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Kucinski, definitivamente grande

Pretérito imperfeito. Capa. Reprodução

 

Poucas estreias literárias foram tão surpreendentes quanto a de B. Kucinski, apenas aos 74 anos e com uma respeitável carreira como jornalista e professor universitário – sim, é o mesmo Bernardo Kucinski a que estávamos acostumados a ler sobre economia e política. A novela K: relato de uma busca [Expressão Popular, 2011; Cosac Naify, 2014; Companhia das Letras, 2016, 176 p.; leia um trecho] contava, com ares de ficção, a cruel realidade do desaparecimento de sua irmã, também professora da USP, mais um entre muitos episódios até hoje nunca esclarecidos da ditadura militar brasileira.

A K seguiram-se Você vai voltar pra mim [Cosac Naify, 2014, 188 p.], cujos contos passam-se também durante a ditadura militar, e Alice: não mais que de repente [Rocco, 2014, 191 p.], romance policial que trata das investigações do assassinato de uma professora da USP, e a novela Os visitantes [Companhia das Letras, 2016, 85 p.; leia um trecho], espécie de errata, em que um escritor recebe várias visitas em seu apartamento questionando este ou aquele aspecto de seu livro anterior [K], discordando de datas, episódios e imprecisões outras sobre acontecimentos do regime, em geral envolvendo parentes dos reclamantes.

Se em grande parte de suas obras anteriores o inferno é a ditadura militar, agora Kucinski aborda a conturbada relação entre um pai e um filho adotivo sobrevivendo noutro inferno: a dependência química. Com pleno domínio da linguagem, em prosa límpida e cerzida por referências nunca exageradas ou ocas, aborda outras literaturas de ficção produzidas a partir da busca por paraísos artificiais – expressão de Baudelaire –, além de pedagogia e psicanálise.

Pretérito imperfeito [Companhia das Letras, 2017, 151 p.; R$ 39,90, em média; leia um trecho] parte de uma carta escrita pelo pai (mas não revelada aos leitores), desresponsabilizando-se do filho problemático (no fundo, nunca se desliga por completo), a busca frenética deste pelos prazeres proporcionados por estados alterados de consciência (seja lá a substância que se use para obtê-los – ou, antes, com o que quer que se pague para obter estas substâncias), a cruzada em busca de regeneração, recaídas, passagens por presídios e centros de reabilitação.

Em sua ficção, Kucinski questiona a responsabilidade de casais em processos do que chama particularmente de adoção à brasileira, geralmente realizada para suprir alguma carência do casal – e não da criança.

O consumo de drogas é tema desde sempre por demais abordado em quaisquer campos da arte, não só no Brasil. Kucinski equilibra a elegância na escrita com o domínio do assunto, nunca prolixo, controlando qualquer tendência ao enciclopedismo barato, num exercício que o aproxima de mestres como Rubem Fonseca e Sérgio Sant’Anna. Em suma: mesmo tendo estreado tardiamente – mais correto talvez seria dizer que estreou na hora certa – Kucinski o fez já como gente grande.

Fracasso como ficção

Anjo noturno. Capa. Reprodução

 

O conto fracassado, que encerra Anjo noturno: narrativas [Companhia das Letras, 2017, 176 p.; R$ 39,90; leia um trecho], novo livro de Sérgio Sant’Anna, é um exercício de três m: metalinguagem, maestria e modéstia. O carioca, um dos três maiores contistas brasileiros em atividade, perpassa elementos presentes em sua obra para escrever um conto acerca da dificuldade – ou mesmo incapacidade – em escrever um conto (daí o título da narrativa), cujo resultado é uma história justamente sobre isso, mas caminhando pela calçada oposta à da falta de assunto, tema de tantas crônicas neste país de cronistas.

Sérgio Sant’Anna é um autor que já fez o que quis ao longo da carreira, iniciada em 1969 com O sobrevivente. E, diante do reconhecimento, pode, não de agora, continuar fazendo o que quiser. Seus leitores agradecem, tanto entre os que o acompanham desde sempre quanto entre os que conquista a cada novo livro – e ao contrário de artistas de outras áreas, o escritor tem publicado com regularidade, vide os ótimos O homem-mulher (2014) e O conto zero e outras histórias (2016).

Se na história final Sant’Anna se vale de um mergulho em sua própria obra, ao longo das narrativas de Anjo noturno ele mergulha também em sua própria biografia, mesclando elementos reais à ficção em que, não à toa, é tido, merecidamente, como um grande mestre. Caso das magistrais Talk show, em que relata de modo irônico e hilariante, entre diante das câmeras e nos bastidores, a participação de um escritor em um programa televisivo de entrevistas, e A mãe, cujo protagonista costura memórias da infância ao lembrar-se da morte da genitora e de um passado que ela sempre quis esconder.

A rua e a casa é outra narrativa em que são evocadas as memórias da infância, inclusive o período em que o autor morou com a família em Londres. Nela e em Amigos afloram citações literárias, sem pedantismo ou erudição forçada. Outra obsessão de Sant’Anna são as artes plásticas, e o casal protagonista de Augusta, que abre o livro, é tragédia bem-humorada e erótica envolvendo um pintor.

Eis o último parágrafo do livro, sem o risco de spoiler: “O conto fracassado era a escrita do declínio de um autor em crise, equilibrando-se num fio estendido sobre a vala comum, mas às vezes ele se surpreendendo a admitir, numa espécie de exaltação: apego-me a este fracasso e nele me reconheço”.

Os leitores hão de convir: estendido sobre a vala comum o autor passeia e a corda certamente nem é tão bamba assim. Poucos são os autores que conseguem esta autoridade, esta superioridade, por que não dizer? Sant’Anna mergulha na própria obra, mas em vez de se repetir, oferece aos leitores algo completamente novo. Estes certamente desejarão ao autor: continue fracassando assim.

Encontro de almas

Nossas noites. Capa. Reprodução

Último romance publicado pelo americano Kent Haruf (1943-2014), Nossas noites [Our souls at night, tradução de Sonia Moreira; Companhia das Letras, 2017, 159 p.; R$ 39,90; leia um trecho] é um pequeno manifesto em favor da liberdade e do amor, abordando temas como a solidão e a velhice com delicadeza e elegância.

Conta a saga de Addie Moore e Louis Waters, viúvos setentões que resolvem passar as noites juntos, conversando no escuro, como forma de vencer a solidão decorrente dos falecimentos de seus cônjuges e das mudanças dos filhos para longe do condado de Holt, a pacata e provinciana cidade em que vivem no Colorado.

Vivendo há décadas na mesma rua, o par de protagonistas não era exatamente o que se pode chamar de amigos, embora soubessem um bocado da vida um do outro. Não tardam boatos maldosos sobre seus encontros noturnos – apesar disso, seguem adiante com seu intento.

Esta é uma grande lição do ótimo livro de Kent Haruf: em efeito dominó, idade e experiência trazem maturidade, que traz coragem e o necessário pouco ou nada ligar para a opinião alheia quando se trata da própria felicidade. O que nada tem a ver com egoísmo.

Recheado de diálogos bem construídos, Nossas noites passa por conflitos familiares, memórias e momentos tristes e felizes, brigas e pequenos prazeres simples, como a própria vida. Em meio a tudo isso, visitas dos filhos do “casal”, o neto de Addie, camundongos e uma cadela.

As outras grandes lições são: nunca é tarde e tudo vale a pena. Refiro-me à própria vida, mas metaforicamente também a acompanhar o cotidiano dessas noites (e dias) plenos de beleza e poesia – o poeta que Louis quis ser na juventude traz referências à obra, sem arrogância ou exagero.

Com gingado, Lira Neto conta histórias do samba

[O Imparcial, ontem]

Inaugurando nova trilogia, Uma história do samba: volume I (As origens), novo livro do autor das biografias de Padre Cícero e Getúlio Vargas, conta as histórias do início do samba e sua consolidação como gênero musical brasileiro por excelência

Uma história do samba: volume I (As origens). Capa. Reprodução
Uma história do samba: volume I (As origens). Capa. Reprodução

 

Autor das bem sucedidas biografias de Padre Cícero [Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão; Companhia das Letras, 2009] e Getúlio Vargas [Getúlio: dos anos de formação à conquista do poder (1882-1930); Companhia das Letras, 2012; Getúlio: do Governo Provisório à ditadura do Estado Novo (1930-1945); Companhia das Letras, 2013; e Getúlio: da volta pela consagração popular ao suicídio (1945-1954); Companhia das Letras, 2014] – trilogia que vendeu 250 mil exemplares – o escritor Lira Neto se põe agora a contar as histórias do samba em Uma história do samba: volume I (As origens) [Companhia das Letras, 2017, 342 p.; R$ 64,90], primeiro volume de uma nova trilogia.

Lira Neto acerta ao usar o artigo e o plural no título de seu novo livro: trata-se de uma história, sua versão, digamos, das origens do brasileiríssimo gênero musical, do qual até hoje é impossível falar no singular.

De quando o samba ainda era uma denominação comum para festas, em vez de designar um gênero musical, até o início do primeiro governo de Getúlio, o autor passeia por diversos momentos e nomes fundamentais para a consolidação do samba como essa espécie de atestado de brasilidade em que se configurou.

Sem se pretender dono da verdade, o autor tem a ginga e a malemolência para entrecruzar diversos episódios e contar várias histórias deliciosas. Não é, no entanto, um livro menos sério, fruto de árdua pesquisa – notas e fontes somam quase 40 páginas.

O livro começa com o convite de Heitor Villa-Lobos, então diretor do Departamento de Música da Secretaria de Educação e Cultura do Distrito Federal – à época ainda o Rio de Janeiro – a Zé Espinguela para o resgate de um cordão carnavalesco.

Passa pelas parcerias inaugurais do maranhense Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco, pela fundação das primeiras escolas de samba, como a Deixa Falar – que viria a dar na Estácio de Sá – e a Estação Primeira de Mangueira, por Cartola, Carlos Cachaça e companhia, pela gravação de diversos músicos e músicas populares brasileiros a bordo de um navio, numa jogada de marketing e política de boa vizinhança americana, entre os quais estavam Cartola e a santíssima trindade da música brasileira: Pixinguinha, Donga e João da Baiana.

Uma história do samba: volume I (As origens) visita também a polêmica em torno de ter sido (ou não) o maxixe Pelo telefone [1916], de Donga, o primeiro samba – a música é considerada marco inaugural do gênero e em torno de sua data de gravação celebrou-se, ao longo de 2016, prolongando-se por este ano, o centenário do samba.

Conta deliciosas histórias sobre Noel Rosa – que trocou a medicina pelo samba, até morrer tuberculoso aos 26 anos –, outro nome fundamental para a popularização e “urbanização” do samba, Ismael Silva, Francisco Alves e Mário Reis – estes, dois dos maiores cantores de sua época, ganharam fama também como “comprositores”, isto é, pagavam para ter seu nome em parcerias em que não puseram nada além da voz, uma espécie de pedágio ou jabá, antes de esta acepção ter sido inventada.

Lira Neto foge da enfadonha linearidade, escreve como se sambasse, e, qual um passista na avenida, leva o leitor a Paris com Os Oito Batutas, naturalmente liderados por Pixinguinha, passeando depois pelas agruras que o grupo enfrentou em turnê pela vizinha argentina. Lembra ainda Sinhô, autor de Jura, tido como o Rei do Samba, que faleceu na miséria, vítima da tuberculose que venceu tantos artistas, além das primeiras competições entre as escolas de samba cariocas, organizadas pelo efêmero Mundo Sportivo, jornal comandado por Mário Filho – que viria a batizar o estádio do Maracanã.

Com pitadas de indispensável bom humor, Lira Neto acompanha as evoluções do samba neste curto período inaugural. Merecem atenção do leitor também o destacado papel da crítica e o racismo vigente à época. Ao fim da leitura, impossível não ansiar pelo/s próximo/s volume/s da trilogia Uma história do samba. Este primeiro já se configura obra imprescindível, não só sobre a história do samba, mas sobre a história da música (popular) brasileira.

Aqueles meninos somos nós

Os meninos da Rua Paulo. Capa. Reprodução
Os meninos da Rua Paulo. Capa. Reprodução

 

É bastante oportuna a presente reedição de Os meninos da Rua Paulo [Companhia das Letras, 2017, 271 p.], numa época em que valores como união, companheirismo, fidelidade, dignidade, honra, lealdade e humildade, entre outros – de que, afinal, trata o livro –, andam tão “fora de moda”.

Desde que foi lançado, há 110 anos, o clássico juvenil de Ferenc Molnár vem esgotando edições e conquistando, mais que leitores, gente que devota a ele algum pedaço importante de sua formação, como atesta o apêndice emocional do volume, com belos textos de Nelson Ascher e Michel Laub.

Para crianças de todas as idades, poderia recomendar o clichê publicitário, a aventura é por demais conhecida e emocionará leitores de primeira viagem e os que a ela retornam. Conta a história de adolescentes que brigam pelo direito de ocupar um terreno baldio, o grund, numa área de Budapeste. São dois exércitos organizados, com suas hierarquias, táticas, estratégias e muita disposição.

A tradução e as notas caprichadas de Paulo Ronái, ele mesmo nascido húngaro e tornado brasileiro, são um luxo, apontando detalhes que poderiam nos passar desapercebidos, da pronúncia dos nomes dos personagens a pequeníssimos escorregões do autor (por exemplo a confusão em torno da bandeira de um dos exércitos juvenis que protagonizam a aventura).

Até hoje não se sabe ao certo se Molnár foi integrante da Sociedade do Betume, embora duas passagens no texto indiquem que sim. O título do livro já nos instiga a simpatizar com ela, mas independentemente de para que lado se torça e dos vencedores, é um livro paradoxalmente triste, apesar de todas as lições que dele podemos tirar.

Um bom exemplo destas lições é a fala de Nemecsek, quando apanhado em território inimigo: “Preferi tomar um banho a ficar à beira do lago rindo de um camarada. Prefiro ficar na água até o Ano-Bom a conspirar com os inimigos dos meus amigos. Pouco me importa que vocês me tenham dado um banho. Outro dia caí na água sozinho: foi quando o vi aqui pela primeira vez, entre estranhos. Podem convidar-me a ficar com vocês, adular-me, cumular-me de presentes: nada tenho que ver com vocês. Se me botarem na água mais uma vez, ou cem vezes, ou mil vezes, voltarei sempre: amanhã, depois de amanhã, e me esconderei em algum lugar onde vocês não me verão. Não tenho medo de nenhum de vocês. E, se vierem à rua Paulo tomar-nos o nosso terreno, lá estaremos. Lá, verão que, quando nós também somos dez, sabemos falar em outro tom. Comigo a briga não foi difícil! Vence quem é mais forte. Os Pásztor roubaram as minhas bolas de gude no parque do Museu, porque eram os mais fortes! Dez contra um, é fácil! Mas a mim pouco importa. Podem-me dar uma surra, se quiserem. Bastava eu não querer para não entrar na água, mas recusei o seu convite. Podem afogar-me ou matar-me a pauladas: eu nunca serei traidor como certos indivíduos… como este…” (p. 125-6), uma verdadeira aula de dignidade em tempos golpistas.

Ou ainda: “Esta é a sorte do traidor: desconfiam dele mesmo quando fala a verdade” (p. 186). “Ao ler, este ou qualquer outro livro, queremos fantasiar – pleiteamos, mesmo que já adultos, um espaço livre para a imaginação, reivindicamos a infância de volta, o nosso terreno baldio”, afirma o editor Luiz Schwarcz na orelha-exceção, mesmo quando perdemos este terreno baldio para a especulação imobiliária, por exemplo.

Pode parecer apenas uma fábula juvenil, mas no fundo, Os meninos da Rua Paulo é um livro sobre cada um de nós, atualíssimo, mesmo após 110 anos de publicado.

Os tribunais nossos de todos os dias

O tribunal da quinta-feira. Capa. Reprodução
O tribunal da quinta-feira. Capa. Reprodução

 

Com Diário da queda [2011] e A maçã envenenada [2013], Michel Laub já havia inscrito definitivamente seu nome entre os grandes escritores contemporâneos no Brasil. O tribunal da quinta-feira [Companhia das Letras, 2016, 183 p.; leia um trecho], seu novo romance, é uma alegoria destes tempos em que não apenas as celebridades são passíveis de terem sua vida privada exposta em redes sociais.

Michel Laub tem pleno domínio da linguagem e da narrativa, no caso deste livro construída a partir de recortes: e-mails que dois amigos publicitários que se conhecem desde a faculdade trocam sobre assuntos os mais variados, vazados por sede de vingança da ex-esposa do protagonista.

O autor já provou não estar preso a uma fórmula em outros romances – Música anterior [2001], Longe da água [2004], O segundo tempo [2006] e O gato diz adeus [2009]. O tribunal da quinta-feira integra uma trilogia, junto a seus dois romances anteriores. Os três têm capítulos curtos, partem de um grande acontecimento – a segunda guerra mundial em O diário da queda, um genocídio étnico em Ruanda e o suicídio de Kurt Cobain em A maçã envenenada, e a epidemia de Aids no Brasil nos anos 1980, no livro recém-lançado.

Outra semelhança que guardam entre si os livros da trilogia são a mistura entre realidade e ficção. “Posso até falar de outros gostos dele, do prato que ele pedia nesses almoços, de como ele se posiciona sobre a situação política, econômica e moral do Brasil em 2016 se isso tiver alguma importância, mas no fundo o assunto não terá mudado”, anota, trazendo a triste realidade brasileira em tempos de golpe para dentro de sua ficção, ao apresentar Walter, personagem homossexual e soropositivo com quem José Victor, o protagonista, troca as mensagens de e-mails que serão vazadas ao longo da trama.

O autor aborda a crise de meia idade de um publicitário aos 43 anos, o mundo da publicidade – tira onda de slogans –, o ódio constante e comum de comentaristas de internet, a evolução na convivência com o vírus HIV ao longo dos anos – aqui volta a citar personagens reais como Cazuza, Lauro Corona, Sandra Bréa e Cláudia Magno, num jogo em que demonstra tanta habilidade quanto com as palavras: Laub não soa menor ou menos importante ao levar para seu texto – cheio de ironia – o “miguxês” de e-mails e redes sociais ou ao transcrever um áudio de whatsapp.

O enredo se passa em cinco dias, entre o domingo em que a ex-esposa distribui trechos de e-mails a amigas (e esposas de colegas de trabalho de José Victor) e estes viralizam internet (e consequentemente redes sociais) afora, até a quinta-feira do título: as redes sociais em que somos todos réus, promotores e juízes. As vidas dos envolvidos sofrem uma reviravolta até o fecho hitchcockiano de um romance sobre linchamento virtual e social, a ficção ajudando a entender a dura, cruel e nem sempre bem humorada realidade.

Banda imaginária ajuda a entender melhor artista de real grandeza

 

The 42nd St. Band - Romance de uma banda imaginária. Capa. Reprodução
The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária. Capa. Reprodução

Renato Russo ainda era apenas Renato Manfredini Jr. quando, entre 1975 e 76, com de 15 para 16 anos de idade, recluso em seu quarto por conta de uma epifisiólise, rara doença óssea, escreveu The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária [Companhia das Letras, 2016, 221 p.; org.: Tarso de Melo; tradução: Guilherme Gontijo Flores; leia um trecho]. O nome da banda tem origem no endereço do bar Stonewall, palco de um massacre a LGBTs, que o cantor já havia homenageado em seu primeiro disco solo, The Stonewall Celebration Concert [1994].

O livro é uma espécie de diário da banda, como se um fã recortasse revistas e jornais sobre os ídolos e guardasse os recortes em uma pasta. Há entrevistas, formações, discografia, cronologia. O futuro líder da Legião Urbana constrói seus personagens inclusive do ponto de vista psicológico, uma prova disso é o comportamento dos integrantes da banda que dá título ao livro durante as entrevistas.

Renato Russo demonstra profundo conhecimento sobre a música pop mundial. Sua banda – Eric Russell, protagonista de The 42nd St. Band, é seu alter ego – tinha Jeff Beck (ex-Yardbirds) e Mick Taylor (ex-Rolling Stones), misturando personagens reais a personagens imaginários.

O mesmo acontece com faixas gravadas pela banda. No livro, Let me die in your footsteps é de Russell (e não de Bob Dylan) e Close the door lightly (when you go) é de Dylan (e não dos Smiths). Há vários outros exemplos e fica explícito a adoração da banda imaginária – e do autor – por Beach Boys, Stones, Beatles, Dylan.

Há algo de premonitório na obra. Renato Russo acabaria sendo um dos maiores nomes do pop rock brasileiro em todos os tempos e o livro relata (ab)uso de drogas, shows lotados, turnês bem sucedidas, amor e ódio da crítica especializada e mortes trágicas – entre os membros das várias formações da The 42nd St. Band, John Robbins morre de overdose aos 45, John Buck em um acidente de avião aos 62, e Eric Russell de câncer de pulmão aos 67 (Renato Russo morreu há 20, aos 36, de complicações decorrentes do vírus da aids). Aloha, título de uma música de A tempestade [1996], último disco lançado pela Legião Urbana com Renato Russo ainda vivo, já aparece no romance, como uma das faixas gravadas pela The 42nd St. Band.

É um romance fragmentário, montado a partir de anotações (em inglês) deixadas por Renato Russo em diversos cadernos, que muito provavelmente não seria publicado se ele ainda estivesse vivo. Como os diários de sua passagem por um rehab – Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço [Companhia das Letras, 2015, 168 p.; org.: Leonardo Lichote] –, The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária ajuda a compreender a mente inquieta e o espírito criativo de um dos maiores artistas surgidos no Brasil na segunda metade do século passado.

Para ler e reler (e deixar mais doce a vida)

Trinta e poucos. Capa. Reprodução
Trinta e poucos. Capa. Reprodução

 

Qualquer assunto é tema para Antonio Prata e essa versatilidade também faz dele um grande cronista. Trinta e poucos [Companhia das Letras, 2016, 226 p.; leia um trecho] reúne um punhado de crônicas suas publicadas desde 2010 no jornal Folha de S. Paulo.

Do relacionamento à paternidade, passando por futebol, infância, tecnologia, Deus, Keith Richards, procrastinação, cirurgia plástica, cinema e muito mais, qualquer assunto é tema para Antonio Prata, insisto.

A crônica, esse gênero legitimamente brasileiro, tornado grande literatura por nomes como Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Nelson Rodrigues, entre outros – não à toa todos citados na seleção de Trinta e poucos –, encontra em Antonio Prata um dos melhores nomes a garantir a continuidade desta tradição, hoje, no país.

Por detrás de textos aparentemente simples, descolados do compromisso com o factual, o calor da hora, tão caro às principais manchetes dos jornais, a crônica pode ser erroneamente vista como gênero menor. No fim das contas, tudo acaba forrando obra ou embrulhando peixe, como tira sarro o próprio Prata. E talvez aí resida a necessidade de o autor reunir as melhores em um livro, a que os afeitos às tecnologias podem achar desnecessário: livro? Que coisa mais obsoleta! Ainda mais com textos já publicados em jornal, outros torcerão o nariz.

Por detrás de textos aparentemente simples, insisto, toda a sensibilidade e um misto de erudição e cultura de almanaque do autor – em Saída para o mar, por exemplo, ele cita a Wikipedia como fonte. Engana-se quem pensa, no entanto, que é fácil ser cronista. Que é fácil ser Antonio Prata.

Filho do Mário (como assim, que Mário?, ele também uma referência, também personagem), Antonio Prata tem quase quarenta, como entrega o título do presente volume, e já tem, mesmo tão jovem, seu lugar garantido em algum panteão ao lado de todos os citados – inclusive Luis Fernando Veríssimo e Humberto Werneck, de quem também lembra em textos ao longo de Trinta e poucos, o bom humor sempre presente, outra característica sua.

A vida é que nem rapadura: é doce, mas é dura, diz o dito popular. Pode ser mais doce ou mais dura. Depende, certamente, se você lê ou não Antonio Prata.

Sérgio Sant’Anna partilha memórias em novo livro

O conto zero e outras histórias. Capa. Reprodução
O conto zero e outras histórias. Capa. Reprodução

 

Para os leitores que, qual este resenhista, se maravilharam com o soberbo O homem-mulher [Companhia das Letras, 2014, 184 p.], a espera até que não foi tão grande: dois anos depois daquele grande livro, Sérgio Sant’Anna, gênio absoluto da narrativa curta no Brasil, lança O conto zero e outras histórias [Companhia das Letras, 2016, 173 p.; leia um trecho].

O carioca mergulha na própria memória para escrever os 10 contos do volume. No conto que dá título ao livro, a lembrança de sua passagem, adolescente, por Londres, entre “a tonteira do corpo e a emoção da transgressão”, ao tragar, com o irmão, o primeiro cigarro, um samba de Noel Rosa aprendido com o pai, o primeiro beijo e o primeiro namoro.

Flores brancas é um conto de amor e desamor, dos desgastes provocados pelo cotidiano, certa necessidade de aventura e sobre a amizade, essa delicada forma de amar. O protagonista, como foi o autor, é funcionário da Justiça do Trabalho e professor universitário.

A participação de Sérgio Sant’Anna, então um autor iniciante (havia estreado com Os sobreviventes, em 1969), no Programa Internacional de Escritores (International Writing Program), na Universidade de Iowa, Estados Unidos, é rememorada em Vibrações, narrativa fragmentada, feita de colagens de lembranças, mais de 40 anos depois. Sem caretice, o autor, ali chamado simplesmente pela inicial S, lembra escritores, poemas, casos, drogas e álcool – sempre com o bom humor que lhe é peculiar, lembra, por exemplo, que o programa era apelidado de International Drinking Program, devido aos rios de álcool ingeridos pelos participantes. O tema é retomado em Caminhos circulares.

No prefácio de 50 contos e 3 novelas [Companhia das Letras, 2007, 624 p.], José Geraldo Couto anota que conto é tudo aquilo o que Sérgio Sant’Anna deseja transformar em conto, parafraseando o “conto é tudo aquilo que chamamos conto”. No comovente A bruxa, neste O conto zero, o autor parte de uma situação prosaica, o inseto que batiza o conto, uma espécie de libélula, pousado em seu quarto com vista para o Cristo Redentor, para lembrar Clarice Lispector, musa que chegou a conhecer. Trata o inseto como se este fosse um sinal da presença do espírito da escritora. “De todo modo, muitas vezes fantasiei que voltava à sua casa e partilhava sua cama com ela. Mas não ouso escrever nenhuma vulgaridade sobre Clarice”, confessa.

O museu da memória, conto que encerra o livro, é uma espécie de síntese deste reencontro – embora saibamos que ele nunca se perdeu – de Sérgio Sant’Anna consigo mesmo. Ou melhor: um reencontro dele com suas origens, algo como “por que eu me tornei escritor”, onde surgem temas caros à sua ficção, como sexo, futebol e música.

“No museu da memória há a lembrança de quando eu tinha uns quatro anos, cortando-me com o aparelho de meu pai, ao imitá-lo fazendo a barba. Ah, quando terá começado este verdadeiro eu?”, finaliza.

As galerias de Kucinski

Os visitantes. Capa. Reprodução
Os visitantes. Capa. Reprodução

 

Assinando simplesmente B. Kucinski, Bernardo Kucinski só estreou na literatura de ficção quando já contava 74 anos. Já era um professor bastante respeitado, graduado em física, jornalista e cientista político, reconhecido como autor de livros fundamentais em currículos acadêmicos nas áreas de jornalismo, economia e política.

K: relato de uma busca [Expressão Popular, 2011; Cosac Naify, 2014; Companhia das Letras, 2016, 176 p.; leia um trecho], a estreia, é uma autoficção em que o autor narra o desaparecimento da própria irmã entre os horrores da ditadura militar brasileira. A obra bastou para colocar-lhe entre nossos grandes ficcionistas, tendo sido traduzida para oito idiomas e finalista de seis prêmios literários, no Brasil e no exterior. O autor voltaria ao tema nos contos de Você vai voltar pra mim [Cosac Naify, 2014, 188 p.].

Não é à toa ou mera jogada de marketing o anúncio ao pé de Os visitantes [Companhia das Letras, 2016, 85 p.; leia um trecho], o título na capa de seu novo livro: “do autor de K: relato de uma busca”. É que, magro, mas consistente, este volume não existiria sem aquele – embora a leitura do primeiro não seja imprescindível à compreensão deste.

Trata-se de misto de mea-culpa e making of em que o autor, modesto, assume erros e confessa vacilos, num jogo envolvente com o leitor: o título da novela alude aos que vão até sua casa, quase sempre com o pretexto de criticar o livro ou o autor.

Citações interessantes ao longo de Os visitantes – os escritores Chico Buarque, Enrique Vila-Matas, Fiódor Dostoievski, Franz Kafka, Juan Rulfo, Primo Levi – não fazem de Kucinski um “escritor de escritores”, nem é arroto gratuito de erudição.

Kucinski desfila uma rica galeria de personagens para construir uma espécie de errata em forma de novela. Personagens e situações tão consistentes que, a despeito da magreza do livro, acabam por explicar melhor determinadas passagens de K: relato de uma busca. Se a estreia já alçara o autor ao status de grande entre nossos ficcionistas, este Os visitantes é uma espécie de carimbo de confirmação de seu lugar nessa galeria.