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Baile quer manter as tradições do carnaval brasileiro

Festa idealizada por Joãozinho Ribeiro terá presença de 15 artistas, entre intérpretes e instrumentistas

Célia Maria (à esquerda) solta o vozeirão durante ensaio, observada por Joãozinho Ribeiro (de chapéu). Foto: Hugo Carafunim

 

Sobre Joãozinho Ribeiro já afirmou Zeca Baleiro: um Quixote musical. Onde houver dois ou mais cristãos interessados em boa música, ali estará João. Dois é modo de dizer, que com apenas dois nem ele mesmo faz qualquer coisa. Seu espírito agregador sempre transforma qualquer empreitada sua em um grande acontecimento.

É o caso do Baile Allah-lá-ô no Ali Babá, que ocupa o restaurante especializado em comida árabe no próximo sábado (13), a partir das 17h. Na banda, os Arlindos Carvalho (bateria) e Pipiu (contrabaixo), Marcão (guitarra), Fleming (percussão), Gonzaga (sax), Gerson (trompete) e Walber Carvalho (voz), egresso de Nonato e Seu Conjunto. O time de intérpretes que se revezará no palco tem, além do idealizador e idealista Joãozinho Ribeiro, Célia Maria, Gabriela Flor, Rosa Reis, Josias Sobrinho, Cesar Teixeira, Celso Reis e Chico Neis. Os ingressos custam apenas R$ 10,00 e podem ser adquiridos no local.

“Carnaval é a festa brasileira da liberdade, dos reencantamentos artísticos e, por que não, da PAZ? “Bandeira Branca, amor”, com “tanto rei vestido de mendigo; tanto mendigo vestido de rei”, “procurei pela cidade, não achei o meu amor”, “antes que o Carnaval nos separe… te gruda no meu fofão””, afirma Joãozinho Ribeiro, antecipando alguns clássicos carnavalescos que comparecerão ao repertório, incluindo músicas autorais.

“Será possível reunir, ajuntar, compartilhar Ari Barroso, Nássara, Lamartine Babo, Noel Rosa, Braguinha, Cristóvão Alô Brasil, Caboclinho, Zé Pivó, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro e um rol de intérpretes do mais reluzente quilate, tais como Celia Maria, Rosa Reis, Celso Reis, além de um time de músicos de prima, sob a batuta destes dois patrimônios das nossas humanidades, Arlindo Pipiu e Arlindo Carvalho? Será o Benedito? Ou a Benedita?”, indaga-se/nos, provocador.

A festa promete, valorizando as melhores tradições do carnaval brasileiro. Joãozinho Ribeiro arremata, certeiro: “plena certeza de que a jardineira não terá motivação nenhuma para ficar triste…”.

Bloco do Baleiro: “o ritmo, a dança, a alegria”

Foto: Rama de Oliveira
Foto: Rama de Oliveira

 

Teve ótima receptividade mês passado o anúncio, pelas redes sociais, do Bloco do Baleiro, em que o anfitrião maranhense terá como convidados o paraibano Chico César e a paraense Fafá de Belém, além dos DJs Ademar Danilo e Jorge Choairy.

Os poucos que contrariaram o coro questionavam o pagamento dos cachês dos artistas, inventando uma falsa oposição entre a presença de três artistas renomados nacionalmente e a manutenção de manifestações da cultura popular, como escolas de samba e blocos tradicionais, entre outros.

Procurada pelo blogue, assim manifestou-se a Secretaria de Estado da Cultura e Turismo do Maranhão (Sectur), em nota: “o evento é realizado pelo Governo do Maranhão e pela Prefeitura de São Luís com o patrocínio da Skol, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. Pela parceria, o Governo do Maranhão ficou responsável pelos cachês dos artistas, a Prefeitura de São Luís pelo trabalho de bloqueio de vias e ordenação do trânsito, e a Skol pela produção do bloco”. A questão parece encerrada.

Nome fundamental no cenário da música popular brasileira ao menos nos últimos 20 anos – quando lançou Por onde andará Stephen Fry? [MZA, 1997], seu disco de estreia –, Zeca Baleiro é maranhense para além da geografia: ao longo de duas décadas de carreira tem sido um verdadeiro embaixador da arte e cultura maranhenses, produzindo discos, fornecendo composições e/ou participando de trabalhos de artistas locais, nomes entre os quais podemos citar – com o risco de esquecer muitos outros –, Antonio Vieira, Bruno Batista, Celso Borges, Chico Saldanha, Criolina, Flávia Bittencourt, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, Lena Machado, Lopes Bogéa, Patativa, Rita Bennedito (antes Ribeiro) e Rosa Reis.

A realização do Bloco do Baleiro será certamente mais uma importante contribuição de Zeca à cultura do Maranhão. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Rama de Oliveira
Foto: Rama de Oliveira

Como surgiu a ideia e como foram as negociações para a realização do Bloco do Baleiro neste carnaval em São Luís?
Esse é um projeto antigo que eu e Samme Sraya, prima querida e produtora atuante no front cultural de São Luís, planejamos fazer há tempos. Mas só agora estamos tendo a chance de concretizá-lo. A ideia é fazer um grande baile num caminhão, uma “jardineira”, como os que deram origem aos trios elétricos, num circuito entre as praças da Casa do Maranhão e Maria Aragão. Um baile onde cantaremos de tudo, não só músicas “de carnaval”, mas música dançante em geral, de Tim Maia a Reginaldo Rossi. Será uma experiência, algo inédito, uma tentativa de aproximar o nosso show/bloco da tradição do carnaval de rua maranhense, ao invés de copiar modelos de carnavais de outros estados. Uma festa popular e gratuita. O único critério para entrar no cordão será estar fantasiado.

A principal força do carnaval da capital maranhense é a tradição do carnaval de rua, com suas diversas manifestações. Você passou a infância e a adolescência em São Luís. Quais as suas principais lembranças do período momesco na ilha?
Gostava muito de ver os blocos, os fofões, mascarados de rua… Nunca fui um grande folião, mas gostava de ver a festa. Tive um vizinho querido, o poeta e jornalista Paulo Nascimento Moraes, que saía todo domingo de carnaval fantasiado de fofão pelas ruas do Monte Castelo, uma figuraça. É uma lembrança muito lúdica e bonita que eu tenho da festa. E lembro também de alguns sambas-enredos antológicos, que quero homenagear no Bloco, como Haja Deus, da Flor do Samba, de Chico da Ladeira e Augusto Tampinha, e Bodas de ouro, de Zé Pivó, da Turma de Mangueira.

O Bloco do Baleiro terá como convidados Chico César e Fafá de Belém. Como será a participação deles e o que você diria a quem, por preconceito, torcer o nariz, dizendo tratar-se de artistas não identificados diretamente com o carnaval?
A quem torcer o nariz, sugiro que fique em casa, vendo o carnaval do Rio pela Globo. Mas para quem quiser se juntar a nós e celebrar com alegria, irreverência e música o carnaval, digo que venha. Eu, Chico e Fafá somos artistas identificados com o ritmo, a dança, a alegria. Isso deveria bastar. Mas, como diria Dias Gomes, quem abre caminho enfrenta as cobras.

São Luís parece despertar finalmente para experiências bem sucedidas como o carnaval do Recife, isto é, abrindo o leque, ampliando as possibilidades e realizando um carnaval verdadeiramente multicultural?
O carnaval de Recife é um grande exemplo de como a festa do carnaval pode servir de palco pra todo tipo de música ou manifestação cultural. Já toquei lá em mais de 10 edições, e sempre tem música pra todo gosto. Na mesma noite você pode ter shows de Ira!, Nação Zumbi, Zélia Duncan, Spok Frevo Orquestra, Elza Soares, Alceu Valença, rap, samba, frevo, rock, blues, tudo junto. E isso é lindo como proposta cultural.

Sua presença na programação do carnaval de São Luís tem um quê de afetividade, tendo em vista você ter nascido aqui, a evocação das memórias de que você já tratou. O que você e seus convidados estão preparando para o Bloco do Baleiro?
Sim, tem um quê de afetividade, de culto da memória também. Ainda vamos ensaiar, mas a ideia é dar um giro pela música dançante brasileira, do carimbó ao funk, do brega ao reggae. Estou preparando versões divertidas de clássicos da música pop também. O importante é louvar a alegria de viver num tempo tão obscuro como este em que vivemos.

Assista O abadá, versão bem humorada de Zeca Baleiro para Ob-la-di, ob-la-da (Lennon/McCartney), dos Beatles:

Obituário: Veloso

Veloso, nome fundamental da cultura da Madre Deus. Foto: acervo Philippe Caruru
Veloso, nome fundamental da cultura da Madre Deus. Foto: acervo Philippe Caruru

 

Nunca entrevistei Veloso. A última vez que o vi foi no Cafofo da Tia Dica. Na ocasião, presenteou a mim e ao compositor Cesar Teixeira, com quem eu bebia no bar por detrás da Livraria Poeme-se, na Praia Grande, com exemplares do mais recente disco da Máquina de Descascar’alho, agremiação carnavalesca que completou 30 anos no último carnaval.

Indaguei-lhe quanto custava e ele respondeu-me que o importante era fazer o disco rodar e tornar mais conhecida a música, o carnaval e a cultura da Madre Deus. O Fuzileiros da Fuzarca completava 80 anos e eu havia acompanhado Cesar, jornalista de formação, em algumas entrevistas.

A vida é a arte do encontro: nem Cesar escreveu sobre os 80 anos do Fuzileiros, com cuja velha guarda deve fazer um show em breve, nem eu sobre os 30 da Máquina.

Patrimônio madredivino, como nomes como Cristóvão Alô Brasil, Marciano, Henrique Sapo e Caboclinho, José de Ribamar Gomes Veloso (9/9/1948-13/8/2016) morreu ontem, aos 67 anos, vítima de cirrose hepática.

Artesão, compositor, percussionista, produtor, decorador e intérprete, trazia na memória sambas inéditos da velha guarda da Madre Deus, de nomes como os citados – parte desta riqueza se perde com ele.

Além da Máquina de Descascar’alho – que realizou um grandioso cortejo pelas ruas da Madre Deus em sua homenagem – Veloso fundou grupos como o Regional 310, Boi Barrica, Bicho Terra e C. de Asa. Era um dos agitadores do evento mensal Tezão de Velho, no Largo do Caroçudo, na Madre Deus – a edição de hoje foi cancelada em respeito ao luto da família, do bairro e da cultura popular maranhense.

Silvério Costa, o Boscotô, parceiro de grupos como o Regional 310 e a Máquina de Descascar’alho, lembra a importância do amigo. “Veloso estava sempre de bom humor, era querido por todos, por sua irreverência, suas histórias e ideias inovadoras. Com ele se vai um pedaço importante de nossa memória”, lamentou.

Autor de hits do carnaval do Maranhão como A laska e Barreira sanitária, parceiro de Erivaldo Gomes em Malementa, durante muito tempo hit bastante apreciado pelos frequentadores da semanal A vida é uma festa, do poeta-músico ZéMaria Medeiros, entre outras, Veloso deixou quatro filhos, entre eles o cavaquinhista Kauê Veloso.

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OBITUÁRIO: JOMAR MORAES

O escritor Jomar Moraes. Foto: Acervo O Imparcial
O escritor Jomar Moraes. Foto: Acervo O Imparcial

Faleceu na manhã de hoje o escritor vimarense Jomar Moraes (6/5/1940-14/8/2016), presidente da Academia Maranhense de Letras (AML) por 11 mandatos, autor de livros como Guia de São Luís, O físico e o sítio, Graça Aranha e Vida e obra de Antonio Lobo, entre outros.

Segundo informações, Moraes tinha problemas renais e durante a madrugada uma crise afetou seu coração. Há quase um ano ele doou sua biblioteca, com cerca de 40 mil volumes, à Universidade Federal do Maranhão (UFMA), instituição na qual formou-se bacharel em Direito e recebeu o título de Doutor Honoris Causa.

Chorografia do Maranhão: Maestro Nonato

[O Imparcial, 26 de abril de 2015]

Nascido deficiente visual, Maestro Nonato faz jus ao epíteto; o multi-instrumentista é o 51º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Num início de noite chuvoso, a chororreportagem alcançou seu 51º. entrevistado, em sua casa, na Cohab. Maestro Nonato provaria, ao longo da conversa, merecer o epíteto que o tornou famoso.

Raimundo Nonato de Azevedo nasceu em Pirapemas em 1º. de novembro de 1962, filho do vaqueiro Francisco das Dores de Azevedo e da costureira Maria das Graças de Azevedo. É casado com Vera Lúcia, que vez em quando tem que chamá-lo para tomar café, tamanha é sua dedicação à música e ao estúdio que mantém em casa.

A deficiência visual com que veio ao mundo parece, qual um super-herói, ter lhe aguçado o sentido musical. Com entre seis e sete anos, já tocava bandolim, que aprendeu sozinho. Depois do instrumento que deu sobrenome artístico a Jacob, influência confessa, aprendeu também, sempre autodidata, os violões de seis, sete, 10 e 12 cordas, sanfona, bateria, contrabaixo, guitarra, cavaco, banjo, banjo-cavaco, banjo-tenor, piano e percussão.

O ex-integrante da Tribo de Jah revela estar planejando montar um regional de choro. Seu depoimento à Chorografia do Maranhão foi ilustrado musicalmente por Sons de carrilhões [João Pernambuco] e Marcha dos marinheiros [Américo Jacomino], tocadas em um violão seis cordas de estudo de suas filhas, Vanessa e Virlana, além de Bela mocidade [Donato Alves] e Boi de lágrimas [Raimundo Makarra], executadas em ritmo de choro.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Sua casa tinha um ambiente musical? Como você enveredou pela música? Eu comecei muito cedo, com seis, sete anos, tocando bandolim, foi meu primeiro instrumento.

Como foi isso? Eu simplesmente comecei, do nada, brincando. Aos cinco anos, criança tem aquela ideia de fazer aqueles violõezinhos de, na época, era de lata de goiabada, aquele negócio. Fazia aquilo, botava quatro cordas, e começava a brincar. Um vizinho chegou com um instrumento, o bandolim, “acho que a gente consegue pegar isso aqui, por que tu não compra isso aqui pro teu filho?” Papai comprou, eu comecei com aquilo, mexendo. Com sete, oito anos, eu já estava tocando bandolim. Depois mudei para violão, com 10 anos eu tava tocando violão, com 12 comecei a tocar sanfona, aí fui só aperfeiçoando, ganhando experiência e aperfeiçoando as coisas.

Além destes, que outros instrumentos o senhor toca? Violão, bandolim, sanfona, bateria, contrabaixo, guitarra, que é quase a mesma coisa do violão, aí vem o [violão de] seis [cordas], o sete, o 10, o 12, cavaco, banjo, banjo-cavaco, banjo-tenor, piano, instrumento de percussão, tudo. Só nunca me dediquei ao metal, nunca tive paixão. O resto a gente toca tudo.

E estes instrumentos todos, você aprendeu a tocar só? Sozinho.

Todos? Sozinho.

O que você ouvia, quando criança, em termos de música na sua casa? O que tocava no rádio, na radiola de seu pai? Eu nunca parei para definir um estilo musical. Eu acompanhei tudo. A época de chorinho, o Jacob [do Bandolim], o Waldir [Azevedo, cavaquinista], também aquele chorinho de saxofone, essa história eu acompanhei muito. Muito chorinho a gente aprendeu assim, de ouvido. Violão, com Dilermando Reis, aquela galera toda, violão das antigas. Sanfona já foi a época de Gonzagão [Luiz Gonzaga], Dominguinhos, essa rapaziada, Oswaldinho. Foi sempre acompanhando na verdade os caras, Sivuca. Essa rapaziada.

Além de músico você tem alguma outra profissão? Eu fiz rádio-técnico, locução, reportagem, aqui em São Luís, [na rádio] Difusora, 1981, 82.

Nesse período você atuou nessa profissão? Sim, eu gostava muito. Depois não tive mais tempo, entrei em banda.

Se fôssemos definir um instrumento para Maestro Nonato, de que forma você mais se identifica, com qual instrumento? É complicado. Todos a gente procura fazer com perfeição. O que eu mais tenho contato, contato diariamente, são os teclados. Esse é contato direto, todos os dias, a gente está no estúdio. Os outros já é duas vezes por semana, três vezes por semana, agora teclado é direto.

Se você tivesse que definir a pessoa que mais o influenciou para a música, quem você definiria? [Pensativo] Ah, na época foi Sivuca. Eu ouvia muito o Sivuca, nossa! A sanfona perfeita! E a rapaziada do chorinho, Waldir, Jacob.

O senhor sempre viveu de música? Vive até hoje? Sempre! Sempre! Música sempre foi a fonte, o ganha-pão, até hoje. Estúdio de gravação é música direto, de manhã, de tarde, de noite. A gente grava todo mundo, essa rapaziada de bloco tradicional, escola de samba, bumba boi, a gente grava 40 discos de boi por ano. Bloco, nós temos 44 blocos tradicionais [em São Luís], eu gravo 38. Escola de samba nós temos 10, eu gravo oito.

Estes grupos têm uma preferência por seu estúdio. É, já temos alguns anos de estrada.

Dá para viver de música com dignidade? Dá! Os caras reclamam, mas dá, dá sim.

Também tocando tudo desse jeito, né? [gargalhadas dos chororrepórteres e do entrevistado] A atividade artística é uma atividade nem sempre bem compreendida pelos pais. Os seus sempre o apoiaram na decisão de seguir o rumo da música? No início estranharam, mas depois todo mundo chegou junto e acabou. Foi a época que eu tive que vir para cá para estudar e se aperfeiçoar nas coisas.

Você chegou a fazer faculdade? Não. Eu parei antes.

E sua passagem pela Tribo de Jah? Eu fiz a Tribo de Jah. Nós participamos dos cinco primeiros discos. Produzimos vários cantores, Betto Douglas, uma rapaziada boa, Rogéryo Du Maranhão, eu já fiz muitas produções aqui, coisa nossa.

Que fato foi decisivo para você seguir a música? Foi um presente que eu ganhei, uma sanfona, e isso acabou estimulando muito. Eu gostava muito de sanfona e uma freira me deu uma de presente, e isso fez com que eu não deixasse mais a música.

De que outros grupos e bandas você participou? Eu fiz guitarra, na época, no conjunto Transversom, em Coroatá, e aqui em São Luís eu fiz Os Invencíveis, em 1979, guitarra, em torno de dois meses, depois voltei para o teclado. Depois a gente montou o Superstar, o grupo Deliverys, o Superkingsom, a Tribo de Jah, o Jota Som Seis.

Você veio para São Luís quando? Eu vim cedo para estudar, em 1967, fiquei até 1976, por aí. Depois fui para Rosário, que foi minha primeira banda, meu primeiro grupo, onde eu fui tocar teclado. Depois fui para Coroatá, depois vim para São Luís, de novo, aí pronto.

Como era o nome do grupo de Rosário? Era Os Favoritos.

O senhor dá aula de música? Não. Eu não tenho tempo. Eu até gosto.

Além de instrumentista, o senhor desenvolve outras habilidades na música? Composição, arranjos. Eu sou mais arranjador. A minha linha mais é arranjos, eu passo para os meninos e os meninos escrevem. Eu uso uma mesa que elimina o mouse e o teclado [do computador, no estúdio], é uma mesa que a gente usa direto, facilita demais.

Por que o senhor saiu da Tribo [de Jah]? Tempo. A gente começou estúdio, essas histórias, não tinha mais como conciliar. Muita viagem, a galera começou a querer gravar. Eu fiz o estúdio, na verdade, de brincadeira, para fazer uma campanha política. Aí a história espalhou, que eu tinha botado estúdio, e eu não consegui mais parar.

Em que ano o senhor montou o estúdio? Em 2002. Aí eu não tive mais como parar.

Você gosta de tocar violão sete cordas? Gosto. É um instrumento muito bonito. Eu já gosto mais do sete que do seis. É um instrumento que além de ser muito ligado à questão do choro cabe muito bem nessa nossa música carnavalesca, bloco tradicional, escola de samba. A gente trabalha bastante o sete, tem uma pegada mais forte.

Você lembra de que discos já participou? Mais ou menos uns 30 discos diferentes. Cinco da Tribo de Jah, Betto Douglas, Giovani Papini, fiz todos dele, todas as produções, César Nascimento, na época do Reggae sanfonado [composição de César Nascimento, gravada, além do autor, por Alcione], Maguinha do Sá Viana, muita coisa.

Você chegou a integrar algum grupo de choro, algum regional? Não. A gente está com a ideia, agora. Com João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014], a gente está pensando em montar, a ideia está amadurecendo para fazermos.

Houve um tempo em que os grupos que tocavam na noite abandonaram os instrumentos acústicos e passaram a usar teclados. Você viveu essa transição? É, os instrumentos foram trocados pelos teclados na época. Eu fiz isso também, participei dessa época, mas nunca é a mesma coisa. Os teclados de ritmo substituíram muito, bandas e tal, demorou muito, banda agora é que está voltando. Durante muito tempo surgiram alguns fenômenos, Lairton dos Teclados, Frank Aguiar.

Você chegou a fazer festa nesse modelo? Sozinho, com o teclado? Cheguei a fazer carnaval. Fiz carnaval, grandes carnavais como Cururupu, Itapecuru, Rosário. Carnaval de praça mesmo. Aquela história, sonorização boa, só o teclado falando, era coisa de louco. Sonzão por cima e o cara tá aqui. Só em Rosário eu fiz três carnavais, dois em Itapecuru. Era a época em que o teclado estava no auge. As bandas começaram a tocar por que agora eles estão fazendo muitas variações, não dá para o teclado fazer tudo, aquelas viradas loucas que as bandas fazem. Para o cara fazer aquilo, tem que ser playback, aí não tem graça. Se não for tocando, pra mim não tem graça. Depois que o teclado começou a perder a história, os caras começaram a usar playback, aí eu aposentei o teclado. Não tem graça! Eu não estou mais tocando, agora o cara chega, leva um pen drive, antigamente era uma sacola de disquetes. Perdeu o charme. Eu saí da onda.

O choro, apesar de você não ter integrado nenhum regional, fez parte de sua vida desde o começo, seu primeiro instrumento foi o bandolim, influenciado por Jacob. Qual a importância dessa música para você? O choro é um tipo de música que vai muito fundo. É uma coisa muito certinha, você não encontra barulho em choro, você encontra tudo certinho, aqui [dedilha o violão, apresentando a estrutura de um choro], vêm os acordes, os solos.

O choro não é para qualquer um? Não. Tem que ser estudado direitinho, acordes perfeitos, o choro não aceita você errar. O choro é muito trabalhado.

Você acha que o choro no Brasil representa uma escola de música para o músico brasileiro? Na lógica seria. Para mim, é. Eu vejo o choro como uma verdadeira escola musical.

Há quem diga que quem toca choro toca qualquer música no Brasil. Você concorda com isso? Às vezes. Bom, tocando o choro você pode tocar qualquer coisa, agora quem toca qualquer coisa, nem sempre toca choro. O cara toca um arrocha aqui, se ele tentar tocar um choro, não vai sair.

Você escuta muito choro, hoje? Sempre que tenho tempo.

O senhor falou várias vezes em tempo, parece um homem muito ocupado. Você trabalha muito? Ah, a correria é de oito à meia noite. Época de campanha vai, entra a noite, vem o dia e a gente está lá, é preciso a mulher estar chamando para tomar café. É complicado.

Mas é um trabalho prazeroso? É, ali dentro a gente esquece tudo. A música representa praticamente tudo.

O choro é seu gênero musical preferido, para ouvir, para tocar? O choro, sempre que eu não estou fazendo nada, eu gosto de estar ouvindo. Em rodas de amigos, sempre que estamos reunidos, com João [Eudes]. João é apaixonado por choro.

Se você fosse defini-lo, como você o definiria? João Eudes é muito dedicado, estudioso demais, gosto de ouvi-lo tocar. Ele encara a música de maneira séria e a coisa acontece. Muita gente faz música para brincar, mas não é brincadeira, tem que ser sério.

E Dilermando Reis? O que significou para você? Me inspirou para o violão [Dedilha a introdução de Abismo de Rosas, de Dilermando Reis]. É muito lindo isso, eu gosto bastante.

Você acha que o choro do Maranhão está bem representado? Com certeza! Eu acho que os eventos é que são poucos. Mas já temos uma equipe boa, dava para fazer mais movimento.

E esse regional em que vocês estão pensando, seria você, João Eudes… E João está tentando ver se traz Eliésio [sanfoneiro]. Ele está em Teresina. Grande músico! Toca muito!

Como você avalia a música produzida no Maranhão, de modo geral? Hoje nós temos uma musicalidade boa. Até por que começaram a chegar recursos, equipamentos, para que você tenha uma qualidade boa, bons técnicos, operadores. Ainda está fraco por que agora é que se está começando a ter acesso a equipamentos e as pessoas têm que estudar mais um pouco. Isso de “já sei tudo” atrapalha muito. Tudo tem que ter estudo, tudo tem que ter aperfeiçoamento. Ainda se cometem pecados em matéria de mixagem, masterização. Muita gente pensa que masteriza, mas na verdade, não. Aqui só uma pessoa faz masterização: chama-se Jota Gomes. Não se peca só aqui, mas lá fora o campo é mais aberto.

Além do choro como gênero, você pode ouvir, no choro, um baião, um frevo. O Maranhão poderia tirar proveito de seus ritmos populares nas rodas de choro. Isso ainda acontece pouco. Não seria interessante acontecer mais? Muito! Pode, por que tudo dá certo. Se você quiser fazer [começa a dedilhar Bela mocidade em ritmo de choro, passando em seguida a Boi de lágrimas, também em ritmo de choro]. Dá, tudo vai. Se fizer, dá certo. Nós temos aqui um grupo, do Carlindo, eu não lembro o nome, mas você não o ouve cantar [cantarola, se acompanhando ao violão] “descobri que te amo demais”, ele transforma tudo em samba [cantarola, se acompanhando ao violão, Boi de lágrimas, em ritmo de samba].

Você se considera um chorão? Não tanto, por que eu vivo muito outros estilos. Mas é um estilo que eu gosto demais. Não é a vivência cem por cento.

Quais os seus planos para o futuro? Nosso plano é sempre o trabalho, muito trabalho, dar continuidade à luta pela nossa cultura. Vamos continuar nessa missão. É gostoso!

Rec-Beat busca alternativas para seguir acontecendo com qualidade – e de graça

Arte: Karina Buhr
Arte: Karina Buhr

 

Entre os próximos dias 6 a 9 de fevereiro, isto é, durante o carnaval, o Cais da Alfândega, no Recife, sedia a 21ª. edição do Rec-Beat, um dos mais longevos festivais de música do Brasil. Antonio “Gutie” Gutierrez sentiu a ameaça de, pela primeira vez em duas décadas, o festival não acontecer, e foi à luta: lançou uma campanha de financiamento coletivo, visando manter o nível das atrações – embora o festival seja um pouco menor em 2016 – e a gratuidade do evento.

“Vamos fazer juntos o festival” é o slogan da campanha, que pretende arrecadar 200 mil reais até o dia do início do Rec-Beat, que ao longo de duas décadas sempre primou por inovação e qualidade em sua programação. As recompensas pelas doações – clique aqui para colaborar –variam de brindes personalizados até ingressos para outros festivais brasileiros, além da coautoria da realização desta edição.

Pernambucana nascida na Bahia e radicada em São Paulo, com alguns Rec-Beat no currículo, entre bandas como Comadre Fulozinha e Eddie, além de em carreira solo, Karina Buhr assina a arte do pôster deste ano.

De acordo com Gutie, a crise financeira em que mergulhou o país gerou cortes de até 50% do patrocínio, de “um valor que já não era tão expressivo”, segundo o produtor. Para termos uma ideia, prefeituras de três municípios maranhenses já anunciaram a não realização de um circuito oficial (leia-se: estatal) do carnaval este ano – Coelho Neto, Pedreiras e Santa Inês –, de acordo com informações do jornal O Imparcial.

Gutie conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

"Esse aperto está nos levando a pensar em coisas novas", afirma Gutie. Foto: Diego Nigro/ JC Imagem
“Esse aperto está nos levando a pensar em coisas novas”, afirma Gutie. Foto: Diego Nigro/ JC Imagem

 

O que houve ao longo dos anos com o financiamento do Rec Beat?
No inicio, por três edições, o Rec-Beat foi realizado em Olinda, na área interna de um casarão, o Centro Luiz Freire. Aí havia cobrança de ingressos, um preço simbólico, suficiente para cobrir os custos, que não eram altos porque ainda era o início do projeto e tudo era feito mais como uma diversão, com uma estrutura bem simples. Em 1999 fomos convidados pela Secretaria de Cultura do Recife para levar o Rec-Beat para o Bairro do Recife, sítio histórico da cidade. O objetivo era o festival ser uma âncora para o público jovem de um projeto de fomento do carnaval no bairro, ainda muito incipiente. A partir daí o festival passou a receber patrocínio da Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR) e também se tornou gratuito, como é até hoje. A gratuidade é um ponto chave do festival e tem o lado bom e o lado ruim. O bom é que dá uma grande liberdade para se fazer uma programação mais ousada, pautada em novidades, em coisas mais experimentais que ainda não estão inseridas no grande mercado, ou seja, não precisamos escalar nomes do mainstream para atrair público pagante, uma vez que a gente não vende ingresso. A gratuidade permite que o público tome contato com bandas desconhecidas, ou pouco conhecidas, que certamente ele não pagaria pra ver se não estivesse ali, na rua, sem custo para ele. O lado ruim é que o festival perde uma fonte de receita, ou seja, o festival não pode contar com recursos de venda de ingressos para cobrir seus custos, e passa a depender, dessa forma, exclusivamente de patrocinadores e apoiadores. O Rec-Beat cresceu muito, ao longo dos anos, mas o patrocínio oficial não acompanhou a evolução dos custos de realização do evento. Além disso, o Rec-Beat sofre uma limitação para captar recursos junto à iniciativa privada, tendo em vista que a Prefeitura já tem acordos com grandes patrocinadores que impedem o festival de captar recursos desses mesmos patrocinadores ou de concorrentes do patrocinador oficial, como cervejarias, por exemplo. Com o agravamento da crise financeira do país este ano e um corte do patrocínio da ordem de 50%, de um valor que já não era tão expressivo, fomos em busca de saídas para manter o festival no nível conquistado, principalmente no que se refere ao conteúdo artístico, conceitual, e a gratuidade. Foi aí que abrimos várias frentes, e uma delas foi a tentativa do financiamento coletivo.

Muitos artistas têm recorrido ao financiamento coletivo para a realização de trabalhos artísticos (filmes, livros, cds, dvds, exposições etc.). O Rec-Beat parece ser pioneiro para a realização de um festival. O crowdfunding é “o” caminho, hoje?
Creio que somos pioneiros nisso, até agora não vi nenhum festival independente recorrer a esse mecanismo para levantar recursos. Pra gente é uma incógnita, não sabemos onde vai dar. A gente vê vários projetos de CDs, livros, filmes alcançando êxito. Mas não temos uma referencia de projeto para festival. Certamente com esta experiência vamos poder aprimorar a estratégia, avaliar os acertos e erros, caso a gente venha a fazer no próximo ano. Nesse momento que estou respondendo a essa sua pergunta o que posso dizer é que o fluxo de adesão à campanha ainda não decolou, mas ainda faltam alguns dias para o encerramento. Mesmo assim eu acho que o crowdfunding pode vir a ser uma boa opção para o financiamento de festivais como o Rec-Beat.

O momento por que passa o já tradicional festival é reflexo da crise que atravessa o país?
Acho que reflete a crise econômica e também a falta de discernimento enfrenta-la. Quando você sofre restrição econômica, você tem que adotar um critério para reduzir seus custos de modo a manter o que é importante e vai te dar retorno e eliminar o que é supérfluo e só vai lhe trazer mais despesas. Eu não tenho dúvida de que o Rec-Beat traz um imenso retorno para o patrocinador, para o público, para a música independente, para a nova música brasileira, para a nova música latino-americana, para a tradição do carnaval pernambucano. O festival traz público. O festival contribui como destino turístico, para o fluxo de renda. Ano passado, e este ano também, o Rec-Beat entrou na agenda de três revistas de bordo de empresas aéreas colocando o evento como destino no carnaval, sem contar o destaque que recebe em vários veículos da imprensa nacional. A mídia espontânea gerada pelo festival, quando valorada, supera em três vezes o custo do festival. Ou seja, como é que você corta severamente o patrocínio destinado a um evento que traz tantos benefícios? Estamos passando por uma forte crise econômica, é fato. Eu já vivi momento pior que isso. O Rec-Beat tem 20 anos. Está sendo um ano difícil, mas por outro lado esse aperto está nos levando a repensar muita coisa, a trabalhar novas parcerias, pensar em coisas novas. Incrível também a solidariedade de muitas bandas e artistas, que estão chegando espontaneamente e oferecendo apoio. Acima de tudo é bom momento pra saber quem está por dentro e quem está por fora.

O ministro Juca Ferreira deu uma entrevista ao jornal online Nexo afirmando que o MinC já vive um momento “pós-crise”. O que você poderia comentar a respeito da fala dele?
Respeito muito Juca Ferreira, um grande gestor, um dos melhores ministros que esse país já teve na área da cultura, e só o fato de Marta Suplicy não gostar dele já mostra que ele é boa gente. Acho que quando Juca diz que já vivemos um momento de “pós-crise” talvez ele queira dizer que estamos conscientes que estamos vivendo uma crise e adotando caminhos para superá-la. Concordo quando ele diz, na entrevista, que a crise é menor do que parece. Antes de tudo vale dizer que a crise é mundial, o mundo vive um momento de retração econômica, que reflete principalmente o esfriamento da economia chinesa. Nossa visão da crise no Brasil é dada pelos grandes meios, o famoso PIG [o partido da imprensa golpista], que aliado a uma oposição medíocre, está impedindo que Dilma governe e que adote medidas para superar as dificuldades. E quando você tem um bombardeio diário na mídia falando de crise, crise, crise… é claro que acaba criando uma expectativa negativa nos agentes econômicos. Só acho que o MinC deveria nesse momento ter mais cautela no lançamento de editais de financiamento de projetos. Existe muita pendência de editais aprovados cujos recursos não são liberados. Isso cria um desgaste muito grande junto aos produtores que são contemplados e que depois recebem a notícia de que o dinheiro não existe.

Que nomes já estão confirmados para a edição 2016 do Rec-Beat? Além do corte no patrocínio, o festival sofrerá alguma espécie de diminuição?
Vamos reduzir uma atração por noite, que na verdade significa voltar ao formato que já fazíamos um ano atrás. Serão cinco bandas e mais um dj por noite fazendo os intervalos entre as bandas. Além disso, devemos ter festas after com djs, em uma casa fechada, no Bairro do Recife. Também mantivemos este ano o “Rec-Beat Apresenta”, que é uma proposta de realizar no período pré-carnaval uma noite com três bandas novas, revelações, nas quais o festival aposta. Este ano, além de fazer no Recife, estamos fazendo o “Rec-Beat Apresenta” também em Joao Pessoa, lá também com três bandas. Nesse momento que respondo a essa pergunta já temos confirmado oficialmente para o Festival Rec-Beat 2016: Maite Hontelé (Colômbia), Moh! Kouyaté (Guiné), Liniker (SP), Francisco-El Hombre (México/Brasil), Luísa e Os Alquimistas (RN), Duda Brack (RS). Até o final da semana teremos tudo definido.

A grandeza de Cesar Teixeira

O compositor (já no chão) e seu "batalhão pesado" de intérpretes. Foto: ZR (19/12/2015)
O compositor (já no chão) e seu “batalhão pesado” de intérpretes. Foto: ZR (19/12/2015)

 

Cesar Teixeira estava à vontade no palco da Casa das Dunas, onde se apresentou ontem (19). Cercou-se de alguns de seus melhores intérpretes, para um passeio por diversas fases de sua obra.

A vantagem de um show fora dos períodos carnavalesco ou junino é poder conhecer-lhe diversas vertentes. Teve São João – abriu e fechou com Boi da lua –, teve carnaval –Dias felizes, na interpretação das vocalistas do grupo Lamparina –, teve protesto – Oração latina foi entoada pela multidão de pé –, mas teve muito mais.

Flávia Bittencourt cantou Dolores e Flor do mal, que gravou em seu disco de estreia, em 2005, e Parangolé, que gravou em No movimento, o mais recente. Cláudio Lima cantou Ray ban, que gravou antes mesmo do compositor, em seu disco de estreia, em 2001, e Bis, cujo verso “cada mesa é um palco”, dá nome a seu segundo disco, de voz e piano, dividido com o pianista baiano radicado nos Estados Unidos Rubens Salles. Célia Maria cantou a inédita A cruz do palhaço e Lápis de cor, gravada por ela em seu disco de estreia, o homônimo Célia Maria, de 2001. Lena Machado cantou Flanelinha de avião, gravada por ela em Canção de vida, seu disco de estreia, de 2006, e Quem roubou minha aquarela?, com que ela e o compositor participaram de um festival nacional de samba. As vocalistas do grupo Lamparina cantaram a marcha rancho com que obtiveram o segundo lugar no Festival Maranhense de Música Carnavalesca, promovido pelo Sistema Mirante de Comunicação. Com cada intérprete Cesar, autor solitário da íntegra do repertório, dividiu os vocais em uma música.

A base do repertório que Cesar cantou sozinho era Shopping Brazil, o único disco lançado por ele, em 2004. A Met(amor)fose, Vestindo a zebra, Namorada do cangaço e a faixa-título daquele trabalho, somaram-se Das cinzas à paixão, gravada por Serrinha e Companhia com participação especial de Zeca do Cavaco, e Canção da partilha, lançada há cerca de 10 anos, como um poema, declamado pelo próprio Cesar, em Regar a terra, um disco comemorativo do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) no Maranhão.

Cesar estava acompanhado por Cleuton Silva (contrabaixo acústico e elétrico), Daniel Cavalcanti (trompete), Danilo Santos (saxofone tenor e flauta), Firmino Campos (vocal), Luiz Jr. (violão sete cordas, guitarra, viola caipira e direção musical), Raquel (vocal), Robertinho Chinês (cavaquinho e bandolim), Ronald Nascimento (bateria), Rui Mário (teclado e sanfona) e Wanderson Silva (percussão).

O espetáculo irmanou palco e plateia – não foram poucos os momentos em que o público que lotou a Casa das Dunas fez um bonito coro acompanhando as músicas mais conhecidas do compositor. Cesar dialogou com a plateia, brincou por diversas vezes, dizendo da felicidade para com os muitos amigos ali presentes.

Aos gritos de “mais um”, não se fez de rogado. Voltou ao palco para hastear sua Bandeira de aço e repetir o Boi da lua com que abriu o espetáculo. Reunindo todos os convidados para entoar um dos hinos do São João do Maranhão, finalizou o show junto ao público, cantando com ele.

Toda a apresentação foi filmada e os melhores momentos integrarão um documentário dirigido pelo cineasta Marcos Ponts.

Tendo encerrado o ano musical com a maior categoria, Cesar Teixeira já está de olho no futuro: anunciou com exclusividade a este Homem de vícios antigos o próximo encontro com o público. Em janeiro, em data e local a definir, fará um show dedicado a sambas de sua autoria e de compositores da Madre Deus e outros bairros de São Luís. Dividirá o palco com Patativa, Zé Pivó e a Velha Guarda dos Fuzileiros da Fuzarca – o blogue voltará ao assunto em breve.

Tradição, modernidade, alegria e diversão no Bailinho Abre Alas 2015

[release]

Divulgação

Confete e serpentina. Cerveja gelada ou outra bebida de sua preferência. Fantasia e muita animação. Está faltando algo para seu Carnaval? Como boa música é um ingrediente indispensável, a pedida de abertura da festa de momo é o Bailinho Abre Alas 2015.

Uma verdadeira “noite do prazer”, com muito “balancê”, um pé na tradição de sambas, frevos e marchas do menu carnavalesco, outro na contemporaneidade da moderna música popular brasileira. Uma festa para agradar a gregos e troianos, baianos e piauienses, mas sobretudo a você, sua família e seus amigos presentes.

O Bailinho Abre Alas 2015 terá como atrações os cantores Marconi Rezende e Katiana Duarte e o DJ Pedro Sobrinho e acontecerá dia 13 (sexta-feira gorda de carnaval), às 21h, no Bar Bendita Hora (Rua dos Maçaricos, nº. 2, Lagoa da Jansen). Os ingressos, à venda no local, custam apenas R$ 25,00.

“Eu gosto desse carnaval das misturas. O importante é a pessoa chegar no salão fantasiado e cair na folia independente da música que está tocando”, afirma o dejota, para usarmos a expressão que ele prefere. Pedro Sobrinho é um dos mais renomados djs do Maranhão e seu nome está sempre aliado a um profundo trabalho de pesquisa. Em seu set list convivem samba, rock, reggae, salsa, ska, blues, jazz, world music e o que mais pintar. Não será diferente no Bailinho. “O bacana é que vou compartilhar essa mistura armando o terreno para a música orgânica de Marconi Rezende e Katiana Duarte. Estou preparando um repertório para garantir a diversão do folião ludovicense”, promete.

Marconi Rezende, embora mais conhecido pelo refinamento com que trata o repertório de Chico Buarque, seu maior ídolo, passeia com desenvoltura pela obra de grandes nomes da música brasileira. É o que ele apresentará no Bailinho, com foco na tradição do carnaval. Ele passeará por um repertório de marchas, sambas e frevos de nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso e Moraes Moreira, entre muitos outros. “Será uma boa mistura de recordação e entusiasmo contemporâneo, um ensejo para extrairmos todo o prazer dessas canções que nos encheram de alegria, cada uma em seu momento, e que continuam com uma grande força neste período”, antecipa Marconi.

“Adorei o convite para participar do Bailinho Abre Alas junto com Marconi Rezende e Pedro Sobrinho. O que me encanta na proposta é a diversificação de estilo musical, passeando do moderno ao tradicional e vice-versa. Será uma experiência inesquecível, estou ansiosa”, revela a cantora Katiana Duarte, que, com quase 20 anos de carreira na noite de São Luís, apresentou-se recentemente no Bar Café Brasil, em Oslo, Noruega. Seu repertório será baseado em nomes mais recentes da música brasileira, como Nando Reis, Vanessa da Mata e Zeca Baleiro.

Os produtores acreditam que o grande trunfo do Bailinho Abre Alas seja justamente essa diversidade de repertório, a qualidade dos artistas e, sem dúvida, a alegria, diversão e disposição do público. A quem porventura pensar tratar-se de evento infantil, pelo nome, eles avisam: é uma festa para um público seleto, daí o nome; a alegria e satisfação dos presentes serão enormes, prometem.

Serviço

O quê: Bailinho Abre Alas – 2015
Quem: Marconi Rezende, Pedro Sobrinho e Katiana Duarte
Quando: 13 de fevereiro (sexta-feira gorda de carnaval), às 21h
Onde: Bar Bendita Hora (Rua dos Maçaricos, nº. 2, Lagoa da Jansen)
Quanto: R$ 25,00
Informações: (98) 983033995 (Tim) e 98822-6206 (Oi)

6º. Baile do Parangolé festeja 36 anos da SMDH

[release]

Festa acontece nesta quinta-feira (12), com animação da banda Os Patifos. Na ocasião, SMDH filiará novos sócios

DA SMDH

Já tradicional nos calendários carnavalesco e cultural da cidade de São Luís, o Baile do Parangolé chega a sua sexta edição em 2015. A festa será realizada nesta quinta-feira (12), às 19h, na sede da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH – Rua das Mangueiras, quadra 36, casa 7, Jardim Renascença I). Na ocasião, a entidade completa 36 anos de luta “em defesa da vida”, não por acaso seu slogan.

A ideia do Baile surgiu no final de 2009 e sua primeira edição foi realizada em 2010. “Quase sempre a data [de aniversário da SMDH] coincide com a folia. Daí juntamos o útil ao agradável. Muita gente pode achar que carnaval e direitos humanos não combinam, e o Baile também tem essa proposta de, na prática, mostrar que cultura é um direito humano”, afirma o jornalista Zema Ribeiro, presidente da entidade.

Desde sua primeira edição o Baile do Parangolé – título emprestado de um coco do compositor Cesar Teixeira, sócio da entidade – já circulou por vários palcos da cidade. “É também uma forma de dialogarmos com diversos espaços, segmentos e movimentos culturais”, afirma o presidente, lembrando que a festa já passou pelo Sindicato dos Arrumadores (Desterro), Circo da Cidade (hoje extinto, Aterro do Bacanga), Laborarte (Centro), Porto da Gabi (Aterro do Bacanga) e Bar do Porto (Praia Grande).

A Comissão Organizadora da festa este ano optou por fazê-la em casa. É que na ocasião a SMDH filiará novos sócios e o Baile do Parangolé será também uma forma de dar-lhes boas vindas e comemorar sua adesão. Os nomes dos novos sócios serão conhecidos durante a folia. O 6º. Baile do Parangolé terá animação da banda Os Patifos. A entrada é gratuita, mas quem quiser poderá doar objetos para a realização de brechós, com vistas a angariar fundos para a próxima edição da revista Catirina.

Serviço

O quê: 6º. Baile do Parangolé – aniversário de 36 anos da SMDH.
Quem: Banda Os Patifos.
Quando: 12 de fevereiro (quinta-feira), às 19h.
Onde: Sede da SMDH (Rua das Mangueiras, quadra 36, casa 7, Jardim Renascença I).
Quanto: entrada franca. A SMDH aceitará doações de objetos para brechós futuros, cujo objetivo será angariar recursos para a próxima edição da revista Catirina.
Informações: (98) 3231-1601, 3231-1897, [email protected]

Secma exclui sumariamente artistas do carnaval

Artistas foram comunicados via ofício enviado por e-mail. Detalhe: nenhum deles havia requerido inscrição para participar da programação e inexiste edital ou chamada pública para tal

Datado de 26 de fevereiro de 2015 (sic) e subscrito pela Coordenação Geral do Carnaval 2015 o ofício circular nº. 005/2015-GS-SECMA, tem o seguinte teor:

Estamos iniciando uma nova gestão e, com ela, estamos organizando a estrutura de eventos da Secretaria de Cultura, pautada na justiça social, na democracia cultural e na organização dos recursos disponibilizados pelo campo cultural. Deste modo, tivemos que fazer uma série de adequações no projeto Carnaval 2015 para torná-lo mais popular e mais próximo ao orçamento deste ano que foi cortado em mais de 30 por cento. Por isso, embora reconhecendo o seu trabalho na área da música popular maranhense teremos que dispensar a sua participação na programação deste ano.

Entretanto, logo após o carnaval, é nosso interesse realizar um seminário temático para discutir uma política pública voltada especificamente para este setor que é uma das prioridades da SECMA. Espero que o senhor/senhora compreenda o momento e participe do seminário que resultará em um evento a ser realizado ainda este semestre pela SECMA.

O texto foi enviado por e-mail a diversos artistas e a lista de destinatários a que o blogue teve acesso não fazia distinção entre eleitores do governador Flávio Dino (PCdoB) ou de Lobão Filho (PMDB), o segundo mais votado no pleito de outubro passado.

Tendo em vista a inexistência de um edital, chamada pública ou algo que o valha, o documento, no fim das contas, impede qualquer tentativa de participação dos artistas que porventura estejam na citada lista. Mais arbitrário, impossível.

O cantor e compositor Nosly afirma: “Não tomamos conhecimento de nenhum edital e mesmo formalizar [uma solicitação de inclusão na programação] através de ofício não nos dá nenhuma garantia de participação no Carnaval ou no São João. Os critérios de escolha ninguém sabe .É vergonhoso um artista com mais de 25 anos de carreira ter sempre que mostrar que existe”. Indagado se a medida havia soado autoritária ele declarou: “não se pode cobrar autoritarismo sobre algo que nunca foi realmente democrático”.

A notícia foi recebida com tranquilidade pelo cantor e compositor Chico Saldanha: “Já havia decidido, desde o ano passado, não mais participar do carnaval no esquema como era realizado. Primeiro porque parecia um mero favor a escalação dos artistas para as apresentações. Depois a precariedade das condições estruturais da Jardineira, onde trabalhei, o que exigia verdadeiros malabarismos para o cantor se posicionar em 30 cm quadrados sem poder tirar o pé do lugar, durante duas horas, sem contar com três instrumentos de sopro, bateria, percussão etc., etc. a um metro do seu ouvido  e um calor infernal de um gerador em suas costas. A idade não mais me permite tais artes”, declarou.

Pelas redes sociais, houve quem se lamentasse, sentindo-se “traído”, justamente por isso. Caso do cantor e compositor Luis Carlos Dias, que expressou seu descontentamento em seu perfil em uma rede social: “eu ajudei a eleger pessoas para me perseguir também (…), estou decepcionado”, afirmou, após lembrar seu apoio às candidaturas de Flávio Dino (2008) e Edivaldo Holanda Junior (2012) a prefeito de São Luís, e do primeiro a governador do Maranhão (2014).

Não devem ser o voto ou a participação em uma campanha eleitoral os elementos definidores de inclusão ou exclusão de uma programação – seja ela de Carnaval, São João ou qualquer outra. A questão, no entanto, é: que critérios foram utilizados para a escolha dos nomes que comporão a programação carnavalesca promovida pelo governo do Estado do Maranhão? Ou – no fim das contas, dá no mesmo – de quem foi “eliminado” por antecipação, numa espécie de WO cultural.

O discurso da “mudança” deu o tom da campanha do então candidato Flávio Dino, que chega ao poder repetindo, neste aspecto, o modus operandi roseanista. Insistimos: por que não realizar um edital ou chamada pública em vez de escolher determinados artistas a seu bel-prazer? “Esse que seria o governo da renovação, não renova”, criticou o cantor e compositor Carlos Berg.

O presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís Marlon Botão, em entrevista ao jornal O Imparcial de domingo (25/1), afirma o reforço da cervejaria Ambev, com o aporte de R$ 1,3 milhão, via Lei Estadual de Incentivo à Cultura. O recurso soma-se aos R$ 3 milhões destinados à folia pela Prefeitura de São Luís. A esfera estadual preferiu a cômoda posição de contentar-se com o anunciado corte de 30% e a consequente dispensa de artistas da programação – em vez de opções como a diminuição da festa, do número de apresentações e/ou até mesmo do valor dos cachês.

Na mesma entrevista Marlon Botão vai além e diz que “acabou essa história de dizer é carnaval de São Luís, carnaval do Governo do Estado. Não. É carnaval do Maranhão. Hoje a parceria está efetivada entre o Governo do Estado e a Prefeitura de São Luís”. O gesto do governo do Estado aponta uma desarmonia entre o discurso e a prática.

O cantor e compositor Tutuca, produtor do Lençóis Jazz e Blues Festival, pode dizer estar acostumado a vetos a seu nome: quando Bulcão assumiu a Secma, após Roseana tomar o poder de Jackson Lago via golpe judiciário, em abril de 2009, assim o secretário se referiu ao artista, em entrevista a um blogue do Sistema Mirante: “o Tutuca na minha gestão não vai levar nada”. Eleitor declarado de Flávio Dino, Tutuca foi novamente cortado em 2015. Ao blogue ele declarou-se surpreso e frustrado com o e-mail/ofício. Indaguei-lhe se compareceria ao evento pós-carnaval, citado no documento. “Acho ridícula essa proposta de mais um seminário. Pra quê? Temos um plano de cultura para 10 anos, do qual inclusive a atual secretária foi relatora. Não vou participar”, declarou, enfático. Para o músico, o problema, no entanto, não está em Ester Marques: “O problema é que o Governo usou uma Secretaria tão importante como barganha política com um bloco evangélico, que não tem nenhum interesse em cultura. Pra mim esse foi o grande erro. Você pode colocar na Secma hoje até o Juca Ferreira [ministro da Cultura]: se for mandado pela Elisiane [Gama (PPS), deputada federal, responsável pela indicação de Ester Marques para a Secma – em nota o partido já se desresponsabilizou pelas ações da gestora], vai dar nisso mesmo que estamos vendo”, disparou.

O sambista Adão Camilo concorda com Tutuca, em relação à proposta de seminário: “esse lance de seminário, palestras, bate-papo, são coisas que dificilmente levam a algum lugar. Vejo muitos discursos cheios de boa vontade, cheio de fórmula mágica para o sucesso, no entanto, a prática é totalmente diferente”. Artistas excluídos da programação via ofício, como ele e Coqueiro da Ilha, apontam Ester Marques como uma escolha acertada para a Secma, o que demonstra que a discussão não está sendo tratada unicamente pelo viés da política partidária. Chico Saldanha revela não levar muito em consideração de onde parte a indicação. “Indicações fazem parte da prática política. Se derem os instrumentos políticos necessários à secretária e ela escolher pessoas que tenham compromissos com a cultura, pode perfeitamente fazer uma boa administração”, acredita.

Do episódio e sua repercussão, uma coisa é evidente: a urgente necessidade de mudanças no modelo de financiamento público à cultura popular. O atual, insustentável, é herança do mandonismo da ex-governadora Roseana Sarney, que a partir de 1995 incrementou as verbas culturais, sobretudo em anos eleitorais, tornando-se a “dona” do carnaval – e dos festejos juninos – da capital, desresponsabilizando quase completamente a gestão municipal e a iniciativa privada, na contramão de cidades-modelo quando o assunto é folia, casos de Recife e Salvador, para ficarmos em poucos exemplos.

Procurada pelo blogue, a secretária Ester Marques não se manifestou até o fechamento desta matéria.

*

Emenda: a Secma anunciou que dialogará hoje (3) com os artistas excluídos.

Chorografia do Maranhão: Vandico

[O Imparcial, 2 de março de 2014]

Seu apelido emprestou o nome a uma das mais famosas turmas de samba de São Luís. O percussionista Vandico é o 27º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Era uma segunda-feira à noite e Vandico abriu a pesada porta de um velho casarão na Rua do Giz, Praia Grande, para receber a chororreportagem: adentramos o Samba Sem Telhado, palco da Turma do Vandico há quase uma década – pelo vão entre as paredes é possível olhar o céu.

Os chororrepórteres ajudaram o entrevistado a compor o cenário, arrastando bonecos de típicos malandros, boêmios, além de uma espécie de “boneco de Olinda” representando o entrevistado. E é claro, as sombrinhas, estandarte da Turma do Vandico, uma das mais populares e tradicionais do Maranhão.

O percussionista Evandro José Araújo Lima é funcionário público, repetindo uma dobradinha que já esteve muito em voga nas artes nacionais. Nasceu em 29 de maio de 1965, na Rua de Nazaré, “com parteira”, filho de Olga Silva de Araújo, “dona de casa, boa de cozinha, doceira já com uma empresa há 35 anos, a Mãe Olga Doces e Salgados”, e do político Evandro Bessa de Lima, “vereador por três mandatos, chegou a ser prefeito de São Luís por cerca de três meses. Ele faleceu em 1977, eu tinha 12 anos. Quem ficou sendo pai e mãe foi a Mãe Olga”.

Vandico é casado com Ana Paula Martins Rodrigues. Sua turma de samba, por onde já passaram muitos bambas, começou a se reunir em 1986, na casa em que nasceu. Há nove anos mudou de endereço, para o Samba Sem Telhado em que deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão. Talvez para fazer valer a máxima do baiano Tom Zé: “na vida quem perde o telhado/ em troca recebe as estrelas”.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você já nasceu onde fazia o samba? Sim, onde foi criado o movimento da Turma do Vandico, em 1986.

Essa tua influência para a música, para o carnaval, vem de quem? Como surgiu isso? Eu acredito que você nascendo na ilha, você já nasce com o rufar dos tambores. Principalmente onde eu nasci, no Centro Histórico, na Praia Grande, o movimento que já existia na época, bumba meu boi, tambor de crioula. E ouvindo. Eu tinha como vizinho o Sindicato dos Estivadores, onde faziam festas memoráveis. A padroeira deles é Nossa Senhora da Vitória [padroeira de São Luís]. Nas festas só se entrava de terno e as mulheres de longo. Lá eu conheci, sempre estava atento, guri, não podia entrar, eu tive o prazer de ouvir Nonato e Seu Conjunto, não a Tribo de Jah, era outro nome antes da Tribo de Jah, que eram só eles, deficientes [refere-se à deficiência visual dos instrumentistas da banda, numa época em que a formação ainda não contava com o vocalista Fauzy Beidoun], o reggae. Os festejos de Nossa Senhora da Vitória tinham ladainhas, tudo. Acabou! Infelizmente acabou.

E em tua casa? O que se ouvia? O que teus pais gostavam? Minha mãe gostava muito de boleros e meu pai gostava de samba. Mas ele quase não tinha tempo. Dentro de casa mesmo eu já começava a construir os próprios instrumentos. Eu lembro do bloco de sujo, a gente criava latinhas pra fazer o bloco. Eu tinha vizinhos que, aos domingos, aquela calma na rua, colocavam muito instrumental, aquelas orquestras americanas, muita música clássica. Isso se ouvia demais. O próprio vinil de Nonato e Seu Conjunto, sambas, Martinho da Vila, Paulinho da Viola. Tinha na época, até no repertório das emissoras, uma música bem mais agradável. Isso aí tudo fazia parte, eu sempre ouvindo, atento, os próprios sambas-enredos. Lembro, eu guri, indo pro Araçagy, não tinha nada, na Kombi de um padrinho, a gente fazia uma batucada e cantava todos os sambas-enredos. Hoje, pra eu saber uma letra de um samba-enredo, é difícil!

Você é membro de uma família tradicional, e jovem manifestou interesse pela música, pela percussão. Como foi a reação da família quando você escolheu este universo? Houve alguma resistência? Não, não. Eu acho que foi bem tranquila. Inclusive eu tinha um grande sonho, papai ainda vivo, eu sempre fui invocado com percussão, principalmente com bateria. E nós saímos para a Rua da Paz, antiga Casa São Jorge, para comprar uma bateria. Aquela empolgação e tal. Nesse primeiro momento eu não consegui a bateria, não foi possível. Com isso eu sempre criando, comprando outros instrumentos e montando uma bateria. Já com 18 anos de idade, meu primeiro salário, funcionário do município, eu comprei uma timba na Casa São Jorge, com vassourinha. Foi meu primeiro instrumento profissional. Pela sonoridade eu já comecei a me apaixonar. O som grave me atrai, eu já tinha visto os amigos [tocando]. Eu sempre fui empolgado com isso, a nossa cultura popular.

Essa relação tua com a música tem alguma coisa de espiritual? Não exatamente. É interessante isso. Na verdade a minha [relação] seria a paixão pelo ritmo. E curiosidade: de todas as manifestações, que na verdade é o que me atrai, são as batidas. As pessoas me veem com colar e pensam “pô, Vandico é pai de santo” [risos dos chororrepórteres], muita gente pensa isso. Eu tava num aniversário e um cara falando: “Vandico, eu me amarro nesse teu jeito de vestir, eu não tinha coragem de andar desse jeito”. A Helena, minha filha, de seis aninhos, me vê falando com os amigos, um dia ela indagou, a gente vinha de carro, e eu falei com um amigo meu, médico, de terno, e ela: “papai, por que o senhor não se veste desse jeito? Seus amigos se vestem bem” [risos dos chororrepórteres]. E eu disse: “minha filha, eu sou artista”. Ela estava se formando no ABC [concluindo o jardim de infância] e eu disse: “olha, tudo bem, na sua formatura eu vou”, aí eu fui com uma calça de linho e uma camisa branca, não fui de terno, não.

A partir de quantos anos você começou a batucar, a se interessar por música e dizer que isso ia fazer parte da tua vida? Olha, meu grande brinquedo foi bola. Bola era um negócio que me fascinava. Eu ia para uma escolinha no Rio, meu pai faleceu e eu fiquei por aqui. Cheguei a jogar nos times maranhenses. Mas a questão do instrumento, a percussão, acho que com sete anos de idade eu já comecei a me interessar. Já é diferente meu filhão, de um ano e oito meses, ele já pega o repique, direitinho, senta na cadeirinha dele e bate. É uma diferença!

Além de músico você tem outra profissão? Sou funcionário público municipal há 25 anos, assalariado. Sou assistente administrativo, hoje estou na Secretaria de Urbanismo. Eu tive momentos assim, com a música, no próprio colégio [Santa Teresa], participando de bandas. Eu tive um grupo chamado Jam 4, que era um instrumental regional. Tive uma época no Tonga Trio, com Léo Spirro e Oberdan [Oliveira], tudo isso foi uma escola. Entrei no lugar de Zé Carlos [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013].

Você começou a tocar profissionalmente com que idade? 18 anos.

Timba? Timba. Foi a época em que eu entrei no Hibiscos [extinto restaurante, localizado na Vila Palmeira, onde o Tonga Trio apresentou-se por várias temporadas], eu passei um ano e seis meses. O último contrato deles lá no Hibiscos eu participei. Acompanhar grandes artistas foi um aprendizado para mim. Tive um primeiro momento na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], passei uma temporada lá, parei, depois voltei.

Quem foram teus professores? Pixixita, professor Zé Carlos [o músico José Carlos Martins, o Pixixita], a parte de fundamentos. Na época a escola era [de formação musical] erudita.

Quem é tua grande inspiração na percussão? Eu vou te ser sincero: quando eu comecei a tocar timba e tive essa paixão por ela, tinha uns caras aqui, que eram Jeca, Carbrasa. Eram uns caras que já faziam esse trabalho, depois foi muito rápida a amizade, essa troca de informação, de instrumentos. Foi muito interessante.

Como surgiu a ideia do samba que você manteve durante muito tempo na Rua de Nazaré? A padaria ainda funciona? Houve uma época em que já estava ficando insuportável de cheio. A loja continua, a Mãe Olga Doces e Salgados. Na verdade, com esse movimento, e essa minha paixão também pelo futebol, a gente começou, nos nossos encontros de bola, sempre as reuniões tinham um bate papo e um bom sambinha. Cada um levava seu instrumento e batia um sambinha. Aí eu tive a ideia de convidá-los para a loja, a loja é a mesma casa. Onde era o quarto do velho [seu falecido pai] hoje é a loja. A gente se reunia, ia pra lá fazer o sambinha. Num certo momento, numa sexta-feira, na roda, tivemos a ideia de sair em cortejo pela Praia Grande. Naquele primeiro momento, todo mundo concordando com a ideia, animação, me veio a ideia de ter algo para puxar esse grupo. Eu peguei a sombrinha da minha mãe e saímos dançando pela Praia Grande. Quando a sombrinha voltou, não era um guarda-chuva, voltou só os talos, por conta do vento. Aí começamos, nessa época, a fazer estes encontros. Botamos o nome Turma do Vandico, depois veio o Grupo Magia. Com isso foram 19 anos, esse movimento na Rua de Nazaré, sempre às sextas-feiras.

Foi de quando a quando? Começou em 1986 e há oito anos estamos aqui [no Samba Sem Telhado].

Você falou em uma turma de bola, mas quem eram os músicos? Havia músicos hoje reconhecidos? Tem. Tinha Isaac Barros, Tadeu, a turma de Nonatinho, Luizinho, Inhu, é Mário, hoje ele é segurança, da PM, a gente esquece nomes, Marcílio, Nivaldo [Santos] esteve depois. Depois veio Cacá [do Banjo], Neto Peperi, depois, na formação de um grupo, nós fizemos Vandico, Carbrasa, fizemos um momento lá no Caminho da Boiada, com Chico Chinês, Neto Peperi, Costa Neto, Álex, mineiro…

Então, de certa forma, o movimento da Rua de Nazaré serviu de embrião para grupos como o Magia e o Espinha de Bacalhau? O Espinha de Bacalhau já era antes, já tinha a formação. Depois que formou a Turma do Vandico eles andaram se apresentando, fizemos Bailes do Bigorrilho aqui na Casa da Fésta [no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, na Praia Grande]. Como o Estação, que não era Estação, era com a turma, aí criaram o grupo. É mais ou menos isso.

Dá pra viver de música? Você ganha algo com música ou só gasta? Não. Música, não. A música é uma paixão. Eu não posso viver sem ela, ela desopila, é uma coisa que você gosta de fazer. Hoje eu tento nivelar, empatar. A própria Turma do Vandico sempre foi mais pra se divertir. Hoje eu procuro não gastar com ela. Pego recursos pra que empate, na própria venda da cerveja. A Turma do Vandico é feita por amigos, que vêm de bom coração. É um movimento que você tem uma referência da tradição da música maranhense, da boa música. Na verdade você consegue realmente agradar, o próprio instrumentista vem e consegue estar bem no local. Tem essa energia maravilhosa.

Não dá para classificar a Turma do Vandico como uma banda. Ela é mais um movimento pelo qual passam músicos, sem uma formação fixa. Você já citou alguns, mas eu queria que você lembrasse algumas personalidades da música do Maranhão que já passaram pela Turma do Vandico, isto é, os ambientes da Rua de Nazaré e do Samba Sem Telhado. Isso! Exatamente! Neto Peperi, Chico Chinês, Nivaldo, Cacá, Valdinar, Jó, Dinho, esses meninos que estão fazendo sucesso agora, o [grupo] Argumento, eu tenho uma foto lá. Eu diria que muitos beberam dessa fonte. Estivemos participando de um festival que teve na Vila Palmeira, apresentando uma música de Oberdan, nós ficamos em terceiro lugar, onde eu estive com Dona Ivone Lara, Zeca Pagodinho, aquela turma toda. Quem mais? Álex, às vezes você perde os nomes, não é? João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014]! Juca do Cavaco, hoje é um dos nossos maestros da Turma do Vandico, Chico Nô. Sávio Araújo esteve por lá, Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro, Cesar Teixeira, César Nascimento, Célia Leite, a última agora que deu uma palhinha com a gente, Patativa. Léo Spirro, Domingos Santos, Privado.

Vandico e o choro: a partir de quando essa relação começa? O choro, eu participando ativamente do choro, acho que tem uns 15 anos. Eu já ouvia muito. Dilermando Reis [violonista], eu tinha um vinil de Dilermando Reis. O choro, o pandeiro é um instrumento importantíssimo, e difícil de ser executado. Pretendo ainda ser um grande pandeirista.

Com quem, primeiro, você começou a tocar? O Feitiço da Ilha já tem oito anos, mais ou menos isso, quase 10. [Comecei] Nos encontros, Biné do Cavaco, Paulo Trabulsi [cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], Serrinha [o flautista Serra de Almeida, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013]. Aí vem Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], eu tive o prazer de estar em rodas de choro com… [demora a lembrar do nome e exclama alto:] Zé Hemetério [multi-instrumentista]! Às vezes você perde o nome, cara, das figuras. Eu acredito que o percussionista tem que estar nessas variações, conhecendo os artistas, tocando com eles. Essa é a universidade musical, a vida que você tem nos bares, nas ruas, fazendo serenatas, saraus. Eu era do Santa Tereza ainda, fazia sarau com Djalma [Chaves, cantor e compositor]. Outra figura também interessante que eu vi muito ainda jovem foi Gilberto, Gilberto que foi do Peso [Banda O Peso], Fantoches.

De uns anos para cá, 2009 mais precisamente, o Feitiço da Ilha tem andado mais articulado, tocado com mais regularidade. A que você credita isso? A uma valorização do choro em São Luís, a uma organização da cena, ou a quê? Eu acredito que, na verdade, até a própria vontade do artista em querer fazer esse grande trabalho. Choro foi a nossa primeira música, estilo, instrumental. Com as figuras mais jovens também, a própria Escola Lilah Lisboa, ela te prepara para esses estilos. O Feitiço da Ilha, com Juca, Domingos Santos [violão sete cordas] fez parte, maravilhoso, e Chico Nô, começamos na calçada da Rua do Giz, em frente ao Restaurante da Dadá [o Cantinho da Estrela], a boa música condizia com o cartão postal que é a Praia Grande. É o que falta. De lá partimos para a calçada do [antigo] Hotel Central [na Praça D. Pedro II], chegamos a ser citados na revista da TAM por Zeca Baleiro.

Por lá passaram alguns grandes nomes do cenário nacional tocando com vocês, não é? Zé Barbeiro [violonista sete cordas], Hélcio Brenha [saxofonista], Celsinho Silva [pandeirista]. Teve um rodão depois, que não foi lá na calçada. Acredito que além da resistência e de você colocar para fora esse movimento do choro, da música instrumental, e você pegar os pontos que realmente seriam um atrativo do próprio espaço para essa boa música, eu acredito que há público para isso, inclusive sente-se muita falta disso, o próprio Clube do Choro [Recebe, projeto sediado no Bar e Restaurante Chico Canhoto entre 2007 e 2010] faz uma falta, tem que ser reativado, com certeza. Eu tive conhecimento de uma roda de choro na [praça] Gonçalves Dias. São movimentos que o público maranhense precisa.

E um cd da Turma do Vandico? Nós temos músicas, um repertório para gravar esse ano, inclusive com nossos compositores.

Quem são os nossos compositores? Zé Paulo, Chico Nô, Isaac [Barros], Neto Peperi, Quirino, Serrinha [do grupo Serrinha e Cia.] ficou de fazer uma, o próprio Oberdan já fez uma, Joãozinho [Ribeiro] me disse que tem duas.

Um momento importante de tua carreira foi o show Rosa Secular [Noel, Rosa secular teve duas edições, a primeira também com Cesar Teixeira], que veio a ganhar Prêmio Universidade. O que significou para você estar ali junto de [os compositores] Joãozinho [Ribeiro], Josias [Sobrinho], [Chico] Saldanha, seus convidados especiais e aquela banda enorme e supertalentosa? Na verdade eu me sinto muito feliz em estar com estes monstros da música brasileira. E o [show em homenagem a] Noel Rosa fez com que a gente tivesse mais contatos, o músico, os compositores, os artistas, num movimento que foi muito importante para a cidade. Eu sempre aprendo nesses movimentos que sou convidado, participo, com essas pessoas maravilhosas. Tanto com os músicos quanto com os compositores que estiveram nesse show. Foi uma celebração da música maranhense junto com um público maravilhoso. Foi um espetáculo, um show que eu diria que se a gente voltasse atrás, eu sempre digo para os amigos que eu nasci numa época errada, eu queria ter nascido no século 18, 19. Aquele show do Noel Rosa lembrou até o Teatro de Revista. Foi uma celebração maravilhosa, isso para meu currículo, de artista, de produtor cultural, de percussionista, ritmista, foi muito interessante.

Qual a importância do choro na cena brasileira? Eu acredito que é o ABC de todo músico, de todo artista, está com ele, na sua cartilha, o choro. Além de proporcionar viagens maravilhosas, aonde você chegar você é muito bem recebido. Eu, particularmente, vivo um momento muito gostoso de minha vida fazendo parte do Feitiço da Ilha, mostrando nos cantos da cidade o choro. ABC não no sentido de ser fácil de fazer: os grandes chorões eram escolados maestros.

Como você avalia o choro que se faz hoje no Maranhão? Nós temos um movimento maravilhoso, instrumentistas fabulosos. Tem muita rapaziada nova já inserida, saindo da Escola [de Música] e se interessando pelo choro.

Você é um cara muito ligado, valoriza demais a cultura popular maranhense. Você acha que ela pode ser misturada ao choro? Sim, claro. Deve. Com certeza! Eu crio em cima do choro a minha performance musical. Em cima, não tirando, mas acrescentando, a musicalidade em cima do instrumental de choro. Eu acho interessantíssimo, isso vem de dentro. Por que não? De repente a Bela mocidade [toada de bumba meu boi de autoria do recém-falecido Donato Alves] vira um clássico do choro, não procede?

O que significa o carnaval para Vandico? É minha alegria! Meu dia a dia. É fazer as pessoas felizes, compartilhar momentos maravilhosos. Eu acho que o carnaval, não só na sua época, mas em todo momento que eu participo dos movimentos culturais, até propriamente dentro de casa, você tem que ser alegre. A Turma do Vandico, o próprio Vandico, é uma alegria e com muito prazer de se resgatar o nosso grande carnaval de São Luís do Maranhão. Já estive em momentos maravilhosos em carnavais em interiores, que infelizmente acabaram por influência de musicalidades que realmente não têm a ver com nossa cultura, com nosso carnaval, que eu particularmente sou do carnaval de rua, essa é a cara do Maranhão.

Que tipo de sentimento te ocorre quando você pega sua sombrinha, sai em cortejo e vê todo aquele povo te seguindo? A minha missão na Turma do Vandico é fazer esses cortejos. A cada cortejo que é feito, todas essas pessoas amigas, que acompanham a Turma, são simpatizantes, isso me deixa muito feliz. São 28 anos de atividades, de movimento, e você não vê uma briga. A gente consegue manter essa tradição junto com nosso estandarte, nosso guarda-chuva, tocando nosso apito.

Sambista e carnavalesco eu sei que a resposta seria sim, mas você se considera um chorão? Eu estou a cada vez mais me botando essa camisa, pela afinidade e pelas parcerias, os companheiros dessa área. Eu vejo que hoje é a musicalidade que me deixa muito bem.

Você tem uma cara que é como se fosse a cara do carnaval, ao mesmo tempo em que a Turma do Vandico tem um slogan, “é só alegria”. O que deixa Vandico triste? O que me deixa triste é o desrespeito ao artista maranhense. Nós temos uma batucada ímpar, bloco tradicional, tambor de crioula, a batucada do [bloco] Fuzileiros da Fuzarca, inconfundível. Nós temos tudo isso, onde os compositores e artistas maranhenses se prestam a fazer um grande carnaval, mas não são valorizados pelos nossos gestores.

Como você observa o abandono da Praia Grande? É o cartão postal da cidade. A Praia Grande precisa ser revigorada em todos os aspectos. Falta capacidade, competência para que você faça um grande trabalho, invista. Isso aqui é um lugar belíssimo. Do jeito que está você vê o turista vindo, batendo foto. Ela vive um momento muito cruel, a poluição sonora, o descaso no seu entorno todo. É preciso que se veja com bons olhos esse momento que o Centro Histórico está vivendo. Nós estamos praticamente nos momentos políticos de eleições, que se pense realmente em quem vai dirigir futuramente o estado e veja isso com o maior carinho. E convido-os [os candidatos] a passearem na Praia Grande, só assim veremos os problemas que a Praia Grande tem.

O que você achou da exclusão arbitrária de Chico Maranhão e Cesar Teixeira da programação carnavalesca oficial do Governo do Maranhão? São dois grandes compositores, têm tudo a ver com o carnaval, fico também triste por isso, por que se eles não estão com suas apresentações no palco, as músicas deles estão sendo tocadas por aí. A bandeira do artista bate em todos os sentidos e pra todos os lados, ela não pode ser rotulada: “você não pode, você não deve, aquele não pode”, assim não funciona. Eu fico triste com esta situação.

[nota do blogue: era domingo de carnaval; o jornal cortou a última pergunta]