Moda é arte, forma de expressão assim como a música”, acredita.

Descostura tem uma pegada pop, cujas influências, ela mesmo confessa, são Caetano Veloso, Rita Lee, Secos & Molhados, Placebo e David Bowie. Ela, no entanto, não renega a cultura popular – o clipe de Chocolate meio amargo tem trechos rodados num de seus principais palcos no Maranhão, a Praia Grande. “Eu adoro a cultura popular maranhense. Já vivi muitas coisas na Praia Grande, já fiz faculdade de música – que não terminei – por ali… Adoro bumba meu boi”, revela.

Raflea (nome artístico de Rafael Cunha França, integrantes de bandas como Torre de Papel e Casaloca), um exército de um homem só, tocou todos os instrumentos do disco, exceto a bateria, assinada por Carlos Silva, e o violão da faixa-título, tocado pela própria Valéria. A capa do EP é um desenho de Ksyfux (nome artístico de Agnaldo da Silva Jr.).

As três faixas são ótimo aperitivo. É esperar, em 2016, pelo início da gravação do álbum completo, que incluirá as faixas de Descostura e outras inéditas e, após isso, por shows de lançamento.

As conexões de Alê Muniz e Luciana Simões: latino-americanos de sangue, alma e música

Foto: Laila Razzo/ Divulgação
Foto: Laila Razzo/ Divulgação

 

Parceria de Alê Muniz e Luciana Simões com o poeta Celso Borges, São Luís Havana, faixa de Cine Tropical (2009), segundo disco do duo Criolina, resume bem o espírito musical do casal: a ponte cultural entre as ilhas de São Luís e Cuba, citando mestres da música popular daqui e de lá.

Os ventos caribenhos que sopram nesta direção e ajudam a explicar as origens do reggae por estas plagas foram, desde o início, uma marca do som do Criolina, sempre impregnado desta latinidade.

Luciana Simões foi vocalista de banda de reggae, com sucesso nacional; Alê Muniz gravou alguns discos, participou de festivais, compôs em parceria com diversos nomes da cena local; ambos fixaram residência por longa temporada em São Paulo e decidiram voltar ao Maranhão, num ato de resistência, para produzir a partir daqui. Com o BR-135, projeto idealizado e tocado por eles, movimentaram a cena autoral da música produzida hoje no Maranhão, ajudando a revelar novos nomes e revalorizar outros.

“Muita gente pergunta, ainda com aquela ideia de sul maravilha, como uma necessidade indispensável. Por que São Luís? Vocês voltaram por quê? Hoje em dia é bem mais fácil tocar o barco daqui do que em outros tempos. Para quem quer fazer sucesso, não há a necessidade de morar no eixo Rio-São Paulo. Conhecemos vários artistas que conseguiram visibilidade e agenda morando nas suas cidades fora do eixo, como Siba [ex-Mestre Ambrósio], Lirinha [ex-Cordel do Fogo Encantado], artistas de Belém, Recife etc. Existem circuitos de festivais e mostras se consolidando no norte/nordeste e centro-oeste. As distâncias se encurtaram e também tudo depende da sua visão de carreira: artista não é só aquele que estoura, é também aquele que faz parte da trincheira, da resistência”, explica Alê Muniz.

Ele continua: “O fato é que, apesar dos pesares, nesse momento eu prefiro viver em São Luís, mesmo com todos os problemas da cidade. Aqui criamos e desenvolvemos projetos que acreditamos interferir positivamente na construção de uma São Luís que desejamos. A cidade nos inspira. A cultura local, as melodias, os sotaques, os personagens, os ritmos que visitam a nossa cabeça enquanto convivemos com a cidade. Aqui também temos a nossa família, amigos, o que nos alimenta também. É claro que dúvidas pairam sobre a cachola, porque não é tão simples assim; e seria muito sem graça se fosse. Afinal somos uma dupla dinâmica [risos]. Gostamos de aventura. Não é a toa que o Bye Bye Brasil serviu de inspiração para nosso segundo disco, onde percorremos o Brasil profundo de forma alternativa, semelhante à Caravana Rolidei de Cacá Diegues. E explorar o Brasil a partir daqui é muito legal. Às vezes acho que a receita é não ter receita. Sal, pimenta e farinha a gosto!”

Sempre cobrados pelo terceiro disco, o sucessor de Cine Tropical – estrearam com o homônimo Criolina, em 2007 –, eles se preparam para um aperitivo: o EP Latino-americano, que lançam no próximo dia 21 (quinta-feira), às 20h, no Barulhinho Bom (Rua do Giz, 217, Praia Grande). O ingresso (R$ 20,00) dá direito a um EP. Além de pocket show da dupla, haverá discotecagem de Jorge Choairy e os presentes assistirão em primeira mão o videoclipe da faixa-título, produção da Gataria Filmes, dirigido por Tatiana Natsu, que também assina o roteiro, e Diego Carvalho Sá. O clipe foi realizado com recursos obtidos com financiamento coletivo, através de uma campanha virtual.

O crowdfunding vem se consolidando como uma ferramenta interessante de financiamento de obras artísticas, sobretudo musicais, em tempos de mudanças rápidas e radicais na indústria fonográfica e, em sentido diametralmente oposto, do engessamento e estagnação das leis de incentivo. “Achamos incrível testar novos modelos de produção. Acredito que seja uma forma nova de passar o chapéu e uma forma de mobilizar e envolver o público, que sai da posição passiva para a prática concreta de apoio à produção cultural. Nós podemos sentir o sabor de realizar algo financiado diretamente pelo nosso público. E acho que o público também deve sentir o prazer que é contribuir com o que gosta”, opina Luciana.

Indagada sobre as dores e as delícias desses modelos alternativos, a partir da diminuição do espaço das grandes gravadoras, ela também se manifesta, sem esconder suas dúvidas e preocupações. “A música foi a linguagem artística que sofreu mais impacto dos avanços da tecnologia. Passamos de vinil para cd, de cd para download, de download para streaming num piscar de olhos, e acho que muita água ainda vai rolar até os artistas conseguirem monetizar a música através de venda digital ou outro caminho que ainda não conhecemos. As mudanças foram muito bem vindas para a cena independente, mas já evoluímos para um segundo ponto; o processo de gravação não é barato, é mais acessível do que já foi, mas você tem muitas pessoas envolvidas: músicos, estúdio, designer gráfico, fábrica, fotógrafo, técnico de gravação, técnico de mixagem e masterização. E aí o que acontece? Você disponibiliza para download. A conta não fecha. Como o compositor paga as contas? Vivemos um período ainda onde o direito à propriedade intelectual está em xeque”, diz.

Latino-americano inaugura também a parceria da dupla com o cantor e compositor Bruno Batista. “Nos identificamos muito com Bruno, ele compõe muito bem. No segundo semestre do ano passado passamos cinco meses em São Paulo e morávamos no mesmo bairro. Cada dia que a gente se encontrava saía uma ideia, muito bacana. Adoramos nos encontrar e ainda vamos fazer mais coisas juntos”, elogia e promete Luciana.

O EP antecipa um CD cuja previsão de lançamento é agosto que vem. Além da faixa-título e Pra ver se ela gosta, parcerias com Bruno Batista, Latino-americano reinventa covers de Osvaldo Farrés [Quizás] e Reginaldo Rossi [Garçom]. Na bolachinha, a Alê Muniz (guitarra e voz) e Luciana Simões (voz), juntam-se Gerson da Conceição (contrabaixo), João Simas (guitarra), Isaías Alves (bateria) e Marco Stoppa (trompete).

Pergunto o que mais cabe no balaio do duo. “Cabe de tudo!”, vibra Luciana. E continua: “pra gente Maranhão é como o Caribe brasileiro, as conexões que temos com ritmos como merengue, reggae, salsa, causa uma curiosidade. Há uma série de teorias para justificar essa ligação: navios cargueiros que aportavam trazendo a música caribenha, ou as ondas de rádio do Caribe que invadiram a ilha, mas acho que o fato desses ritmos terem caído no gosto popular e até se incorporado como manifestações culturais se deve a nossa herança negra. Mas sim, aproveitamos os ritmos regionais, misturamos a ritmos cubanos, ao ska, ao rock, e ao tropicalismo: isso é bem antropofágico [risos]”.

Arte como arma: Chico César peita os reis do agronegócio

Para vocês, que emitem montes de dióxido,
Para vocês, que têm um gênio neurastênico,
Pobre tem mais é que comer com agrotóxico,
Povo tem mais é que comer, se tem transgênico.
É o que acha, é o que disse um certo dia
Miss Motosserrainha do Desmatamento.
Já o que acho é que vocês é que deviam
Diariamente só comer seu “alimento”.
Vocês se elegem e legislam, feito cínicos,
Em causa própria ou de empresa coligada:
O frigo, a múlti de transgene e agentes químicos,
Que bancam cada deputado da bancada.
Té comunista cai no lobby antiecológico
Do ruralista cujo clã é um grande clube.
Inclui até quem é racista e homofóbico.
Vocês abafam mas tá tudo no YouTube.

Trecho de Reis do agronegócio, parceria de Chico César (música) e Carlos Rennó (letra). Uma porrada de arrepiar!  Vejam e ouçam a obra-prima completa:

Vai Juliano, ser Gauche na vida

Quando Juliano Gauche lançou, com o Duo Zebedeu (os violonistas Fábio do Carmo e Julio Santos), Hoje não (2009), inteiramente dedicado à obra do também capixaba Sérgio Sampaio, impressionou-me certa dubiedade: o disco exalava o homenageado sem, no entanto, relegar Gauche à condição de mero cover (apesar da semelhança física). Havia ali respeito e devoção pela obra de Sampaio, mas uma voz personalíssima do intérprete.

Antes, ele já tinha sido vocalista da Solana. Depois Juliano Gauche, já morando em São Paulo, lançou um disco solo (2013) que levava apenas seu nome. Quase completamente autoral, o disco voltava a homenagear o ídolo em Sérgio Sampaio volta, de Tatá Aeroplano, cabeça do Cérebro Eletrônico, seu produtor.

Uma cópia de Juliano Gauche rodou muito entre lá em casa e o trânsito, sem que eu nunca tenha me arriscado a dizer nada sobre o ótimo disco. Este textinho tampouco é tentativa de fazer isso tardiamente. O original eu só consegui comprar recentemente, numa ida ao Recife. Festejei o achado, como convém a um homem de vícios antigos.

Hoje, a revista Tpm lançou o videoclipe de Cuspa, maltrate, ofenda, porrada de amor que abre Juliano Gauche, dedicada à sua esposa e produtora executiva Sil Ramalhete (que aparece no clipe). Embora a publicação tenha anunciado exclusividade, roubo-o de lá e penduro-o aqui.