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Bruno Batista lança hoje (27) em São Luís videoclipe de Caixa preta

Divulgação

 

Logo mais às 20h, de graça, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), o cantor e compositor Bruno Batista lança o videoclipe de Caixa preta (classificação indicativa: 14 anos), faixa de Bagaça (2016), seu quarto disco.

Este que vos perturba terei o prazer de mediar um papo entre o artista, o diretor Arturo Saboia, a produtora Luna Gandra e o ator Raffaele Petrini, diretor do Cine Praia Grande. Após a conversa e a exibição do videoclipe, uma after party com entrada gratuita aguarda o público no Chico Discos (esquina de 13 de Maio com Afogados, Centro), em que Petrini assume seu terceiro papel: o de dj da festa.

Com patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, o videoclipe Caixa preta foi rodado em dois dias em um casarão do Centro Histórico ludovicense. É estrelado por Ana Carolina De Dea e Petrini e a equipe técnica se completa com Arturo Saboia (roteiro e direção), Luna Gandra (produção executiva/set), Elden Magrão (direção de fotografia), Cris Quaresma (direção de arte/figurino), Manoel (logger/drone) e Magaive (gaffer).

Nesta faixa de Bagaça, Bruno Batista (voz) é acompanhado por Rovilson Pascoal (violão e produção), Gustavo Ruiz (guitarra e synth), Meno del Picchia (contrabaixo), Felipe Roseno (percussões e percussões eletrônicas), Pedro Mibielli (violino), Glauco Fernandes (violino), Dhyan Toffolo (viola) e Marcus Ribeiro (violoncelo). O arranjo de cordas é de João Carlos Araújo.

Letra de Bruno Batista e música de Demetrius Lulo, Dandara e Paulo Monarco, Caixa preta é uma canção de amor com referências que vão de Caetano Veloso a Mestre Leonardo. Ouça e chegue cantando ao lançamento do videoclipe:

Um concerto brasileiríssimo

A pianista Rose Mary Fontoura e o Instrumental Pixinguinha. Foto: divulgação

 

Um bom público se fez presente ontem (7) ao Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), onde, pouco depois das 18h aconteceu mais uma edição do projeto Concertos Sesc Partituras.

Na ocasião as atrações eram a pianista Rose Mary Fontoura e os bambas do Instrumental Pixinguinha: João Neto (flauta), Nonatinho (pandeiro), Raimundo Luiz (bandolim), Juca do Cavaco e Domingos Santos (violão sete cordas).

O grupo já existe há 27 anos, embora sua formação tenha variado desde então e a história é bastante conhecida: formado nos corredores da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), o Instrumental Pixinguinha foi o primeiro grupo maranhense a dedicar um disco inteiramente ao choro: Choros maranhenses (2005) reúne composições de seus integrantes e pérolas de mestres já falecidos, todos nascidos no Maranhão.

O repertório do concerto foi executado sem amplificação, apenas com o som natural dos instrumentos, como é a proposta original de projetos como o Concertos Sesc Partituras e o Sonora Brasil. Dividido em duas partes, a apresentação, no primeiro momento, revezava os integrantes do Instrumental Pixinguinha em duos com a também professora da Emem Rose Mary Fontoura, como na valsa Zinha (Patápio Silva), que abriu o espetáculo com ela acompanhada pela flauta de João Neto – na sequência, outra composição de Patápio Silva com a mesma formação, Serenata d’amore.

Raimundo Luiz (bandolim) e Domingos Santos (violão sete cordas) executaram Rios (Paulinho Martins). “Carlos Gomes, um dos maiores compositores brasileiros em todos os tempos”, reverenciou o professor Raimundo Luiz, ao duetar com Rose Mary Fontoura em Al chiaro di luna.

Depois foi a vez de ela ficar sozinha no palco e interpretar duas peças de “uma mulher que eu admiro bastante, uma mulher à frente de seu tempo”, como enfatizou ao anunciar Chiquinha Gonzaga e suas Atraente, mais pulsante, e Tamoio, de andamento mais lento, como ela mesmo indicou – a confessada influência é perceptível na maestria de suas execuções.

O dueto de bandolim e violão sete cordas se repetiu no baião Minha terra, de Jorge Cardoso – bandolinista que é uma das atrações da temporada 2017 do projeto RicoChoro ComVida na Praça, cuja edição inicial acontece no próximo dia 20 (sexta-feira), às 19h, no Anfiteatro Betto Bittencourt, no mesmo Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, tendo como atrações o dj Pedro Sobrinho, o Regional Deu Branco e o encontro de gerações de Josias Sobrinho e Tiago Máci, voltamos à nossa programação normal.

Outra peça de Chiquinha Gonzaga encerrou o primeiro bloco da apresentação: o Candomblé, de visível influência africana, executada por Rose Mary Fontoura (piano), Nonatinho (pandeiro) e João Neto (flauta e pífano).

A segunda parte do concerto concentrou-se em uma pequena amostra do repertório de Choros maranhenses, único disco do Instrumental Pixinguinha lançado até aqui. “Estas músicas, nossas, ainda não estão no site do Sesc, mas nós já estamos providenciando. Aí qualquer um vai poder executar”, anunciou Raimundo Luiz, referindo-se ao acervo do site Sesc Partituras, em que está disponível para download a maior parte das peças executadas no concerto de ontem.

O quinteto começou por Lembro-me de você assim, feita por Juca do Cavaco em homenagem a seu falecido sogro – ele cumprimentou a esposa, na plateia, antes do início da execução –, tocando, na sequência, Miritibano (Domingos Santos), choro autobiográfico – o título é o gentílico de Miritiba, hoje Humberto de Campos, no interior do Maranhão, terra natal do autor –, e Elegante (Raimundo Luiz), antes da qual o pedagógico Juca do Cavaco fez deferências à Rádio Universidade FM, “a 106,9”, enfatizou a frequência, em cujo prêmio anual a música foi vencedora há alguns anos e por cuja frequência vai ao ar, nas manhãs de domingos, o Chorinhos e Chorões, do qual Juca é ouvinte assíduo e virou bordão, apresentado por Ricarte Almeida Santos, “um dos maiores batalhadores pelo choro em nosso estado”.

Talvez o momento de maior emoção do concerto tenha sido a execução, pelos seis músicos, do belo Choro axixaense, do compositor José Maria Fontoura, pai da pianista e autor da melodia do hino daquele município da região do Munim – a letra do hino é da poeta Mary Silva Fontoura, sua mãe.

Rose Mary Fontoura e o Instrumental Pixinguinha foram aplaudidos de pé por uma plateia em êxtase. Ainda de pé, a pianista anunciou o bis: Chiquinha Gonzaga voltava a aparecer, com Gaúcho, com a pianista novamente acompanhada do grupo completo. Um fecho sublime para um concerto de repertório brasileiríssimo, que dá algumas provas a quem porventura insista em duvidar: há plateia para a música que não encontra espaço em grandes meios de comunicação; vivos ou falecidos, nossos mestres não devem nada a ninguém em termos de qualidade; e é preciso investir cada vez mais em projetos/espaços de fruição como o Sesc Partituras.

Aberta ontem, Mostra Cinema e Direitos Humanos segue até dia 20 em São Luís

Foi aberta ontem (15), às 19h30, em São Luís a 11ª. Mostra Cinema e Direitos Humanos (antes Mostra Cinema e Direitos Humanos no Mundo e antes ainda Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul), em sessão concorrida – havia gente em pé e sentada nas laterais do Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), superando a capacidade da sala, de 120 lugares.

Houve discotecagem e coquetel no hall do Odylo antes da abertura da sala, onde já haviam sido realizadas, ontem, duas sessões vespertinas, exibindo curtas-metragens – a Mostrinha é uma novidade da programação deste ano, com filmes voltados para o público infantil.

Na solenidade de abertura, falas de Janet Rockenbach, curadora da Mostra, Nat Maciel, produtora local, e Francisco Gonçalves, secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular. A primeira disse ter assistido entre 160 a 180 filmes, número que pode ser considerado baixo, mesmo em se tratando da produção restrita ao tema da Mostra – Direitos Humanos, de modo geral, e particularmente, Gênero, questão abordada na Mostra Temática. A homenageada desta edição é a cineasta Laiz Bodansky, que tem sete filmes exibidos na Mostra Homenagem.

É mais uma evidência do descaso do governo ilegítimo de Michel Temer para com o assunto. Entre os vários motivos para número baixo de inscrições pode estar o período curto para que realizadores inscrevessem seus trabalhos no edital público lançado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Ministério da Justiça e Cidadania em novembro passado – quando normalmente, nas 10 edições anteriores, a Mostra já estava acontecendo.

A Mostra começou em 2006, ainda durante o primeiro mandato do presidente Lula, à época abrangendo apenas algumas capitais. Seguiu acontecendo anualmente, sempre entre outubro e dezembro, período próximo ao aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH, 10 de dezembro), inserindo-se nas comemorações da efeméride, tendo atingido todas as capitais. 2016, após a destituição da presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff, foi o primeiro ano em que a mostra não foi realizada, voltando agora, descolada do calendário original – 18 de maio é o Dia nacional de combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, alusão ao assassinato da menina Araceli Cabrera Sánchez Crespo, em Vitória/ES, em 1973, como contada pelo maranhense José Louzeiro no romance-reportagem Araceli, meu amor [reeditado pela Prumo em 2013].

Em suas falas durante a solenidade de abertura, Nat Maciel e Francisco Gonçalves lembraram o conturbado momento político vivido pelo Brasil. “É preciso que este cinema esteja cheio em todas as sessões, de modo que não possa haver o argumento de que a gente não merece a Mostra por que ninguém vem ver os filmes”, argumentou ela. Ao fim da fala dele, que lembrou a onda de ódio que toma conta não só das redes sociais, ouviram-se uns poucos gritos de “Fora, Temer!”. Depois a plateia aplaudiu uma performance de dublagem de uma drag queen.

Depois que te vi. Frame. Reprodução
Depois que te vi. Frame. Reprodução

A sessão de abertura exibiu o hilariante Depois que te vi [Brasil, 2016, 16 min.], de Vinicius Saramago, que aborda a vida de Gustavo, autista que trabalha como caixa e entregador na farmácia do tio, de sua vida pacata e seu cotidiano autômato até a descoberta de uma grande paixão. O autismo é abordado com bom humor para delírio da plateia.

Na sequência, completou a noite o documentário De que lado me olhas [Brasil, 2014, 15 min.], de Ana Carolina de Azevedo e Helena Sassi, com depoimentos de adolescentes transexuais. Tema importante e urgente, o filme ousa no conteúdo, mas a forma é batida, com sua sequência de personagens reais.

Menos mal não ter sido encerrada por um governo que vem se esforçando por retrocessos e cassação de direitos, a 11ª. Mostra Cinema e Direitos Humanos segue até o dia 20 de maio, no Cine Praia Grande. A entrada é gratuita em todas as sessões e a programação completa pode ser conferida no site da Mostra.

Em tempo, uma curiosidade: entre realizadores, patrocinadores e apoiadores no material de divulgação da Mostra não vemos a marca do Ministério da Cultura.

Martírio é talvez o mais importante filme sobre a questão indígena já realizado no Brasil

Martírio. Frame. Reprodução
Martírio. Frame. Reprodução

 

Um policial é assassinado e causa comoção em membros da bancada ruralista, após a viralização de um vídeo em que agoniza dizendo-se amigo de indígenas. Os conflitos entre Guarani-Kaiowas registram um placar de ao menos 50 lideranças indígenas assassinadas ao longo dos últimos 30 anos contra três policiais, embora a questão não seja relativizar ou hierarquizar a importância de vidas.

Martírio. Cartaz. Reprodução
Martírio. Cartaz. Reprodução

Nada é excessivo nas quase três horas de Martírio [Brasil, 2017, 160 min.], documentário em que o antropólogo e indigenista francês radicado no Brasil Vincent Carelli – narrador da película –, Ernesto de Carvalho e Tita registram a luta por terra da população indígena sul-mato-grossense, entre os rios Paraná e Paraguai. O filme amealhou entre outros prêmios os de melhor longa-metragem (especial do júri e do júri popular) no 49º. Festival de Brasília e melhor documentário (do público) na 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo.

É talvez o mais importante filme sobre a questão indígena já realizado no Brasil. Embora se concentre nos Guarani-Kaiowas e nos últimos 30 anos de História, cobre mais de 100 anos de luta indígena (as reivindicações pouco mudam, variando o grau de violência empregado contra os povos originários), abordando desde a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), em 1910, o decreto de Getúlio Vargas que institui 19 de abril como Dia do Índio, espécie de “prêmio de consolação” pelo “embranquecimento” promovido pelo Estado, passando pela criação da Fundação Nacional do Índio (Funai), durante a ditadura militar, e a fatídica guarda indígena, quando indígenas recebiam treinamento militar para a prática de torturas, até a Assembleia Constituinte, que só garantiu aos indígenas o papel de sujeitos de direitos graças às suas mobilizações.

Vincent Carelli tem cerca de 40 anos de atividade indigenista e Martírio é um filme fartamente documentado – afirmação que pode soar redundante, já que estamos tratando de um documentário. Isto é: vai além da colheita de depoimentos de indígenas – alvo de críticas aos antropólogos e seus laudos pelos ruralistas e simpatizantes de plantão – mostrando a realidade nua, crua e quase sempre sangrenta. Tudo lhe serve de fonte: de documentos históricos a imagens de arquivos de emissoras de tevê, passando por filmagens dos próprios indígenas, com câmeras e celulares – para espanto de alguns, que os imaginam como se ainda estivéssemos em 1500. Em determinados momentos o espectador se vê no meio de um conflito, inclusive entre a religiosidade e o modo de viver indígena e o capitalismo.

Sem muito esforço, Martírio mostra também o que há de mais retrógrado no Congresso Nacional, ao exibir trechos de reuniões de empresários do agronegócio e da bancada ruralista, formada por alguns daqueles ou seus lobistas, em sua sanha pela retirada dos direitos dos indígenas, sem poupar munição verborrágica contra antropólogos, organizações internacionais, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) – braço da Igreja Católica para a questão indígena –, e até mesmo a Funai, órgão do governo que pretendem desmantelar para mudar as responsabilidades pela demarcação de terras indígenas.

O documentário é, como são os bons filmes do gênero, uma espécie de longa reportagem, em que os diretores demonstram que a questão indígena é um problema complexo e, longe de ser responsabilidade exclusiva dos governos federais do Partido dos Trabalhadores, mostra o quão pouco foi feito nos mandatos de Lula e Dilma, situação que piora após sua destituição pelo golpe parlamentar-jurídico-midiático.

Martírio acompanhou o drama que levou a região e a etinia a um dos mais altos índices mundiais de suicídio – entre os indígenas Guarani-Kaiowas, ocasião em que muitos usuários adotaram o sobrenome indígena em seus perfis em redes sociais, embora o problema exista desde muito antes da invenção do facebook.

Martírio integra a programação da Sessão Vitrine Petrobrás e está em cartaz no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com sessões às 15h20 (de terça a sexta-feira). Os ingressos da Sessão Vitrine Petrobrás custam R$ 12,00 (meia entrada: R$ 6,00).

Praia Grande exibe hoje última sessão de Elis

De amanhã a quarta (22) será exibida a mostra Cinema por elas, com filmes dirigidos por mulheres e ingressos a preços promocionais

Andréia Horta encarna Elis à perfeição. Frame. Reprodução
Andréia Horta encarna Elis à perfeição. Frame. Reprodução

Elis [drama/biografia, Brasil, 2016], a cinebiografia da cantora gaúcha, emociona por diversos aspectos. Falar da trilha sonora é quase uma obviedade. O grande destaque é a atuação estonteante de Andréia Horta, no papel da protagonista: há ali uma entrega de tal maneira, que ela encarna a personagem à perfeição. É convincente e surpreendente, além de ousado: trata-se da estreia de Hugo Prata na direção cinematográfica, encarando logo um furacão cujo apelido era Pimentinha.

O filme se concentra entre a chegada de Elis Regina ao Rio de Janeiro para tentar o sucesso, no exato instante em que os militares tomavam o poder através de um golpe, até a morte da cantora, passando pelos casamentos e seus altos e baixos na carreira artística e na vida doméstica, além dos embates à direita e esquerda – Henfil (Buce Gomlevsky), cartunista dO Pasquim, desenhou-a cantando em um túmulo, quando a mesma, com medo, cantou nas Olimpíadas do Exército, a que acabou obrigada após críticas ao regime em entrevista a jornalistas durante uma turnê no exterior.

O cartunista e seu irmão Betinho, o sociólogo Herbert de Souza, então exilado, seriam homenageados em O bêbado e a equilibrista, parceria de João Bosco e Aldir Blanc, um dos maiores sucessos de Elis Regina até hoje.

Elis orbita em torno de personagens fundamentais para a carreira da artista: Ronaldo Boscôli (Gustavo Machado), Miéle (Lúcio Mauro Filho), Lennie Dale (Júlio Andrade), Nelson Motta (Rodrigo Pandolfo), Jair Rodrigues (Ícaro Silva) e César Camargo Mariano (Caco Ciocler), entre outros. É feliz ao reconstituir a atmosfera de uma época em que brigavam entre si a bossa nova, a jovem guarda e uma miríade de gêneros abrigada pela genérica sigla MPB, em cuja consolidação Elis Regina teve destacado papel, participando de festivais e programas de tevê.

Compositor que Elis Regina ajudou a projetar, Belchior abre e fecha o filme, com as interpretações da cantora para os clássicos Como nossos pais e Velha roupa colorida, ambas gravadas por ela no disco Falso brilhante [1976], após o sucesso da turnê homônima. Desaparecido há alguns anos, reside aí bela homenagem ao cearense – e mais um bom motivo de emoção para o espectador.

Elis terá sua última sessão no Cine Praia Grande hoje (15), às 18h. Os ingressos custam R$ 16,00 (metade para estudantes com carteira e demais casos previstos em lei).

A partir de amanhã (16), além da programação normal, entra em cartaz a mostra O cinema por elas, inteiramente composta por filmes dirigidos por mulheres – com ingressos promocionais a R$ 6,00 para todos/as –, que exibirá os seguintes títulos:

Amanhã (quinta, 16)
16h20: A cidade onde envelheço, de Marília Rocha
18h20: Às cinco da tarde, de Samira Makhmalbaf

Sexta (17)
16h20: As patricinhas de Beverly Hills, de Amy Hackerling
18h: Selma, de Ava DuVernay

Sábado (18)
16h: Olympia – Volume 1, de Leni Riefenstahl
18h: Point break: caçadores de emoção, de Kathryn Bigelow

Domingo (19)
16h20: Tomboy, de Céline Sciamma
18h: Encontros e desencontros, de Sofia Coppola

Segunda (20)
16h20: Pasqualino Sete Belezas, de Lina Wertmuller
18h15: Psicopata americano (versão da Diretora), de Mary Harron

Terça (21)
16h20: Um divã em Nova Yorque, de Chantal Akerman
18h: Fogo sagrado, de Jane Campion

Quarta (22)
16h20: Maldito coração, de Asia Argento
18h: Sessão Especial Coletivo Salé (entrada franca)

A cidade onde envelheço inaugura Sessão Vitrine Petrobrás hoje no Cine Praia Grande

Still: Bianca Aun
Still: Bianca Aun

 

“É melhor acreditar em algo utópico que levar uma vida sem sentido”, diz Teresa (Elizabete Francisca Santos), recém-chegada de Portugal, em uma cena de A cidade onde envelheço [drama, Brasil-Portugal, 2016, 99 min., classificação indicativa: 12 anos]. Adiante, respondendo a Francisca (Francisca Manuel), afirma, utopicamente: “eu não vou envelhecer nunca!”.

As frases resumem bem o filme de Marília Rocha, rodado em Belo Horizonte, com inspiração na própria história da atriz que interpreta a personagem que mora há mais tempo no Brasil. Recém-chegada, Teresa é recebida por Francisca, que já tem algumas opiniões formadas sobre o Brasil e o brasileiro e, de certo modo, já está de saco cheio disso aqui. A tensão entre ficar e voltar é um dos fios condutores da trama.

É uma história bem humorada sobre amizade, saudade, decisões e as reviravoltas que a vida e o mundo dão. E também sobre estranhamentos: as diferenças culturais entre Brasil e Portugal são evidenciadas, por exemplo, na crítica de Francisca ao hábito “folgado” de os jovens da periferia “darem uma bola”, isto é, “filar” uma tragada do cigarro alheio – no meio da história tinha um cachorro.

Se os pensamentos de Teresa podem resumir A cidade onde envelheço, filme que levou os prêmios de melhor filme, direção, atriz e ator coadjuvante no 49º. Festival de Cinema de Brasília, ano passado, a sinuca também pode ser uma boa tradução: o ambiente é divertido, bebe-se, mas também se pensa sobre o futuro, metaforizado na melhor tacada para a próxima bola.

As paisagens de Belo Horizonte tornam o filme ainda mais bonito. Se o hábito incessante de fumar das protagonistas nos faz pensar em um filme de época, Jonnata Doll e os Garotos Solventes nos localizam no contemporâneo. Merece destaque à parte a trilha sonora: a banda cujo vocalista interpreta a si mesmo no filme, entre cerveja, rapé e passeios irresponsáveis, e o Jards Macalé do compacto de estreia, de 1970, com Só morto (Burning night) e Soluços.

A letra da última parece traduzir – num filme, afinal, de traduções, cujo português de Portugal falado pelas protagonistas é legendado – uma briga entre as protagonistas: “quando você me encontrar/ não fale comigo, não olhe pra mim/ eu posso chorar”. Mas que amigos não brigam para depois reconciliar-se? A cidade onde envelheço é, também, um filme sobre recomeço.

Serviço

A cidade onde envelheço estreia hoje (9), às 16h20, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), inaugurando a Sessão Vitrine Petrobrás, que exibirá mais de 15 títulos nacionais ao longo de 2017. Os ingressos custam R$ 12,00 (6,00 para estudantes com carteira e demais casos previstos em lei).

Veja o trailer de A cidade onde envelheço:

A morte em vida (ou uma metáfora destes tristes tempos)

Everaldo Pontes e Sabrina Greve em cena de Clarisse. Still. Reprodução
Everaldo Pontes e Sabrina Greve em cena de Clarisse. Still. Reprodução

 

Clarisse (ou alguma coisa sobre nós dois) [Brasil, 2015, drama, 85 min.; classificação indicativa: 16 anos; estreia amanhã (2), no Cine Praia Grande] não é um filme fácil, com suas metáforas sobre a morte e o capitalismo. Melhor longa-metragem cearense de 2016 de acordo com a Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine), entre vários outros prêmios, o drama de Petrus Cariry tem como protagonistas os fantasmas da infância da personagem-título (Sabrina Greve), que a perseguem numa viagem para encontrar o pai (Everaldo Pontes), um milionário da indústria da mineração em fase terminal – da vida, não de seu “sucesso” capitalista.

Pragmático, apesar do hobby de taxidermista, um dos orgulhos do pai de Clarisse é tê-la casado bem, com um estrangeiro (David Wendefilm) que, afinal, acabou por ingressar nos quadros de sua empresa – pouco importa se a filha não é/parece feliz, como demonstra claramente a primeira cena de sexo do filme.

Atormentada, Clarisse sangra, como se o sangue que jorra de qualquer parte de seu corpo, espécie de suor a livrá-la das toxinas da alma, dependendo da ocasião, a aliviasse da companhia dos fantasmas – a mãe e o irmão mortos em sua infância, seguida da transferência para Fortaleza e os estudos na Europa, pagos com o dinheiro do negócio do pai, como ele alega numa das conversas à mesa.

O pai de Clarisse parece não ter tempo para sentimentalidades e o espectador percebe que foi assim a vida inteira. Ela se ocupa das lembranças, entre fotografias e gravações, cujo acesso é facilitado pela empregada (Verônica Cavalcanti), que cuida de tudo: da comida ao banho no velho, passando por matar um porco – os barulhos, aliás, merecem destaque, o grunhido do porco, a explosão da pedreira, causando incômodos.

Os personagens de Clarisse parecem ter a compreensão da finitude da vida, mas parecem não se importar. “Está fazendo o que sabe de melhor: ganhar dinheiro”, devolve Clarisse ao pai, sobre seu genro, talvez criticando estes tristes tempos, talvez soando socialista, comunista ou coisa que o valha, talvez tão somente buscando ser feliz, quando decide demorar mais do que o previsto longe de Fortaleza e do marido, em Maranguape – o filme foi rodado entre as duas cidades –, onde vive o pai e onde, em busca de lucro, ele aos poucos foi destruindo seu próprio meio ambiente – que importa? O importante é lucrar, acima de tudo e em nome de qualquer coisa, parecem ecoar os sinais destes tristes tempos.

Veja o trailer:

A sinceridade de Kleber Albuquerque e Rubi

Cantores apresentam o show Contraveneno logo mais às 20h30 no Cine Praia Grande

Foto: ZR (28/10/2016)
Foto: ZR (28/10/2016)

É praticamente a estreia de Contraveneno, o show que Kleber Albuquerque e Rubi apresentam logo mais, às 20h30, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com produção da Sete Sóis (selo que lança seus discos) e produção local de Gilberto Mineiro. Ou pelo menos é, com essa formação: eles serão acompanhados por Rovilson Pascoal (guitarra) e Mário Manga (violoncelo).

O show deve circular e há a vontade de transformá-lo em disco. A ideia para o espetáculo em parceria surgiu há pouco mais de um mês, mas as carreiras de Kleber e Rubi se cruzam há bastante tempo. Rubi se lembra de, ao ouvir o disco de estreia de Kleber [17.777.700, de 1997], ter procurado o produtor Mário Manga, através de quem se conheceram. Contraveneno acaba sendo também uma espécie de reencontro, quase 20 anos depois.

Estamos diante de dois dos mais autênticos e sinceros artistas surgidos para o mercado fonográfico a partir da segunda metade da década de 1990. Compõem e cantam simplesmente o que lhes emociona. Ou isso ou nem tentam, como provam suas trajetórias regulares de discos tão belos quanto verdadeiros, com temas que vão do amor a questões sociais.

Homem de vícios antigos encontrou-os na manhã desta sexta-feira (28), em frente ao hotel em que se hospedaram, na Avenida Litorânea. Conversamos com os cantores entre idas e vindas dos músicos para uns mergulhos na praia do Calhau. A conversa foi acompanhada também pelos produtores Flávvio Alves (Sete Sóis) e Gilberto Mineiro. A seguir, os melhores trechos da conversa à beira-mar.

Foto: ZR (28/10/2016)
Foto: ZR (28/10/2016)

Contraveneno já tinha sido apresentado ou é um show novo?
Rubi – Estamos estreando esse show. A primeira mostra foi em Londrina. Mas sem o Rovilson e sem o Mário Manga. A gente pretende fazê-lo girar, circular. Com essa formação, preferencialmente.
Kleber Albuquerque – É uma alegria muito grande ter o Manga novamente, ele produziu nossos primeiros discos. Eu nem tinha pensado nessa coisa de 20 anos há até umas duas semanas. O Flávvio comentou de a gente gravar o disco novo.

Por falar nisso: e o disco novo? Ou: há a chance de Contraveneno virar disco?
Kleber – É um projeto muito recente, um mês e meio. A gente se encontrou em casa, o repertório já surgiu.
Rubi – A gente conviveu muito durante muito tempo, tínhamos afinidade com algumas canções e o universo musical de alguns artistas muito próximos da gente. A referência é família, rádio. A gente tem algumas coisas que confluíam muito. Quando a gente se encontrou agora, acordou um monte de coisas dessa memória.
Kleber – Foi muito natural. A gente ia lembrando, o show tá quase na ordem disso.

É um best of?
Kleber – Tem muitas músicas inéditas. Em alguns momentos, canções muito próprias do trabalho dele, a alegria de cantar em duas vozes, músicas que eu ouvia quando era moleque.
Rubi – Uma coisa que ficou muito clara a partir do encontro é a delícia que é cantar junto. Eu gosto muito de cantar com ele. Eu sempre gostei muito de cantar com ele.

Quando eu ouço o título Contraveneno eu penso em antídoto. A música de vocês se pretende antídoto pra quê?
Kleber – Eu tenho a impressão de que essa questão do antídoto, no sentido de um remédio, um medicamento que melhore um pouco a vida, ele é especialmente pra gente, um contraveneno pessoal, pra suportar a vida. Esse nome vem de uma das canções do repertório, no sentido de não se render, uma certa resistência, embora as canções inéditas não sejam propriamente panfletárias, as letras têm um foco social, um olhar político por trás das letras.
Rubi – De uns tempos pra cá eu comecei a entender por onde a minha arte passeia. Eu me questionava com relação às minhas escolhas, a meu repertório. Uma coisa que ficou muito forte de uns tempos pra cá é o compromisso de eu viver a minha arte. Eu canto pelo viés da emoção. Quando eu canto tanto eu quero me sentir tocado pela canção, quanto criar a possibilidade de despertar essa sensação, essa emoção, não só pela coisa política do discurso em si. A gente tem vivido tempos muito ásperos, de muita intolerância, tudo é muito veloz, e isso tira o tempo de reflexão. Eu gosto de cantar coisas que mexem com minha emoção. Eu não vejo quem me escuta de maneira passiva. Pra mim é uma troca, é um vai e vem. Quem para para ouvir, é tão importante quanto a gente que toca. Ter um bom ouvido é tão importante quanto ter o que dizer.

As formas de o público lidar com a música têm mudado, mas vocês ainda fazem discos.
Kleber – Talvez mais por fetiche. Pro artista é muito bom ter algo pra te dar uma unidade. Antigamente você fazia o compacto com uma canção só e hoje está voltando, por conta da internet. Hoje você pensa em 13 canções e tem a oportunidade de pensar em uma unidade para o trabalho. Essa forma de embrulhar ainda é usada mais por uma questão de resquício do formato que por uma exigência de mercado. Há um valor simbólico, mas essas coisas estão se transformando mesmo.
Rubi – Isso de você fazer sua própria trilha, você não ouve um álbum. As pessoas não estão mais habituadas. Você se conecta, ouve a música, acha interessante, vai saber se você vai lembrar do autor? Vão ficando as células, não fica o corpo.

Vocês sempre trazem, em suas obras, a questão social.
Kleber – Às vezes é o amor que afeta, mas do meu ponto de vista, como uma pessoa que tá vivendo a vida, é uma forma de elaborar pessoalmente. Pra mim acaba sendo uma extensão natural lidar com alguns temas. Eu não me acho apto a dizer nada pra vida do outro, a falar o que é certo ou o que é errado. Por outro lado, essas coisas acabam envolvendo a gente de uma forma mais forte do que em outras épocas. A força da palavra poética pode vir a ter uma importância grande como já teve, não pra música, mas pra vida das pessoas. Eu, tirando pra mim, tenho algumas canções, alguns versos, que influenciaram minha vida a ponto de eu descobrir que eu queria fazer isso. A música, a poesia, a arte de modo geral, têm um poder transformador.
Rubi – Eu tenho uma coisa muito forte pra mim. Com o passar do tempo a gente vai maturando. As pessoas me imaginam cantando x, y, z. Meu critério não é o que o outro imagina. É duro falar assim, mas é exatamente isso. Eu preciso estar envolvido. A música pode demorar uma vida inteira para me escolher, mas a música tem que fazer um sentido pra mim. Eu não me considero um cantor, minha formação acadêmica [Rubi é bacharel em artes cênicas] não tem nada a ver com música. Toda minha ligação com a música é muito intuitiva. Muito nesse lugar de me respeitar dentro de cada canção, respeitar a canção e me colocar dentro dela. Eu dependo muito das minhas escolhas, eu preciso da minha relação com aquela obra pra ela se expressar através de mim. Todo meu processo de canto passa pela palavra, eu tenho um amor pela palavra muito grande. Minhas escolhas caem muito aí. A canção é minha dramaturgia, por que eu sou ator. Eu não me considero um cantor, de fato. Quem canta em mim é o ator.

Ouçam Brasa (Kleber Albuquerque), com Kleber Albuquerque:

Ouçam Ai (Kleber Albuquerque/ Tata Fernandes; poema incidental: Gero Camilo), com Rubi:

O amor vencerá na luta de classes

Lua em sagitário. Cartaz. Reprodução
Lua em sagitário. Cartaz. Reprodução

Coprodução Brasil-Argentina, Lua em sagitário [romance, 2016, 100 min.], de Márcia Paraíso, é um comovente road movie adolescente. Embora não seja sua pretensão, a ficção ajuda a compreender o conturbado momento político que o país atravessa, em que ódio e preconceito jorram ad infinitum, sobretudo em redes sociais, mas não só.

Na pacata Princesa, em Santa Catarina, fronteira com a Argentina, praticamente nada acontece, e nem sinal de celular e acesso à internet são fáceis, o que é motivo de tédio para grande parte dos adolescentes que habitam o município.

Ana (Manuela Campagna, melhor atriz no Festival de Avanca, em Portugal, em 2016), uma delas, tem por diversão frequentar A Caverna, misto de sebo e lan house de um argentino apelidado LP (Jean Pierre Noher), por motivos óbvios. Ela se inscreve em um concurso de vídeos feitos no celular para disputar um par de passaportes para o Psicodália, um famoso festival de música psicodélica no Brasil – aliás, a trilha sonora de Lua em sagitário é um espetáculo à parte: Boogarins, Black Drawing Chalks, Repolho, Novo Código Genétigo, Charly Garcia, Skrotes (não confundir com Strokes), Jhonny Hooker, Serguei, Tulipa Ruiz, Niño Elefante e Zé Pinto, entre outros.

N’A Caverna, ela, filha de um comerciante local, a quem ajuda fazendo entregas em sua bicicleta, conhece Murilo (Fagundes Emanuel), assentado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra que toca bateria em uma banda e também fez um vídeo para concorrer aos ingressos para o Psicodália.

O pai de Ana (Chico Caprario) é uma caricatura da classe média que repete ad nauseam o discurso de clichês e preconceitos da big old midia sobre o MST. É nessa luta de classes que aflora a paixão proibida dos adolescentes, que viverão sua primeira aventura a bordo de uma velha moto rumo à capital catarinense, para ver o festival – quem ganha a promoção é Lara (Clara Ferrari), que presenteia o casal com o prêmio.

Em meio à aventura, Ana e Murilo hospedam-se na casa de Jones e Ula, interpretados respectivamente por Serguei e Elke Maravilha, esta em seu último papel no cinema.

O romance é feliz ao abordar a realidade de acampamentos e assentamentos do MST e o debate sobre a reforma agrária no Brasil, quase sempre escamoteada pela falta de vontade da classe política em geral e pelo comportamento agressivo de gente como o pai de Ana, mais comum fora da ficção do que se imagina.

Em determinada altura, ao serem destratados por um casal de playboys, Murilo desabafa: “a gente vive uma luta de classes, pensar diferente disso é pura ilusão. Sem terra é pobre e a elite da sociedade brasileira tem horror, tem raiva, tem nojo mesmo. Pessoas como aquela guria não pensam, ela só vomita o que ouve do pai, do avô. Eles podem não ter mais nada, podem estar tudo fodido, ter perdido tudo, mas vão continuar pensando como elite, por gerações e gerações”. A feição de Ana, raivosa pelo ocorrido, muda, ao murmurar em resposta um “eu te amo”.

É um filme de final feliz quase óbvio, mas deixar de vê-lo por isso ou por divergir ideologicamente do MST – ou, de resto, da esquerda –, é deixar de se emocionar com uma bela e bem contada história de amor. Eu ia escrever adolescente, mas o amor não tem idade. E vence a luta de classes.

Serviço

Lua em sagitário está em cartaz até o dia 14 (quarta-feira) no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com sessões às 16h40 e 18h30. Os ingressos custam R$ 16,00 (com meia entrada para os casos previstos em lei e para todos às segundas-feiras).

Veja o trailer/making of:

Mostra universitária revela uma nova geração do cinema do Maranhão

Realizadores, debatedores e professores ao fim da jornada cinematográfica da Estácio. Foto: divulgação
Realizadores, debatedores e professores ao fim da jornada cinematográfica da Estácio. Foto: divulgação

 

Na noite da última segunda-feira (5) participei, na condição de debatedor, de uma jornada cinematográfica promovida pela Faculdade Estácio de São Luís. A convite da professora Márcia Alencar, dividi a mesa com a antropóloga Rose Panet, o jornalista Gilberto Mineiro e o diretor do Cine Praia Grande – que abrigou o evento – Raffaele Petrini, sob mediação do jornalista Paulo Pelegrini, também professor da instituição.

Entre 20h e 21h30 vimos seis documentários de curta-metragem realizado por estudantes da Estácio – os filmes eram frutos de trabalhos acadêmicos apresentados à disciplina Linguagem e Roteirização para Audiovisual, ministrada por Márcia Alencar.

Os 120 lugares do cinema foram poucos para abrigar tanta gente que foi prestigiar os trabalhos. Cada filme abordou um aspecto diferente (de parte) da história (da ilha) de São Luís.

Comida de terreiro abordou o aspecto gastronômico, sua variedade, riqueza e delícia, como parte integrante e importante de rituais em casas de culto afro, com depoimento de pai e filha de santo, antropóloga e nutricionista.

No caminho do Piranhenga, com uma pegada de filme publicitário, revela um ponto turístico pouco conhecido pelos ludovicenses, apesar de bastante próximo do Centro da cidade e com acesso relativamente fácil, inclusive de ônibus: o sítio que dá nome ao documentário. São abordados aspectos históricos e arquitetônicos, perpassando as histórias dos proprietários e o período da escravidão – a equipe mostrou  a casa grande, a senzala onde os escravos ficavam confinados e os poços usados para o abastecimento da propriedade, quando ali funcionava uma fábrica de cal.

Bondes de São Luís resgata a história do antigo meio de transporte, desde a tração animal até ser completamente abolido, dando lugar principalmente a ônibus, com todos os problemas do serviço de transporte público da capital maranhense, e carros novos – o transporte particular, quase sempre individual, acaba sendo uma das principais maneiras de se buscar fugir do caos, no entanto contribuindo para problemas como os constantes engarrafamentos em determinados horários e locais da ilha. Destaque para o depoimento do professor Henrique Borralho, do departamento de História da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Impossível aos espectadores não imaginar como seria hoje um passeio de bonde pelo Centro Histórico de São Luís, valorizando o turismo e colaborando para a solução de (parte dos) problemas de mobilidade urbana.

Timbuba – a vida no shopping guarda, já no título, uma irônica surpresa: antes de ver o filme o espectador é levado a pensar no ambiente climatizado de um shopping center, mas o shopping a que se referem os protagonistas é o lixão de Timbuba, na cidade balneária de São José de Ribamar. É como os próprios catadores de materiais recicláveis referem-se a seu local de trabalho, revelando o que Cesar Teixeira já havia cantado em Shopping Brazil [2004] e um bom humor inimaginável para quem trabalha em ambiente e com materiais e condições tão adversos. Personagem principal do documentário, o senhor Ribamar, xará do padroeiro, estava na plateia e foi aplaudido pelos presentes.

Casa das tulhas conta parte da história da secular Feira da Praia Grande, mais antigo comércio do tipo em São Luís. A equipe entrevista o folclórico Corintiano, feirante famoso por sua devoção ao Corinthians Paulista e ao Sampaio Correa – ele dá seu depoimento trajando uma camisa com os escudos dos dois times do coração – e pelas cachaças que ele mesmo tempera e batiza com nomes hilariantes: fogosinha, fogozada e fura-ferro, entre outras, que diz serem afrodisíacas. Junto a Timbuba é o documentário em que fica mais evidente o envolvimento das equipes na realização dos filmes, com pitadas de making of tornando-se, também, conteúdo emocionante. Casa das tulhas foi completamente filmado com o uso de smartphones.

Fotografia e barbárie parte do impacto psicológico causado por cliques em fotógrafos: como estes profissionais reagem a determinadas situações cruéis – em geral cadáveres de vítimas de homicídios, latrocínios, linchamentos, acidentes etc. – captadas por suas lentes, em nome do ofício. O filme tem depoimentos do professor e cineasta Murilo Santos, papa da área, e do fotojornalista Francisco Silva – poderia ter sido enriquecido com depoimentos de mais profissionais, o que deve ser aprofundado quando da realização do trabalho de conclusão de curso de uma das autoras, conforme ela revelou.

Saí satisfeito com a organização do evento – incluindo todos os professores citados mais Poliana Ribeiro, João Paulo Furtado e Lila Antoniere, coordenadora do curso de Comunicação Social – e a qualidade do debate e dos filmes apresentados – superaram em muito o “trabalho acadêmico” e, com uns ajustes aqui e acolá, podem ter êxito no circuito brasileiro de festivais, não se restringindo aos círculos universitários.

Que os estudantes peguem gosto e realizem mais. A julgar pelo que vimos na noite de anteontem, o cinema do Maranhão tem assegurada a manutenção da qualidade que marca a obra de Murilo Santos, Francisco Colombo e Frederico Machado, nomes fundamentais em qualquer antologia local de cinema que se preze.