Arquivo da tag: disco

Covers de responsa

Foto: Dovilé Babraviciuté

 

“A Nação acende Radiola de clássicos”, anuncia a Nação Zumbi já na capa de seu álbum de covers, Radiola NZ Volume 1 – o que já deixa o fã clube em polvorosa: certamente vem um volume 2 aí, mas quando?

Radiola NZ. Capa. Reprodução

É disco curto – nove faixas – mas coeso: a banda não desmonta as faixas que relê, mas tem a pegada mangue, o peso da Nação.

Gilberto Gil, que gravou com a Nação Zumbi ainda nos tempos de Chico Science, em Afrociberdelia (1996), comparece ao repertório: é dele Refazenda, faixa que abre o disco unindo os tambores dos pernambucanos aos metais dos baianos da Orquestra Rumpilezz, liderada pelo maestro Letieres Leite. É como se a banda devolvesse uma gentileza, mais de 20 anos depois.

Causou frisson o anúncio, ano passado, do encontro, no Rock’n Rio, da Nação Zumbi com Ney Matogrosso, para um show baseado no repertório do Secos & Molhados. Uns gostaram, outros não, especulou-se sobre um disco do cantor com o grupo (como aconteceu em Vagabundo, que Ney assina com Pedro Luís e A Parede). Em Radiola NZ o encontro entre Ney e a Nação é eternizado em Amor (João Ricardo/ João Apolinário), que contrasta a leveza da letra (“leve, como leve pluma, muito leve, leve pousa”) e do canto de Ney com o peso da Nação, uma de suas marcas.

O disco reverencia ainda o ídolo soul Tim Maia (Balanço) – que já comparecia ao repertório do Almaz, projeto paralelo de Seu Jorge com o guitarrista Lúcio Maia e o baterista Pupillo –, Roberto Carlos (Não há dinheiro que pague, de Renato Barros, autor de muitos hits da Jovem Guarda), The Specials (Do nothing, de Lynval Golding), o muito censurado Taiguara (Dois animais na selva suja da rua), Beatles (Tomorrow never knows, de Lennon/McCartney), Marvin Gaye (Sexual healing, de Gaye com David Ritz e Odell Brown) e David Bowie (Ashes to ashes).

O repertório é quase inteiro de clássicos, músicas muito conhecidas e por vezes muito regravadas. Não deve ter sido fácil, mas a Nação Zumbi cumpriu com coerência o desafio a que se propôs, atraindo novos públicos para a própria banda e para os autores que releem.

Talvez a camisa 10, digo, a faixa 10 pudesse trazer um Jorge Benjor, outro ídolo confesso da rapaziada. Mas para isso Jorge dü Peixe e companhia têm outro projeto paralelo, o Los Sebozos Postizos, em que integrantes da Nação Zumbi dedicam-se a reler a obra do carioca.

Instantes eternizados

Tranqueiras líricas. Capa. Reprodução

 

De Marcelo Montenegro, Chacal já disse: é o Manoel de Barros urbano. Chacal (que ele lê em Desabutino, único poema não assinado por Montenegro em Tranqueiras líricas) sabe das coisas:  a analogia tem fundamento. Ambos os poetas têm a capacidade de eternizar a banalidade da vida, aqueles acontecimentos que, de tanto se repetirem, já ninguém se ocupa.

Como por exemplo, “agora mesmo alguém deve estar limpando/ cuidadosamente o cd com a camisa,/ pulando a ponta do pão Pullman,/ sentindo o baque da privada gelada”, em Velhas variações sobre a produção contemporânea, poema que abre Tranqueiras líricas, disco que Marcelo Montenegro lançou no apagar das luzes de 2017.

O autor lançará mês que vem, pela Companhia das Letras, Forte apache, que reúne, além do livro-título, os livros Orfanato portátil e Garagem lírica. É poeta bom de ler e ouvir, dono de uma das obras mais originais da poesia brasileira contemporânea.

Tranqueiras líricas, espetáculo que já apresenta há mais de uma década, é recheado de referências, mas não hermético, tem um pé no rock, outro no blues, a voz de Marcelo Montenegro, talhada “equilibrando/ a lata e o cigarro” (ainda do poema de abertura), acompanhada por guitarras, violões e arranjos de Fábio Brum, seu parceiro de palco e empreitada também de longa data – em 2013 o poeta apresentou o espetáculo durante a Feira do Livro de São Luís, na companhia do guitarrista Marcelo Watanabe.

O título é verso de Buquê de presságios: “Tranqueiras líricas/ na velha caixa de sapato./ De tudo, talvez, restem/ bêbadas anotações/ no guardanapo./ E aquela música linda/ que nunca toca no rádio”.

Tranqueiras líricas é daqueles discos cujo anúncio deixa ansiosos os que acompanham mais de perto o trabalho de Marcelo Montenegro – leva anos entre a ideia e a concretização do objeto disco, às próprias custas s/a. Uma vez lançado, resenhistas correm sério risco ao citar este ou aquele trecho, e não outros, numa bolacha em que tudo é sublime, mesmo o supostamente mórbido: “PENSO em alguém que, na manhã/ do dia de sua morte, desiste/ de usar a camisa que mais gosta,/ preferindo guardá-la para uma festa/ que terá na noite seguinte” (de Três pensatos).

“Tudo o que é bom para o lixo é bom para a poesia”, já disse Manoel de Barros. Como o poeta rural, a poesia do poeta urbano se ocupa destas insignificâncias, tornadas grandes ao serem eternizadas pelo olhar atento e sensível de Marcelo Montenegro. Como, por exemplo, no poema Filme: “Você pede para eu apertar o pause/ e vai ao banheiro/ deixando ao meu lado/ seu cheiro quente/ no travesseiro amassado”, começa. Há outros momentos grandiosos, mas: corta! E termina: “Você volta ao quarto dizendo/ – Está me dando uma fome!/ enquanto rimos da pose engraçada/ que o ator parou./ Antes de apertar o play/ chego a esboçar que algumas pessoas/ são incapazes/ de tirar a poesia do sério”, o que não é o caso de Marcelo Montenegro e eis uma possível síntese para Tranqueiras líricas (e, de resto, toda a sua obra).

*

Ouça Velhas variações sobre a produção contemporânea (Marcelo Montenegro):

Luiz Claudio de volta às raízes

Encantarias. Capa. Reprodução

 

Outra agradável surpresa que nos chega no apagar das luzes de 2017 é Encantarias [Na Music, 2017, disponível por enquanto apenas no formato digital], primeiro EP solo do percussionista Luiz Claudio, paraense radicado no Maranhão há mais de 40 anos.

Luiz Claudio é um mago, um mestre, um bruxo, um… escolha o melhor clichê para classificar alguém que é muito bom naquilo que faz, embora clichês não sejam suficientes para traduzir sua musicalidade.

Encantarias, título mais que apropriado, dá conta do que Luiz Claudio pretende e consegue abarcar: tem bumba meu boi de zabumba, tambor de crioula, reggae, divino e choro, mas nada em formato puro. O percussionista reprocessa, reinventa, mas nada ali sobra. Não é o tipo de músico que, ao querer exibir suas habilidades, esconde àqueles que se somam ao trabalho.

Em Adeus (Mestre Zió), toada de despedida do Bumba meu boi de Leonardo da Liberdade, que abre o EP, o naipe de metais evoca o maestro pernambucano Moacir Santos, em arranjo assinado por Elder Ferreira (trombone) e Zeca Baleiro. O naipe de metais se completa com o trompete de Ramon Pinheiro e o time com Jeff Soares (violão e contrabaixo), Luiz Claudio, Ribão Zabumbaça, Ricardo Sandoval e Bruno Zabumba (percussões), Djalma Chaves e Anna Claudia (vocais), irmã de Luiz. Convidado especial, Baleiro canta e toca violão.

Figura fácil em fichas técnicas de shows e discos de diversos artistas brasileiros, alguns deles comparecem a Encantarias. Chico César enfeita Paracatu (Luiz Claudio e Mano Borges) com sua voz. A música já havia sido gravada por Luiz Claudio com os garotos do Som da Lata, projeto social e musical desenvolvido pelo percussionista, que trabalhava a fabricação de instrumentos de percussão e o ensino de música a jovens da periferia de São Luís – sob a batuta de Luiz Claudio o grupo participou de Shopping Brazil (2004), disco de estreia do compositor Cesar Teixeira. Ao final, a voz e o toque de Mestre Felipe, homenageado da faixa, batizada por onomatopeia que imita o som do meião e do crivador. “Era como ele imitava o som dos tambores quando nos ensinou. Eu juntei e fiz a música, que no final homenageia também outra dança antiga, dançada pelos avós dele, o conduru”, revela Luiz Claudio a Homem de vícios antigos.

Se “reggae e boi têm semelhantes passos”, como nos alertou Inaldo Bartolomeu na toada Luzes e estrelas, do Bumba meu boi da Mocidade de Rosário, Maranhão terra de poeta (Chico Coimbra) e Morena bonita (Dançador) é a perfeita tradução da assertiva: Luiz Claudio canta e toca em ritmo de reggae duas toadas de boi de zabumba. “Eu até batizei [informalmente] essa faixa de Melô da Liberdade, é uma homenagem que eu faço ao bairro, cujas expressões culturais mais fortes são o boi de zabumba e o reggae, e uma homenagem a estes mestres, compositores, já falecidos”, afirma.

Ufanista, a faixa afirma sobre o bumba meu boi: “nós temos o melhor folclore brasileiro”. Um apito em seu início faz o ouvinte mais apressado imaginar que ouvirá uma toada, mas logo é desenganado pela pulsação do contrabaixo, em diálogo com o andamento do boi de zabumba: “morena, vem olhar meu boi/ é feito de gente feliz/ o cartaz dele é grande/ se espalhou pelo país/ se tu é da região Norte/ pega um transporte/ e vem pra São Luís”. A faixa tem a adesão de Victor Freire (contrabaixo), Vini Freire (vocal) e Igor Freire (vocal), integrantes da banda Cena Roots, relativamente nova no cenário local, mas demonstrando dar conta do recado, nesta prova de fogo, o fogo que afina os tambores do anfitrião.

Divino (Luiz Claudio) reaproxima o cacuriá e o divino. A dança tem origem na festa do catolicismo popular, mas há algum tempo sacro e profano se dissociaram. Luiz Claudio religa as pontas, citando Mariquinha, tema de domínio público (como a quase totalidade das cantigas do divino e do cacuriá), emoldurado pela rabeca de Thomas Rohrer, suíço radicado no Brasil há mais de 20 anos, com quem Luiz Claudio já havia se encontrado nos estúdios, durante as gravações de Vô imbolá (1999), segundo disco de Zeca Baleiro.

Janela (Allan Carvalho e Luiz Claudio) é um diálogo entre raças e geografias. À faixa comparecem o choro (brasileiro), o fado (português), a morna (cabo-verdiana), o lelê (de São Simão), o bumba meu boi (de Pindaré), executados por Marcelinho Sete Cordas (violão e cavaquinho), Luiz Claudio, Allan Carvalho e Thiago Albuquerque (percussões). Embora os xodós confessos de Luiz Claudio sejam o boi de zabumba e o tambor de crioula, esta última música, por sua diversidade, funciona como uma espécie de síntese de Encantarias.

“Esse trabalho é fruto de um momento muito introspectivo meu, estou voltando às raízes. Eu comecei a música com a cultura popular, tocando em grupos na década de 1970, tocando com Leonardo. Depois viajei mundo afora, encontrei o jazz, toquei com músicos eruditos, músicos de jazz, MPB, sempre, graças a Deus, da mais alta qualidade. Agora estou voltando e pretendo seguir esse caminho, que é trabalhar os diversos ritmos aqui do Maranhão. Trabalhá-los de forma rítmica, de forma melódica, tentar mostrar ao público que os tambores não são apenas ritmo, mas têm harmonia, melodia, como eu fiz nesse cd, misturando com instrumentos tradicionais, e aos poucos mostrando esse meu lado autoral. Eu tenho muita coisa escrita, eu escrevo bastante. Nesse EP eu canto, tem duas músicas minhas. O lado b desse EP vai ter mais músicas autorais, sempre trabalhando no resgate dos ritmos da cultura popular maranhense, cantando, compondo, arranjando”, adianta.

*

Ouça Adeus (Mestre Zió):

O jazz brasileiro de Caymmi

Dorival. Capa. Reprodução

 

Vem de longa data o reconhecimento da sofisticação da música popular brasileira, uma das mais interessantes do planeta. Voltemos no tempo para permanecer no universo do homenageado, Caymmi, de quando sua O que é que a baiana tem?, interpretada por Carmem Miranda, integrou a trilha sonora do filme Banana da terra, em 1939, para gringo ver. Ou quando sua Doralice conquistou o Carnegie Hall e a bossa nova (com jazz) de João Gilberto (e Stan Getz) conquistou o mundo.

Dorival [2017], disco que reúne Tutty Moreno (bateria), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), André Mehmari (piano) e Nailor Proveta (saxofone e clarinete), “time dos sonhos, reunião de bambas, quarteto fantástico”, como assinala Joyce Moreno em texto no encarte, “levando a música de Dorival Caymmi, gênio da raça, a mares nunca dantes navegados”.

Individualmente os integrantes deste quarteto têm relevantes serviços prestados à música brasileira, aqui e no exterior – Dorival foi gravado no Rainbow Studio, em Oslo –, assim como o homenageado. Há quase 20 anos já haviam se reunido em disco, em Forças d’alma, como Tutty Moreno Quarteto. Agora, assinando pura e simplesmente com seus próprios nomes, credenciais que lhes bastam, presenteiam os ouvidos mais atentos com “uma daquelas provas de que o Brasil que o Brasil merece é possível”, para continuarmos citando Joyce.

Em 10 faixas abordam o universo criativo de Dorival Caymmi, dono de uma das obras mais particulares da história da música brasileira – Morena do mar e Milagre reaparecem na Suíte Caymmi, que traz ainda entre uma e outra, que se repetem, Dois de fevereiro. A abordagem é original, o baiano elevado a jazz, mesmo quando se trata do Samba da minha terra, sem perder a essência de brasilidade, a brejeirice, o clima praieiro. Entre outras, comparecem ao repertório Sargaço mar, João Valentão, A vizinha do lado e Só louco – se uma das forças da obra de Caymmi reside na lírica, é tanto o talento dos instrumentistas reunidos em Dorival que a supressão das letras não diminui o brilho e valor de sua obra.

Praia, mar, céu e Caymmi são evocados na arte que embala o disco, assinada pelo talentoso Gal Oppido. Não é o primeiro disco inteiramente dedicado ao cancioneiro caymmiano. Espero que não seja o último. O grande trunfo de Dorival é que os craques do time jogam para o conjunto. Aqui e ali sobressaem-se seus talentos individuais, mas não há vontade ou necessidade de um querer demonstrar maior virtuosismo que outro. O importante é re/embalar, em beleza diversa da original, a obra do gênio a quem escolheram acertadamente homenagear.

Constroem, a partir da desconstrução da obra de Caymmi, uma nova obra, com respeito e reverência, singela e comovente como o pai de Dori, Danilo e Nana inventou.

*

Ouça A vizinha do lado (Dorival Caymmi), com Tutty Moreno, Rodolfo Stroeter, André Mehmari e Nailor Proveta:

A nova saída de Dado Villa-Lobos

Exit. Capa. Reprodução

 

No apagar das luzes de 2017 o ex-Legião Urbana Dado Villa-Lobos lança Exit [Rockit, 2017]. O disco abre com a pegada rock de 7×1 (Dado Villa-Lobos/ Nenung/ Gabriel Muzak), letra de forte cunho político: “e é só assombração/ no reino dos parasitas/ e todo bom cidadão/ sabe fingir que acredita/ e quanto custa morrer/ nesse consórcio de azar?/ que é comprar pra manter/ tanta mentira no ar/ vagabundos com controle total/ assassinos além do bem e do mal”, termina.

A letra de Fogueira de natal (Dado Villa-Lobos/ Nenung) é apropriada para estes tempos em que o disco chega: “o natal foi fogo/ o fogo eu que comecei/ quem sabe o ano novo/ me devolva o que eu sonhei”. A sonoridade evoca Os The Darma Lóvers, de Nenung, parceiro de Dado Villa-Lobos em seis faixas – além de assinar sozinho Partida.

Dado Villa-Lobos canta (melhor que nunca) e pilota vários instrumentos (guitarra, violão, cigarbox, fender e ebow) em um disco pop cuja sonoridade dialoga com Legião Urbana, Os The Darma Lóvers, Beastie Boys – cujo rap I don’t know vira Então vem, em versão dele –, New Order – cuja Every little counts é citada em Voltando pra escola (Dado Villa-Lobos/ Nenung/ Roberto Pollo) –, Belchior – os versos “piscava o sinal vermelho/ quando peguei na sua mão”, de A saudade dos unicórnios (Dado Villa-Lobos/ Nenung/ Estevão Casé), evocam Medo de avião instantaneamente – e Serge Gainsbourg, na língua e ritmo de L’oeil du drone (Lucas Vasconcelos, com versão de Dado Villa-Lobos para o francês), cujo título é mais uma demonstração de que o artista está sintonizado com estes tempos trágicos.

A time que se completa com o percussionista Estevão Casé e o violonista e guitarrista Lucas Vasconcellos, que assinam a produção do disco, passeiam ainda por Exit, entre outros, Marcelo Callado (percussão), Bruno Di Lullo (percussão), Nina Becker (coro), Roberto Pollo (hammond, moog e melotron), Diogo Gomes (trompete), Thiago Queiroz (saxofone barítono) e Everson Nunes (trombone).

Um resumo possível de Exit é o que aponta Lucas Vasconcellos em texto no encarte do disco: “Um cavalo que avança sobre as certezas. Esse bicho sem freio é a vida vindo, irremediável encontro e desencanto. Exit é a visão crua e mágica desses tempos, onde os seres imaginários convivem com o incêndio do dia-a-dia numa harmonia contundente”, diz um trecho.

*

Veja o making of de Fogueira de natal (Dado Villa-Lobos/ Nenung):

O novo som de Brasília

Foto: BR 135/Divulgação

 

A Muntchako não entrega o ouro ao bandido de cara: a princípio o show lembra uma espécie de Buena Vista Social Cover, trocadilho infame, o que não seria pouco. No palco, o trio só evoluiu ao longo de sua apresentação, ontem (2), na última noite do Festival BR 135. Não demorou para o público estar completamente entregue, dançando, aplaudindo, erguendo os braços.

Os teclados de Samuel Mota (guitarra, banjo, programação e synths) evocam bandoneons e logo um tango argentino me vai bem melhor que uma cumbia. Com Rodrigo Barata (bateria e samplers) e Macaxeira Acioli (percussão, samplers e voz), ele assina todas as faixas do álbum de estreia do grupo [2017], um caprichado vinil com sete faixas e produção musical de Curumin, mago cujo toque de Midas é uma espécie de certificado de qualidade – o álbum está disponível para audição e download gratuito e legal no site do Muntchako. A capa é desenhada pelo paraibano Shiko e evoca o Edy Star glam de Sweet Edy [1974], com o personagem mascarado que a estampa usando um botton com a inscrição “Temer jamais”. Não à toa o disco abre com Golpe.

Não há fronteiras ou quaisquer limites para a sonoridade do trio, convergência de experiências distintas. São três cabeças, mas a lista de instrumentos usados no disco e no palco é enorme. Na apresentação de ontem, destaque para o sample da voz da funkeira carioca Deize Tigrona, trazida virtualmente à ilha em Cardume de volume, faixa de que participa no disco – sem ela a festa não estaria completa.

Brasília não é berço apenas de escândalos políticos nem estacionou no rock brazuca oitentista.

O sistema é bruto

Foto: Zema Ribeiro

 

Musical e geograficamente o Baiana System está localizado entre a pernambucana Nação Zumbi e a carioca O Rappa. Como o nome indica, Russo Passapusso e companhia vêm da Bahia.

A sonoridade do grupo é uma salada que vai de samba-reggae, axé, pagode, rock, reggae, rap, um som urbano urgente que discute questões idem – especulação imobiliária, desigualdades sociais, racismo, trabalho – embaladas em bases de contrabaixo, guitarra, percussão, programações eletrônicas e a guitarra baiana na linha de frente. As projeções, com a máscara-símbolo do Baiana System em destaque, são outro elemento à parte, compõem o cenário mas estão para além disso.

Russo Passapusso é um showman sui generis: bota o público pra dançar, erguer os braços, fazer barulho, mas sabe que está ali para abrir cabeças, diferente da polícia que, Brasil afora, o faz a base de cassetetes, como ele mesmo disse, a frisar com um exemplo engraçado, de Salvador, em que policiais chegaram para espancar populares que estavam “fazendo a roda” e caíram na gargalhada em resposta às risadas com que foram recebidos. Ufa, foi por pouco. “Salve a polícia simpática, educada”, cumprimentou.

O vocalista e compositor se divertiu: fez a maior parte do show em frente ao palco, um nível abaixo da banda, dançando com um par de cazumbas que fazia as honras da casa. “Cadê o boi?”, perguntou ao perdê-los de vista. Várias vezes foi até o gradil cumprimentar o público, exalando simpatia.

Lançado ano passado, Duas cidades, base do repertório do show de ontem (30/11), na Praça Nauro Machado, na programação do Festival BR 135, figurou em quase todas as listas de melhores discos do ano. Lucro (Descomprimindo) dialoga diretamente com Aquarius, filme de Kléber Mendonça Filho estrelado por Sônia Braga: ambos têm a especulação imobiliária como personagem central.

Eletronicamente malemolente a faixa-título retrata o abismo social entre as periferias e bairros nobres de qualquer cidade do mundo: “diz em que cidade você se encaixa?/ cidade alta, cidade baixa”, provoca, reflete, a partir da realidade soteropolitana. “Dignidade é poder trabalhar”, diz verso de Mercado, em tempos de reformas trabalhista e previdenciária sob a égide golpista. O coro de “Fora, Temer!”, estimulado por Passapusso, soou tímido.

Não houve bis. O Baiana System dá seu recado – seco, duro, preciso, direto, urgente – mas não faz charminho.

“Viver é correr riscos, poesia é risco”

O baiano Lucas Santtana se apresenta hoje (1º.), às 22h, pela primeira vez em São Luís, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), de graça, na programação do Festival BR 135.

São sete discos lançados em quase 20 anos de carreira, álbuns bastante diferentes entre si, o mais recente, Modo Avião, não dará as cartas no repertório de hoje à noite: o set list de Balada de Lucas, nome do show, foi escolhido pelos fãs, pela internet.

Multi-instrumentista, seu nome já frequentou fichas técnicas de discos de Marisa Monte, Chico Science & Nação Zumbi, Jussara Silveira e Caetano Veloso e Gilberto Gil – é dele a flauta em Baião atemporal, de Tropicália 2 [1993], faixa que homenageia seu tio Tom Zé.

A direção musical do espetáculo é de Xuxa Levy e Lucas Santtana, que não tocará nenhum instrumento para ficar livre para dançar e interagir com o público, sobe ao palco escoltado por Dudinha Lima (contrabaixo e guitarra), Jr. Deep Drumagik (batidas eletrônicas e samples), Rafa Moraes (guitarra) e Lenis Rino (percussões e octapad).

Por e-mail, Lucas Santtana conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Edu Pimenta

 

Lucas, você acaba de lançar disco novo. Em vez de optar por fazer o show de Modo Avião, você fará um show baseado em escolha popular pela internet. É mais um dado de tua enorme capacidade de se reinventar?
​Eu só quero fazer o show Modo Avião em teatros, com as pessoas sentadas. Não faz sentido fazê-lo em festivais e casas noturnas. Como meu show mais eletrônico com o Bruno e o Caetano já estava na estrada há cinco anos, senti a necessidade de criar um show novo, com novos arranjos, outra concepção. Chamei o Xuxa Levy para dirigir o show, coisa que nunca tinha feito antes. Queria sair um pouco de dentro da minha cabeça e acho que nesse sentido foi uma abertura positiva. Até porque já tenho quase 20 anos de estrada. Então para subir num palco e cantar uma música de 15 anos atrás você tem que se reinventar, sem dúvida. Se não há mais sentido e prazer em dizer aquilo, melhor não dizer.

Você tem discos completamente diferentes em sua carreira. A reinvenção constante é uma necessidade?
​Para mim sempre foi mais uma questão de tesão e de urgência. De precisar fazer um disco de dub, ou de violão ou mais eletrônico etc. Naquele momento é aquilo que tira meus pés do chão, me faz gozar, me faz sonhar acordado.​ Sinto que preciso fazer aquilo, que é urgente para mim fazer. Não sinto obrigação de que sempre seja diferente, simplesmente é assim que meu lado artístico tem se manifestado. E pago caro por essa escolha de mudar o tempo todo. Mas é isso, tenho que fazer reverberar a minha essência. Se me desconectasse dela é que pagaria um preço muito mais alto. Viver é correr riscos, poesia é risco. Ainda mais nos dias de hoje. Viver para instigar os outros.

Você é sobrinho de Tom Zé. No que este parentesco te ajudou e te atrapalhou? Qual o tamanho da responsabilidade em carregar essa informação no DNA?
​Não me atrapalhou em nada, até porque quase ninguém sabe desse parentesco [risos]. E nunca me fiz valer dele também apesar de ter muito orgulho e pertencimento. Estudando o samba [1975] é um dos cinco álbuns mais importantes da música brasileira. Há ali pela primeira vez a simbiose da canção com o ruído de maneira harmônica​. Ao mesmo tempo um disco experimental e de cancioneiro popular. O uso de samples, ou a invenção deles, já que não existia ainda máquinas de sampler. Aquilo abriu as portas para muitas coisas que vieram a seguir, veja o disco do Rincón Sapiência [Galanga livre, 2017] que usa um sampler de Tom Zé.

Nesta apresentação você não tocará nenhum instrumento, ficando livre para dançar e interagir com o público. É possível que a ideia percorra outros festivais ou outras apresentações tuas?
​No último show com o trio eu tocava vários instrumentos. Era legal, mas isso me prendia muito ali. Tava com saudade de ficar livre para olhar no olho das pessoas, chegar mais perto delas e só me preocupar em cantar, em passar o recado. No show do Modo Avião também só tenho cantado. É como me sinto agora, pode ser que alguma hora mude de novo. Mas por hora é tudo que eu quero.

Seu show tem direção musical de Xuxa Levy, que produziu recentemente discos de Emicida e As Bahias e a Cozinha Mineira, colocando você lado a lado com o que de melhor a música brasileira tem produzido atualmente. Como você se sente em meio a essa cena?
​Orgulhoso de fazer parte de uma cena tão rica e diversificada, que só reafirma e fortalece tudo que veio antes de nós.

A seu ver falta atenção por parte dos meios de comunicação, que insistem na mesmice?
​Olhe, eu acho que basicamente falta educação no Brasil. Em todas as classes sociais. Falta diálogo e, sobretudo, maturidade. Ainda somos uma sociedade bastante imatura, e muito disso é por falta de educação. Os meios de comunicação são apenas mais um reflexo disso. Muito pior do que a mesmice é a irresponsabilidade desses meios, que vêm insuflando o ódio e as polarizações dentro dessa sociedade imatura. Os meios de comunicação só têm servido para deseducar e manipular uma massa de manobra de maneira inconsequente.

Que outros nomes você destacaria na atual cena independente brasileira?
​Todos que estão tocando no Festival BR 135 esse ano e muitos outros que não vieram esse ano, mas virão nos próximos.

 

Em Streets Bloom, seu clipe mais recente, você homenageia São Paulo, a maior cidade do Brasil. Agora chega pela primeira vez a São Luís, capital com características completamente diversas daquela megalópole. Quais as tuas expectativas?
​As melhores possíveis. De conseguir fazer um show legal para as pessoas. De trocar energia e ideias com elas. Mas, sobretudo, de fazer amigos. O que sempre mudou para mim em relação às cidades que já toquei várias vezes é que quando você faz amigos, voltar àquela cidade se torna algo completamente diferente. Em certa medida é como re-visitar parentes, entende? Tenho amigos de longa data em Recife, em Belo Horizonte, em Brasília… e voltar para tocar nessas cidades é saber da alegria de revê-los. Espero que role o mesmo em São Luís.

Quando você ouve falar em Maranhão, no que você pensa, musicalmente falando?
​As Radiolas, Tambor de Crioula, a festa do Boi​, e mais recentemente do governo do Flávio Dino, que foi apontado pela FGV como o governo mais transparente do Brasil. Precisamos valorizar tudo que é público. Isso é ser patriota de verdade.

A atualidade de Guilherme Arantes

A simples menção ao nome de Guilherme Arantes evoca diversos sucessos de sua autoria, não poucas baladas radiofônicas facilmente assobiáveis até hoje e temas em trilhas sonoras de novelas. Ouvir seu disco sem os encartes – sim, são dois – à mão nos leva a pensar em como ele tornou à sonoridade oitentista que o alçou ao gosto popular, apesar de certa sofisticação melódica.

Flores & cores. Capa. Reprodução

Ouvir seu disco com os encartes à mão é perceber que evocar aquela sonoridade foi justamente sua intenção. Um dos encartes traz longo texto reproduzindo a caligrafia do compositor, pianista e cantor, em que ele se debruça sobre a gênese de Flores & cores [2017], seu 27º. álbum em 41 anos de carreira – após o lançamento, ano passado, de um documentário e um box comemorativo das quatro décadas de trajetória, iniciada com a banda progressiva Moto Perpétuo, que lançou um único disco, homônimo, ele se sentiu livre para recomeçar.

Revolveu velhas fitas cassetes e papéis amarelados que estavam se esfarelando com o tempo, retomou coisas antigas, mexeu em coisa ou outra entre letras e melodias e o resultado é um disco que conjuga a sonoridade de seu período de maior sucesso com os dias atuais.

Semente da maré é um dos primeiros hits do disco, apesar do tema árido e urgente: os refugiados ao redor do mundo. “Me vejo em qualquer morada…/ não conheço mais qual país/ corresponde a qual lembrança/ onde fui parar, o que eu fiz…/ duelo perdido, desde a tenra infância…/ …e o refugiado olha ao redor…/ sem ver semelhança”, diz a letra, facilmente assobiável, perfeita para o rádio na hora do rush.

A banda base de Guilherme Arantes, que pilota diversos pianos e teclados, é formada por Gabriel Martini (percussão e violões), Willy Verdaguer (contrabaixo) e Alexandre Blanc (violões e guitarras). O projeto gráfico do disco evoca ares psicodélicos, em diálogo com o tema de amor da faixa-título. Gravado no estúdio Coaxo do Sapo, na Bahia, há momentos solares, como Numa onda (Nada no mar) e Praia linda, músicas que falam de amor, tal qual Chama de um grande amor, mais escancarada.

Em tempos de música feita para consumo imediato e descarte idem, Guilherme Arantes recicla o conteúdo de seu baú, a revelar o porquê de sua longevidade artística. Música boa não tem idade e o paulista é um artista dos dias atuais.

Ouça Semente da maré:

Um rasante na Ilha magnética

Foto: ZR

 

É inevitável: a poética de Estrela Leminski é impregnada de seu DNA. Filha de ninguém menos que Paulo Leminski e Alice Ruiz, suas composições, com parceiros diversos, entre os quais a mãe e o marido guitarrista Téo Ruiz, com quem divide discos, palcos e a vida, dão continuidade à melhor tradição (re)inventada pelo casal que agitou Curitiba nas décadas de 1970 e 80, quando a capital paranaense chamava a atenção de todo o Brasil por motivos mais poéticos.

Acompanhados por um power trio da pesada, Diego Perin (contrabaixo), Ruan Castro (guitarra) e Doug Vicente (bateria), Estrela Leminski (voz e efeitos) e Téo Ruiz (voz e guitarra) fizeram uma apresentação meio que de surpresa, na noite de ontem (12), no Reocupa (Rua Afonso Pena, Centro), em mais uma demonstração prática do conceito da casa, de ocupação artística do Centro da capital maranhense.

Vontade de fazer e brecha na agenda, entre um show em Teresina/PI e outro em Belém/PA (amanhã, 13, no Festival Se Rasgum), artistas dispostos a fazer sua arte chegar a mais gente, o cachê no melhor esquema “pague o quanto puder”.

O repertório do show é o do recém-lançado Tudo que não quero falar sobre amor, título longo e bonito, que embala 12 faixas, todas cantadas no show, a que Estrela, “desde sempre estudante de astrologia”, como declarou, acabou atrelando, cada uma a um signo – os poucos mas fiéis leitores que me perdoem, mas não vou conseguir lembrar que música corresponde a que signo.

Começaram o show por Quase feliz, parceria de herdeiras, Estrela Leminski e Anelis Assumpção, filha de Itamar, outro nome cuja poesia e melodia são evocadas no caldeirão de referências de Estrela e Téo. Depois foi a vez de Hit agressivo (Alice Ruiz/ Estrela Leminski/ Jossane Ferraz/ Téo Ruiz): “Tudo anda meio agressivo/ brigo com as ideias sem motivo/ não sou do tipo que se joga/ nem que fica para baixo/ quando tá indignado”, diz a letra.

Biografia (Bernardo Bravo/ Estrela Leminski/ Téo Ruiz) evoca o “vazio agudo/ ando meio/ cheio de tudo”, haicai da lavra de Paulo Leminski: “eu tô vagando na vida/ ando vivendo no vácuo/ minha cabeça tá cheia/ de tanto esvaziar”, cantam num trecho. O vento não ajudava, a noite estava quente. “Eu não sabia que aqui era mais quente que Teresina”, gracejou Téo. Adiante, perguntou: “a gente ouviu todo mundo falando que aqui é a Ilha magnética. Por quê?”. Da plateia alguém respondeu: “é por que depois que você vem você não consegue mais sair”. “Então já estamos todos magnetizados, pois estamos adorando”, retribuiu Téo.

Ruiz de mãe e Leminski de pai, Estrela se casou com um Ruiz. “A gente consegue explicar tudo, só não consegue explicar que não é irmão”, brincou. Eu, ué (Estrela Leminski/ Téo Ruiz), título palíndromo, é mais uma canção a demonstrar a alta voltagem poética da dupla-casal: “se tá confuso assim, sem saída,/ eu vou chamar meu outro eu/ se você duvida/ fui conviver comigo/ eu sei, isso é difícil/ até eu me confundi/ no início/ eu é osso/ eu é ócio/ eu é isso/ e foi virando vício”.

Uso da palavra (Bernardo Bravo/ Estrela Leminski/ Lívia Lakomy/ Mayara Santarem/ Renato Negrão/ Téo Ruiz) brinca com a própria língua portuguesa e suas contradições, de forma bem humorada, com ecos da Isca de Polícia: “vou dirigir a palavra mas não vou atropelar”, começa. O Blues do encanto (Luiz Rocha/ Téo Ruiz) preparou o terreno para Gostável (Estrela Leminski/ Lívia Lakomy/ Rogéria Holtz/ Téo Ruiz), facilmente um hit, tocassem a tevê e o rádio o que realmente vale a pena, a letra passeando entre diversas situações em que alguém lembra de outro alguém: “a culpa é sua se te esquecer é inviável/ você é que é uma pessoa tão gostável”.

Quando cantaram Novela das seis (Estrela Leminski/ Téo Ruiz), Estrela agradeceu: “obrigado por terem vindo. Obrigado por não estarem em casa assistindo tevê”. O título da faixa é o lugar em que alguma/s faixa/s do disco deveria/m estar, talvez não ela própria, seria pedir demais, uma crítica aos meios de comunicação: “entre a idade média e a idade mídia/ fogueira das vaidades distraída/ um argumento sem lógica/ contando sempre a mesma história”. No rodapé de cada faixa, no encarte do disco, uma observação sobre a música ou sua feitura. Nesta, diz o seguinte, vale refletir: “Muitos não leem a notícia mas já formulam sua opinião pela chamada. Já passamos pela idade média e agora parece que chegamos na idade mídia. Vamos ter que substituir o termo “jornalismo” pelo “manchetismo”?”.

É duro ter coração mole (Alice Ruiz/ Estrela Leminski) é trocadilho delicioso, enquanto Nosso livro (Estrela Leminski/ Téo Ruiz) é inspirada declaração de amor. A vida não é justa (Estrela Leminski/ Líria Porto/ Téo Ruiz) é tecida a partir de apetrechos de costura, metáfora da própria vida, esse zig-zag.

A próxima parada de Estrela e Téo é o Pará, amanhã (14), no Festival Se Rasgum. Em ritmo de carimbó, Poliamor (Estrela Leminski/ Téo Ruiz) cita o próximo destino: “esse amor não é gaiola/ você pode sair e voltar qualquer hora/ de Paris até o Pará/ esse amor tem passe livre/ é vip, gif, pra uns é fetiche/ um pinhão no tacacá”.

“Eu ouvi um mais um aí?”, riu Téo Ruiz, antes do bis. Alguém gritou “essa noite vai ter sol”, pedindo Luzes (Paulo Leminski). “Essa banda já toca com a gente há um tempão, mas essa a gente não ensaiou”, Estrela saiu pela tangente. Atacaram de Hard feelings (Itamar Assumpção/ Paulo Leminski), com a letra em inglês misturada a Vinheta I, que abre o disco de estreia de Itamar Assumpção: “Benedito João dos Santos Silva, Beleléu/ vulgo Nego Dito/ Nego Dito, cascavel”.

Referências explícitas, recado dado, não a poucos privilegiados, mas aos curiosos, que se dispõem a sair de casa para sacar um som, mesmo, às vezes, sem conhecer, como o próprio Téo Ruiz elogiou a disposição da plateia. “Ah, eu já sei por que tá tão quente. É o calor de vocês”, reiterou os agradecimentos ao público presente. A noite afinal teve sol, talvez por isso fizesse tanto calor em São Luís.