Arquivo da tag: filme

Ninguém é comum

 

O capacete de astronauta que Auggie Pullman usa em Extraordinário [Wonder, EUA, drama, 2017, 114 min.] é metáfora para aqueles dias em que queremos nos isolar do mundo. Está para além de alguém que, por qualquer deficiência (caso do protagonista) ou condição outra, se sinta rejeitado e evite o convívio com outros seres humanos – esta espécie tão cruel, como vimos no filme.

“Ninguém é comum”, diz uma personagem a certa altura. Se pararmos para pensar, eis a síntese. O filme de Stephen Chbosky nos leva a refletir sobre o quanto podemos ser cruéis e preconceituosos, às vezes involuntariamente. É um chamado à mudança de comportamento. O filme guarda momentos para rir e para chorar e isto nem de longe significa irregularidade. Pode parecer por demais “romântico” em determinadas situações? Talvez, por sua própria característica ficcional. Mas isto também não é um problema.

Auggie é um garoto que nasceu com uma deformação facial, passou por 27 cirurgias e só vai à escola na altura da quinta série do ensino fundamental, após anos estudando em casa com a mãe. O fato de não sabermos exatamente qual o problema de saúde do personagem ao longo do filme é um acerto. Trazendo da película para a vida real: isso realmente importa? Devemos, sim, estar dispostos a aceitar as pessoas como elas são.

Com leveza e delicadeza, mas sem perder a seriedade, Extraordinário discute diversas questões de nosso tempo, passando principalmente por bullying na escola, psicologia infantil e conflitos adolescentes, em uma narrativa costurada a partir dos olhares, histórias de vida e percepções sobre Auggie – cujo ponto de vista predomina – por aqueles que o rodeiam.

Baseado no livro homônimo [2012] de R. J. Palacio, Extraordinário tem ótimas atuações de Jacob Tremblay [Auggie] e Julia Roberts [sua mãe]. Há uma ponta com Sônia Braga: a aparição é ligeira, mas a brasileira nasceu mesmo para roubar a cena. Merecem destaque ainda a atuação de Mandy Patinkin, que interpreta o diretor da escola de Auggie, e as citações à franquia Star Wars.

“Entre estar certo e ser gentil escolha ser gentil”, diz um preceito de um dos professores de Auggie. Cada ser é um ser, independentemente de sua condição. Cada espectador terá sua própria reação, aprenderá uma lição ao assistir Extraordinário. Difícil será ficar indiferente a ele.

O horror recontado com bom humor

 

Bye bye Alemanha [Bye Bye Germany; Es war einmal in Deutschland…; comédia, Alemanha/Inglaterra, 2017, 102 min.; em cartaz no Cine Lume – Office Tower, Renascença] aborda tema espinhoso, o horror da segunda guerra mundial e seus campos de concentração, de maneira bastante inusitada. É um misto de drama e comédia (romântica), mas não se assuste o leitor mais apegado ao politicamente correto ou o que porventura imaginar que este não é um tema para se brincar: o filme é ao mesmo tempo ousado e delicado. Reconstituição primorosa, merecem destaque figurino e fotografia.

Conta a história de um punhado de amigos judeus cujo objetivo é um só: deixar a Alemanha, passada a segunda grande guerra. Como precisam de muito dinheiro para isso, desenvolvem uma estratégia bastante peculiar para empurrar a desconhecidos produtos de cama, mesa e banho. De porta em porta tornam-se pequenos golpistas – longe do status dos que ocupam o poder central no Brasil, hoje, outro horror – que se equilibram entre fugir do passado e qualquer senso de ética.

A graça toda desta comédia dramática reside no depoimento recheado de flashbacks prestado por David Bermann (Moritz Bleibtreu) à agente americana Sara Simon (Antje Traue), sobre serviços prestados por ele ao nazismo. Graças a seu talento como piadista, descoberto por agentes do exército alemão, ele sobreviveu aos campos de concentração onde morreram seus pais e irmãos.

Insólita, a história é baseada em fatos reais: o filme se apoia em um romance de Michel Bergmann – que assina o roteiro com o diretor Sam Garbarski – e refaz a trajetória deste inusitado personagem, que ensinará piadas a Hitler, para que este, com sua prodigiosa memória, impressione Mussolini, quando de uma visita do fascista italiano ao alemão.

Por falar em livros, eu mesmo só havia visto tanta graça em uma obra sobre tema tão difícil no autobiográfico Reminiscências do sol quadrado [José Olympio, 2014, 112 p.], em que o ator e compositor (comunista) Mário Lago narra, com bom humor suas agruras nas prisões políticas que enfrentou durante as ditaduras no Brasil. No caso de Bye bye Alemanha, a história beira o absurdo e o próprio protagonista afirma que em determinados momentos não consegue acreditar em si próprio ou no que conta – ou canta? – à agente.

Em tempos caretas e neoconservadores, o filme desperta o riso, tão necessário quanto difícil diante do triste estado de coisas atual, mas vai além de mero entretenimento ao contribuir para o debate sobre os limites da (sétima) arte quando se trata de abordar tema tão espinhoso através de sua recriação ficcional, ainda que baseada em fatos reais.

Cinema, amor, sonhos e revoluções

Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Cartaz. Reprodução

 

Enquanto mais um golpe se consuma no Brasil, a equipe da cineasta Rose Panet acabou apelidada de Liga de Defesa contra o golpe, por um de seus membros, em alusão ao grupo liderado por seu protagonista, Manuel Bernardino, no início do século passado, na região do hoje município de Dom Pedro, interior do Estado.

Um personagem inusitado, Manuel Bernardino veio do Ceará para o Maranhão em busca de oportunidades de trabalho e acabou se configurando uma destacada liderança: camponês, socialista, espírita e vegetariano.

Apesar do pouco estudo, Manuel era alfabetizado e lia o que lhe caísse às mãos. Assim tornou-se este cruzamento de referências, raro até mesmo para os dias de hoje, em que mais Bernardinos se fazem necessários.

Manuel Bernardino: o Lenin da Matta é um telefilme de 52 minutos, selecionado em edital público do Programa de Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) da Agência Nacional do Cinema (Ancine), vinculada ao Ministério da Cultura (MinC). Por uma feliz coincidência o filme foi lançado este ano, quando se comemora o centenário da Revolução Russa.

O filme mescla documentário e seu próprio making of e foi o único selecionado em sua categoria – ao todo foram premiadas 94 obras –, entre as mais de 700 obras inscritas no certame, oriundo da região Nordeste e dirigido por uma mulher. Manuel Bernardino: o Lenin da Matta está sendo exibido desde julho pela TV Universitária de Pernambuco e deve estrear em breve na TV UFMA, além de em outras emissoras públicas do Brasil.

Rose Panet é doutora em antropologia pela École Pratique des Hautes Études (Paris), em cotutela com a UFMA, professora da Faculdade de Arquitetura da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e cineasta, com mais de uma dezena de filmes no currículo, alguns institucionais, realizados quando de sua passagem pela Secretaria de Estado da Educação.

O documentário sobre o líder que arregimentou cerca de 200 homens para a Coluna Prestes quando de sua passagem pelo Maranhão, talvez seu maior contingente, foi narrado por Zeca Baleiro, tendo o roteiro sido construído sobre o depoimento que ele prestou em 1921 em uma delegacia de polícia em São Luís – jornais da capital alcunharam-lhe “o Lenin da Matta”.

Sua ficha técnica completa-se com nomes como os irmãos Santos, Murilo, diretor de fotografia, e Joaquim, autor de parte da trilha sonora original – completada por compositores russos e canadenses. A produção é da Lume Filmes e Rose Panet assina pesquisa, roteiro e direção.

Ela conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos – a entrevista já havia rendido este texto pro site do Itaú Cultural, onde assino mensalmente a coluna Emaranhado. Manuel Bernardino: o Lenin da Matta terá nova exibição pública e gratuita na próxima segunda-feira (16), às 19h, no Auditório da Faculdade de Arquitetura da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA, Rua da Estrela, 475, Praia Grande), instituição da qual ela integra o corpo docente, ministrando as disciplinas Metodologia científica, Estudos socioambientais, Cidade, indivíduo e sociedade e Antropologia urbana e coordenando grupos de pesquisa. A sessão tem apoio cultural da Secretaria de Estado da Cultura e Turismo do Maranhão (Sectur). O filme volta a ser exibido gratuitamente dia 6 de novembro, às 17h30, no Cine Praia Grande, na programação do Simpósio de Lutas Sociais, organizado pelo Grupo de Estudos de Política, Lutas Sociais e Ideologia (Gepolis) da UFMA.

A cineasta Rose Panet. Foto: Zema Ribeiro

Quais as etapas até o filme Manuel Bernardino?
Foram 94 obras aprovadas no Prodav 2014. Eu inscrevi o projeto no começo de 2015, em agosto de 2015 saiu o resultado, em fevereiro de 2016 saiu o dinheiro, aí eu intensifiquei a pesquisa, comecei a pré-produção e a filmagem foi em abril.

O que o Prodav banca? Desde a ideia, roteiro, ou só filmagem?
Ele banca a produção, não é separado. Se fosse separado seria muito pouco o valor destinado para roteiro. Ele banca o filme, você tem que fazer seu orçamento. Inclusive o orçamento é um item do edital, você coloca já a sua proposta e coloca o orçamento junto.

É uma proposta do cineasta? Não é um valor fechado, tipo, tem cem mil pra você fazer um filme, por exemplo?
Não, pra cada modalidade tinha [uma faixa de valor]. O meu era um filme isolado, então tinha um valor certo, um valor fechado, a gente tinha que fazer o filme com aquele valor.

Página do catálogo da Ancine dedicada ao filme de Rose Panet. Reprodução

Quanto era?
Foram 156 mil para um filme de 52 minutos. Foram 768 propostas, isso está no catálogo, essa informação, eles botaram que consideraram desde a criação do Prodav um recorde de inscrições. Dessas, 94 foram aprovadas. Nós temos para 2017 o lançamento de 94 obras novas. Dessas 94, muitas são animações, filmes para crianças, muitas são também séries. O meu está junto com mais 10 filmes, é um filme único de 52 minutos. O meu é o único do Nordeste nessa modalidade, de filmes de 52 minutos.

Eu queria voltar pro começo: quem é Rose Panet?
[risos] Até eu quero saber. Eu sou uma metamorfose ambulante. Não sei, eu sou alguém às vezes muito empolgada, noutras vezes muito desanimada, quase sempre muito empolgada.

É importante a balança pesar mais para este lado. Quem faz cinema é chamado de realizador. A pessoa precisa de empolgação para realizar.
Sabe, falando isso eu estou me tocando que eu acho que desde criança eu sempre fui muito empreendedora. Quando eu era criança, acho que com uns 10 anos, eu achei que na minha rua faltavam alguns itens, então eu juntei as crianças da rua, isso não precisa colocar não [risos], é só por que eu lembrei, aí eu coloquei papéis para todas as crianças.

Tinha uma liderança.
É. Então eu assumi o papel de professora, eu gostava de ensinar, de tirar dúvida de todas as crianças da rua. Eu transformei o terraço da casa de mamãe em escola, botei as cadeiras assim, pedi para mamãe comprar um quadro. Eu me dei os papéis de professora e médica, eu andava com uma caixinha com mertiolate, e eu dizia pra eles que se alguém estivesse brincando e se machucasse, tinha que me chamar, que aí eu botava curativo, passava mertiolate, era muito legal. Eu inventei espetáculos lá em casa, de fantoches. Eu acho que eu nunca tinha percebido assim esse empreendedorismo desde criança. Quando eu tinha 18, 17 anos, eu comecei a fotografar, e comecei a lutar, batalhar pelas exposições. Então, na cara de pau, eu ia conversar com empresários para conseguir dinheiro para minhas exposições de fotografia, e conseguia. Então com 20 anos em João Pessoa eu era bem conhecida, por que eu já tinha dado entrevista em jornal, nesses programinhas de tevê, já tinha sido chamada para rádio, para dar entrevista, até que com 21 anos eu me formei em Ciências Jurídicas e Sociais e saí de João Pessoa. João Pessoa ficou pequena pra mim, aí eu fui pra São Paulo. Lá em São Paulo eu passei num concurso e fiquei trabalhando junto com um juiz de direito. Passei dois anos em São Paulo, São Paulo ficou pequena pra mim. Lá em São Paulo eu continuei fotografando, mas não fiz nenhuma exposição, eu me envolvi muito com o trabalho, era cansativo, até que eu enchi o saco e larguei.

A fotografia tinha começado, talvez não profissionalmente, mas tinha uma busca tua, empreendedora, por patrocínio para tuas exposições, lá em João Pessoa. Ela volta em São Paulo a ser um hobby?
Sim, como amadorismo mesmo, não pensei em partir para outro campo profissional, acho que meio que esqueci isso. A cidade grande, os encantos de São Paulo me fizeram esquecer isso. Eu ia muito pro cinema, é praticamente a minha casa, que ficava no Paraíso, eu caminhava todos os finais de semana pela Paulista para assistir filmes nos grandes cinemas ali, no Cine Belas Artes, na época, eu passava os fins de semana assistindo cinema. Então a minha paixão por cinema, que eu já tinha, só foi aumentando em São Paulo. Mas era só a paixão de assistir, a paixão do cinéfilo. Aí São Paulo, depois de dois anos e pouco, ficou pequena pra mim, novamente, eu fui pra Paris. Eu fui pra minhas origens, eu sou francesa de pai, fui pra França, e lá comecei a estudar antropologia. Aí fiz a carreira acadêmica, fiz a especialização, depois fiz mestrado, entre um e outro vim pra São Luís para fazer a pesquisa de campo com os índios Kanela. Eu voltei pra França ainda, comecei o mestrado. Aí eu engravidei de Tamie [sua primeira filha], fui grávida pra aldeia, mas não voltei pra França. Só voltei quando Tamie tinha três anos. E nisso eu já tinha trazido uma câmera Hi8 da França, quando eu fui pra aldeia eu já cheguei depois de um tempo de familiaridade com os Kanela, comecei a filmar. Dessas imagens eu fiz dois filmes que foram para o Guarnicê [o Festival Guarnicê de Cinema] quando eu morava aqui, na época, acho que em 2000, 2001, esses meus dois filmes participaram.

Quais são os títulos?
Um é O choro da vida e o outro é O mocó de Quelé. Quelé é avô na língua dos Kanela. Quando minha filha completou três anos, durante esse tempo era praticamente ela na minha vida, eu cuidava dela.

Quando você voltou para a França foi para defender a dissertação?
Não, eu larguei. Eu comecei outro [mestrado], em outra universidade. Eu abandonei.

E foi onde?
O mestrado foi na École des Hautes Études en Sciences Sociales, eu fiz o mestrado lá e ia me inscrever no doutorado, só que aí engravidei pela segunda vez, de Luc, o caçula, passei um ano em casa com ele, curtindo, amamentando, e lendo bastante, estudando, preparando o doutorado. Aí entrei no doutorado, também na França, desta vez na École Pratique des Hautes Études, defendi o doutorado em cotutela [com a UFMA], por que em 2007 nós voltamos, eu vim em 2005 fazer outro trabalho de campo, outra pesquisa com os Kanela, desta vez eu acho que só fotografei, acho que não filmei dessa vez, fiz muitas fotos, ao todo mais de três mil fotos, fiz muitas exposições, eu abri a Casa de Nhozinho, com uma exposição minha. Lá na França eu fiz uma grande exposição, foi muita gente, foi superbacana, ficou muito bonita, tinha objetos indígenas que eu tinha levado daqui, eu coloquei na frente das fotos, eu fiz uma montagem, ficou linda, aí a gente voltou, eu tinha assinado um acordo de cotutela de tese, que me permitia defender a tese aqui. Eu me inscrevi em 2007 e em 2010 eu defendi essa tese. Na época eu trabalhava na Secretaria de Educação [do Estado], apareceu a oportunidade de produzir, fazer e dirigir filmes educativos indígenas, para as escolas indígenas, eu realizei 14 filmes indígenas, muitos com imagens minhas e outros com imagens dos cinegrafistas, eu dizia o que era para filmar, depois eu montava, com um montador.

Cemitério do povoado Centro dos Bernardinos. Cena de Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Frame. Reprodução

Esses filmes são autorais ou institucionais? Eles constam em teu currículo como direção?
Sim. Mas são mais institucionais, tipo, eu já distribuí para muitas pessoas, mas eles não estão no youtube, eu nunca exibi esses filmes em festivais, nem nada. Isso foi só um exercício voltado mais para escolas indígenas. Nunca pensei em mostrá-los, em exibi-los, a não ser em sala de aula, em alguns eventos especiais, nunca fiz exibições, nem participaram de nenhum festival. Em 2013 eu era antropóloga de inventários e referência cultural, eu fiz um inventário da Petrobras e fui chamada para fazer o inventário de Codó, por que cada vez que aparece uma grande empresa que quer se instalar num determinado local é necessário fazer um estudo de referências culturais, é uma exigência do Iphan [o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional]. Na Petrobras foi por conta da refinaria Premium, que iria se instalar aqui, eu fui chamada para coordenar o Inventário Nacional de Referências Culturais, fiz, a gente publicou um livrinho, mas eu não mexi com cinema, com fotografia, com nada. A gente contratou [o fotógrafo] Márcio Vasconcelos, ele fez as fotos, dois anos depois eu fui chamada para fazer o [inventário] de Codó. Aí nesse de Codó eu viajei e nessa viagem eu conheci a história do Manuel Bernardino, entre outras, trouxe várias histórias curiosas. Mas a história de Manuel Bernardino me chamou a atenção, em particular, por que está associada ao cemitério, que é o Cemitério dos Afuzilados, que eu conheci separadamente, mas depois uma pessoa fez a junção, “ah, mas ele tem ligação com o Cemitério dos Afuzilados por que no Cemitério dos Afuzilados é onde estão enterrados os homens da Liga de Defesa, que eram liderados pelo Manuel Bernardino”. Aí quando eu chego em São Luís, eu vou procurar saber quem é esse Manuel Bernardino. Aí eu fui pesquisar.

Quer dizer que Manuel Bernardino chegou por acaso?
Foi. Exatamente. Falei sobre ele pra Murilo [Santos, cineasta, diretor de fotografia de Manuel Bernardino: o Lenin da Matta], eu lembro a noite que eu liguei pra Murilo, a gente passou umas duas horas ao telefone. Ele incentivou, “essa história é muito boa, escreve o projeto”, aí ele: “vamos marcar com o Maurício Escobar, que é o produtor da Lume, tem que apresentar esse projeto, é muito bacana, eu quero fazer a direção de fotografia”. Eu disse, “Murilo, no meu filme tu vai fazer o que tu quiser”. Até que a gente se encontrou com Maurício, ele ficou super empolgado, achou ótimo o projeto, fez alguns retoques, tipo, “Rose, melhora o perfil desse personagem, reescreve isso aqui”, não sei o quê, uma coisinha ou outra, tem um detalhe também muito bonito no projeto, que eu gosto muito de lembrar: ele foi inteiramente corrigido à mão por Nauro Machado [falecido poeta, pai de Frederico Machado, proprietário da Lume Filmes]. Isso é uma relíquia. Todo corrigidinho, o português.

Ah, a revisão gramatical, ortográfica.
Também. Aí Fred recebia e dizia “tem isso pra corrigir”. Ele frequentava muito, ia na Backbeat [locadora de dvds também de propriedade de Frederico Machado], na produtora, e Fred passava coisas para ele fazer. Entre essas coisas, correção de textos, então Nauro corrigiu meu projeto. Daí a gente submeteu nessas datas que eu te falei, eu sempre muito ansiosa, ligando pra Maurício, mandando mensagem, “já submeteu?” E ele: “Rose, eu ainda tou muito ocupado”. Bom, a gente entregou o projeto, enviamos no último dia, coisa que eu normalmente não gosto de fazer, sou bem precavida, mas deu tudo certo. Daí eu comecei a acender vela. Entre a entrega do projeto e o resultado eu fui apresentar dois trabalhos acadêmicos, dois textos em um evento de antropologia em Portugal, em Lisboa, aí fui em Nossa Senhora de Fátima, acendi uma vela e pedi por Manuel Bernardino, que o projeto fosse aprovado. Nesse momento acho que eu senti, eu acreditei tanto que eu senti um calor, e saí de lá com uma sensação, vai ser aprovado. Só que a gente não tem assim a certeza. Até que quando foi em agosto, não tenho a data exata, Fred entrou em contato comigo, pra me dizer, primeiro Maurício mandou uma mensagem pelo facebook, “parabéns, nosso projeto foi aprovado”. Foi muito bom, a alegria, não esqueço, eu ria e chorava, e as lágrimas caíam, eu gargalhava, “eu não acredito!”. Eu gargalhava, não tinha ninguém nesse momento lá em casa, precisava falar pra minha filha, mas eu tinha que buscar minha filha, eu disse vou falar pra Tamie, Tamie vai ser a primeira pessoa a saber. Aí eu fui buscá-la na escola, falei pra ela, “filha!”, eu dirigindo, com ela do lado, ria e chorava, gargalhava e chorava. Aí depois isso vai apaziguando, você vai pensando, “pronto, agora o problema está criado” [risos]. Vamos nos concentrar, trabalhar, fazer a pesquisa, intensificar, intensificar o roteiro, o projeto precisava só entregar uma estrutura de roteiro. Aí as coisas foram caminhando, o dinheiro saiu nesse período que eu te contei, a gente começou a pré-produção lá no local, em Dom Pedro, no começo de abril. Aí eu fiz contato com dois historiadores, um é de dom Pedro, o outro eu não tenho certeza por que eu nunca encontrei [pessoalmente]. Mas através de amigos eu cheguei a dois trabalhos, uma monografia de graduação e uma dissertação de mestrado. Da dissertação eu consegui o contato com o autor, o Giniomar [Almeida], ele participa do filme, está nos créditos como historiador. Imediatamente ficou super empolgado, ele também gosta muito dessa história, contribuiu bastante. Lá, durante a filmagem a equipe foi super profissional, Murilo foi super importante, era um dos mais maduros em todos os sentidos, ele tirava nossos medos. Por exemplo, tem uma cena no filme em que a gente vai filmar no Cemitério dos Afuzilados e o cemitério está totalmente alagado, com plantas aquáticas. Eu sou uma pessoa que geralmente não tem medo de muita coisa, não, eu sou muito corajosa, eu tenho medo às vezes de estreia de filme, essas coisas, prova de matemática, mas eu tou livre, já não preciso mais fazer, mas assim, cobra, eu não tenho medo não. Eu teria entrado sem problema, mas minha preocupação era a equipe. Mas como Murilo foi na frente, eu fiquei [pensando], “Manuel Bernardino não envia nenhuma cobra aquática para morder minha equipe”. Aí foi outro, depois outro, eu fui, quando eu vi a equipe inteira estava no meio do cemitério, com água no meio da coxa, todo mundo com a perna na água e misturado com aquelas plantas aquáticas, ninguém se queixando de medo, todo mundo preocupado em captar imagens de seu Cícero, que era quem tava dando depoimento naquele momento. Aí foi dando tudo certo, um dia mais emocionante que o outro. Aí viemos em São Luís, fizemos a parte de São Luís, as entrevistas de São Luís.

Você passou num concurso em São Paulo para o Tribunal de Justiça. Depois abandonou? Como é isso? Você é uma mulher de guinadas, destemida?
Depois que a gente tem filho a gente muda, você sabe disso. Hoje eu não diria. Se bem que de vez em quando eu me pego sendo aquela Rose. Eu acho bem mais divertido, leva três a cinco horas para chegar na cidade [voltando da aldeia], passando por dentro de brejo, mato, mais divertido ir atrás, com os índios, do que ir na boleia com o ar-condicionado. Eu ia em pé no caminhão, eu já era mãe. De vez em quando eu me pego sendo essa Rose destemida, um pouco inconsequente.

Essa guinada do Tribunal de Justiça de São Paulo, você já tinha algo em vista?
Nada em vista. Eu tinha vontade de mudar, só.

Você falou duas vezes, primeiro João Pessoa ficou pequena, depois São Paulo ficou pequena e você foi para Paris. São Luís vai ficar pequena?
Se não fosse a necessidade de trabalhar e ganhar dinheiro, com certeza eu já teria voltado pra França, ou ido pra outros lugares. Além de agora eu ser mãe de dois filhos, minha filha é universitária, faz a [Universidade] Federal do Rio de Janeiro, Unirio, faz Artes Cênicas, tem 17 anos, mora só, sempre foi muito corajosa, muito determinada, e Luc tem 13 anos. São duas pessoas bem diferentes, ele é mais na dele, mais tranquilão. Ele também já disse que não quer ficar em São Luís, quer estudar fora, talvez em São Paulo, talvez no Rio.

O próprio ofício do antropólogo tem muito disso, ou talvez isto seja um mito, não sei, mas muito essa coisa do desbravar, descobrir coisas novas, parece que exige uma vontade constante de mudar de cenário.
Isso é um mito real, repercute de fato, você tem razão. Só que a antropologia nem sempre é pra desbravar, você pode fazer antropologia no espaço urbano. Mas a origem da antropologia, você tem razão, existem várias histórias, várias anedotas a respeito na história da antropologia. Existem também questionamentos sobre o ingresso e o papel do antropólogo, até que ponto nós fomos responsáveis por massacres, descobrir populações que estavam protegidas e com nossa intervenção, com nossa pesquisa, a gente revela essas populações, revela a riqueza em torno das quais, no espaço da população, e essa revelação acabou sendo, para algumas populações, negativa para elas. Tem muito questionamento negativo sobre a origem da antropologia, sobre o papel da antropologia, que não são muito dignificantes.

Fora Manuel Bernardino, aqueles dois com que você participou de edições do Guarnicê, e aqueles 14 institucionais, tem mais filmes no currículo?
Tem. Mas eu na equipe. Não como diretora. Participando como assistência. Aqui no Guarnicê tem o Angústia, de Fred, que nós fizemos.

Vamos falar um pouco de método.
Primeiro eu assisto todas as cenas, tudo o que foi filmado. Eu tenho um conceito, gosto de criar conceitos norteadores.

Para um filme como Manuel Bernardino, que ficou com 52 minutos, você filmou quantas horas?
Nós tínhamos mais de 20 horas. Na verdade até mais. 20 horas feitas por duas câmeras, então o dobro, 40 horas.

O cinema de ficção é diferente do cinema de documentário?
Eu não vejo muita diferença. Eu me incomodo muito com essa separação, ficção/documentário. Todo filme é um filme, é uma produção. Ou é um documentário no sentido de gravar uma realidade, um contexto, registrar um momento, seja ficcional ou as pessoas representando seus próprios papéis. Quem está no documentário sabe que está sendo gravado e quem tá gravando tem também algum conceito norteador e tem virtualidades que ele vai percorrendo. No caso do Manuel eu criei esses conceitos a partir dos fluidos corporais, depois que eu estudei a vida do Manuel Bernardino, eu percebi que a história dele começa com um cara trabalhador, que sai viajando por vários lugares em busca de roça, em busca de cálcio. Depois ele se torna um líder, depois um vegetariano e espírita. Aí eu associei aos fluidos corporais, suor, sangue e lágrimas, que são as três partes do filme.

Você chega a Manuel Bernardino por acaso. E as fontes para você preparar o roteiro, a pesquisa desse filme? Fáceis, difíceis, abundantes, restritas?
Para um filme eu achei relativamente fácil. Eu encontrei fontes documentais.

Tem um recorte que aparece na filmagem, um jornal, um cara folheando na biblioteca.
Eu fui a esse jornal depois das pesquisas, lendo a monografia e a dissertação. Me levaram aquele jornal, mas junto com essas leituras eu li um livro de Maria das Graças [Saraiva Barroso], A passagem da Coluna Prestes pelo Alto Itapecuru, sobre a Coluna Prestes, tem alguns trechos falando sobre Manuel Bernardino, um líder importante, arregimentou mais de 200 homens para a Coluna Prestes, esse contingente foi o maior da história da Coluna Prestes, por isso que eu fui entrevistar Anita Leocádia [Prestes, historiadora, professora aposentada do Departamento de História da UFRJ, filha de Luís Carlos Prestes e Olga Benário Prestes], ela conhecia o Manuel Bernardino, é sobre isso que ela vai falar. Eu li um livro geral sobre Codó, esse livro também fala sobre Manuel Bernardino. Eu não sei se eu reli Lenin ou Leon Tolstói, que casualmente, talvez por uma feliz coincidência, quando eu era adolescente, eu fazia um curso e frequentava uma turma de pensadores marxistas-leninistas com o presidente do PCdoB da Paraíba, que era o Aurélio Aquino, ainda tá vivo, conheceu o Prestes. Uma vez a gente estava na casa dele reunido, falando sobre Lenin, marxismo-leninismo, e era aniversário de Prestes, e ele ligou pra Prestes na frente da gente, enquanto a gente aguardava a hora da reunião, e parabenizou o Prestes. Ou Alan Kardec, a história de Manuel Bernardino cruza com esses autores, do espiritismo e do marxismo-leninismo. Isso tudo foi construindo a trama, os fluidos eu puxei um pouco da minha tese do doutorado em antropologia. Na minha tese eu trabalho com substâncias corporais, eu trabalho com sexualidade, antropologia das emoções, concepção de corpo, li Merleau Ponty, a construção do corpo é cultural, os índios candoshi acreditam que o coração é o centro da inteligência, eles têm toda uma explicação racional a partir da cultura deles, que o coração, e não o cérebro, é o centro de toda inteligência. Os trobriandeses acreditam que o nariz do homem é o responsável pela produção do esperma, coisas que não estão diretamente relacionadas com o que a gente conhece da biologia, do científico, mas que têm todo um significado, todo um sentido. Aí eu estudei muito para minha tese, tem uma população, esqueci o nome, do Amazonas, que as mulheres acreditam que elas engravidam quando elas tomam um susto. Então se alguém fizer [imita alguém dando um susto e alguém se assustando], ela sabe que naquele momento ela acabou de engravidar. Como eu acho que eles transam todo dia, uma hora ela se vê grávida e não vai lembrar do susto, aí vai dizer “ah, já sei, foi aquele dia”. Elas não associam o sexo com a gravidez. Elas acham que é o susto.

Então o pai é quem dá o susto?
Não. Um susto com qualquer coisa. Você tá caminhando, vê uma cobra e se assusta com a cobra, naquele momento você engravidou.

E o pai?
O pai é quem lhe dá prazer. Como elas transam com vários homens, o pai não tem tanta importância, o pai é quem cria. Não existe essa história, “ah, ele é o pai por que tem as informações genéticas”, não existe isso, o pai é quem cuida, o pai é quem cria, elas engravidam com o susto, com qualquer coisa, com a cobra, com a planta. Se tiver essa emoção com o susto, a mulher acabou de engravidar naquele momento, e depois ela se vê grávida e já sabe que foi o susto. A antropologia mostra muito da percepção cultural dos povos, que a gente, a sociedade, as pessoas que não mergulham nas etnografias não conhecem. Eu acredito que esse pulo, essa ponte que eu fiz com os fluidos corporais, com certeza foi da minha tese. Eu trabalhei fluidos corporais, a consubstancialidade, é você compartilhar substâncias. Os Kanela acreditam, por exemplo, que um casal, casado há muitos anos, já um pouco idosos, e que trocaram substâncias a vida inteira, não só sexuais, mas alimentares, por que comem da mesma comida, cozida pelo mesmo fogo, trocam suor, trocam fluidos corporais, tiveram filhos juntos, o filho é uma confluência dessas duas substâncias, masculina e feminina, pra eles, eles acreditam que são um só, já compartilham as substâncias, já existe a consubstancialidade entre eles. Tanto que o que for proibido para o marido fazer, por exemplo, se a mulher tiver grávida e o marido for caçar, e encostar na caça, no animal, depois que o animal morrer, o animal pode penetrar pelo fluido, pelo sangue, no corpo do marido, e contaminar, como eles são um só, contaminar a esposa e consequentemente o filho que tá na barriga. Por conta desse princípio, por conta desse conceito da consubstancialidade. Eu trabalhei as substâncias, estudei a vida de Manuel Bernardino e percebi essas três substâncias muito presentes: suor, quando ele era trabalhador rural, sangue, quando ele foi revolucionário, e as lágrimas, quando ele se torna um pacifista, espírita. Isso foi norteando a fotografia do filme, eu falei pra Murilo, expliquei todo esse conceito, disse que era para seguir, isso foi norteando o desenho de som do filme, ajudou na hora da montagem. Então, sangue, cenas de abatedouro, todos os assuntos relacionados à revolução, a Lenin, trechos do filme tal; lágrimas, todos os assuntos relacionados ao espiritismo, imagens em preto e branco, imagens de nuvens; antes disso, suor, cenas da roça, que a gente produziu, cenas de suor, cenas de chuva, assuntos relacionados à mobilidade, ao trabalho de Manuel Bernardino. Quando eu tive essa consciência desse roteiro ficou super fácil de montar, mostrei o esqueminha pro André Garros [montador], “olha, aqui tu bota essas cenas e essas pessoas”, fiz o esqueminha em colunas, coloquei não só as pessoas que deveriam aparecer naqueles blocos, mas os assuntos tratados, embaixo as cenas daquele bloco, aqui entra a cena do abatedouro, aqui entra a cena da chuva, aqui entra a cena da roça, todas as cenas de mobilidade da equipe, mas essa mobilidade da equipe vai permear um pouco todo o filme. Um pouco aquela história de dizer: “ah, é um filme?, ah, é um documentário”, a equipe saindo da caixinha. Como pode um documentário e a equipe aparecer?

Eu tive uma leitura: é um documentário sobre um personagem histórico, até quero que você comente isso, aí num determinado momento aparecem você, Murilo, etc. filmando, entrando no cemitério, água na canela, cumprindo um papel de making of, mostrando a feitura do filme. Eu não lembro quem disse que um dia o making of ia se tornar mais importante que a própria obra, por conta da exposição de tudo em redes sociais.
A entrada do making of no filme é que eu estava perdendo noites de sono, de preocupação, em fazer um documentário chato. Um documentário com as pessoas falando, Manuel Bernardino, Manuel Bernardino… eu sabia que eu tinha várias cenas de apoio, e essas cenas construídas em função desses fluidos, que poderiam deixar o filme um pouco mais interessante. Cenas de sangue escorrendo no abatedouro… mas eu fui ver as imagens que o Guilherme [Verde, assistente de direção, making of e fotografia adicional] e as imagens que eu tinha feito também com meu celular. Fui ver e gostei muito, a equipe atravessando o filme, como se nós fôssemos a Liga de Defesa de Manuel Bernardino. Inclusive o Ricardo Mansur [desenho de som] nos autointitulou, quando eu contei a história para a equipe, Ricardo Mansur que é do Rio, fez a mixagem, a captação do som direto, ele adorou esse título, era a época da votação do impeachment [de Dilma Rousseff] pela Câmara dos Deputados, era mais ou menos essa época. A gente falava muito de política. Nós todos, com exceção de um, que eu não vou revelar, nós todos achávamos um absurdo. O Mansur nos autointitulou Liga de Defesa contra o golpe, então ficou. Mas bom, infelizmente a gente não venceu, mas a gente atravessou o filme inteiro, e eu acho que era o que Manuel Bernardino queria, a vida dele inteira, era que as pessoas saíssem de suas caixinhas, de suas zoninhas de conforto e fossem lutar e fossem para as ruas e fossem para as manifestações e fossem gritar por justiça, era o que ele fazia com a Liga de Defesa. Aí eu acho que eu compreendi alguma coisa quando eu decidi colocar a equipe, o making of, com a equipe atravessando o filme inteiro, com essa busca desse personagem, essa busca de Manuel Bernardino, além de ter, claro, aquela história de que, claro que a gente está fazendo, claro que a gente está construindo, a gente pode aparecer, a gente faz parte, a gente pode ir para o outro lado da câmera, a gente pode mostrar as falhas, como a cena em que eu estou na manifestação do Rio, quando a gente foi filmar com a Anita Leocádia, a gente chegou no sábado a noite e no dia seguinte a gente marcou o encontro com o Ricardo Mansur em Copacabana, pra manifestação contra o golpe, por que a eleição pela Câmara dos Deputados seria naquele dia a noite, depois a gente foi acompanhar a votação na Lapa. Tem umas imagens que eu fiz com meu celular em que eu boto o dedo, aparece assim uma mancha vermelha, é meu dedo, tem hora que eu tou filmando, me distraio, mas essa imagem entrou e eu gosto muito dessa imagem, coisas assim.

Na tua postura de ser contra o golpe, de ter uma posição ideológica muito explícita, dá para pensar, é uma pergunta meio óbvia, que se Manuel Bernardino estivesse aqui entre a gente, hoje, ele seria contra o golpe?
Sim. Com certeza. Todo o posicionamento dele, as leituras dele, o depoimento dele, narrado pelo Zeca [Baleiro], não todo, o depoimento tem mais de 13 páginas, eu fiz uns recortezinhos de coisas que eu achava importantes, mas por todas essas informações que eu tenho do personagem eu não tenho dúvida, com certeza, ele continuaria sendo um líder contra o golpe. Ele sabia ler, o que na época era raro. Em 1920, quem votava era a população masculina, quem sabia ler, então estrangeiros, mulheres estavam todos por fora, isso representava um pouco mais de 7% das pessoas no Brasil que podiam votar. E Manuel Bernardino, mesmo sendo um lavrador, vindo do Ceará, ele já sabia ler, sabia ler e pensar e interpretar o que lia, aí ele vai sendo orientado pelo [médico] Tarquínio Lopes, por pessoas que ele vai conhecendo, que vão dando livros sobre socialismo, talvez na época, como era a única coisa que ele tinha para ler, por que era o que davam, ele foi se formando. Ele foi se formando e eu acho que essas leituras tinham a ver com o que ele pensava, sobre as injustiças que ele via na época no Maranhão. Era uma cobrança de impostos muito grande, o coronelismo imperando, o povo sofrendo, as injustiças sociais de maneira geral muito fortes, muito presentes na região, ele ficava muito indignado com isso, associado a essas leituras sobre socialismo e sobre espiritismo, que não são conflitantes, elas são totalmente, isso explica, o filme explica isso, elas não são contraditórias.

É um cruzamento que eu não lembro de ter visto em outro personagem. A gente ouve falar em socialismo cristão, que depois por conta de legenda partidária é completamente deturpado, tanto é que a gente tem um Bolsonaro filiado num partido socialista cristão que não tem nada de socialista nem de cristão. Depois da descoberta de Manuel Bernardino, esse nomadismo dele em busca de condições de trabalho, e o teu lugar ficou pequeno, joga tudo pro alto, vou pra outro canto, essa identidade de vocês, você acha que ajudou em teu interesse pelo personagem?
Acho que sim [risos], acho que teve a ver, acho que a gente se encontrou. É tanto que é meio que uma anedota, a primeira versão do filme eu esqueci de botar meu nome. Brincando com Maurício, meu nome estava nos créditos, mas ele achava que eu devia ter colocado, como eu fiz muita coisa no filme, aquele “um filme de”. Mas eu já tinha até pensado um pouco sobre isso, eu disse “não, mas o filme é de todo mundo, eu não concordo muito com isso”. Só que naquela época eu estava fazendo a função só de direção, sabia que tinha pensado o roteiro, escrito o argumento, o projeto, mas todo mundo tava tão empenhado. Foi aí que nasceu, foi um parto longo, de meses, esse ouriço não conseguia sair. Foi aí que eu puxei o filme para mim. Por que a minha equipe fez a parte dela, fizeram muito bem, mas até botar esse menino no mundo, parir esse menino, eu me senti um pouco só. Foi nesse período que eu hesitei entre “ah, será que eu devia ter colocado, será que eu não devia?” Eu não coloquei, foi assim mesmo e não me arrependo. Aí eu comentei com Maurício, “eu não coloquei no começo, só aparece o título do filme, não coloquei nenhum crédito, não coloquei um filme de Rose Panet, é grave?” “Não, teu nome tá nos créditos, é tranquilo”. Eu comentei assim: “sabe por que eu não coloquei? Por que eu acho que na verdade, quem escreveu esse filme, quem fez tudo, foi Manuel Bernardino através de mim”, então meu nome não apareceu.

Foi um filme psicografado.
Exatamente! Quando a gente recebeu a primeira conferência, que a gente teve que fazer correções no filme, foi aí que o ouriço começou a incomodar pra nascer. Foi nesse momento, eu sofri bastante com isso, foi um período bem difícil. A finalização, o André adoeceu, a máquina da Lume quebrou, ele viajou com Fred para apresentar o [filme] Lamparina da Aurora, teve uma série de atrasos e eu super ansiosa para finalizar logo isso, e aí por problemas técnicos a gente não conseguia um certo ajuste, e eu ansiosa, e eu nervosa, e o ouriço querendo nascer e me machucando e eu perdendo noites de sono e chorando, e foi aí que eu pensei, “não, esse filme agora é meu, esse filho é meu”. E coincidentemente o filme ainda estava aqui, e eu tive oportunidade de colocar meu nome. Aí eu disse para André colocar, “depois do título dê um tempo”, fui acompanhar, escolhi a fonte, ficou pequeno, nada muito grande, dessa versão que vai ser a versão que vai ser exibida tem “um filme de Rose Panet”. Aí quando eu comentei com Monica [Melo, advogada e produtora da Lume], “Monica, nem tinha meu nome”, “mas Rose, isso é superimportante”, ela é bem feminista, “por que você é uma mulher, nós temos poucas mulheres diretoras de cinema, isso é muito importante”. Acho que ela tem razão.

Você se considera feminista?
Eu acho que eu sempre fui feminista, mas sem assumir, sem levantar essa bandeira. Eu sempre acho, inclusive, sobre essa questão de gênero, eu acho que não deveria ter nas identidades, nos RGs, feminino e masculino, por que eu sempre fui um pouco masculina. Eu sempre fui aquela menina que brincava de polícia e ladrão, meu pai sempre quis ter um filho homem, mas só teve três meninas, eu acho que nós três éramos um pouco meninos, pra suprir um pouco isso.

Você está em que posição?
Eu sou a do meio. Eu sou a única que ele escolheu o nome, Rose. Tem um nome francês, escolhido por ele. Eu acho que eu sempre me questionei sobre meu gênero. Às vezes eu estava num lugar, que eu via umas mocinhas da minha idade, eu nunca me identifiquei com esse universo, as conversas, de salão de beleza, de roupas, de namoros, não sei, de limpeza, a mulher como sinônimo de higiene total, até por que eu não era, eu me melava de tinta. Eu ia para a oficina de papai, ele era professor universitário, mas ele tinha uma oficina lá atrás [da casa], eu gostava de frequentar a oficina dele. Eu curtia me melar de graxa, se eu me cortasse ficava sangrando, essas coisas que as menininhas da minha época não tinham, por que eram tudo assim, a corzinha rosa, as roupinhas rosinhas, tudo bem limpinhas, as maria-chiquinhazinhas bem bonitinhas, e eu ficava me questionando até sobre minha sexualidade, por que eu não me identificava com essas menininhas, eu olhava as meninas conversando e me sentia diferente. Eu gostava mais de meus colegas homens, era mais divertido o mundo masculino. Hoje eu acho que isso se abriu mais. Hoje a gente vê exemplos de mulheres mais líderes, mulheres que atravessaram, com a antropologia isso vai ficando mais claro, existem algumas populações indígenas em que existem a presença de seis gêneros, não existe o gênero masculino e feminino, mas seis, existe o homem com corpo de homem e comportamento de homem e desejos masculinos, existe o homem com corpo de homem com comportamento feminino mas com desejos por mulher, isso em algumas aldeias indígenas, existe o homem com corpo de homem que tem desejos por homens, isso a gente pode até pensar, mas nessa população que eu tou, do meu orientador de pesquisa, ele identificou esses seis gêneros, mas a gente pode até puxar mais alguns, o homem com trejeitos, mas que tem o desejo por homens, que é meio que o nosso clichê, a gente acha que todo gay tem um jeito, e depois aos poucos, com a antropologia, a gente sabe que qualquer homem pode ser homossexual, pode ter desejo por alguém do mesmo sexo, e ter trejeitos de homem. E aí os mesmos papéis para as mulheres, as mulheres com corpo de mulher, trejeitos femininos, gosto de mulher, atividades mais consideradas femininas, tem o desejo, a atração sexual por homens, ou por outras, eu sempre me atraí por homens, mas eu sempre tive, quando criança, adolescente, não meu trejeito, meu jeito de andar, mas um comportamento mais agressivo.

E o feminismo?
Eu sempre achei que as minhas capacidades eram as mesmas de qualquer menino. Pelo menos durante minha adolescência, durante minha vida adulta, eu nunca senti, de fato, na pele, que houvesse um abismo entre masculino e feminino, entre homens e mulheres. Hoje a gente está numa sociedade em que o movimento se tornou um movimento político, e claro que eu apoio o feminismo, eu apoio, eu sou totalmente a favor, é totalmente natural que mulheres e homens sejam participantes da sociedade de maneira igualitária, e não os homens protagonistas, mas a gente de fato ainda vê muito isso, no cinema, o protagonismo masculino é aberrante, tem muito mais diretor, toda lista técnica sempre tem muito mais homens que mulheres, eu vejo a questão com um outro olhar, de fato.

Teu pai te respeitava e te apoiava nessa postura?
Papai achava tudo natural que a gente fazia. Papai era seminarista, quando eu frequentava essas reuniões marxistas-leninistas e me recusei, acho que eu tinha 15 anos, a ir pra missa, por que lá em casa era obrigatório, eu fui a única das minhas irmãs a me recusar categoricamente a ir à missa, coincidiu com o fato de eu estar frequentando reuniões marxistas-leninistas, eu lembro de um diálogo dele com a minha mãe, eu atrás da porta, e ele dizia bem assim: [imitando o sotaque do pai] “Carminha”, ele falava com bastante sotaque, “eu não sei para onde esta menina está indo, ela não acredita mais nem em Deus nem no diabo, ela não quer mais ir à missa, ela está frequentando essas reuniões”. Mas eu criei, agora lembrei, quando eu era do colégio, adolescente, eu criei uma organização clandestina, a gente pixava os muros da cidade. E pixei, eu mesmo, cada um se encarregava de uma instituição, e eu pixei o muro da minha escola, com 15 anos, eu e meus colegas. Com frases marxistas-leninistas, a escola, o que fosse escola tinha que ser com frases sobre educação.

Você lembra a frase que pixou?
Lembro não. Eu lembro das letras, eu nunca tinha pixado na vida e acabei fazendo letras enormes, no dia seguinte quando eu fui para a escola, fingindo naturalidade, desci do ônibus, atravessava a Praça da Independência, que é em frente ao Colégio Pio X, um Colégio Marista, um muro bem grande, aí eu vi aquela frase enorme, aquelas letras enormes [risos], eu senti uma emoção tão grande, “Meu Deus, eu fiz isso, uau!, estou me sentindo uma revolucionária, uma criminosa, uma anarquista”. Depois de um tempo a escola mandou pintar, mas a emoção foi muito grande.

Uma coisa curiosa em teu filme, é, como tem a relação marxismo-espiritismo, algo até então improvável pra mim, tem o Alan Kardec da doutrina espírita e tem um depoimento do Alan Kardec, professor da UEMA.
Isso, coincidentemente, mais uma coincidência no filme, eu tinha conhecido ele não fazia muito tempo. No dia em que eu o conheci, ele era responsável pela Editora da UEMA, e eu fui saber, por que eu tou com um livro no prelo, que é minha tese de doutorado. Eu fui saber de meu livro e fui saber também, pegar informações sobre revistas acadêmicas, e nesse dia eu perguntei, “Alan, você já ouviu falar do Manuel Bernardino?” E ele começou a falar, os olhos brilharam, aí eu perguntei: “você gostaria de participar de um filme que eu tou fazendo?”, e ele: “com certeza!”. Depois eu entrei em contato, isso não foi de imediato. Eu ainda estava na fase da pesquisa, deu tudo certo.

E tem Flávio Farias, que é a reencarnação de Marx.
Eu cheguei lá, ele estava com uma camisa vermelha. Ele perguntou: “Rose, é muito clichê, eu de vermelho?” [risos].

E Zeca Baleiro, como entra na história?
Na estrutura do roteiro tinha o depoimento, trechos do depoimento de Manuel, que eu tinha pensado em dividir entre várias pessoas, inclusive o nome dessas pessoas que eu vou citar agora foram para a Ancine, para serem julgados. Eram Celso Borges, Nauro Machado, ainda vivo, ele ia fazer as falas de trechos citados por Manuel Bernardino de Lenin, eu tinha falado com um amigo, o Luís Mário. Aí eu falei com as pessoas que eu conheço, que são amigas dele [Zeca Baleiro], falei com Maristela Sena, falei com Celso Borges, falei com Suzy [Fernandes], que é cunhada dele, e todos foram bem receptivos, inclusive estão em meus agradecimentos, por isto, entre outras coisas, eles foram bem receptivos e disseram “vou falar com Zeca”. Entraram em contato, não demorou muito, eu tive resposta: ele disse que tava cheio de coisas nessa época. Eu, “como nessa época?, não tem época, temos tempo”. Aí voltamos a fazer contato, sobre margem, ele respondeu, “ah, então eu posso, bora botar esse Manuel pra falar alto” [risos]. Eu passei pra o produtor a negociação, valor, Maurício Escobar, que conversou com o produtor de Zeca, produtores entre si acertaram valores, acertamos uma data, “pergunta se ele quer que eu vá para são Paulo, se ele vem pra cá, a gente agenda com um estúdio, pra fazer esse trabalho”. Aí ele preferiu fazer no estúdio dele, Sax So Funny, onde foi gravado aquele desenho que foi para o Oscar, O menino e o mundo [animação de Alê Abreu], foi feito lá a mixagem de som, muito bacana, em Higienópolis, em São Paulo. No dia marcado eu fui pra São Paulo, me encontrei com ele lá, já no estúdio, foi muito tranquilo.

Vocês se conheceram nesse processo?
Sim. Ficamos quatro horas no estúdio. Ele gravou de uma vez, comigo dirigindo. Eu chamei a Jô Dantas [jornalista e professora universitária], que mora lá, “Jô vem me acompanhar”. Eu expliquei o contexto pra Zeca, falei sobre o personagem. Foi muito tranquilo trabalhar com ele, ele é bem colaborativo, profissional. Quando a gente acabou o Sérgio Fouad [técnico de som] fez a edição na hora, depois me enviou o bruto, tudo o que tinha sido gravado. No final, momento tiete, aí a gente foi fazer foto, eu pedi para ele autografar o último cd dele para várias pessoas, eu trouxe de presente, beijos e abraços.

Manuel Bernardino sai por várias tevês públicas. Vai queimar uma etapa de festivais, mas você pensa em fazer lançamentos, debates, num circuito mais local?
Eu gostaria muito, mas ainda não sei o que eu posso e o que eu não posso.

E a trilha sonora?
Grande parte da trilha de Manuel Bernardino foi feita por Joaquim Santos [violonista, professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo]. Mas há outros compositores: dois russos, mais uma coincidência. Achei na internet, fiz contato, comprei as licenças das músicas. Dois são russos, dois americanos e um canadense.

E os trechos de filmes que você usa? Você já conhecia ou foi a partir dessa pesquisa?
Eu não conhecia há muito tempo. Foi conversando com o [crítico de cinema] Fernando Oriente. Inicialmente eu estava querendo colocar trechos de O Encouraçado Potemkim [de Serguei Eisenstein]. Aí eu falei com ele e ele escutando, achando legal, “mas por que o Potemkim? Por que você não bota Outubro [de Serguei Eisenstein e Grigori Aleksandrov]? Assiste, você vai gostar muito mais”. Quando eu assisti, realmente tem tudo a ver. A cena das foices, a cena da ponte, que a gente cola com a ponte aqui de São Luís, aí entrou Outubro, Potemkim saiu. Foi bacana a dica, gostei muito.

Joaquim Santos, você já conhecia? Como é que foi o contato?
Conhecia de nome, dos filmes de Fred, Murilo é um de meus primeiros amigos maranhenses, quando eu cheguei aqui, fui pra aldeia, quando eu saí, vim pra cidade, não sei quem me passou o contato de Murilo, mas eu queria editar essas imagens, alguém me passou, eu falei com ele por telefone, ele nunca tinha me visto, aceitou editar, não cobrou nada, o primeiro filme que eu fiz foi editando com Murilo, O mocó de Quelé. A gente se conheceu nesse processo, ele foi superbacana. É alguém pra nunca se largar. Desde sempre Murilo é meu amigo, é alguém realmente do coração.

E projetos futuros?
Eu tou com uma ficção, só falta fazer uma cena, bem simples. Eu acho bem legal, hoje conversei com Di Moretti [roteirista, ministrou oficina no Festival Guarnicê de Cinema, em junho, época em que esta entrevista foi realizada] sobre esse filme, eu gosto muito, tou muito ansiosa pra montar. É uma homenagem a Alexandr Sokurov [cineasta russo]. Eu peguei uma frase de cada um dos filmes dele, primeiro eu pensei no tema, aí assisti vários filmes dele, revi alguns outros, escolhi uma frase impactante, que mexia comigo e tinha a ver com a trama, botei tudo num balaio e misturei com um sonho meu, um sonho que eu tive quando eu tava grávida de Luc. Eu tava com uma caixa de madeira bem fininha e eu balançava essa caixa e eu sabia que dentro da caixa tinha um ovo, quando eu acordei eu entendi que era um medo que eu tinha de perder Luc. Na véspera eu tava sozinha na França com Tamie, grávida, e ela queria que eu carregasse a bolsa dela, a minha bolsa e pegasse ela e botasse no colo. Aí ela se jogou no chão, fez aquela cena toda, eu me resignei, e disse “tá bom, Tamie”, aí peguei a bolsa, peguei Tamie, botei em cima da barriga e fui subir uma ladeira. Aí, peraí, o que eu tou fazendo? Aí eu falei com um tom diferente: “tenha pena da mamãe, compreenda a situação”. Na época a gente só falava em francês, aí ela desceu e aceitou ir caminhando. Nessa noite eu tive esse sonho.

Frederico felliniano-edipiano

O signo das tetas. Frame. Reprodução

 

Recentemente o cineasta e empresário Frederico Machado arrendou o Cine Lume. Nos próximos anos irá se dedicar a vários projetos de sua primeira faceta. Ontem (27), o filho de Nauro e Arlete, em sessão aberta e gratuita, recebeu amigos e sua equipe para a exibição de O signo das tetas [Brasil, 2015, 68 min.], lançado em dvd após trajetória vitoriosa em festivais.

Após a sessão, depoimentos sinceros e emocionados do diretor e de sua equipe, entre os quais destaco os atores Lauande Aires, Rosa Ewerton e Maria Ethel, os três oriundos do teatro, mas que desempenharam muito bem seus papéis – literalmente – na telona, em suas primeiras experiências com a sétima arte.

Frederico Machado já tem garantido seu lugar entre os grandes artistas do Maranhão, desde seu curta-metragem de estreia, Litania da velha, baseado no livro-poema homônimo de sua mãe, a poeta Arlete Nogueira da Cruz. Não à toa citei-a, e ao pai de Fred, o saudoso poeta Nauro Machado, no primeiro parágrafo – ele, homenageado pelo filho no curta Infernos, aparece em O signo das tetas.

A intenção não é diminui-lo ou rotulá-lo, mas entender como fundamental a presença dos pais para a vida e obra de Frederico Machado. Antes de road movie, como dizem alguns críticos, O signo das tetas é uma permanente busca felliniana-edipiana, no que reside, obviamente, algo de autobiográfico – embora isto, também obviamente, não explique tudo, seria muito fácil.

Ninguém é filho de Nauro e Arlete impunemente e com essa carga ele vem se tornando um dos mais importantes realizadores do Brasil em se tratando de cinema autoral – afora outras aprontações que lhe consomem tempo, juízo (e dinheiro), como a locadora Backbeat e a distribuidora e produtora Lume Filmes – pela qual é lançado o dvd de O signo das tetas.

Há violência e doçura, num filme cuja ótima trilha sonora vai de Franz Schubert e Flo Menezes (que executa àquele e temas originais, compostos para o filme) a Pablo do Arrocha.

Há também momentos hilariantes. Como a cena em que o protagonista, vivido por Lauande Aires, pedala sua bicicleta por uma estrada de chão, a sola do sapato descolada, lembrando o carteiro de Carrossel da esperança, de Jacques Tati – o piano emoldurando a cena lembrando o Nino Rota que trilhava Fellini.

É a busca de um reencontro com o passado, que não se completa, aquele tipo de filme que ao final deixa o espectador imaginando o que aconteceria acaso continuasse, convidando-o a imaginar um roteiro particular. Não é óbvio, nem fácil.

Herança

Fernanda Montenegro em cena de A falecida, de Leon Hirszman, baseado na obra de Nelson Rodrigues, uma das cenas de Cinema novo. Reprodução

 

Cinema novo [documentário, Brasil, 2016, 90 min.] é um filme para cinéfilos, mas não só. Só assisti ontem. Quando estreou em São Luís, ficou pouquíssimo tempo em cartaz. A sessão gratuita no Cine Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy) integra a programação do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2017, que premiará os melhores do ano passado no próximo dia 5 de setembro, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A programação inclui ainda títulos como Aquarius, Boi neon, Cícero Dias, o compadre de Picasso (ótimo documentário de que vi um pedaço, ao entrar na sala com cerca de meia hora de antecedência) e Elis, entre outros, em diversas categorias. Em São Luís os filmes serão exibidos até amanhã (3), veja a programação.

Em Cinema novo, a sacada de Eryk Rocha, filho de um dos maiores nomes do cinema brasileiro, é também um merecido tributo a Glauber Rocha. E a Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman e Luiz Carlos Barreto, entre outros.

Muito do que se faz em cinema hoje no Brasil, ao menos o que vale a pena, herda diretamente o que se aprendeu com a escola do Cinema novo. O filme de Eryk Rocha parte de uma sacada inteligentíssima: é uma colagem de cenas de mais de 70 filmes do período e depoimentos de mais de uma dúzia de diretores.

Nenhum depoimento foi concedido para o filme, a Eryk Rocha, que pesquisou imagens de acervos, em hora e meia majoritariamente em preto e branco – o colorido, e não me refiro (apenas) às cenas em cores, fica por conta de sua riqueza e diversidade. Ele reduz um dos jargões de seu pai, repetido até por quem não sabe que a frase é dele. “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” transforma-se tão somente em uma ideia na cabeça, a narrativa construída em cima de imagens pré-existentes. Renato Vallone assina a competentíssima montagem, que aqui configura-se quase em codireção – Eryk Rocha homenageia os criadores também nos créditos, lembrando caracteres originais de suas criaturas, como se se tratasse de obra coletiva. E no fundo se trata.

É um panorama imprescindível de um dos períodos mais férteis do cinema nacional. Engraçado notar que algumas preocupações, àquela época, já pairavam pelas cabeças de nossos cineastas. E provavelmente permanecem hoje, na cabeça de outros. Por exemplo a questão da distribuição. Numa passagem, Joaquim Pedro de Andrade desdenha da crítica.

Leon Hirszman aponta a identificação com o subdesenvolvimento como um eixo comum da maioria absoluta dos títulos cinemanovistas. Tendo a localizá-los também à esquerda no espectro político, embora alguns sobreviventes tenham dado guinadas rumo ao golpismo com o passar do tempo – e também deixaram de fazer coisas interessantes ou até mesmo deixaram de fazer cinema.

Elemento de nosso subdesenvolvimento a violência é abordada por Glauber, ao comentar seu O dragão da maldade contra o santo guerreiro. Ele afirma não gostar de sangue pelo sangue. “Mas negar a violência seria me censurar”, afirma em determinada altura.

Do pai, Eryk Rocha herdou a postura ideológica firme – ano passado, na plateia da abertura do Festival de Brasília, puxou um coro de “fora, Temer”.

Além de bela homenagem a uma geração e uma filmografia fundamentais, Cinema novo é uma verdadeira aula de cinema e poesia.

*

Veja o trailer:

Terra de Ford, terra de ninguém

Divulgação

 

Voraz leitor de Tex Willer desde a infância, é em algo comum nas histórias do ranger que penso imediatamente ao ver Fordlândia [Brasil, 2008, 49 min.], documentário de Marinho Andrade e Daniel Augusto.

Nas HQs presenciamos constantemente o surgimento e abandono de vilarejos, principalmente ao redor da exploração de ouro e da instalação de ferrovias. O filme conta a história de uma cidade construída por Henry Ford na década de 30 do século passado, em pleno Pará, palco de outro Eldorado de triste memória.

Para tanto, a dupla de cineastas faz vir dos Estados Unidos Charles Townsend, nascido em Fordlandia, filho de um funcionário da Ford. O filme acompanha esse reencontro – a cena em que ele cumprimenta América, sua babá, com tapas no ombro e um abraço, é comovente para personagens (que vão às lágrimas) e espectadores. Fordlândia ainda tem uns poucos moradores, mas é o espírito de cidade fantasma que lhe habita.

A estratégia de Ford, que gastou alguns milhões de dólares na empreitada, era ter seu próprio seringal, para suprir a necessidade crescente de sua produção – no Brasil o ciclo da borracha já havia se encerrado, mas o empresário americano, dono da então maior indústria do planeta, acreditou que era possível revivê-lo artificialmente. Deu-se mal: uma praga dizimou os milhões de seringueiras, antecipando a derrocada. Famílias foram embora abandonando casas, móveis e talheres.

Fordlândia dá muito pano pra manga. A partir dele é possível pensar temas caros para a nossa sociedade, inclusive levando em conta a égide golpista, tendo em vista o incentivo ao desmatamento amazônico garantido pelo governo ilegítimo. Enriquecido por depoimentos do sempre combativo jornalista Lúcio Flávio Pinto, temas como urbanismo, planejamento urbano, capitalismo, migrações, trabalho e cultura – reparem num insólito bumba meu boi – passeiam pela geografia paraense, onde um dia se tentou produzir látex em modo fordista.

Bons documentários, como este de Marinho e Andrade, não se fazem em série. Este torna-se único ao abordar tema inusitado sob perspectiva idem.

Serviço

Fordlândia será exibido amanhã (22), às 18h, no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Uema, Rua da Estrela, Praia Grande), com entrada franca. Após a sessão haverá debate com o diretor Marinho Andrade, com mediação do professor Frederico Lago Burnett.

 

Veja o trailer:

Dramas cruzados

Farol das orcas. Frame. Reprodução

 

Baseado em Agustín corazón abierto (Agustín coração aberto, em tradução livre), livro de Roberto Bubas, Farol das orcas [El faro de las orcas, 2016; direção: Gerardo Olivares; 110 minutos], drama argentino-espanhol, é uma bela prova de que o cinema e a literatura (e as artes em geral) podem tratar de qualquer tema, por mais delicado que seja, sem o risco de esbarrar no piegas ou no politicamente incorreto, quando a abordagem é inteligente.

Bubas (Joaquín Furriel) é uma espécie de agente florestal, que atua numa reserva ecológica na Patagônia, onde convive diretamente com as orcas, espécie de baleia tida como assassina – a seu ver, injustificadamente.

O filme, disponível no Netflix, aborda o drama de Lola (Maribel Verdú), mãe de Tristan (Guinchu Rapalini), um menino autista de nove anos. A partir de uma reação do garoto vendo um documentário sobre baleias no National Geographic, ela cruza meio mundo, da Espanha à Patagônia, para tentar a experiência. Só Beto pode ajudá-los.

O guarda-fauna reluta a princípio. Mas logo se afeiçoa ao garoto – e à mãe – e coloca o próprio emprego em risco para ajudá-los. Beto e Lola se apaixonam, num filme sem excesso ou pieguice, profundamente emocionante.

As locações naturais daquele trecho de praia da Patagônia ajudam a tornar tudo ainda mais bonito. Mergulhar (literalmente) no trabalho, num lugar remoto e com praticamente nenhuma opção de lazer, foi a forma que Beto encontrou para superar uma tragédia pessoal. Ele acaba contrariando a própria natureza ao se tornar “amigo” das orcas.

Cada personagem tem seu próprio drama e é neste entrecruzamento que residem a força e a beleza de Farol das orcas, que aborda o autismo por um viés poético. Quando Beto resolve fazer as coisas à sua maneira para ajudar Tristan não sobra espaço para enxergar o garoto como um coitado, estranho ou digno de pena – como em geral, infelizmente, ainda são vistas as pessoas com deficiência, seja qual for. Longe de panfletário, o filme acompanha seus passos, evoluções, a superação de seus medos e a paixão por orcas, mar e música.

Veja o trailer:

Laerteficando

 

Laerte é uma das mais instigantes artistas brasileiras em todos os tempos. Em mais de 40 anos de carreira, sua obra, diversa, sempre dá o que pensar, sobretudo no campo político – identificada com a esquerda, já percorreu uma ditadura militar, diversos passaralhos e agora o golpe em curso no Brasil. Está sempre em mutação. Ou melhor dizendo: em evolução.

Artista e obra confundem-se, sobretudo a partir de quando ela revelou-se crossdresser. O grande trunfo de Laerte-se, de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva [documentário, Brasil, 2017, 100 min.], primeiro longa-metragem brasileiro do Netflix, é justamente não tentar explicá-la, nem rotulá-la. O que redundaria em simplificá-la.

É Laerte na intimidade, entre um cotidiano prosaico – brincar com os netos, as gatas, passar café, a reforma da casa, visitas ao filho Rafael Coutinho –, lembranças da infância, pontuadas por vídeos caseiros, o trabalho – a artista desenha diante das câmeras e algumas tiras e cartuns clássicos aparecem – e o corpo – ensaios fotográficos, compra de roupas e depilações são também mostrados, sem exageros ou sensacionalismo.

Além de desenhista consagrada – e sempre decisiva – já há algum tempo Laerte arrisca-se na televisão: apresenta o Transando com Laerte no Canal Brasil, programete de entrevistas de 15 minutos. Em Laerte-se, ela experimenta o outro lado. Percebemos certa timidez, não ensaiada. O filme começa com uma troca de e-mails entre ela e Eliane Brum, ela tentando fugir de uma sessão de gravações, até que a documentarista convence-a de que não era adiar que ia deixá-la mais à vontade.

E é assim que a encontramos, em geral, ao longo da hora e 40 de documentário: sentada no sofá de casa, conversando, ou entre pincéis e lápis, usados em diferentes tipos de papel ou no corpo – lápis de sobrancelha, delineador, batom.

Ao depoimento de Laerte somam-se trechos de entrevistas, debates, protestos e a Ocupação dedicada à sua obra, no Itaú Cultural, em que ela desfila suas opiniões – também em construção. Além de em evolução, estamos diante de uma artista em descoberta, em autodescoberta, sempre honesta: “eu demorei a fazer isso. Foram 60 anos. Que risco eu corro a esta altura?”, indaga(-se) numa passagem.

Ao transgredir convenções e levar sua própria vida para suas tiras e cartuns – vide o personagem Hugo/Muriel –, além de em evolução, Laerte tornou-se também uma artista em experimentação. Mesmo que ela considere tardio ou fácil, talvez por pura modéstia, é ousado, sim. São alarmantes os índices de violência contra mulheres, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais e Laerte, com sua atitude, mesmo sem querer, acaba se transformando em ícone da luta por empoderamento destes segmentos.

Em Laerte-se também não se tenta santificar sua protagonista: ela reconhece, por exemplo, sem perder o bom humor, que permeia o filme, já ter protagonizado alguma hostilidade a homossexuais, do que hoje se arrepende e se envergonha, para voltarmos ao quesito evolução.

Já imagino o discurso preconceituoso e raivoso dos que preferem ter excrescências como mito, mas ao contrário do que algumas mentes doentias possam imaginar, o imperativo do título não indica uma aula de como mudar de gênero ou coisa que o valha. Laerte-se é uma aula de diversidade, transgressão, afeto e bom humor. Basta estarmos dispostos a aprender um pouco.

Aberta ontem, Mostra Cinema e Direitos Humanos segue até dia 20 em São Luís

Foi aberta ontem (15), às 19h30, em São Luís a 11ª. Mostra Cinema e Direitos Humanos (antes Mostra Cinema e Direitos Humanos no Mundo e antes ainda Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul), em sessão concorrida – havia gente em pé e sentada nas laterais do Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), superando a capacidade da sala, de 120 lugares.

Houve discotecagem e coquetel no hall do Odylo antes da abertura da sala, onde já haviam sido realizadas, ontem, duas sessões vespertinas, exibindo curtas-metragens – a Mostrinha é uma novidade da programação deste ano, com filmes voltados para o público infantil.

Na solenidade de abertura, falas de Janet Rockenbach, curadora da Mostra, Nat Maciel, produtora local, e Francisco Gonçalves, secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular. A primeira disse ter assistido entre 160 a 180 filmes, número que pode ser considerado baixo, mesmo em se tratando da produção restrita ao tema da Mostra – Direitos Humanos, de modo geral, e particularmente, Gênero, questão abordada na Mostra Temática. A homenageada desta edição é a cineasta Laiz Bodansky, que tem sete filmes exibidos na Mostra Homenagem.

É mais uma evidência do descaso do governo ilegítimo de Michel Temer para com o assunto. Entre os vários motivos para número baixo de inscrições pode estar o período curto para que realizadores inscrevessem seus trabalhos no edital público lançado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Ministério da Justiça e Cidadania em novembro passado – quando normalmente, nas 10 edições anteriores, a Mostra já estava acontecendo.

A Mostra começou em 2006, ainda durante o primeiro mandato do presidente Lula, à época abrangendo apenas algumas capitais. Seguiu acontecendo anualmente, sempre entre outubro e dezembro, período próximo ao aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH, 10 de dezembro), inserindo-se nas comemorações da efeméride, tendo atingido todas as capitais. 2016, após a destituição da presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff, foi o primeiro ano em que a mostra não foi realizada, voltando agora, descolada do calendário original – 18 de maio é o Dia nacional de combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, alusão ao assassinato da menina Araceli Cabrera Sánchez Crespo, em Vitória/ES, em 1973, como contada pelo maranhense José Louzeiro no romance-reportagem Araceli, meu amor [reeditado pela Prumo em 2013].

Em suas falas durante a solenidade de abertura, Nat Maciel e Francisco Gonçalves lembraram o conturbado momento político vivido pelo Brasil. “É preciso que este cinema esteja cheio em todas as sessões, de modo que não possa haver o argumento de que a gente não merece a Mostra por que ninguém vem ver os filmes”, argumentou ela. Ao fim da fala dele, que lembrou a onda de ódio que toma conta não só das redes sociais, ouviram-se uns poucos gritos de “Fora, Temer!”. Depois a plateia aplaudiu uma performance de dublagem de uma drag queen.

Depois que te vi. Frame. Reprodução
Depois que te vi. Frame. Reprodução

A sessão de abertura exibiu o hilariante Depois que te vi [Brasil, 2016, 16 min.], de Vinicius Saramago, que aborda a vida de Gustavo, autista que trabalha como caixa e entregador na farmácia do tio, de sua vida pacata e seu cotidiano autômato até a descoberta de uma grande paixão. O autismo é abordado com bom humor para delírio da plateia.

Na sequência, completou a noite o documentário De que lado me olhas [Brasil, 2014, 15 min.], de Ana Carolina de Azevedo e Helena Sassi, com depoimentos de adolescentes transexuais. Tema importante e urgente, o filme ousa no conteúdo, mas a forma é batida, com sua sequência de personagens reais.

Menos mal não ter sido encerrada por um governo que vem se esforçando por retrocessos e cassação de direitos, a 11ª. Mostra Cinema e Direitos Humanos segue até o dia 20 de maio, no Cine Praia Grande. A entrada é gratuita em todas as sessões e a programação completa pode ser conferida no site da Mostra.

Em tempo, uma curiosidade: entre realizadores, patrocinadores e apoiadores no material de divulgação da Mostra não vemos a marca do Ministério da Cultura.

Martírio é talvez o mais importante filme sobre a questão indígena já realizado no Brasil

Martírio. Frame. Reprodução
Martírio. Frame. Reprodução

 

Um policial é assassinado e causa comoção em membros da bancada ruralista, após a viralização de um vídeo em que agoniza dizendo-se amigo de indígenas. Os conflitos entre Guarani-Kaiowas registram um placar de ao menos 50 lideranças indígenas assassinadas ao longo dos últimos 30 anos contra três policiais, embora a questão não seja relativizar ou hierarquizar a importância de vidas.

Martírio. Cartaz. Reprodução
Martírio. Cartaz. Reprodução

Nada é excessivo nas quase três horas de Martírio [Brasil, 2017, 160 min.], documentário em que o antropólogo e indigenista francês radicado no Brasil Vincent Carelli – narrador da película –, Ernesto de Carvalho e Tita registram a luta por terra da população indígena sul-mato-grossense, entre os rios Paraná e Paraguai. O filme amealhou entre outros prêmios os de melhor longa-metragem (especial do júri e do júri popular) no 49º. Festival de Brasília e melhor documentário (do público) na 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo.

É talvez o mais importante filme sobre a questão indígena já realizado no Brasil. Embora se concentre nos Guarani-Kaiowas e nos últimos 30 anos de História, cobre mais de 100 anos de luta indígena (as reivindicações pouco mudam, variando o grau de violência empregado contra os povos originários), abordando desde a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), em 1910, o decreto de Getúlio Vargas que institui 19 de abril como Dia do Índio, espécie de “prêmio de consolação” pelo “embranquecimento” promovido pelo Estado, passando pela criação da Fundação Nacional do Índio (Funai), durante a ditadura militar, e a fatídica guarda indígena, quando indígenas recebiam treinamento militar para a prática de torturas, até a Assembleia Constituinte, que só garantiu aos indígenas o papel de sujeitos de direitos graças às suas mobilizações.

Vincent Carelli tem cerca de 40 anos de atividade indigenista e Martírio é um filme fartamente documentado – afirmação que pode soar redundante, já que estamos tratando de um documentário. Isto é: vai além da colheita de depoimentos de indígenas – alvo de críticas aos antropólogos e seus laudos pelos ruralistas e simpatizantes de plantão – mostrando a realidade nua, crua e quase sempre sangrenta. Tudo lhe serve de fonte: de documentos históricos a imagens de arquivos de emissoras de tevê, passando por filmagens dos próprios indígenas, com câmeras e celulares – para espanto de alguns, que os imaginam como se ainda estivéssemos em 1500. Em determinados momentos o espectador se vê no meio de um conflito, inclusive entre a religiosidade e o modo de viver indígena e o capitalismo.

Sem muito esforço, Martírio mostra também o que há de mais retrógrado no Congresso Nacional, ao exibir trechos de reuniões de empresários do agronegócio e da bancada ruralista, formada por alguns daqueles ou seus lobistas, em sua sanha pela retirada dos direitos dos indígenas, sem poupar munição verborrágica contra antropólogos, organizações internacionais, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) – braço da Igreja Católica para a questão indígena –, e até mesmo a Funai, órgão do governo que pretendem desmantelar para mudar as responsabilidades pela demarcação de terras indígenas.

O documentário é, como são os bons filmes do gênero, uma espécie de longa reportagem, em que os diretores demonstram que a questão indígena é um problema complexo e, longe de ser responsabilidade exclusiva dos governos federais do Partido dos Trabalhadores, mostra o quão pouco foi feito nos mandatos de Lula e Dilma, situação que piora após sua destituição pelo golpe parlamentar-jurídico-midiático.

Martírio acompanhou o drama que levou a região e a etinia a um dos mais altos índices mundiais de suicídio – entre os indígenas Guarani-Kaiowas, ocasião em que muitos usuários adotaram o sobrenome indígena em seus perfis em redes sociais, embora o problema exista desde muito antes da invenção do facebook.

Martírio integra a programação da Sessão Vitrine Petrobrás e está em cartaz no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com sessões às 15h20 (de terça a sexta-feira). Os ingressos da Sessão Vitrine Petrobrás custam R$ 12,00 (meia entrada: R$ 6,00).