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Bruno Batista lança hoje (27) em São Luís videoclipe de Caixa preta

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Logo mais às 20h, de graça, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), o cantor e compositor Bruno Batista lança o videoclipe de Caixa preta (classificação indicativa: 14 anos), faixa de Bagaça (2016), seu quarto disco.

Este que vos perturba terei o prazer de mediar um papo entre o artista, o diretor Arturo Saboia, a produtora Luna Gandra e o ator Raffaele Petrini, diretor do Cine Praia Grande. Após a conversa e a exibição do videoclipe, uma after party com entrada gratuita aguarda o público no Chico Discos (esquina de 13 de Maio com Afogados, Centro), em que Petrini assume seu terceiro papel: o de dj da festa.

Com patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, o videoclipe Caixa preta foi rodado em dois dias em um casarão do Centro Histórico ludovicense. É estrelado por Ana Carolina De Dea e Petrini e a equipe técnica se completa com Arturo Saboia (roteiro e direção), Luna Gandra (produção executiva/set), Elden Magrão (direção de fotografia), Cris Quaresma (direção de arte/figurino), Manoel (logger/drone) e Magaive (gaffer).

Nesta faixa de Bagaça, Bruno Batista (voz) é acompanhado por Rovilson Pascoal (violão e produção), Gustavo Ruiz (guitarra e synth), Meno del Picchia (contrabaixo), Felipe Roseno (percussões e percussões eletrônicas), Pedro Mibielli (violino), Glauco Fernandes (violino), Dhyan Toffolo (viola) e Marcus Ribeiro (violoncelo). O arranjo de cordas é de João Carlos Araújo.

Letra de Bruno Batista e música de Demetrius Lulo, Dandara e Paulo Monarco, Caixa preta é uma canção de amor com referências que vão de Caetano Veloso a Mestre Leonardo. Ouça e chegue cantando ao lançamento do videoclipe:

Direitos Humanos no Brasil: um Relatório mais necessário que nunca

Relatório Direitos Humanos no Brasil 2017. Capa. Reprodução

 

Sob a égide golpista, “A organização e publicação de mais uma edição do Relatório Direitos Humanos no Brasil é, por si só, um sinal de esperança”, afirma Thomaz Ferreira Jensen, economista que trabalha com educação popular em processos de formação sindical, no prefácio da obra, a 18ª. edição da publicação da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, ampla coalizão de movimentos sociais.

Sob a epígrafe de Emicida de Casa (“Sobre as chances, é bom vê-las, às vezes se perde o telhado pra ganhar as estrelas”), que atualiza o Tom Zé de Solidão (“Na vida, quem perde o telhado/ Em troca recebe as estrelas”), ele atesta, adiante: “Os leitores do Relatório não encontrarão aqui propostas de conciliação com quem oprime. Não há meias palavras, mas o texto direto de um registro da realidade concreta dos milhões de brasileiros que são vítimas de violações dos direitos humanos”.

Diversas organizações maranhenses figuram na longa e respeitável lista das que “participaram da elaboração do relatório Direitos Humanos no Brasil desde 2000”, ano do início da publicação: Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (Assema), Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN/MA), Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente Pe. Marcos Passerini (CDMP), Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara (MABE), Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), entre outras.

Alguns recortes, ainda não li completamente o livro, que terá lançamento amanhã (5), às 18h, no Sesc Bom Retiro, São Paulo/SP, com apresentação do grupo Ilu Obá de Min, em evento aberto ao público (respeitando os limites do auditório):

“É bem verdade que substituição do termo “direitos humanos” por “direitos civis” fere a Constituição Federal de 1988 que, como apontado anteriormente, recepcionou todas as normas internacionais de direitos humanos. Mas é verdade também que desde agosto de 2016, com a aprovação no Senado Federal do afastamento da Presidenta Dilma Rousseff, o país vive em estado de exceção, com a ordem democrática suspensa por um movimento que alguns autores têm denominado por “golpe parlamentar-judicial” […]. Na atual conjuntura, o país tem assistido os poderes Legislativo e Judiciário apoiando medidas do Executivo que ferem e suprimem direitos consolidados em leis harmônicas em relação à Constituição Federal. Ou seja, tornam a constitucionalidade apenas um detalhe, e não um princípio normativo” (do artigo Direito Humano ou Direito Civil? – O impacto na educação do governo Temer, de Mariângela Graciano, da Unifesp/Guarulhos, e Sérgio Haddad, pesquisador da Ação Educativa e professor da Universidade de Caxias do Sul).

Outro: “Mais uma vez a Previdência e a seguridade social são objeto de ataque por parte do governo de plantão, visando reduzir os gastos. Argumenta o governo que a mudança demográfica – as pessoas vivem mais e há um menor número de crianças por família – terá forte impacto sobre os custos da Previdência social, o que coloca o imperativo de uma reforma. Esses argumentos são discutidos em publicações do Dieese e parceiros mostrando as fragilidades e indicando outras formas de abordar esses desafios” (de O emprego, o trabalho e os direitos sociais no Brasil – 2016 e 2017, de Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese).

E ainda: “Em 13 de julho de 2017, o presidente Michel Temer sancionou, sem vetos, uma “reforma trabalhista” considerada inaceitável por boa parte do movimento social […].

Segundo o artigo 149, quatro elementos caracterizam por si e individualmente o trabalho análogo a de escravo: as condições degradantes de trabalho, as jornadas exaustivas, a servidão por dívida e o trabalho forçado. A reforma trabalhista dificultaria o reconhecimento do crime, pois tocam e relativizam legalmente os direitos. Prevê negociações coletivas que poderiam se suplantar ao legislado, como se as leis não fossem o teto mínimo de cumprimento exigido, e pressupõe que as partes têm poderes simétricos, sindicatos que defendem os seus associados em qualquer circunstância. Vejamos, assim:

1) é possível ampliar a jornada de trabalho, por meio de negociação coletiva, para 12 horas diárias, e diminuir o intervalo de almoço. A jornada exaustiva, prevista do artigo 149, pode ser mais difícil de ser provada;

2) por acordo coletivo pode ser alterado o “enquadramento do grau de insalubridade” e prorrogar jornadas “em ambientes insalubres” em local de trabalho. Até agora, tais mudanças necessitavam de prévia licença do Ministério do Trabalho. A acusação sobre trabalho degradante pode ser prejudicada;

3) houve ampliação das possibilidades de terceirização. Pode-se terceirizar até nas atividades fins. O que dificulta localizar quem é o verdadeiro empregador;

4) com a ampliação das formas de contrato de autônomos, houve uma “ampliação da terceirização”. Permite que autônomos sejam contratados de forma exclusiva e contínua. Assim, o empregador pode privar o trabalhador dos seus direitos básicos” (em A reforma trabalhista e o trabalho escravo, de Ricardo Rezende Figueira, doutor em Sociologia e Antropologia pela UFRJ e coordenador do Grupo de Pesquisa Trabalho Escravo Contemporâneo no Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos).

Como se percebe, o Relatório perpassa diversas temáticas em Direitos Humanos e, diante do momento político conturbado por que passa o Brasil, torna-se mais necessário e urgente que nunca.

São Luís em palavras hoje (17) na FeliS

São Luís em palavras. Capa. Reprodução

 

Em suas 11 edições, já participei da Feira do Livro de São Luís (FeliS) em várias condições: comprador compulsivo de livros, repórter, compondo mesas de debates, ou como integrante de sua equipe de curadoria.

Hoje, pela primeira vez, participo como autor: integro o time de 33 vozes de São Luís em palavras [Aquarela Brasileira, 2017, 195 p.], organizado por Celso Borges e Wagner Merije, que será lançado hoje (17), às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande).

Baita honra dividir o volume com, entre outros/as, Andréa Oliveira, Bruna Castelo Branco, Celso Borges, Eduardo Júlio, Ed Wilson Araújo, Félix Alberto Lima, Fernando Abreu, José Reinaldo Martins, Lissandra Leite, Marilda Mascarenhas, Otávio Rodrigues, Talita Guimarães e Wilson Marques, para citar apenas os/as colegas de profissão.

Compareço às páginas com Contradições ilhéus, que é uma versão atualizada deste texto que publiquei em 2008 na bilíngue-francesa Brazuca, a convite do jornalistamigo Daniel Cariello, que conheci nos tempos do Overmundo.

Apareçam!

Um repertório que já nasce clássico

Foto: Francisco Colombo

 

Foi a cantora Lena Machado, quando de sua participação, quem sintetizou o sentimento de quem compareceu ontem (20) ao Anfiteatro Betto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), quando Chico Saldanha lançou Plano B, seu mais recente disco, o quarto da carreira, em um show de bolso.

“Para mim é uma honra enorme estar aqui, participar deste disco, deste show. Este aqui é o Plano B De Buriti”, afirmou juntando a faixa-título com a música que cantam juntos, num trocadilho feliz – o disco quase muda de nome durante a elaboração do projeto gráfico. “Saldanha é imprescindível, é dessas pessoas que se não existissem a gente mandava fazer de buriti”, afirmou a cantora, o feitiço a favor do feiticeiro.

Um bom público foi prestigiar o compositor. A cidade tinha diversas opções a custo zero, como seu lançamento. Muita gente conhecida se reencontrava na plateia, mas a animação geral não tirou a atenção do que realmente importava: o desfile do bom repertório de Plano B, em que Saldanha foi acompanhado por Marquinhos (bateria e percussão), Rui Mário (sanfona), Luiz Jr. (violão sete cordas e guitarra) e Marcão (contrabaixo).

Saldanha abriu com Clichês e passeou por Afeganistão, Ela só queria ser Ella, Ela se move, Remoto botequim, Choro de memórias. É impressionante, e não sei se digo isto por estar por dentro do processo (meu nome figura, baita honra, como assessor de comunicação na ficha técnica do disco), mas a impressão é a de já conhecer aquelas músicas há tempos. Como se já nascessem clássicas.

Ou no dizer de Flávio Reis: “Saldanha é um artesão. Demora, leva um tempo de um disco pra outro”, a média de intervalo é de 10 anos, “mas não faz besteira”. Eu fico realmente feliz de ouvi-lo tocar no rádio, além do Santo de Casa.

Única música do repertório de ontem que não figura em Plano B, Itamirim, daqueles clássicos que a maioria das pessoas canta sem conhecer a autoria, fechou a noite como se espera quando se toca um hino: todo mundo cantando junto.

Foto: Francisco Colombo

Beleza silenciosa para deleite e superação de preconceitos

Divulgação

 

Se uma imagem vale mais que mil palavras, como diz o ditado, quantos sinais de Libras valerão uma imagem?

Há algo de inestimável na escrita da luz das pessoas surdas que puseram seu talento e sua arte à prova nesta Impressão do silêncio, muitos/as deles/as envolvendo-se com fotografia pela primeira vez.

A proposta em si já foge do óbvio e os fotógrafos foram além, revelando detalhes que poderiam passar despercebidos a olhares menos atentos. Deus e o diabo moram nos detalhes, para quem crê num ou noutro. Ou em ambos. Ou em nenhum.

Alcântara, Raposa, São José de Ribamar e São Luís são vistas por outros ângulos. Pedra de cantaria, paralelepípedo, piçarra, asfalto, cimento e mar, entre isto e o céu infinitas possibilidades.

Gente, paisagem, religiosidade popular, patrimônio cultural, gastronomia. Tudo é inspiração e tema para o olhar atento e sui generis dos artistas aqui revelados e reunidos.

Em tempos de instagram e da instantaneidade de um narcisismo em que a exposição e o número de likes quase sempre são preocupações maiores que a qualidade da fotografia, este livro prova que fotografar é bem mais que apertar um botão.

Eternizar o efêmero, uma das traduções da arte fotográfica. O resultado poético que temos em mãos é fruto de trabalho e persistência. Temos aqui 15 novos artistas da fotografia – é mais coerente falar em artistas que em profissionais, embora eles estejam aptos para atuar no mercado – revelados pela disposição de Veruska Oliveira em ensinar o que sabe e aprender o que muitos de nós ainda precisamos: deficiência não é um limite. Ao menos não deveria ser.

Portanto, além do deleite, além de apreciarmos a beleza e a diversidade capturadas pelas lentes desta turma, sua contribuição primeira está para além do que vemos, contribuindo para a superação de preconceitos.

Este livro revela ao mundo o talento de novos fotógrafos, mas é muito mais que um belo cartão de visitas. Transpondo Leminski para a ocasião, seu poema poderia afirmar: “vai vir o dia em que tudo que eu veja seja poesia”. Eis que este dia chegou.

*

Baita honra fazer parte deste belo e necessário projeto, a convite da querida, talentosa e imprescindível Veruska Oliveira. O texto acima é um dos que escrevi pro livro, que será lançado na próxima sexta-feira, conforme o serviço da imagem abaixo.

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O melhor show de Bruno Batista (até aqui)

Bruno Batista em Bagaça. Foto: Márcio Vasconcelos
Bruno Batista em Bagaça. Foto: Márcio Vasconcelos

 

Sobre Bagaça Bruno Batista já declarou ser seu melhor disco. Ontem (10), no Mandamentos Hall (Lagoa), em show concorrido, com ingressos distribuídos gratuitamente, por conta do patrocínio da TVN via Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, o artista lançou seu quarto álbum.

Os DJs Franklin e Pedro Sobrinho prepararam o terreno – voltariam ao fim da apresentação de Bruno Batista; “quando o show termina a festa não acaba”, dizia uma das peças publicitárias do espetáculo – e a Pedeginja fez por merecer os elogios que o anfitrião lhes faria em seguida. “Essa rapaziada representa uma geração que chega e faz sem pedir licença. Há uma cena maravilhosa aqui em São Luís”, afirmou, após o show de abertura em que passearam entre o repertório de Contos cotidianos, seu disco inaugural (e até aqui único) e temas icônicos da MPB, entre os quais A menina dança (Luiz Galvão e Moraes Moreira) e Canto de Ossanha (Vinicius de Moraes e Baden Powell), com direito a citação do rapper (rótulo que há tempos já não lhe comporta) Criolo. “Fora Temer! Ocupa tudo!”, mandou o vocalista Paulão, seguido por boa parte do público.

Demorou nada para Bruno Batista estabelecer plena comunhão com a plateia e mostrar que sua evolução artística não está restrita ao disco, ao estúdio. Qualquer um que o tenha visto ontem e a seus shows anteriores – por exemplo, os de lançamento de e Eu não sei sofrer em inglês – pode perceber claramente que ele está cantando melhor ao vivo (apesar de alguns problemas técnicos na sonorização ao longo da noite), maior desenvoltura, melhor domínio de palco – “cheguei em casa”, como diz na letra de Batalhão de rosas, o palco agora é também sua morada.

Artista cosmopolita, Bruno Batista é dos raros que se apresentam por estas plagas conseguindo o feito de, mesmo concentrando-se no repertório de um disco lançado recentemente, ter o público como seu backing vocal. Abrindo o espetáculo com a faixa-título do novo trabalho, ele passeou por quase todo o repertório de Bagaça, sem deixar de lembrar canções de seus outros três trabalhos.

Casos de Nossa paz (gravada em dueto com Tulipa Ruiz em Eu não sei sofrer em inglês), Tarantino, meu amor (no mesmo disco), Hilda Regina (idem), Ela vai chegar e (do disco batizado por esta) e Acontecesse (do homônimo Bruno Batista de estreia, regravada por ele com adesão de Zeca Baleiro no segundo).

Flávia Bittencourt cantou Sobre anjos e arraias em andamento mais acelerado e Alê Muniz e Luciana Simões (o casal Criolina) dividiram com Bruno Batista Latino-americano, música do trio lançada em ep do duo; em Bagaça os três assinam Pra ver se ela gosta, que o dono da festa cantou sozinho.

Quando cobrei-lhe A ilha ao cumprimentá-lo após o espetáculo, ele me respondeu, humilde e simpaticamente que ela não funcionaria naquele clima. Senhor da situação, o artista tinha razão: ele cumpriu a promessa de um show para ninguém ficar parado.

Ao fim, chamou os convidados ao palco e, com eles, prestou homenagem ao cantor e percussionista Papete, recém-falecido: o quarteto cantou Dente de ouro (Josias Sobrinho), aproveitando a ocasião para anunciar que um tributo ao Bandeira de aço será apresentado por eles durante a temporada junina na capital maranhense. Homem de vícios antigos certamente voltará ao assunto.

O lugar (acentuadamente pop) de Bruno Batista

Bagaça. Capa. Reprodução
Bagaça. Capa. Reprodução

 

A ilha, faixa que encerra Bagaça [2016, disponível para download no site do artista], quarto disco de Bruno Batista, é uma das mais bonitas declarações de amor a São Luís jamais escritas. O artista foge de clichês ao citar lendas e o cotidiano da cidade. “As barbas de Nauro saem pra passear” e “Montserrat Caballé não entendeu quase nada” estão entre os versos que trazem nativos e turistas que um dia pisaram suas ruas de paralelepípedos.

Nenhum homem é uma ilha e somente em seu quarto disco Bruno Batista abre seu leque de parceiros: Dandara, Demetrius Lulo e Paulo Monarco em Caixa preta, Alê Muniz e Luciana Simões (o casal Criolina) em Pra ver se ela gosta, e Zeca Baleiro em Nigrinha.

Bagaça é seu trabalho mais desbragadamente pop. Nas 11 faixas do álbum é possível perceber a bagagem de influências que moldou o cantor e compositor ao longo destes 12 anos de carreira, se contarmos a partir de sua estreia no mercado fonográfico, com o homônimo Bruno Batista [2004].

Maranhense nascido em Pernambuco, com férias da infância passadas no Piauí, hoje radicado em São Paulo após temporada no Rio de Janeiro, esta geografia afetiva se traduz musicalmente em Batalhão de rosas, toada de bumba meu boi rockificada que lembra a “areia branca” tema do caroço de Tutoia de Dona Elza, de saudosa memória. A faixa batizará o terceiro disco da cantora Lena Machado, a ser lançado este ano. A romântica Caixa preta evoca o Caetano político de Podres poderes.

O tambor de crioula ganha acento pop em Pra ver se ela gosta e Nigrinha tem ares caribenhos, de “amor sincero” em “novela das nove”, em diálogo com o “cinemúsica” de Blockbuster, a sétima arte uma das paixões confessas de Bruno Batista, que em álbuns anteriores já prestou homenagens a Quentin Tarantino [Tarantino, meu amor, de Eu não sei sofrer em inglês] e Michel Gondry [em Rosa dos ventos, de ].

Cerca-se dos mais requisitados instrumentistas da chamada “nova MPB” – rótulo que, como quase todo rótulo, não dá conta da turma – alguns dos quais com quem já tinha trabalhado em discos anteriores: Rovilson Pascoal (guitarra), produtor de Bagaça, Gustavo Ruiz (guitarra), Meno del Picchia (contrabaixo), Felipe Roseno (percussão), Ricardo Prado (contrabaixo e rhodes) e Guilherme Kastrup (bateria e percussão) compõem o núcleo, em disco que conta ainda com participações especiais de Swami Jr. (violão sete cordas no bolero Você não vai me esquecer assim), André Bedurê (vocais em Você não vai me esquecer assim e Guardiã), Marcelo Jeneci (piano em Turmalina) e Felipe Cordeiro (guitarra em Nigrinha).

“O teu lugar, o teu lugar/ é o meu”, derrama-se em Turmalina, feita para sua esposa. Na faixa divide os vocais com Dandara, que compareceu em boa parte de , seu disco anterior. O lugar de Bruno Batista é nos ouvidos de fãs cativos desde a estreia – ali já havia se firmado como um dos mais talentosos artistas de sua geração – e cada vez mais outros, conquistados álbum após álbum.

Confira o videoclipe de Nigrinha (Bruno Batista e Zeca Baleiro):

Serviço

Bruno Batista lança Bagaça em show gratuito hoje (10), às 20h, no Mandamentos Hall. O espetáculo conta com abertura da Pédeginja, discotecagens de Franklin e Pedro Sobrinho e participações especiais de Criolina e Flávia Bittencourt.

A poética geografia do cangaço

Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Capa. Reprodução
Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Capa. Reprodução

 

Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou [Vento Leste, 2016, 104 p.] é um encontro único: as elegâncias das fotografias de Márcio Vasconcelos e do texto de Frederico Pernambucano de Melo, a exuberância das paisagens, a grandeza dos personagens e o imenso legado cultural deixado pelo bando liderado por Virgulino Ferreira da Silva.

O maranhense Márcio Vasconcelos embrenha-se na geografia sui generis do Nordeste para refazer os caminhos percorridos por Lampião e seus cangaceiros, da invenção do bando à execução de seu líder, em 1938, na Grota do Angico, em Poço Redondo/SE, ao lado de Maria Bonita e outros nove homens.

Apenas duas fotos não são de sua autoria, espécie de tributo ao fotógrafo Benjamim Abraão, que retratou o bando de Lampião em vida, saga contada por Paulo Caldas e Lírio Ferreira em Baile perfumado [1996], com imagens do acervo do fotógrafo sírio-libanês e trilha sonora puxada pela turma do manguebit.

A trilha por que o fotógrafo nos conduz ao longo das páginas do livro, finalista do prêmio Conrado Wessel de Fotografia 2011 e vencedor do XI Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, passa por cinco estados e entre os personagens que ele encontra estão Dona Minó (1923-) – filha de Zé Saturnino, tido como o inimigo número um de Lampião –, Elias Matos Alencar (1914-2013) – membro da volante do Tenente João Bezerra, responsável pela execução de Lampião e seu bando –, e Manuel Dantas Loiola, vulgo Candeeiro (1916-2013), cangaceiro do bando de Lampião, além de atuais habitantes dos lugares.

As paisagens remontam à rima involuntária beleza/pobreza, com vantagem para a primeira, eterna sina de grande parte do Nordeste e sua população. É particularmente comovente uma sequência de fotos em que uma mulher comum chora a morte de um jumento, abraçando-o como a um ente querido. A devoção (sobretudo a Padre Cícero, mas não só) também é elemento importante ao olhar de Márcio Vasconcelos.

O trunfo do encontro entre palavras e imagens está justamente em umas não quererem explicar as outras: enquanto o fotógrafo percorre hoje caminhos pisados por Lampião há quase um século, Frederico Pernambucano de Mello, historiador, membro da Academia Pernambucana de Letras, reivindica ao ícone do cangaço o status de artista: “pelo orgulho, pela sobranceria, pela vaidade, pelo desassombro da imagem ostensiva, pela força de formação de uma subcultura à base de derivações nada desprezíveis na música, na poesia, na dança, na culinária, no artesanato, na medicina, nos costumes, na moral, na religiosidade, na arte militar intuitiva e mesmo na arte de expressão plástica, a partir da herança pastoril, o cangaço sumaria, aos olhos do brasileiro de hoje, a franja de todas as insurgências, sua saga confundindo-se com a própria ideia de resistência contra poderosos”, anota.

Outra grandeza que merece destaque é não quererem tirar conclusões. Muito já foi dito sobre o cangaço e particularmente Lampião é fartamente biografado. “Os cangaceiros não foram heróis nem bandidos. Foram homens que disseram não à situação”, anota Vasconcelos na legenda da foto da Grota do Angico.

Veja algumas imagens do livro. Para mais acesse o site de Márcio Vasconcelos.

Casa de dona Jocosa. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
Casa de dona Jocosa. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

Um dos habitantes atuais dos lugares por onde Lampião passou há quase um século. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
Um dos habitantes atuais dos lugares por onde Lampião passou há quase um século. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

A devoção a Padre Cícero. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
A devoção a Padre Cícero. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

A grota do Angico, onde Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram executados em 1938. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
A grota do Angico, onde Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram executados em 1938. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

Serviço – Márcio Vasconcelos lança Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou hoje (27), às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073 – Piso do Teatro, SP).

Os ringues de Fernando Abreu

Manual de pintura rupestre. Capa. Reprodução
Manual de pintura rupestre. Capa. Reprodução

Feito um poeta do século passado, o jornalista Fernando Abreu, 51 anos completados no último dia 12, funcionário concursado, bate ponto em um órgão público, mas sua poesia está longe do enfado e da burocracia.

Quem o conhece sabe da raridade de suas aparições públicas. Seu tempo ocioso, e bote bastantes aspas em ocioso, gasta lendo, sobretudo poesia, e ouvindo música.

Seus poemas não se contentam com a página do livro, embora não a menosprezem. Se, num país que não lê, poesia menos ainda, é preciso ganhar alguns ouvidos, “me deixa ser guru dessa galera”, como diz uma parceria do poeta com Zeca Baleiro.

Sua fama de eremita é conhecida entre os amigos, que festejam suas raras presenças em eventos literários – com o poeta Eduardo Júlio foi curador da Feira do Livro de São Luís ano passado.

Um dia após o Dia Nacional da Poesia, Fernando Abreu, ou simplesmente Fabreu, para os mais íntimos, sai de casa amanhã (15) para lançar seu Manual de pintura rupestre [7Letras, 2015, 75 p., R$ 20,00 no lançamento].

É o quarto livro de Fabreu, ex-integrante da Akademia dos Párias, movimento poético que fez barulho na Ilha na década de 1980 e início da de 90. Manual de pintura rupestre, seu primeiro título publicado por uma grande editora, aparece depois de Aliado involuntário [Exodus, 2011], O umbigo do mudo [Clara Editora, 2003] e Relatos do escambau [Exodus, 1998]. A Exodus é uma casa inventada pelo poeta para se publicar.

Se nos dois primeiros livros seus poemas estavam mais para Leminski e Oswald de Andrade, entre a piada, a rapidez, o chiste de mesa de bar, e no penúltimo terem ganhado volume, neste quarto título Fabreu atingiu um nível de maturidade poética fruto de exercício, leitura e autocrítica.

Apesar do salto, Fabreu é um poeta pé no chão. “Quem lida com esse negócio de escrever e publicar poesia não pode alimentar muitas ilusões pra não se frustrar. Começa que não somos um país de leitores, e muito menos de poesia”, declarou ao Homem de vícios antigos, sem que sua fala soe amarga.

“No caso da 7Letras me atraiu o cuidado que eles tem com seus produtos em termos de acabamento, programação visual etc. Geralmente os livros são bem bonitos, e o meu não fugiu à regra”, continua, sem falsa modéstia.

De suas leituras cotidianas, muitas referências estão em Manual de pintura rupestre. Se os poetas são “as antenas da raça”, como nos ensinou Pound, a sintonia de Fabreu aponta em várias direções.

A começar por Terence Mckenna, filósofo e etnobotânico norte-americano que emprestou uma das epígrafes da obra – a outra é de Jorge de Lima: “o xamã é o ancestral remoto do poeta e do artista”, diz um trecho dO alimento dos deuses.

Em tempos de instantâneos no instagram e descartáveis no snapchat, o grande trunfo de um poeta é lapidar poesia onde ninguém mais a enxerga, num mundo cada vez mais embrutecido. O cotidiano é matéria-prima de Fabreu: “uma xícara de café fumegante/ o rosto de alguém que caminha/ lembrando de uma música/ amantes fugindo a pé do fim do mundo/ o cachorro paciente esperando pra atravessar/ na faixa de pedestres”, observa em Aqui agora, poema que abre este Manual de pintura rupestre.

O estado das coisas abre o leque de referências de Fabreu que percorrerá as páginas desta sua nova obra, citando Lord Byron, Glauco Mattoso e Dylan Thomas. Uns citados textualmente, outros na sutileza da sacada, ao longo do livro aparecerão ainda Carl Gustav Jung, Carlos Drummond de Andrade, Friedrich Engels (não confundir com outro Friedrich, o Hegel), Gonçalves Dias, Herbert Marcuse, João Bosco e Aldir Blanc, João Carlos Martins, Karl Marx, Noel Rosa, Roberto Bolaño, Rosa Luxemburgo, Sigmund Freud, Wilhelm Reich, William Blake, William Burroughs e William Carlos Williams.

Fabreu está sintonizado em poesia, música, política, denúncia social, crítica aos mercadores da fé televisionada, psicanálise, futebol, filosofia, erotismo. “quando não escrevendo nada/ ser mais poeta do que nunca/ todo antenas poros sentidos/ ser que se trespassa de tambores/ a palavra antes da palavra”, o Mestre sala dos ares é ótima síntese ou cartão de visitas.

Serviço – O poeta Fernando Abreu lança Manual de pintura rupestre nesta terça-feira (15), às 18h30, na Galeria Trapiche Santo Ângelo (Praia Grande, em frente ao Terminal de Integração). A noite de autógrafos terá recital com os Mamutes Elétricos: Fernando Abreu (voz e poemas), Erivaldo Gomes (percussão) e Marcos Magah (voz e guitarra).

Leia em primeira mão três poemas de Manual de pintura rupestre:

DA BOCA PRA FORA

vai com deus, papai!
no sinal que acaba de abrir,
aceito a bênção do menino
mesmo não tendo
as moedas
para o pão ou pedra
que, por segundos, iluminariam
suas entranhas ou sua mente
no vão dessa noite brasileira
em que me vejo órfão de uma dor
que sequer mereço sentir

DE UM COMERCIAL DE TV

depois de atravessar a cidade
sob os olhares agradecidos da multidão
o boneco gigante anunciando
ofertas imperdíveis
foi se postar por trás da loja principal da rede
onde
do alto de seus
mais de dez metros de altura
abençoou os fiéis

PARALELAS

qual é a diferença
entre o revolucionário
que recusa a esmola ao mendigo
para não atrasar o fim da burguesia
e o burguês piedoso
que nega a mesma moeda
ao mesmo mendigo
porquevaitudopracachaça&crack?

[pp. 31, 33, 35]