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Melhores de 2017

Saiu hoje (17) a sempre aguardada lista de melhores do ano do Scream&Yell, um dos mais respeitados e longevos sites de cultura pop do Brasil, capitaneado pelo queridamigo Marcelo Costa. Pelo segundo ano consecutivo tive a honra de participar (a eleição do S&Y já conta 15 anos).

Contribuo em algumas categorias com meus votos sempre capengas. O resultado da votação final, com um time recorde de 126 votantes, quase nunca bate com meus pitacos, que de um modo ou de outro buscam levar em conta a questão regional, além de assumirem minhas falhas enquanto jornalista que cobre cultura (em São Luís) e, de algum modo, o fato de a ilha ser ainda distante (em relação, por exemplo, a cidades que recebem shows internacionais com maior frequência, entre outros aspectos), apesar da diluição dos conceitos de centro e periferia promovidos sobretudo pela internet – não à toa a votação é promovida por um site.

A seguir a lista com os votos nas categorias nas quais me atrevi a opinar. A quem quiser conferir os resultados de todas as categorias, lista de votantes etc., basta ir ao Scream&Yell. Para quem quiser lembrar minha lista com os melhores de 2016, aqui. Em tempo e modéstia à parte: sou o único jornalista maranhense a participar da votação.

MELHOR DISCO NACIONAL

Isca. Vol. 1. Capa. Reprodução

1. Isca – Vol. 1, Isca de polícia


2. Campos neutrais, Vitor Ramil

Tranqueiras líricas. Capa. Reprodução

3. Tranqueiras líricas, Marcelo Montenegro

Plano B. Capa. Reprodução

4. Plano B, Chico Saldanha

Rosa dos ventos. Capa. Reprodução

5. Rosa dos ventos, Claudio Lima

MELHOR SHOW NACIONAL

Foto: Zema Ribeiro

1. Baiana System, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Laila Razzo

2. Quartabê, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Zema Ribeiro

3. Eddie, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Laila Razzo

4. Karina Buhr, Festival Elas, São Luís/MA

5. Carlos Pial, Lençóis Jazz e Blues Festival – Circuito São Luís, São Luís/MA

MELHOR FILME INTERNACIONAL

1. Star Wars: os últimos Jedi, de Rian Johnson

2. Neve negra, de Martin Hodara

3. Bye bye Alemanha, de Sam Garbarski

MELHOR FILME NACIONAL

Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Cartaz. Reprodução

1. Manuel Bernardino: o Lenin da Matta, de Rose Panet

2. Laerte-se, de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva

Martírio. Cartaz. Reprodução

3. Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tita

MELHOR LIVRO

Belchior: apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução

1. Belchior – Apenas um rapaz latino-americano (Todavia), de Jotabê Medeiros

O risco do berro. Torquato, neto Morte e loucura. Capa. Reprodução

2. O risco do berro – Torquato neto Morte e loucura (ed. da autora), de Isis Rost

Anjo noturno. Capa. Reprodução

3. Anjo noturno (Companhia das Letras), de Sérgio Sant’Anna

Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus. Capa. Reprodução

4. Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus (Civilização Brasileira), de Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz

Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo. Capa. Reprodução

5. Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo (Dubolsinho), de Sebastião Nunes

MELHOR MÚSICA NACIONAL

1. Adeus (Mestre Zió), Luiz Claudio ft Zeca Baleiro

2. Paçoca (Andreia Dias/ Anelis Assumpção/ Iara Renno/ Luciano Nakata Albuquerque/ Max B.O.), Curumin ft Andrea Dias, Anelis Assumpção, Edy Trombone, Iara Rennó e Max B.O.

3. As chuteiras do Itamar (Paulo Lepetit/ Vange Milliet/ Ortinho), Isca de Polícia

4. Choro de memórias (Chico Saldanha), Chico Saldanha

5. São Luís: variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae (Celso Borges/ Michael Riley), Claudio Lima

Fazendo literatura com a vida

A escritora Fabiane Pereira. Foto: Divulgação

Fabiane Pereira é jornalista e trabalha com música – entre outras coisas, já que ela pertence à geração barra, isto é, pessoas que fazem várias coisas para somar um salário digno no fim do mês: isso, barra aquilo, barra aquilo outro. Uma equilibrista, como ela diz num texto. Sua prosa é permeada por essas referências – o jornalismo e a música. É dona de um texto fluido, agradável de ler, doce feito receita de vó.

amadorA. Capa. Reprodução

amadorA [Galateia, 2017, 113 p.; capa e ilustrações de Roberta Ferro; R$ 30,00 em média] é uma coleção de textos recheados de poesia – a forma como ela escreve prosa ou poemas mesmo – flashes do cotidiano, reflexões. No texto de abertura, Três ponto cinco, que alude à idade da autora, ela se apresenta: “Moro no Rio de Janeiro. Nasci em Volta Redonda. Feminista. Tenho um irmão mais novo. Católica por formação. Budista por identificação. Espiritualizada por opção. Jornalista. Escritora. Produtora cultural. Trabalho com o que amo”, etc. temas que ela irá aprofundar ao longo de amadorA.

O termo amador designa quem em geral não é profissional naquilo que faz. Seu feminino, amadorA – e a autora fez questão de grafar o a última letra em caixa alta para deixar as coisas bem claras – “vai além do feminino de amador. “amadorA” é o adjetivo usado para indicar alguém que gosta muito de alguma coisa”, diz no texto-título. E arremata, mais à frente: “é aí que eu me encaixo: sou uma amadora da escrita. Não sou escritora profissional”. Após terminarmos a leitura de amadorA ficamos cá com nossas dúvidas.

É, de algum modo, também um livro de formação, acompanhando uma fase da vida de sua autora. Se no início ela afirma morar no Rio de Janeiro, no último texto ela anuncia: “Daqui a poucos dias me mudarei para Lisboa, Portugal”, onde, a esta altura, já deve estar cursando o Mestrado. Fabiane Pereira não se esquiva de política: “Calhou que estou indo num momento em que, pela primeira vez, desejo realmente estar longe do Brasil – já que Temer fica, saio eu”. Muitos certamente gostariam de poder fazer o mesmo, embora ela lamente, por exemplo, seu desligamento do programa Faro MPB, na MPB FM, um de seus maiores orgulhos como jornalista e cidadã, como afirma no mesmo texto.

amadorA é um livro sobre amizade, cidade, amor, família, sexo, jornalismo, trabalho, geração, empatia, maternidade, tecnologia, afeto(a). “Pouco importa o que uma pessoa faz DA vida. O que me interessa é o que ela faz COM a vida”, reflete em determinada altura. Que Fabiane Pereira continue fazendo com sua vida esta ótima literatura.

O comovente e fundamental Stanislaw Ponte Preta

Autoria desconhecida

 

“O forte de Stanislaw Ponte Preta era justamente extrair humorismo dos fatos, das notícias da imprensa. Leitores enviavam-lhe recortes de jornais, colaborando mais ou menos com a metade das histórias contadas no Festival de besteiras que assola o país. Pouco antes de morrer ele lançava um jornalzinho humorístico, chamado A Carapuça: era ele mais uma vez à procura de piadas concretas” (Paulo Mendes Campos).

Domingo passado, almoçando em casa de amigos, lembrei-me de quando aos 11 ou 12 anos de idade, num livro de gramática, li uma crônica em que Stanislaw Ponte Preta – ou Sérgio Porto: “O nome todo era Sérgio Marcos Rangel Porto” (Paulo Mendes Campos) – contava a história de um cidadão que, aficionado por livros, batizava todos os filhos com nomes relativos à sua mania, sendo pai de Prefácio, Tomo, Capítulo e assim sucessivamente, até que a esposa faz uma promessa: se viesse uma menina, batizaria de Maria. A menina vem e só ao ir registrá-la o pai descobre a promessa: para não contrariar a mulher nem a Nossa Senhora, batiza-lhe Errata Maria. Isto resumidamente, que lendo o próprio Stanislaw tem muito mais graça.

O fato é que passei anos até me reencontrar com este texto, em O homem ao lado (graças a Deus, as obras de Stanislaw e Paulo Mendes Campos, dois de meus favoritos, têm sido reeditadas sucessivamente – até por que o Febeapá continua atual, municiado cotidianamente por nossa imprensa e classe política).

Eu ainda nem conhecia a expressão comovido como o diabo, que já nem sei se dele ou de Paulo Mendes Campos, mas apaixonei-me imediatamente por Stanislaw Ponte Preta. Aos 11 ou 12 anos. Não sabia se achava mais engraçada a história do homem que batizava os filhos com nomes relacionados a livros ou o próprio nome do autor. Em minha cabeça de criança pairava a curiosidade: por que alguém escolhe um nome artístico mais complicado que o de batismo? Até hoje as prosas de Stanislaw Ponte Preta e Paulo Mendes Campos me deixam comovido como o diabo.

“Uma vez Vinicius de Moraes chegou depois de longa temporada diplomática nos Estados Unidos. Havia batido um longo papo com Louis Armstrong. No bar Michel, nas primeiras horas da noite, ainda portanto com pouco combustível na cuca, a ilustre orquestra não demorou a formar-se. Instrumentos invisíveis foram sendo distribuídos entre Sérgio, Vinicius, Fernando Sabino, José Sanz, Lúcio Rangel, Sílvio Túlio Cardoso. Eram o saxofone, o piano, o contrabaixo, o trompete, o trombone, a bateria.

“Não me deram nada e tive que ficar de espectador. Mas valeu a pena. A orquestra tocou por mais de duas horas, alheada das mulheres bonitas que entravam e até esquecida de renovar os copos. A certa altura Sérgio pediu a Vinicius que trocassem de instrumentos, ele queria o piano, ficasse o poeta com o saxofone. Feito. Só que os dois, compenetrados e desligados, trocaram de lugar efetivamente, como se diante da cadeira de Vinicius estivessem de fato as teclas de um piano. Foi a jam session mais surrealista da história do jazz.

“O humorista começou a surgir no Comício, um semanário boêmio e descontraído, onde também apareceram as primeiras crônicas de Antônio Maria. Mas foi no Diário Carioca, também boêmio e impagável, que nasceu Stanislaw Ponte Preta, que tem raízes no Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, e em sugestões de Lúcio Rangel e do pintor Santa Rosa. Convidado por Haroldo Barbosa, precisando melhorar o orçamento, Sérgio foi fazer graça no rádio, depois de passar um mês a aprender na cozinha dos programas humorísticos da rádio Mayrink Veiga” (Paulo Mendes Campos).

Não há outro adjetivo possível para Stanislaw Ponte Preta: gênio. Você mesmo já deve ter usado a expressão mais perdido que cego em tiroteio achando tratar-se de um dito popular: é invenção dele, que “fez rádio, cinema, televisão, teatro, show de boate” (Sérgio Augusto) e era “uma usina de expressões, gírias, neologismos, ditados e definições impagáveis – cocoroca, teatro rebolado etc. – que muitas vezes pareciam saídas da boca de um malandro” (Sérgio Augusto).

Por falar em invenção: “Fernando Pessoa inventou três heterônimos, Millôr escondeu-se atrás de quatro ou cinco pseudônimos, Sérgio contentou-se com um alter ego apenas, o suficiente para torná-lo o mais lido e citado gozador da imprensa brasileira nos anos 1950 e 1960 do século passado” (Sérgio Augusto). Além de ser nome fundamental para afirmarmos, ainda hoje, que o Brasil é o país da crônica.

Não bastasse tudo isso, foi Sérgio Porto quem – funcionário do Banco do Brasil por 22 anos, até decidir trocar o emprego dos sonhos definitivamente pelo jornalismo, que já praticava paralelamente ao ofício de bancário – descobriu Cartola lavando carros em um estacionamento. Levou o sambista ao produtor Pelão e este lançou, pela Discos Marcus Pereira, o elepê de estreia do autor de As rosas não falam. O resto é história.

“De que morreu Sérgio Porto? Todos os seus amigos dizem a mesma coisa: do coração e do trabalho” (Paulo Mendes Campos). Falecido em 1968, aos 45 do primeiro tempo, ele completaria hoje (11) 94 anos.

À guisa de retrospectiva

[breve comentário nO Imparcial de hoje, com os destaques na Cultura do Maranhão em 2017, a pedido da queridamiga Patrícia Cunha; minha lista de melhores do ano ainda vem, a pedido de Marcelo Costa, para o listão do Scream&Yell, baita honra]

Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Frame. Reprodução

Prefiro apontar apenas destaques, por que a cultura por si só já é tão golpeada, que nas atuais circunstâncias merece ser valorizada toda iniciativa neste campo, com ou sem patrocínio, com leis de incentivo ou às próprias custas s/a, desde que nutrida de verdade e amor. Os destaques do ano são as produções gratuitas que ocuparam logradouros públicos, como o Festival BR 135, que, na contramão da crise nacional, dobrou sua duração, o RicoChoro ComVida na Praça, o Bloco do Baleiro no carnaval, o Festival Elas, o Lençóis Jazz e Blues Festival, entre outros, realizados com recursos garantidos através das Leis de Incentivo, além da Aldeia Sesc Guajajara de Artes e a Quinta do Reggae, na Praia Grande. Entre os lançamentos musicais, os discos de Chico Saldanha (Plano B), Claudio Lima (Rosa dos Ventos) e Pão Geral – Tributo a Tribuzi, reunindo vários artistas sob produção do incansável Celso Borges, que ainda presenteou a cidade com o livro São Luís em palavras, também reunindo vários nomes. Outro livro que merece celebração é O risco do berro: Torquato neto Morte e loucura, de Isis Rost. No cinema eu não poderia deixar de destacar Manuel Bernardino: o Lenin da Matta, da cineasta Rose Panet, que traz à luz um personagem pouco conhecido e bastante atual e, sob a égide do golpe, ainda conseguiu ser exibido em algumas tevês públicas e festivais, recebendo menção honrosa em Mumbai, na Índia. No teatro, o musical João do Vale – O gênio improvável foi um fecho com chave de ouro.

São Luís em palavras hoje (17) na FeliS

São Luís em palavras. Capa. Reprodução

 

Em suas 11 edições, já participei da Feira do Livro de São Luís (FeliS) em várias condições: comprador compulsivo de livros, repórter, compondo mesas de debates, ou como integrante de sua equipe de curadoria.

Hoje, pela primeira vez, participo como autor: integro o time de 33 vozes de São Luís em palavras [Aquarela Brasileira, 2017, 195 p.], organizado por Celso Borges e Wagner Merije, que será lançado hoje (17), às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande).

Baita honra dividir o volume com, entre outros/as, Andréa Oliveira, Bruna Castelo Branco, Celso Borges, Eduardo Júlio, Ed Wilson Araújo, Félix Alberto Lima, Fernando Abreu, José Reinaldo Martins, Lissandra Leite, Marilda Mascarenhas, Otávio Rodrigues, Talita Guimarães e Wilson Marques, para citar apenas os/as colegas de profissão.

Compareço às páginas com Contradições ilhéus, que é uma versão atualizada deste texto que publiquei em 2008 na bilíngue-francesa Brazuca, a convite do jornalistamigo Daniel Cariello, que conheci nos tempos do Overmundo.

Apareçam!

A segunda obra-prima de Ricardo Piglia

POR JORGE CARRIÓN
TRADUÇÃO: ZEMA RIBEIRO

Ricardo Piglia quando recebeu o Prêmio Internacional de Novela “Rómulo Gallegos” 2011, em Caracas. Foto: Leo Ramirez/ Agência France-Press. Getty Images

Em 28 de janeiro de 1969, Rodolfo Walsh escreveu em seu diário: “Fantasio que a novela é o último avatar de minha personalidade burguesa, ao mesmo tempo que o próprio gênero é a última forma de relato burguês, em transição para outra etapa em que o documental recupera sua primazia. Mas nem estou seguro disso, que pode ser uma desculpa para meu momentâneo fracasso”.

O autor de Operação massacre – que pode ser considerada a primeira grande novela de não-ficção do século XX – não era capaz de assumir que a novela podia prescindir de ficção. Um dos grandes cronistas do século XX identificava a grande literatura com a ficção e não com a crônica, quer dizer, com aquilo que desejava escrever e não com aquilo que realmente escrevia. Sabemos por seu diário, outra forma supostamente menor de literatura. Outra forma também de não-ficção.

Quando Ricardo Piglia publica Uma proposta para o próximo milênio em 2011, um texto que depois reescreverá e que, por sua importância, integrará sua Antologia pessoal (2014), decide partir de Walsh e suas convicções documentais, para responder à pergunta: “como narrar o horror?”.

Detecta no prólogo à terceira edição de Operação massacre um movimento crucial. Walsh representa a si mesmo num bar de La Plata, “em que sempre vai falar de literatura e jogar xadrez e numa noite de 1956 se ouve um tiroteio”. Walsh sai e se refugia em casa mas escreve: “mas nem esqueço que, cego para os cegos, ouvi morrer um conscrito na rua e esse homem não disse “viva a pátria!” mas disse: não me deixem só, filhos da puta”.

Quer dizer, muda o foco da câmera, cede à palavra. Poe o outro no lugar de enunciação que um havia tido um momento antes. Então Piglia diz algo memorável: “a verdade tem a estrutura de uma ficção onde outro fala. É preciso fazer na linguagem um lugar para que o outro possa falar”.

A chave da ficção futura, portanto, se encontra numa novela de ficção. É estranho, porque Piglia não escrevia literatura documental. Não escrevia livros de história, embora fosse um potencial historiador. Não escrevia crônica. Ou escrevia?

Recordemos como começa sua primeira obra maior, Respiração artificial. O narrador, Emilio Renzi, havia publicado sua obra-prima, uma novela intitulada precisamente A prolixidade do real, construída a partir de várias versões de histórias familiares (uma novela que afortunadamente nunca leremos: parece que seu estilo lembra a Faulkner traduzido por Borges, “a uma versão mais ou menos paródica de Onetti”; imediatamente esgotada nas livrarias de Corrientes) e, de repente, recebe uma carta de um de seus protagonistas, seu tio Marcelo Maggi.

Escrevem-se. Vive separado, num povoado distante. “Ensino história argentina no Colégio Nacional e à noite vou jogar xadrez no Clube Social. Há um polaco que é um ás; costumava jogar com o príncipe Alekhine e com James Joyce em Zurique”, essa versão livre de Gombrowicz, chamado Tardewski, tem um sonho benjaminiano (“escrever um livro inteiramente feito de citações”), escreve artigos sobre xadrez num diário local e escreve um “caderno onde registra suas ideias”. Tudo isso se conta na carta inicial. A forma inicial. A resposta. Começa a novela.

A novela começa, portanto, com um deslocamento de gênero. Da ficção familiar à literatura epistolar. Mas, imediatamente, diz Renzi: “não tem sentido que reproduza todas essas cartas”. Há, portanto, um processo de edição. A novela é uma arquitetura de vozes deslocadas (Maggi, Tardewski, Enrique Ossorio, Hitler, Kafka, Arocena), a partir de um deslocamento inicial e prévio: de Ricardo Piglia a Emilio Renzi (já presente em seu primeiro livro de contos, A invasão).

Até 2015, consciente de que dois de seus grandes mestres são Godard e Duchamp, artistas do desvio, teríamos dito, no entanto, que o grande deslocamento pigliano se dá entre dois outros gêneros: a novela e o ensaio. A novela é, em seu caso, sem dúvida e começando por Respiração artificial, uma grande máquina de ensaiar. É a operação que faz Duchamp com a arte contemporânea: torna-se autoconsciente, crítica de arte, teoria artística; ou Godard com o cinema, primeiro [filmes] narrativos, cada vez mais ensaios filmados.

Mas nos anos 1950, 60 e 70, a novela – se me permitem a tola generalização –, condicionada pela política, havia dirigido o uso do ensaio para a defesa de uma tese. Quando se publica Respiração artificial em 1980, em plena ditadura argentina, se podia ler na contracapa: “tempos sombrios em que os homens parecem necessitar um ar artificial para poder sobreviver”. A alusão era clara mas indireta. A novela poderia ser lida em chave política. Mas também em chave estritamente literária.

Com esse desvio ou giro, com esse deslocamento, da novela familiar (burguesa) inexistente ou a novela política (da geração anterior) a uma novela que primeiro se detém especialmente na epistolaridade e depois na conversação poderia se dizer que Piglia prefigura (pré-formata) uma estratégia que será muito comum na literatura da virada do século XX para o XXI.

Com efeito, em Os emigrados (1992), de W. G. Sebald, em Os detetives selvagens (1998), de Roberto Bolaño, em A novela luminosa (2005), de Mario Levrero, em A morte me dá (2007), de Cristina Rivera Garza, ou em Verão (2009), de J. M. Coetzee, os autores recorrem à manipulação de materiais de extração não-literária, muitas vezes privada, como o diário ou a carta, quando não de natureza acadêmica (a tese) ou jornalística (a entrevista), para articular e dar forma às partes mais decisivas das estruturas de seus textos.

Se trata de materiais “ignóbeis” que dificilmente encontraríamos nos autores da geração anterior ou, ao menos em suas novelas canônicas (à exceção, talvez, de O jogo da amarelinha).

Até 2015, repito, acreditávamos que os grandes deslocamentos piglianos eram o seminal (de Ricardo Piglia a Emilio Renzi) e o de gênero (da novela ao ensaio, crítica e ficção); mesmo que soubéssemos que existiam os diários e inclusive que os tivéssemos lido (como em Formas breves) algum fragmento deles. Mas então foi publicado o primeiro volume de Os diários de Emilio Renzi: “Anos de formação” [será publicado agora no Brasil pela editora Todavia, conforme informou em sua conta no twitter o escritor e tradutor Joca Reiners Terron]; e em 2016 o segundo tomo, “Os anos felizes”; e agora “Um dia na vida”; e graças a essa obra-prima em três partes entendemos que abaixo de todas as suas novelas e todos os seus ensaios estava, decisiva, uma grande forma, um grande gênero, de não-ficção cotidiana.

Capa da edição em espanhol do terceiro volume dos diários de Emilio Renzi. Reprodução

Que Os diários de Emilio Renzi podem ser lidos como uma grande novela, como um grande ensaio e como um extraordinário diário nos permitiria afirmar que Piglia realiza neste grande livro uma autêntica triangulação literária. Mas dos 327 cadernos de Piglia só lemos uma parte.

No segundo tomo, por exemplo, faltam as viagens a Cuba e a China; e no terceiro são eliminadas, entre tantas viagens, as que fez a Venezuela (por ocasião, por exemplo, do prêmio Rómulo Gallegos) ou a Barcelona (surpreendentemente não se mencionam nem a Jorge Herralde nem a editora Anagrama).

Como as cartas de Respiração artificial, os diários estão editados. Com que critério? Com o de centrar-se naqueles espaços e tempos que já conhecíamos através da ficção. La Plata, Buenos Aires, os cenários e as histórias dos “contos morais” ou de Respiração artificial, A cidade ausente ou Dinheiro queimado. A publicação dos diários intervém nessa série de textos: gera um grande sentido a 50 anos de obra publicada. Um sentido que se pode estabelecer a partir da famosa teoria de Tese sobre o conto: com efeito, toda a obra de Piglia contava, simultaneamente, duas histórias. Na superfície, a novela e o ensaio desenvolviam um discurso sobre os modos de ler e escrever literatura; no subsolo, o diário consignava os modos de ler e escrever a vida.

Piglia disse em sua mais famosa forma breve que sempre há um momento de interseção ou de cruzamento entre a história 1 e a história 2. São os livros e os autores que aparecem tanto na superfície como no subsolo. E que todo conto conduz a alguma forma de epifania, de “iluminação profana”. Eu senti isso no momento em que entendi,             depois de ler seus diários, que tudo aquilo que durante 50 anos nos havia parecido material lido, metaliteratura e metaficção havia sido, na realidade, sofrido, palpado, vivido.

Os diários desenham, de fato, a um sujeito que sofre a depressão e a tentação do suicídio, que abusa das drogas e pratica a poligamia, que odeia a figura do intelectual, esse traje ou essa máscara que não obstante é impossível não lhe por: finalmente, o diário, em que pese sua fidelidade aos fatos, é uma construção hipersubjetiva, bastante ficcional.

O que me admira – e ao mesmo tempo me assusta – é que é muito provável que tudo isto que digo já foi pensado (e mais: planejado) por Piglia. Ele era consciente do efeito que provocaria a edição de seus diários. Ele preparou todo este grande momento. Em muitos de seus textos poderia encontrar evidências de que minha leitura é, sobretudo, sua. Por exemplo, em O escritor como leitor fala dos diários de Gombrowicz e os define como seu “grande laboratório”: “o diário é isso, uma sorte de experimentação contínua com a experiência, com a forma, com a escrita”. Piglia vai mais longe e diz que talvez seja “sua obra maior”.

De algum modo, ler e interpretar Piglia – como ler Borges – é plagiar Piglia como leitor. Desde que li, assombrado, Formas breves e Respiração artificial há exatamente 15 anos, são inúmeras as vezes em que citei-o consciente e inconscientemente, revelando a fonte e roubando suas ideias e assumindo-as como minhas.

Por sorte, isto também ele pensou e formulou: “na literatura os roubos são como as lembranças”, escreveu em A ex-tradição: “nunca inteiramente deliberados, nunca demasiado inocentes. As relações de propriedade estão excluídas da linguagem: poder usar todas as palavras como se fossem nossas”.

A sessão de Antologia pessoal em que se encontram Uma proposta para o próximo milênio, O escritor como leitor e A ex-tradição se intitula, não podia ser diferente, O laboratório do escritor.

[publicado originalmente na versão em espanhol do New York Times]

Fracasso como ficção

Anjo noturno. Capa. Reprodução

 

O conto fracassado, que encerra Anjo noturno: narrativas [Companhia das Letras, 2017, 176 p.; R$ 39,90; leia um trecho], novo livro de Sérgio Sant’Anna, é um exercício de três m: metalinguagem, maestria e modéstia. O carioca, um dos três maiores contistas brasileiros em atividade, perpassa elementos presentes em sua obra para escrever um conto acerca da dificuldade – ou mesmo incapacidade – em escrever um conto (daí o título da narrativa), cujo resultado é uma história justamente sobre isso, mas caminhando pela calçada oposta à da falta de assunto, tema de tantas crônicas neste país de cronistas.

Sérgio Sant’Anna é um autor que já fez o que quis ao longo da carreira, iniciada em 1969 com O sobrevivente. E, diante do reconhecimento, pode, não de agora, continuar fazendo o que quiser. Seus leitores agradecem, tanto entre os que o acompanham desde sempre quanto entre os que conquista a cada novo livro – e ao contrário de artistas de outras áreas, o escritor tem publicado com regularidade, vide os ótimos O homem-mulher (2014) e O conto zero e outras histórias (2016).

Se na história final Sant’Anna se vale de um mergulho em sua própria obra, ao longo das narrativas de Anjo noturno ele mergulha também em sua própria biografia, mesclando elementos reais à ficção em que, não à toa, é tido, merecidamente, como um grande mestre. Caso das magistrais Talk show, em que relata de modo irônico e hilariante, entre diante das câmeras e nos bastidores, a participação de um escritor em um programa televisivo de entrevistas, e A mãe, cujo protagonista costura memórias da infância ao lembrar-se da morte da genitora e de um passado que ela sempre quis esconder.

A rua e a casa é outra narrativa em que são evocadas as memórias da infância, inclusive o período em que o autor morou com a família em Londres. Nela e em Amigos afloram citações literárias, sem pedantismo ou erudição forçada. Outra obsessão de Sant’Anna são as artes plásticas, e o casal protagonista de Augusta, que abre o livro, é tragédia bem-humorada e erótica envolvendo um pintor.

Eis o último parágrafo do livro, sem o risco de spoiler: “O conto fracassado era a escrita do declínio de um autor em crise, equilibrando-se num fio estendido sobre a vala comum, mas às vezes ele se surpreendendo a admitir, numa espécie de exaltação: apego-me a este fracasso e nele me reconheço”.

Os leitores hão de convir: estendido sobre a vala comum o autor passeia e a corda certamente nem é tão bamba assim. Poucos são os autores que conseguem esta autoridade, esta superioridade, por que não dizer? Sant’Anna mergulha na própria obra, mas em vez de se repetir, oferece aos leitores algo completamente novo. Estes certamente desejarão ao autor: continue fracassando assim.

Encontro de almas

Nossas noites. Capa. Reprodução

Último romance publicado pelo americano Kent Haruf (1943-2014), Nossas noites [Our souls at night, tradução de Sonia Moreira; Companhia das Letras, 2017, 159 p.; R$ 39,90; leia um trecho] é um pequeno manifesto em favor da liberdade e do amor, abordando temas como a solidão e a velhice com delicadeza e elegância.

Conta a saga de Addie Moore e Louis Waters, viúvos setentões que resolvem passar as noites juntos, conversando no escuro, como forma de vencer a solidão decorrente dos falecimentos de seus cônjuges e das mudanças dos filhos para longe do condado de Holt, a pacata e provinciana cidade em que vivem no Colorado.

Vivendo há décadas na mesma rua, o par de protagonistas não era exatamente o que se pode chamar de amigos, embora soubessem um bocado da vida um do outro. Não tardam boatos maldosos sobre seus encontros noturnos – apesar disso, seguem adiante com seu intento.

Esta é uma grande lição do ótimo livro de Kent Haruf: em efeito dominó, idade e experiência trazem maturidade, que traz coragem e o necessário pouco ou nada ligar para a opinião alheia quando se trata da própria felicidade. O que nada tem a ver com egoísmo.

Recheado de diálogos bem construídos, Nossas noites passa por conflitos familiares, memórias e momentos tristes e felizes, brigas e pequenos prazeres simples, como a própria vida. Em meio a tudo isso, visitas dos filhos do “casal”, o neto de Addie, camundongos e uma cadela.

As outras grandes lições são: nunca é tarde e tudo vale a pena. Refiro-me à própria vida, mas metaforicamente também a acompanhar o cotidiano dessas noites (e dias) plenos de beleza e poesia – o poeta que Louis quis ser na juventude traz referências à obra, sem arrogância ou exagero.

O Carvalho que merece culto

Filho da mesma terra que legou ao Brasil nomes como Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna e Wander Piroli, o mineiro Campos de Carvalho (1916-1998) é um dos mais delirantes autores de nossa literatura em todos os tempos.

Em boa hora – teria completado 100 anos em novembro passado – a editora Autêntica (não por acaso também de Minas Gerais) vem recolocando sua obra à disposição de leitores interessados. Alvíssaras!

A tiragem média de um livro de ficção de autores brasileiros orbita entre 2 mil e 3 mil exemplares, o que é muito pouco num país com mais de 5 mil municípios e 200 milhões de habitantes. Ou seja: em média, há menos de um leitor por cidade, isso se não considerarmos o encalhe, e sabemos que nem toda a tiragem de uma obra é vendida, ou ao menos não o é imediatamente.

Na contramão destes números e apesar das trombetas insistirem em anunciar a morte do livro de papel, nunca se publicou tanto (em papel) no Brasil. A pergunta, neste país de escritores, é: quem lê?

A obra de Campos de Carvalho é fascinante. Basta um parágrafo de A lua vem da ásia [2016, 174 p., originalmente publicado em 1956; R$ 47,00] ou Vaca de nariz sutil [2017, 94 p., originalmente publicado em 1961; R$ 44,90] para ser fisgado pelos narradores que enumeram suas peripécias num hotel (ou hospício), no primeiro, ou na guerra, no segundo.

Não à toa indagaram-lhe se era louco pelo conteúdo surrealista de seus livros, o que contribuiu para um progressivo desaparecimento e consequente esquecimento.

Esteta com domínio absoluto da linguagem – redundo? – Campos de Carvalho escreve beirando o nonsense, sem nunca perder o bom humor – o narrador de A lua vem da Ásia evoca o machadiano Simão Bacamarte – tornando cada página, antes cada frase, uma experiência memorável. Dá vontade de fotografar cada trecho e compartilhar nas redes sociais (o que muito fiz durante sua leitura).

A despeito do pequeno número de leitores, cria-se (ou rearticula-se) uma pequena confraria ao redor da obra de Campos de Carvalho. Os próximos volumes a serem lançados pela Autêntica são A chuva imóvel [1963] e O púcaro búlgaro [1964], o livro preferido do escritor. É torcer para que não torne ao ostracismo, agora póstumo, este autor tão necessário. Ainda mais num tempo em que o absurdo do noticiário é forte concorrente para a literatura de ficção.

Leia trechos:

A lua vem da Ásia. Reprodução

“O melhor lugar para se comer, quando não se tem onde comer, ainda é um bom velório – em casa de família modesta e decente.

Esta filosofia da fome levou-me ontem à noite, debaixo de chuva e tudo, a procurar pela cidade, de bairro em bairro, uma porta aberta por onde pudesse divisar algum defunto sobre uma mesa, já que todos os restaurantes me batiam com a porta na cara e os dois ou três transeuntes a quem pedi uma esmola nem sequer se dignaram a fitar-me no fundo dos olhos.

Depois de muito perambular, com o estômago às costas para pesar-me menos, acabei descobrindo um velório mais ou menos no estilo do que eu desejava, num canto de uma rua escura e sem bondes, onde as casas eram todas iguais e não traziam sequer um número para identificá-las. Se eu tivesse procurado, talvez houvesse encontrado mais adiante algo melhor e mais convidativo, mas confesso que a essa altura minhas pernas já não me aguentavam mais e tive que contentar-me com o que tinha pela frente”.

(A lua vem da Ásia, p. 126)

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Vaca de nariz sutil. Reprodução

“Minha lógica era perfeitamente lógica, e isso os desnorteava e a mim principalmente. Tinham me ensinado tanta e tanta coisa que eu me julgava um animal pensante, capaz de criar pensamentos para enfrentar esta ou qualquer vida, como um deus em miniatura, com alma imortal e tudo; de súbito fui virado pelo avesso, quem me virou não sei, o médico disse que fui eu mesmo, e as coisas mais simples se tornaram terrivelmente complexas, como viver por exemplo, ou dormir sobre o lado esquerdo, como havia feito desde sempre. Até copular, que era a minha distração predileta, tornou-se um problema sério, de quase impossível solução, e isso sem falar nas suas consequências mais remotas, que eu transferia aos fabricantes de preservativos ou de anjos, como fazia toda gente: o problema era saber como duas pessoas podiam fazer de conta que eram apenas uma, ou nenhuma, mesmo em se tratando de xifópagos, só porque se punham nuas uma sobre a outra, ou a outra sobre uma, com ou sem auxílio de vaselina. Tratava-se de um êxtase afinal de contas, e não de um êxtase metafísico ou religioso, mas de um êxtase segundo a carne, como o sonho ou o pesadelo, por isso mesmo incomunicável – e fazer dele partícipe, um estranho, era o mesmo que fazer alguém cúmplice de um nosso crime, nosso e de mais ninguém. O vício solitário passava a ser assim a virtude solitária, era-se hermafrodito por princípio e por fatalidade, o indivíduo tornava-se de fato indivíduo, nada de promiscuidade ou confusão. Foi a fase áurea do meu onanismo, bem diversa da que me impunha a trincheira ou a caserna, e cheguei mesmo a tentar uma espécie de ioga baseada estritamente na contemplação do falo e na sua, deste, autodidaxia, com implicações filosóficas do mais alto grau. Não fosse o avô ter-me descoberto um dia, qual um encantador de serpentes, com o pênis a um palmo da boca – mas isto é o fim do mundo! – é muito provável que a esta altura eu figurasse entre os dez maiores místicos do Ocidente, deste século pelo menos. O velho abriu a boca no mundo, veio um creio especialista em falos serpentinos, fui examinado dos pés à cabeça e da cabeça aos pés, houve o inefável conselho de família, decidiu-se pela minha extrema periculosidade. O Exército já sabia disso, tanto que me condecorou e me mandou para casa, mas um herói visto assim de frente e em pelo sempre impressiona muito mais: puseram-me de cama durante um mês, pés e mãos atados, com um enfermeiro encarregado de fazer-me urinar e apenas isso, como se se tratasse, o meu, de um sexo comum e irresponsável. Eu urinava, urinava, o cigarro no canto da boca, até que voltou o ferrabrás e ordenou: pode levantar-se. Eu ou o pênis?”

(Vaca de nariz sutil, p. 64-66)

Um escritor de grosso calibre

Calibre 22. Capa. Reprodução

 

Aos 92 anos de idade, Rubem Fonseca permanece um dos mais monumentais escritores brasileiros em todos os tempos, posto a que para ser alçado bastaram seus três primeiros livros de contos, Os prisioneiros (1963), A coleira do cão (1965) e Lúcia McCartney (1967).

O mineiro, radicado no Rio de Janeiro desde os oito anos de idade, fez de tudo na vida e na literatura: foi office-boy, escriturário, revisor de jornal e comissário de polícia, de onde certamente retirou muita matéria-prima para seus contos; na literatura, escreveu ainda romances, novelas, ensaios, roteiros e fez traduções, além de ter sido adaptado ao cinema e televisão.

Em Calibre 22 [Nova Fronteira, 2017, 201 p.] reaparecem elementos já consagrados de sua prosa: violência, sexo, ironia, bom humor e enciclopedismo, além do personagem Mandrake, que protagoniza o conto que intitula e encerra a coletânea, em que o consagrado detetive investiga uma série de assassinatos, na mais longa narrativa do volume.

Em Fantasmas, Fonseca tira onda com psicanalistas (depois se redime, mais ou menos, em Satiríase e impotência); em Um homem de princípios, um assassino começa a história afirmando: “Não gosto de matar barata, nem piolho, nem seres humanos. Não mato por ódio, ciúme, inveja, medo”, e termina: “Eu tenho os meus princípios, já disse. Não mato mulher, criança e anão. E sou honesto”.

O politicamente incorreto aparece aqui e ali, mas Rubem Fonseca não é seu apologista: ele apropria-se da realidade para fazer sua ficção, merecidamente uma das mais festejadas da literatura brasileira. Há contos em que o protagonista mata um homem que batia em sua esposa (Homem não pode bater em mulher) – “Ela sorriu para mim”, termina – e um homofóbico (O morcego, o mico e o velho que não era corcunda, partes I e II).

Em Outro anão, volta a tirar onda do próprio ofício, ao afirmar ironicamente, antenado com as novas tecnologias: “É mentira também o que você ouve no rádio, na televisão, lê no jornal, na revista, no zapzap, é tudo mentira”. Mas noutro conto o escritor afirma: “Sou do tempo em que as pessoas gostavam de ópera, de foder e de sanduíche de mortadela” (abrindo Ópera, foder e sanduíche de mortadela).

Rubem Fonseca domina plenamente a linguagem. Em Camisola e pijama, volta aos embates entre escritor e editor, outro tema caro à sua prosa. Em O presente de Natal uma mulher consulta-se com uma mãe de santo “formada” por Bita do Barão, em Codó, interior do Maranhão – novamente a realidade se cruza com a ficção em sua obra, em que diversos protagonistas, como ele, chamam-se “José” – personagem que intitulou o livro do autor, de 2011, mais ou menos autobiográfico –, também prenome de Mandrake, não a única autorreferência à sua vida e obra em Calibre 22.

Com três Jabuti na bagagem, dois APCA, um Casa de Las Américas, um ABL de Ficção, um Camões, um Juan Rulfo e um Machado de Assis, Rubem Fonseca não precisa(va) mais provar nada para ninguém, nem escreve para angariar outros prêmios. Mas os leitores deste escritor de grosso calibre são premiados a cada volume que nos faz chegar às mãos.