Arquivo da tag: música

Melhores de 2017

Saiu hoje (17) a sempre aguardada lista de melhores do ano do Scream&Yell, um dos mais respeitados e longevos sites de cultura pop do Brasil, capitaneado pelo queridamigo Marcelo Costa. Pelo segundo ano consecutivo tive a honra de participar (a eleição do S&Y já conta 15 anos).

Contribuo em algumas categorias com meus votos sempre capengas. O resultado da votação final, com um time recorde de 126 votantes, quase nunca bate com meus pitacos, que de um modo ou de outro buscam levar em conta a questão regional, além de assumirem minhas falhas enquanto jornalista que cobre cultura (em São Luís) e, de algum modo, o fato de a ilha ser ainda distante (em relação, por exemplo, a cidades que recebem shows internacionais com maior frequência, entre outros aspectos), apesar da diluição dos conceitos de centro e periferia promovidos sobretudo pela internet – não à toa a votação é promovida por um site.

A seguir a lista com os votos nas categorias nas quais me atrevi a opinar. A quem quiser conferir os resultados de todas as categorias, lista de votantes etc., basta ir ao Scream&Yell. Para quem quiser lembrar minha lista com os melhores de 2016, aqui. Em tempo e modéstia à parte: sou o único jornalista maranhense a participar da votação.

MELHOR DISCO NACIONAL

Isca. Vol. 1. Capa. Reprodução

1. Isca – Vol. 1, Isca de polícia


2. Campos neutrais, Vitor Ramil

Tranqueiras líricas. Capa. Reprodução

3. Tranqueiras líricas, Marcelo Montenegro

Plano B. Capa. Reprodução

4. Plano B, Chico Saldanha

Rosa dos ventos. Capa. Reprodução

5. Rosa dos ventos, Claudio Lima

MELHOR SHOW NACIONAL

Foto: Zema Ribeiro

1. Baiana System, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Laila Razzo

2. Quartabê, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Zema Ribeiro

3. Eddie, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Laila Razzo

4. Karina Buhr, Festival Elas, São Luís/MA

5. Carlos Pial, Lençóis Jazz e Blues Festival – Circuito São Luís, São Luís/MA

MELHOR FILME INTERNACIONAL

1. Star Wars: os últimos Jedi, de Rian Johnson

2. Neve negra, de Martin Hodara

3. Bye bye Alemanha, de Sam Garbarski

MELHOR FILME NACIONAL

Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Cartaz. Reprodução

1. Manuel Bernardino: o Lenin da Matta, de Rose Panet

2. Laerte-se, de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva

Martírio. Cartaz. Reprodução

3. Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tita

MELHOR LIVRO

Belchior: apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução

1. Belchior – Apenas um rapaz latino-americano (Todavia), de Jotabê Medeiros

O risco do berro. Torquato, neto Morte e loucura. Capa. Reprodução

2. O risco do berro – Torquato neto Morte e loucura (ed. da autora), de Isis Rost

Anjo noturno. Capa. Reprodução

3. Anjo noturno (Companhia das Letras), de Sérgio Sant’Anna

Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus. Capa. Reprodução

4. Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus (Civilização Brasileira), de Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz

Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo. Capa. Reprodução

5. Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo (Dubolsinho), de Sebastião Nunes

MELHOR MÚSICA NACIONAL

1. Adeus (Mestre Zió), Luiz Claudio ft Zeca Baleiro

2. Paçoca (Andreia Dias/ Anelis Assumpção/ Iara Renno/ Luciano Nakata Albuquerque/ Max B.O.), Curumin ft Andrea Dias, Anelis Assumpção, Edy Trombone, Iara Rennó e Max B.O.

3. As chuteiras do Itamar (Paulo Lepetit/ Vange Milliet/ Ortinho), Isca de Polícia

4. Choro de memórias (Chico Saldanha), Chico Saldanha

5. São Luís: variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae (Celso Borges/ Michael Riley), Claudio Lima

Covers de responsa

Foto: Dovilé Babraviciuté

 

“A Nação acende Radiola de clássicos”, anuncia a Nação Zumbi já na capa de seu álbum de covers, Radiola NZ Volume 1 – o que já deixa o fã clube em polvorosa: certamente vem um volume 2 aí, mas quando?

Radiola NZ. Capa. Reprodução

É disco curto – nove faixas – mas coeso: a banda não desmonta as faixas que relê, mas tem a pegada mangue, o peso da Nação.

Gilberto Gil, que gravou com a Nação Zumbi ainda nos tempos de Chico Science, em Afrociberdelia (1996), comparece ao repertório: é dele Refazenda, faixa que abre o disco unindo os tambores dos pernambucanos aos metais dos baianos da Orquestra Rumpilezz, liderada pelo maestro Letieres Leite. É como se a banda devolvesse uma gentileza, mais de 20 anos depois.

Causou frisson o anúncio, ano passado, do encontro, no Rock’n Rio, da Nação Zumbi com Ney Matogrosso, para um show baseado no repertório do Secos & Molhados. Uns gostaram, outros não, especulou-se sobre um disco do cantor com o grupo (como aconteceu em Vagabundo, que Ney assina com Pedro Luís e A Parede). Em Radiola NZ o encontro entre Ney e a Nação é eternizado em Amor (João Ricardo/ João Apolinário), que contrasta a leveza da letra (“leve, como leve pluma, muito leve, leve pousa”) e do canto de Ney com o peso da Nação, uma de suas marcas.

O disco reverencia ainda o ídolo soul Tim Maia (Balanço) – que já comparecia ao repertório do Almaz, projeto paralelo de Seu Jorge com o guitarrista Lúcio Maia e o baterista Pupillo –, Roberto Carlos (Não há dinheiro que pague, de Renato Barros, autor de muitos hits da Jovem Guarda), The Specials (Do nothing, de Lynval Golding), o muito censurado Taiguara (Dois animais na selva suja da rua), Beatles (Tomorrow never knows, de Lennon/McCartney), Marvin Gaye (Sexual healing, de Gaye com David Ritz e Odell Brown) e David Bowie (Ashes to ashes).

O repertório é quase inteiro de clássicos, músicas muito conhecidas e por vezes muito regravadas. Não deve ter sido fácil, mas a Nação Zumbi cumpriu com coerência o desafio a que se propôs, atraindo novos públicos para a própria banda e para os autores que releem.

Talvez a camisa 10, digo, a faixa 10 pudesse trazer um Jorge Benjor, outro ídolo confesso da rapaziada. Mas para isso Jorge dü Peixe e companhia têm outro projeto paralelo, o Los Sebozos Postizos, em que integrantes da Nação Zumbi dedicam-se a reler a obra do carioca.

Baile quer manter as tradições do carnaval brasileiro

Festa idealizada por Joãozinho Ribeiro terá presença de 15 artistas, entre intérpretes e instrumentistas

Célia Maria (à esquerda) solta o vozeirão durante ensaio, observada por Joãozinho Ribeiro (de chapéu). Foto: Hugo Carafunim

 

Sobre Joãozinho Ribeiro já afirmou Zeca Baleiro: um Quixote musical. Onde houver dois ou mais cristãos interessados em boa música, ali estará João. Dois é modo de dizer, que com apenas dois nem ele mesmo faz qualquer coisa. Seu espírito agregador sempre transforma qualquer empreitada sua em um grande acontecimento.

É o caso do Baile Allah-lá-ô no Ali Babá, que ocupa o restaurante especializado em comida árabe no próximo sábado (13), a partir das 17h. Na banda, os Arlindos Carvalho (bateria) e Pipiu (contrabaixo), Marcão (guitarra), Fleming (percussão), Gonzaga (sax), Gerson (trompete) e Walber Carvalho (voz), egresso de Nonato e Seu Conjunto. O time de intérpretes que se revezará no palco tem, além do idealizador e idealista Joãozinho Ribeiro, Célia Maria, Gabriela Flor, Rosa Reis, Josias Sobrinho, Cesar Teixeira, Celso Reis e Chico Neis. Os ingressos custam apenas R$ 10,00 e podem ser adquiridos no local.

“Carnaval é a festa brasileira da liberdade, dos reencantamentos artísticos e, por que não, da PAZ? “Bandeira Branca, amor”, com “tanto rei vestido de mendigo; tanto mendigo vestido de rei”, “procurei pela cidade, não achei o meu amor”, “antes que o Carnaval nos separe… te gruda no meu fofão””, afirma Joãozinho Ribeiro, antecipando alguns clássicos carnavalescos que comparecerão ao repertório, incluindo músicas autorais.

“Será possível reunir, ajuntar, compartilhar Ari Barroso, Nássara, Lamartine Babo, Noel Rosa, Braguinha, Cristóvão Alô Brasil, Caboclinho, Zé Pivó, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro e um rol de intérpretes do mais reluzente quilate, tais como Celia Maria, Rosa Reis, Celso Reis, além de um time de músicos de prima, sob a batuta destes dois patrimônios das nossas humanidades, Arlindo Pipiu e Arlindo Carvalho? Será o Benedito? Ou a Benedita?”, indaga-se/nos, provocador.

A festa promete, valorizando as melhores tradições do carnaval brasileiro. Joãozinho Ribeiro arremata, certeiro: “plena certeza de que a jardineira não terá motivação nenhuma para ficar triste…”.

À guisa de retrospectiva

[breve comentário nO Imparcial de hoje, com os destaques na Cultura do Maranhão em 2017, a pedido da queridamiga Patrícia Cunha; minha lista de melhores do ano ainda vem, a pedido de Marcelo Costa, para o listão do Scream&Yell, baita honra]

Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Frame. Reprodução

Prefiro apontar apenas destaques, por que a cultura por si só já é tão golpeada, que nas atuais circunstâncias merece ser valorizada toda iniciativa neste campo, com ou sem patrocínio, com leis de incentivo ou às próprias custas s/a, desde que nutrida de verdade e amor. Os destaques do ano são as produções gratuitas que ocuparam logradouros públicos, como o Festival BR 135, que, na contramão da crise nacional, dobrou sua duração, o RicoChoro ComVida na Praça, o Bloco do Baleiro no carnaval, o Festival Elas, o Lençóis Jazz e Blues Festival, entre outros, realizados com recursos garantidos através das Leis de Incentivo, além da Aldeia Sesc Guajajara de Artes e a Quinta do Reggae, na Praia Grande. Entre os lançamentos musicais, os discos de Chico Saldanha (Plano B), Claudio Lima (Rosa dos Ventos) e Pão Geral – Tributo a Tribuzi, reunindo vários artistas sob produção do incansável Celso Borges, que ainda presenteou a cidade com o livro São Luís em palavras, também reunindo vários nomes. Outro livro que merece celebração é O risco do berro: Torquato neto Morte e loucura, de Isis Rost. No cinema eu não poderia deixar de destacar Manuel Bernardino: o Lenin da Matta, da cineasta Rose Panet, que traz à luz um personagem pouco conhecido e bastante atual e, sob a égide do golpe, ainda conseguiu ser exibido em algumas tevês públicas e festivais, recebendo menção honrosa em Mumbai, na Índia. No teatro, o musical João do Vale – O gênio improvável foi um fecho com chave de ouro.

Bruno Batista lança hoje (27) em São Luís videoclipe de Caixa preta

Divulgação

 

Logo mais às 20h, de graça, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), o cantor e compositor Bruno Batista lança o videoclipe de Caixa preta (classificação indicativa: 14 anos), faixa de Bagaça (2016), seu quarto disco.

Este que vos perturba terei o prazer de mediar um papo entre o artista, o diretor Arturo Saboia, a produtora Luna Gandra e o ator Raffaele Petrini, diretor do Cine Praia Grande. Após a conversa e a exibição do videoclipe, uma after party com entrada gratuita aguarda o público no Chico Discos (esquina de 13 de Maio com Afogados, Centro), em que Petrini assume seu terceiro papel: o de dj da festa.

Com patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, o videoclipe Caixa preta foi rodado em dois dias em um casarão do Centro Histórico ludovicense. É estrelado por Ana Carolina De Dea e Petrini e a equipe técnica se completa com Arturo Saboia (roteiro e direção), Luna Gandra (produção executiva/set), Elden Magrão (direção de fotografia), Cris Quaresma (direção de arte/figurino), Manoel (logger/drone) e Magaive (gaffer).

Nesta faixa de Bagaça, Bruno Batista (voz) é acompanhado por Rovilson Pascoal (violão e produção), Gustavo Ruiz (guitarra e synth), Meno del Picchia (contrabaixo), Felipe Roseno (percussões e percussões eletrônicas), Pedro Mibielli (violino), Glauco Fernandes (violino), Dhyan Toffolo (viola) e Marcus Ribeiro (violoncelo). O arranjo de cordas é de João Carlos Araújo.

Letra de Bruno Batista e música de Demetrius Lulo, Dandara e Paulo Monarco, Caixa preta é uma canção de amor com referências que vão de Caetano Veloso a Mestre Leonardo. Ouça e chegue cantando ao lançamento do videoclipe:

A nova saída de Dado Villa-Lobos

Exit. Capa. Reprodução

 

No apagar das luzes de 2017 o ex-Legião Urbana Dado Villa-Lobos lança Exit [Rockit, 2017]. O disco abre com a pegada rock de 7×1 (Dado Villa-Lobos/ Nenung/ Gabriel Muzak), letra de forte cunho político: “e é só assombração/ no reino dos parasitas/ e todo bom cidadão/ sabe fingir que acredita/ e quanto custa morrer/ nesse consórcio de azar?/ que é comprar pra manter/ tanta mentira no ar/ vagabundos com controle total/ assassinos além do bem e do mal”, termina.

A letra de Fogueira de natal (Dado Villa-Lobos/ Nenung) é apropriada para estes tempos em que o disco chega: “o natal foi fogo/ o fogo eu que comecei/ quem sabe o ano novo/ me devolva o que eu sonhei”. A sonoridade evoca Os The Darma Lóvers, de Nenung, parceiro de Dado Villa-Lobos em seis faixas – além de assinar sozinho Partida.

Dado Villa-Lobos canta (melhor que nunca) e pilota vários instrumentos (guitarra, violão, cigarbox, fender e ebow) em um disco pop cuja sonoridade dialoga com Legião Urbana, Os The Darma Lóvers, Beastie Boys – cujo rap I don’t know vira Então vem, em versão dele –, New Order – cuja Every little counts é citada em Voltando pra escola (Dado Villa-Lobos/ Nenung/ Roberto Pollo) –, Belchior – os versos “piscava o sinal vermelho/ quando peguei na sua mão”, de A saudade dos unicórnios (Dado Villa-Lobos/ Nenung/ Estevão Casé), evocam Medo de avião instantaneamente – e Serge Gainsbourg, na língua e ritmo de L’oeil du drone (Lucas Vasconcelos, com versão de Dado Villa-Lobos para o francês), cujo título é mais uma demonstração de que o artista está sintonizado com estes tempos trágicos.

A time que se completa com o percussionista Estevão Casé e o violonista e guitarrista Lucas Vasconcellos, que assinam a produção do disco, passeiam ainda por Exit, entre outros, Marcelo Callado (percussão), Bruno Di Lullo (percussão), Nina Becker (coro), Roberto Pollo (hammond, moog e melotron), Diogo Gomes (trompete), Thiago Queiroz (saxofone barítono) e Everson Nunes (trombone).

Um resumo possível de Exit é o que aponta Lucas Vasconcellos em texto no encarte do disco: “Um cavalo que avança sobre as certezas. Esse bicho sem freio é a vida vindo, irremediável encontro e desencanto. Exit é a visão crua e mágica desses tempos, onde os seres imaginários convivem com o incêndio do dia-a-dia numa harmonia contundente”, diz um trecho.

*

Veja o making of de Fogueira de natal (Dado Villa-Lobos/ Nenung):

Show da Eddie coroou o já consagrado BR 135

Foto: Zema Ribeiro

 

Com 30 anos de estrada, a Eddie é menos conhecida – mas não menos importante – que seus pares de manguebit, principalmente Nação Zumbi e mundo livre s/a. Mas os meninos de Olinda já estavam na área quando o boom se deu e seguem firmes, fortes e tendo o que dizer.

No camarim, após o show da banda ontem (2), na última noite de Festival BR 135, Fábio Trummer me contou que o grupo foi convidado a gravar o disco de estreia no mesmo período em que Chico Science o fez. “Vamos lá! A gente só vai acontecer se for em bando”, vaticinava o malungo. A Eddie, com sua sabedoria, recusou: “Chico, nós ainda não estamos preparados para isso”.

Só estreariam em disco em 1998, com o ótimo Sonic Mambo. Nação Zumbi e mundo livre s/a já tinham dois discos cada uma e o vocalista da primeira já havia falecido em um trágico acidente automobilístico no carnaval do ano anterior. A pressa é inimiga da perfeição e o segundo disco só sairia em 2002, Original Olinda Style, título que bem cabe de rótulo ao som da banda, que mistura punk, rock, maracatu, ciranda, frevo, surf music e outros carnavais. Sobre este disco, uma curiosidade: a grana dos direitos autorais pela gravação de Quando a maré encher (Fábio Trummer/ Roger Man/ Bernardo Chopinho) por Cássia Eller, em seu Acústico MTV (2001), ajudou enormemente em sua feitura. A música, aliás, foi um dos pontos altos – e não foram poucos – do show vibrante de ontem, um passeio por todas as fases destes 30 anos de carreira – quase 20, se contarmos a partir do debut discográfico.

Fábio Trummer (guitarra e voz), Alexandre Urêa (percussão e voz), Andret Oliveira (trompete, teclados e samplers), Rob Meira (contrabaixo) e Kiko Meira (bateria) botaram o público para cantar, dançar e aplaudir. De Quebrou, saiu e foi ser só (de Morte e Vida, o disco mais recente, de 2015) a Veraneio (que batiza o disco de 2011), passando por Danada (de Metropolitano, de 2006), Desequilíbrio (de Carnaval no Inferno, de 2008), Sentado na beira do rio e Pode me chamar (ambas de Original Olinda Style).

Quando um fã mais afoito gritou pedindo por O Baile Betinha, Urêa retrucou, bem humorado: “você já quer acabar o show, rapaz?”. Fazia calor, Trummer deu mais um gole na long neck e agradeceu à polícia: “pelo expediente eles já podiam ter ido embora, mas ainda estão aí para garantir a segurança de todo mundo”. A programação da noite estava atrasada e ao se despedirem, lamentou, para desespero do ótimo público presente: “ainda tínhamos umas seis ou sete músicas”. Atenderam aquele pedido e não voltaram para o bis.

Em uma rede social da banda, um comunicado postado por volta de meio dia de hoje (3) anuncia a remarcação de um show em Londrina/PR para o ano que vem, em virtude de não terem conseguido “logística em tempo hábil para sair de São Luís”. O BR 135 marcou, então, o encerramento desta turnê da Eddie – não poderia haver coroamento mais adequado para ambos. Este mês a Eddie disponibilizará outro single do disco novo, a ser lançado em 2018.

Pessoalmente, Fábio Trummer é ainda mais simpático. Em seu braço esquerdo cheio de tatuagens, mostro a ela a mosca que dá nome à banda, que compareceu ao encarte do primeiro disco. Aos 47, ele entra de férias para curtir outra estreia: esperar a chegada de seu primeiro filho.

O novo som de Brasília

Foto: BR 135/Divulgação

 

A Muntchako não entrega o ouro ao bandido de cara: a princípio o show lembra uma espécie de Buena Vista Social Cover, trocadilho infame, o que não seria pouco. No palco, o trio só evoluiu ao longo de sua apresentação, ontem (2), na última noite do Festival BR 135. Não demorou para o público estar completamente entregue, dançando, aplaudindo, erguendo os braços.

Os teclados de Samuel Mota (guitarra, banjo, programação e synths) evocam bandoneons e logo um tango argentino me vai bem melhor que uma cumbia. Com Rodrigo Barata (bateria e samplers) e Macaxeira Acioli (percussão, samplers e voz), ele assina todas as faixas do álbum de estreia do grupo [2017], um caprichado vinil com sete faixas e produção musical de Curumin, mago cujo toque de Midas é uma espécie de certificado de qualidade – o álbum está disponível para audição e download gratuito e legal no site do Muntchako. A capa é desenhada pelo paraibano Shiko e evoca o Edy Star glam de Sweet Edy [1974], com o personagem mascarado que a estampa usando um botton com a inscrição “Temer jamais”. Não à toa o disco abre com Golpe.

Não há fronteiras ou quaisquer limites para a sonoridade do trio, convergência de experiências distintas. São três cabeças, mas a lista de instrumentos usados no disco e no palco é enorme. Na apresentação de ontem, destaque para o sample da voz da funkeira carioca Deize Tigrona, trazida virtualmente à ilha em Cardume de volume, faixa de que participa no disco – sem ela a festa não estaria completa.

Brasília não é berço apenas de escândalos políticos nem estacionou no rock brazuca oitentista.

O sistema é bruto

Foto: Zema Ribeiro

 

Musical e geograficamente o Baiana System está localizado entre a pernambucana Nação Zumbi e a carioca O Rappa. Como o nome indica, Russo Passapusso e companhia vêm da Bahia.

A sonoridade do grupo é uma salada que vai de samba-reggae, axé, pagode, rock, reggae, rap, um som urbano urgente que discute questões idem – especulação imobiliária, desigualdades sociais, racismo, trabalho – embaladas em bases de contrabaixo, guitarra, percussão, programações eletrônicas e a guitarra baiana na linha de frente. As projeções, com a máscara-símbolo do Baiana System em destaque, são outro elemento à parte, compõem o cenário mas estão para além disso.

Russo Passapusso é um showman sui generis: bota o público pra dançar, erguer os braços, fazer barulho, mas sabe que está ali para abrir cabeças, diferente da polícia que, Brasil afora, o faz a base de cassetetes, como ele mesmo disse, a frisar com um exemplo engraçado, de Salvador, em que policiais chegaram para espancar populares que estavam “fazendo a roda” e caíram na gargalhada em resposta às risadas com que foram recebidos. Ufa, foi por pouco. “Salve a polícia simpática, educada”, cumprimentou.

O vocalista e compositor se divertiu: fez a maior parte do show em frente ao palco, um nível abaixo da banda, dançando com um par de cazumbas que fazia as honras da casa. “Cadê o boi?”, perguntou ao perdê-los de vista. Várias vezes foi até o gradil cumprimentar o público, exalando simpatia.

Lançado ano passado, Duas cidades, base do repertório do show de ontem (30/11), na Praça Nauro Machado, na programação do Festival BR 135, figurou em quase todas as listas de melhores discos do ano. Lucro (Descomprimindo) dialoga diretamente com Aquarius, filme de Kléber Mendonça Filho estrelado por Sônia Braga: ambos têm a especulação imobiliária como personagem central.

Eletronicamente malemolente a faixa-título retrata o abismo social entre as periferias e bairros nobres de qualquer cidade do mundo: “diz em que cidade você se encaixa?/ cidade alta, cidade baixa”, provoca, reflete, a partir da realidade soteropolitana. “Dignidade é poder trabalhar”, diz verso de Mercado, em tempos de reformas trabalhista e previdenciária sob a égide golpista. O coro de “Fora, Temer!”, estimulado por Passapusso, soou tímido.

Não houve bis. O Baiana System dá seu recado – seco, duro, preciso, direto, urgente – mas não faz charminho.

“Viver é correr riscos, poesia é risco”

O baiano Lucas Santtana se apresenta hoje (1º.), às 22h, pela primeira vez em São Luís, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), de graça, na programação do Festival BR 135.

São sete discos lançados em quase 20 anos de carreira, álbuns bastante diferentes entre si, o mais recente, Modo Avião, não dará as cartas no repertório de hoje à noite: o set list de Balada de Lucas, nome do show, foi escolhido pelos fãs, pela internet.

Multi-instrumentista, seu nome já frequentou fichas técnicas de discos de Marisa Monte, Chico Science & Nação Zumbi, Jussara Silveira e Caetano Veloso e Gilberto Gil – é dele a flauta em Baião atemporal, de Tropicália 2 [1993], faixa que homenageia seu tio Tom Zé.

A direção musical do espetáculo é de Xuxa Levy e Lucas Santtana, que não tocará nenhum instrumento para ficar livre para dançar e interagir com o público, sobe ao palco escoltado por Dudinha Lima (contrabaixo e guitarra), Jr. Deep Drumagik (batidas eletrônicas e samples), Rafa Moraes (guitarra) e Lenis Rino (percussões e octapad).

Por e-mail, Lucas Santtana conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Edu Pimenta

 

Lucas, você acaba de lançar disco novo. Em vez de optar por fazer o show de Modo Avião, você fará um show baseado em escolha popular pela internet. É mais um dado de tua enorme capacidade de se reinventar?
​Eu só quero fazer o show Modo Avião em teatros, com as pessoas sentadas. Não faz sentido fazê-lo em festivais e casas noturnas. Como meu show mais eletrônico com o Bruno e o Caetano já estava na estrada há cinco anos, senti a necessidade de criar um show novo, com novos arranjos, outra concepção. Chamei o Xuxa Levy para dirigir o show, coisa que nunca tinha feito antes. Queria sair um pouco de dentro da minha cabeça e acho que nesse sentido foi uma abertura positiva. Até porque já tenho quase 20 anos de estrada. Então para subir num palco e cantar uma música de 15 anos atrás você tem que se reinventar, sem dúvida. Se não há mais sentido e prazer em dizer aquilo, melhor não dizer.

Você tem discos completamente diferentes em sua carreira. A reinvenção constante é uma necessidade?
​Para mim sempre foi mais uma questão de tesão e de urgência. De precisar fazer um disco de dub, ou de violão ou mais eletrônico etc. Naquele momento é aquilo que tira meus pés do chão, me faz gozar, me faz sonhar acordado.​ Sinto que preciso fazer aquilo, que é urgente para mim fazer. Não sinto obrigação de que sempre seja diferente, simplesmente é assim que meu lado artístico tem se manifestado. E pago caro por essa escolha de mudar o tempo todo. Mas é isso, tenho que fazer reverberar a minha essência. Se me desconectasse dela é que pagaria um preço muito mais alto. Viver é correr riscos, poesia é risco. Ainda mais nos dias de hoje. Viver para instigar os outros.

Você é sobrinho de Tom Zé. No que este parentesco te ajudou e te atrapalhou? Qual o tamanho da responsabilidade em carregar essa informação no DNA?
​Não me atrapalhou em nada, até porque quase ninguém sabe desse parentesco [risos]. E nunca me fiz valer dele também apesar de ter muito orgulho e pertencimento. Estudando o samba [1975] é um dos cinco álbuns mais importantes da música brasileira. Há ali pela primeira vez a simbiose da canção com o ruído de maneira harmônica​. Ao mesmo tempo um disco experimental e de cancioneiro popular. O uso de samples, ou a invenção deles, já que não existia ainda máquinas de sampler. Aquilo abriu as portas para muitas coisas que vieram a seguir, veja o disco do Rincón Sapiência [Galanga livre, 2017] que usa um sampler de Tom Zé.

Nesta apresentação você não tocará nenhum instrumento, ficando livre para dançar e interagir com o público. É possível que a ideia percorra outros festivais ou outras apresentações tuas?
​No último show com o trio eu tocava vários instrumentos. Era legal, mas isso me prendia muito ali. Tava com saudade de ficar livre para olhar no olho das pessoas, chegar mais perto delas e só me preocupar em cantar, em passar o recado. No show do Modo Avião também só tenho cantado. É como me sinto agora, pode ser que alguma hora mude de novo. Mas por hora é tudo que eu quero.

Seu show tem direção musical de Xuxa Levy, que produziu recentemente discos de Emicida e As Bahias e a Cozinha Mineira, colocando você lado a lado com o que de melhor a música brasileira tem produzido atualmente. Como você se sente em meio a essa cena?
​Orgulhoso de fazer parte de uma cena tão rica e diversificada, que só reafirma e fortalece tudo que veio antes de nós.

A seu ver falta atenção por parte dos meios de comunicação, que insistem na mesmice?
​Olhe, eu acho que basicamente falta educação no Brasil. Em todas as classes sociais. Falta diálogo e, sobretudo, maturidade. Ainda somos uma sociedade bastante imatura, e muito disso é por falta de educação. Os meios de comunicação são apenas mais um reflexo disso. Muito pior do que a mesmice é a irresponsabilidade desses meios, que vêm insuflando o ódio e as polarizações dentro dessa sociedade imatura. Os meios de comunicação só têm servido para deseducar e manipular uma massa de manobra de maneira inconsequente.

Que outros nomes você destacaria na atual cena independente brasileira?
​Todos que estão tocando no Festival BR 135 esse ano e muitos outros que não vieram esse ano, mas virão nos próximos.

 

Em Streets Bloom, seu clipe mais recente, você homenageia São Paulo, a maior cidade do Brasil. Agora chega pela primeira vez a São Luís, capital com características completamente diversas daquela megalópole. Quais as tuas expectativas?
​As melhores possíveis. De conseguir fazer um show legal para as pessoas. De trocar energia e ideias com elas. Mas, sobretudo, de fazer amigos. O que sempre mudou para mim em relação às cidades que já toquei várias vezes é que quando você faz amigos, voltar àquela cidade se torna algo completamente diferente. Em certa medida é como re-visitar parentes, entende? Tenho amigos de longa data em Recife, em Belo Horizonte, em Brasília… e voltar para tocar nessas cidades é saber da alegria de revê-los. Espero que role o mesmo em São Luís.

Quando você ouve falar em Maranhão, no que você pensa, musicalmente falando?
​As Radiolas, Tambor de Crioula, a festa do Boi​, e mais recentemente do governo do Flávio Dino, que foi apontado pela FGV como o governo mais transparente do Brasil. Precisamos valorizar tudo que é público. Isso é ser patriota de verdade.