O jazz brasileiro de Caymmi

Dorival. Capa. Reprodução

 

Vem de longa data o reconhecimento da sofisticação da música popular brasileira, uma das mais interessantes do planeta. Voltemos no tempo para permanecer no universo do homenageado, Caymmi, de quando sua O que é que a baiana tem?, interpretada por Carmem Miranda, integrou a trilha sonora do filme Banana da terra, em 1939, para gringo ver. Ou quando sua Doralice conquistou o Carnegie Hall e a bossa nova (com jazz) de João Gilberto (e Stan Getz) conquistou o mundo.

Dorival [2017], disco que reúne Tutty Moreno (bateria), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), André Mehmari (piano) e Nailor Proveta (saxofone e clarinete), “time dos sonhos, reunião de bambas, quarteto fantástico”, como assinala Joyce Moreno em texto no encarte, “levando a música de Dorival Caymmi, gênio da raça, a mares nunca dantes navegados”.

Individualmente os integrantes deste quarteto têm relevantes serviços prestados à música brasileira, aqui e no exterior – Dorival foi gravado no Rainbow Studio, em Oslo –, assim como o homenageado. Há quase 20 anos já haviam se reunido em disco, em Forças d’alma, como Tutty Moreno Quarteto. Agora, assinando pura e simplesmente com seus próprios nomes, credenciais que lhes bastam, presenteiam os ouvidos mais atentos com “uma daquelas provas de que o Brasil que o Brasil merece é possível”, para continuarmos citando Joyce.

Em 10 faixas abordam o universo criativo de Dorival Caymmi, dono de uma das obras mais particulares da história da música brasileira – Morena do mar e Milagre reaparecem na Suíte Caymmi, que traz ainda entre uma e outra, que se repetem, Dois de fevereiro. A abordagem é original, o baiano elevado a jazz, mesmo quando se trata do Samba da minha terra, sem perder a essência de brasilidade, a brejeirice, o clima praieiro. Entre outras, comparecem ao repertório Sargaço mar, João Valentão, A vizinha do lado e Só louco – se uma das forças da obra de Caymmi reside na lírica, é tanto o talento dos instrumentistas reunidos em Dorival que a supressão das letras não diminui o brilho e valor de sua obra.

Praia, mar, céu e Caymmi são evocados na arte que embala o disco, assinada pelo talentoso Gal Oppido. Não é o primeiro disco inteiramente dedicado ao cancioneiro caymmiano. Espero que não seja o último. O grande trunfo de Dorival é que os craques do time jogam para o conjunto. Aqui e ali sobressaem-se seus talentos individuais, mas não há vontade ou necessidade de um querer demonstrar maior virtuosismo que outro. O importante é re/embalar, em beleza diversa da original, a obra do gênio a quem escolheram acertadamente homenagear.

Constroem, a partir da desconstrução da obra de Caymmi, uma nova obra, com respeito e reverência, singela e comovente como o pai de Dori, Danilo e Nana inventou.

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Ouça A vizinha do lado (Dorival Caymmi), com Tutty Moreno, Rodolfo Stroeter, André Mehmari e Nailor Proveta:

A nova saída de Dado Villa-Lobos

Exit. Capa. Reprodução

 

No apagar das luzes de 2017 o ex-Legião Urbana Dado Villa-Lobos lança Exit [Rockit, 2017]. O disco abre com a pegada rock de 7×1 (Dado Villa-Lobos/ Nenung/ Gabriel Muzak), letra de forte cunho político: “e é só assombração/ no reino dos parasitas/ e todo bom cidadão/ sabe fingir que acredita/ e quanto custa morrer/ nesse consórcio de azar?/ que é comprar pra manter/ tanta mentira no ar/ vagabundos com controle total/ assassinos além do bem e do mal”, termina.

A letra de Fogueira de natal (Dado Villa-Lobos/ Nenung) é apropriada para estes tempos em que o disco chega: “o natal foi fogo/ o fogo eu que comecei/ quem sabe o ano novo/ me devolva o que eu sonhei”. A sonoridade evoca Os The Darma Lóvers, de Nenung, parceiro de Dado Villa-Lobos em seis faixas – além de assinar sozinho Partida.

Dado Villa-Lobos canta (melhor que nunca) e pilota vários instrumentos (guitarra, violão, cigarbox, fender e ebow) em um disco pop cuja sonoridade dialoga com Legião Urbana, Os The Darma Lóvers, Beastie Boys – cujo rap I don’t know vira Então vem, em versão dele –, New Order – cuja Every little counts é citada em Voltando pra escola (Dado Villa-Lobos/ Nenung/ Roberto Pollo) –, Belchior – os versos “piscava o sinal vermelho/ quando peguei na sua mão”, de A saudade dos unicórnios (Dado Villa-Lobos/ Nenung/ Estevão Casé), evocam Medo de avião instantaneamente – e Serge Gainsbourg, na língua e ritmo de L’oeil du drone (Lucas Vasconcelos, com versão de Dado Villa-Lobos para o francês), cujo título é mais uma demonstração de que o artista está sintonizado com estes tempos trágicos.

A time que se completa com o percussionista Estevão Casé e o violonista e guitarrista Lucas Vasconcellos, que assinam a produção do disco, passeiam ainda por Exit, entre outros, Marcelo Callado (percussão), Bruno Di Lullo (percussão), Nina Becker (coro), Roberto Pollo (hammond, moog e melotron), Diogo Gomes (trompete), Thiago Queiroz (saxofone barítono) e Everson Nunes (trombone).

Um resumo possível de Exit é o que aponta Lucas Vasconcellos em texto no encarte do disco: “Um cavalo que avança sobre as certezas. Esse bicho sem freio é a vida vindo, irremediável encontro e desencanto. Exit é a visão crua e mágica desses tempos, onde os seres imaginários convivem com o incêndio do dia-a-dia numa harmonia contundente”, diz um trecho.

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Veja o making of de Fogueira de natal (Dado Villa-Lobos/ Nenung):

Direitos Humanos no Brasil: um Relatório mais necessário que nunca

Relatório Direitos Humanos no Brasil 2017. Capa. Reprodução

 

Sob a égide golpista, “A organização e publicação de mais uma edição do Relatório Direitos Humanos no Brasil é, por si só, um sinal de esperança”, afirma Thomaz Ferreira Jensen, economista que trabalha com educação popular em processos de formação sindical, no prefácio da obra, a 18ª. edição da publicação da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, ampla coalizão de movimentos sociais.

Sob a epígrafe de Emicida de Casa (“Sobre as chances, é bom vê-las, às vezes se perde o telhado pra ganhar as estrelas”), que atualiza o Tom Zé de Solidão (“Na vida, quem perde o telhado/ Em troca recebe as estrelas”), ele atesta, adiante: “Os leitores do Relatório não encontrarão aqui propostas de conciliação com quem oprime. Não há meias palavras, mas o texto direto de um registro da realidade concreta dos milhões de brasileiros que são vítimas de violações dos direitos humanos”.

Diversas organizações maranhenses figuram na longa e respeitável lista das que “participaram da elaboração do relatório Direitos Humanos no Brasil desde 2000”, ano do início da publicação: Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (Assema), Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN/MA), Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente Pe. Marcos Passerini (CDMP), Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara (MABE), Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), entre outras.

Alguns recortes, ainda não li completamente o livro, que terá lançamento amanhã (5), às 18h, no Sesc Bom Retiro, São Paulo/SP, com apresentação do grupo Ilu Obá de Min, em evento aberto ao público (respeitando os limites do auditório):

“É bem verdade que substituição do termo “direitos humanos” por “direitos civis” fere a Constituição Federal de 1988 que, como apontado anteriormente, recepcionou todas as normas internacionais de direitos humanos. Mas é verdade também que desde agosto de 2016, com a aprovação no Senado Federal do afastamento da Presidenta Dilma Rousseff, o país vive em estado de exceção, com a ordem democrática suspensa por um movimento que alguns autores têm denominado por “golpe parlamentar-judicial” […]. Na atual conjuntura, o país tem assistido os poderes Legislativo e Judiciário apoiando medidas do Executivo que ferem e suprimem direitos consolidados em leis harmônicas em relação à Constituição Federal. Ou seja, tornam a constitucionalidade apenas um detalhe, e não um princípio normativo” (do artigo Direito Humano ou Direito Civil? – O impacto na educação do governo Temer, de Mariângela Graciano, da Unifesp/Guarulhos, e Sérgio Haddad, pesquisador da Ação Educativa e professor da Universidade de Caxias do Sul).

Outro: “Mais uma vez a Previdência e a seguridade social são objeto de ataque por parte do governo de plantão, visando reduzir os gastos. Argumenta o governo que a mudança demográfica – as pessoas vivem mais e há um menor número de crianças por família – terá forte impacto sobre os custos da Previdência social, o que coloca o imperativo de uma reforma. Esses argumentos são discutidos em publicações do Dieese e parceiros mostrando as fragilidades e indicando outras formas de abordar esses desafios” (de O emprego, o trabalho e os direitos sociais no Brasil – 2016 e 2017, de Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese).

E ainda: “Em 13 de julho de 2017, o presidente Michel Temer sancionou, sem vetos, uma “reforma trabalhista” considerada inaceitável por boa parte do movimento social […].

Segundo o artigo 149, quatro elementos caracterizam por si e individualmente o trabalho análogo a de escravo: as condições degradantes de trabalho, as jornadas exaustivas, a servidão por dívida e o trabalho forçado. A reforma trabalhista dificultaria o reconhecimento do crime, pois tocam e relativizam legalmente os direitos. Prevê negociações coletivas que poderiam se suplantar ao legislado, como se as leis não fossem o teto mínimo de cumprimento exigido, e pressupõe que as partes têm poderes simétricos, sindicatos que defendem os seus associados em qualquer circunstância. Vejamos, assim:

1) é possível ampliar a jornada de trabalho, por meio de negociação coletiva, para 12 horas diárias, e diminuir o intervalo de almoço. A jornada exaustiva, prevista do artigo 149, pode ser mais difícil de ser provada;

2) por acordo coletivo pode ser alterado o “enquadramento do grau de insalubridade” e prorrogar jornadas “em ambientes insalubres” em local de trabalho. Até agora, tais mudanças necessitavam de prévia licença do Ministério do Trabalho. A acusação sobre trabalho degradante pode ser prejudicada;

3) houve ampliação das possibilidades de terceirização. Pode-se terceirizar até nas atividades fins. O que dificulta localizar quem é o verdadeiro empregador;

4) com a ampliação das formas de contrato de autônomos, houve uma “ampliação da terceirização”. Permite que autônomos sejam contratados de forma exclusiva e contínua. Assim, o empregador pode privar o trabalhador dos seus direitos básicos” (em A reforma trabalhista e o trabalho escravo, de Ricardo Rezende Figueira, doutor em Sociologia e Antropologia pela UFRJ e coordenador do Grupo de Pesquisa Trabalho Escravo Contemporâneo no Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos).

Como se percebe, o Relatório perpassa diversas temáticas em Direitos Humanos e, diante do momento político conturbado por que passa o Brasil, torna-se mais necessário e urgente que nunca.

Show da Eddie coroou o já consagrado BR 135

Foto: Zema Ribeiro

 

Com 30 anos de estrada, a Eddie é menos conhecida – mas não menos importante – que seus pares de manguebit, principalmente Nação Zumbi e mundo livre s/a. Mas os meninos de Olinda já estavam na área quando o boom se deu e seguem firmes, fortes e tendo o que dizer.

No camarim, após o show da banda ontem (2), na última noite de Festival BR 135, Fábio Trummer me contou que o grupo foi convidado a gravar o disco de estreia no mesmo período em que Chico Science o fez. “Vamos lá! A gente só vai acontecer se for em bando”, vaticinava o malungo. A Eddie, com sua sabedoria, recusou: “Chico, nós ainda não estamos preparados para isso”.

Só estreariam em disco em 1998, com o ótimo Sonic Mambo. Nação Zumbi e mundo livre s/a já tinham dois discos cada uma e o vocalista da primeira já havia falecido em um trágico acidente automobilístico no carnaval do ano anterior. A pressa é inimiga da perfeição e o segundo disco só sairia em 2002, Original Olinda Style, título que bem cabe de rótulo ao som da banda, que mistura punk, rock, maracatu, ciranda, frevo, surf music e outros carnavais. Sobre este disco, uma curiosidade: a grana dos direitos autorais pela gravação de Quando a maré encher (Fábio Trummer/ Roger Man/ Bernardo Chopinho) por Cássia Eller, em seu Acústico MTV (2001), ajudou enormemente em sua feitura. A música, aliás, foi um dos pontos altos – e não foram poucos – do show vibrante de ontem, um passeio por todas as fases destes 30 anos de carreira – quase 20, se contarmos a partir do debut discográfico.

Fábio Trummer (guitarra e voz), Alexandre Urêa (percussão e voz), Andret Oliveira (trompete, teclados e samplers), Rob Meira (contrabaixo) e Kiko Meira (bateria) botaram o público para cantar, dançar e aplaudir. De Quebrou, saiu e foi ser só (de Morte e Vida, o disco mais recente, de 2015) a Veraneio (que batiza o disco de 2011), passando por Danada (de Metropolitano, de 2006), Desequilíbrio (de Carnaval no Inferno, de 2008), Sentado na beira do rio e Pode me chamar (ambas de Original Olinda Style).

Quando um fã mais afoito gritou pedindo por O Baile Betinha, Urêa retrucou, bem humorado: “você já quer acabar o show, rapaz?”. Fazia calor, Trummer deu mais um gole na long neck e agradeceu à polícia: “pelo expediente eles já podiam ter ido embora, mas ainda estão aí para garantir a segurança de todo mundo”. A programação da noite estava atrasada e ao se despedirem, lamentou, para desespero do ótimo público presente: “ainda tínhamos umas seis ou sete músicas”. Atenderam aquele pedido e não voltaram para o bis.

Em uma rede social da banda, um comunicado postado por volta de meio dia de hoje (3) anuncia a remarcação de um show em Londrina/PR para o ano que vem, em virtude de não terem conseguido “logística em tempo hábil para sair de São Luís”. O BR 135 marcou, então, o encerramento desta turnê da Eddie – não poderia haver coroamento mais adequado para ambos. Este mês a Eddie disponibilizará outro single do disco novo, a ser lançado em 2018.

Pessoalmente, Fábio Trummer é ainda mais simpático. Em seu braço esquerdo cheio de tatuagens, mostro a ela a mosca que dá nome à banda, que compareceu ao encarte do primeiro disco. Aos 47, ele entra de férias para curtir outra estreia: esperar a chegada de seu primeiro filho.

O novo som de Brasília

Foto: BR 135/Divulgação

 

A Muntchako não entrega o ouro ao bandido de cara: a princípio o show lembra uma espécie de Buena Vista Social Cover, trocadilho infame, o que não seria pouco. No palco, o trio só evoluiu ao longo de sua apresentação, ontem (2), na última noite do Festival BR 135. Não demorou para o público estar completamente entregue, dançando, aplaudindo, erguendo os braços.

Os teclados de Samuel Mota (guitarra, banjo, programação e synths) evocam bandoneons e logo um tango argentino me vai bem melhor que uma cumbia. Com Rodrigo Barata (bateria e samplers) e Macaxeira Acioli (percussão, samplers e voz), ele assina todas as faixas do álbum de estreia do grupo [2017], um caprichado vinil com sete faixas e produção musical de Curumin, mago cujo toque de Midas é uma espécie de certificado de qualidade – o álbum está disponível para audição e download gratuito e legal no site do Muntchako. A capa é desenhada pelo paraibano Shiko e evoca o Edy Star glam de Sweet Edy [1974], com o personagem mascarado que a estampa usando um botton com a inscrição “Temer jamais”. Não à toa o disco abre com Golpe.

Não há fronteiras ou quaisquer limites para a sonoridade do trio, convergência de experiências distintas. São três cabeças, mas a lista de instrumentos usados no disco e no palco é enorme. Na apresentação de ontem, destaque para o sample da voz da funkeira carioca Deize Tigrona, trazida virtualmente à ilha em Cardume de volume, faixa de que participa no disco – sem ela a festa não estaria completa.

Brasília não é berço apenas de escândalos políticos nem estacionou no rock brazuca oitentista.

O sistema é bruto

Foto: Zema Ribeiro

 

Musical e geograficamente o Baiana System está localizado entre a pernambucana Nação Zumbi e a carioca O Rappa. Como o nome indica, Russo Passapusso e companhia vêm da Bahia.

A sonoridade do grupo é uma salada que vai de samba-reggae, axé, pagode, rock, reggae, rap, um som urbano urgente que discute questões idem – especulação imobiliária, desigualdades sociais, racismo, trabalho – embaladas em bases de contrabaixo, guitarra, percussão, programações eletrônicas e a guitarra baiana na linha de frente. As projeções, com a máscara-símbolo do Baiana System em destaque, são outro elemento à parte, compõem o cenário mas estão para além disso.

Russo Passapusso é um showman sui generis: bota o público pra dançar, erguer os braços, fazer barulho, mas sabe que está ali para abrir cabeças, diferente da polícia que, Brasil afora, o faz a base de cassetetes, como ele mesmo disse, a frisar com um exemplo engraçado, de Salvador, em que policiais chegaram para espancar populares que estavam “fazendo a roda” e caíram na gargalhada em resposta às risadas com que foram recebidos. Ufa, foi por pouco. “Salve a polícia simpática, educada”, cumprimentou.

O vocalista e compositor se divertiu: fez a maior parte do show em frente ao palco, um nível abaixo da banda, dançando com um par de cazumbas que fazia as honras da casa. “Cadê o boi?”, perguntou ao perdê-los de vista. Várias vezes foi até o gradil cumprimentar o público, exalando simpatia.

Lançado ano passado, Duas cidades, base do repertório do show de ontem (30/11), na Praça Nauro Machado, na programação do Festival BR 135, figurou em quase todas as listas de melhores discos do ano. Lucro (Descomprimindo) dialoga diretamente com Aquarius, filme de Kléber Mendonça Filho estrelado por Sônia Braga: ambos têm a especulação imobiliária como personagem central.

Eletronicamente malemolente a faixa-título retrata o abismo social entre as periferias e bairros nobres de qualquer cidade do mundo: “diz em que cidade você se encaixa?/ cidade alta, cidade baixa”, provoca, reflete, a partir da realidade soteropolitana. “Dignidade é poder trabalhar”, diz verso de Mercado, em tempos de reformas trabalhista e previdenciária sob a égide golpista. O coro de “Fora, Temer!”, estimulado por Passapusso, soou tímido.

Não houve bis. O Baiana System dá seu recado – seco, duro, preciso, direto, urgente – mas não faz charminho.

“Viver é correr riscos, poesia é risco”

O baiano Lucas Santtana se apresenta hoje (1º.), às 22h, pela primeira vez em São Luís, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), de graça, na programação do Festival BR 135.

São sete discos lançados em quase 20 anos de carreira, álbuns bastante diferentes entre si, o mais recente, Modo Avião, não dará as cartas no repertório de hoje à noite: o set list de Balada de Lucas, nome do show, foi escolhido pelos fãs, pela internet.

Multi-instrumentista, seu nome já frequentou fichas técnicas de discos de Marisa Monte, Chico Science & Nação Zumbi, Jussara Silveira e Caetano Veloso e Gilberto Gil – é dele a flauta em Baião atemporal, de Tropicália 2 [1993], faixa que homenageia seu tio Tom Zé.

A direção musical do espetáculo é de Xuxa Levy e Lucas Santtana, que não tocará nenhum instrumento para ficar livre para dançar e interagir com o público, sobe ao palco escoltado por Dudinha Lima (contrabaixo e guitarra), Jr. Deep Drumagik (batidas eletrônicas e samples), Rafa Moraes (guitarra) e Lenis Rino (percussões e octapad).

Por e-mail, Lucas Santtana conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Edu Pimenta

 

Lucas, você acaba de lançar disco novo. Em vez de optar por fazer o show de Modo Avião, você fará um show baseado em escolha popular pela internet. É mais um dado de tua enorme capacidade de se reinventar?
​Eu só quero fazer o show Modo Avião em teatros, com as pessoas sentadas. Não faz sentido fazê-lo em festivais e casas noturnas. Como meu show mais eletrônico com o Bruno e o Caetano já estava na estrada há cinco anos, senti a necessidade de criar um show novo, com novos arranjos, outra concepção. Chamei o Xuxa Levy para dirigir o show, coisa que nunca tinha feito antes. Queria sair um pouco de dentro da minha cabeça e acho que nesse sentido foi uma abertura positiva. Até porque já tenho quase 20 anos de estrada. Então para subir num palco e cantar uma música de 15 anos atrás você tem que se reinventar, sem dúvida. Se não há mais sentido e prazer em dizer aquilo, melhor não dizer.

Você tem discos completamente diferentes em sua carreira. A reinvenção constante é uma necessidade?
​Para mim sempre foi mais uma questão de tesão e de urgência. De precisar fazer um disco de dub, ou de violão ou mais eletrônico etc. Naquele momento é aquilo que tira meus pés do chão, me faz gozar, me faz sonhar acordado.​ Sinto que preciso fazer aquilo, que é urgente para mim fazer. Não sinto obrigação de que sempre seja diferente, simplesmente é assim que meu lado artístico tem se manifestado. E pago caro por essa escolha de mudar o tempo todo. Mas é isso, tenho que fazer reverberar a minha essência. Se me desconectasse dela é que pagaria um preço muito mais alto. Viver é correr riscos, poesia é risco. Ainda mais nos dias de hoje. Viver para instigar os outros.

Você é sobrinho de Tom Zé. No que este parentesco te ajudou e te atrapalhou? Qual o tamanho da responsabilidade em carregar essa informação no DNA?
​Não me atrapalhou em nada, até porque quase ninguém sabe desse parentesco [risos]. E nunca me fiz valer dele também apesar de ter muito orgulho e pertencimento. Estudando o samba [1975] é um dos cinco álbuns mais importantes da música brasileira. Há ali pela primeira vez a simbiose da canção com o ruído de maneira harmônica​. Ao mesmo tempo um disco experimental e de cancioneiro popular. O uso de samples, ou a invenção deles, já que não existia ainda máquinas de sampler. Aquilo abriu as portas para muitas coisas que vieram a seguir, veja o disco do Rincón Sapiência [Galanga livre, 2017] que usa um sampler de Tom Zé.

Nesta apresentação você não tocará nenhum instrumento, ficando livre para dançar e interagir com o público. É possível que a ideia percorra outros festivais ou outras apresentações tuas?
​No último show com o trio eu tocava vários instrumentos. Era legal, mas isso me prendia muito ali. Tava com saudade de ficar livre para olhar no olho das pessoas, chegar mais perto delas e só me preocupar em cantar, em passar o recado. No show do Modo Avião também só tenho cantado. É como me sinto agora, pode ser que alguma hora mude de novo. Mas por hora é tudo que eu quero.

Seu show tem direção musical de Xuxa Levy, que produziu recentemente discos de Emicida e As Bahias e a Cozinha Mineira, colocando você lado a lado com o que de melhor a música brasileira tem produzido atualmente. Como você se sente em meio a essa cena?
​Orgulhoso de fazer parte de uma cena tão rica e diversificada, que só reafirma e fortalece tudo que veio antes de nós.

A seu ver falta atenção por parte dos meios de comunicação, que insistem na mesmice?
​Olhe, eu acho que basicamente falta educação no Brasil. Em todas as classes sociais. Falta diálogo e, sobretudo, maturidade. Ainda somos uma sociedade bastante imatura, e muito disso é por falta de educação. Os meios de comunicação são apenas mais um reflexo disso. Muito pior do que a mesmice é a irresponsabilidade desses meios, que vêm insuflando o ódio e as polarizações dentro dessa sociedade imatura. Os meios de comunicação só têm servido para deseducar e manipular uma massa de manobra de maneira inconsequente.

Que outros nomes você destacaria na atual cena independente brasileira?
​Todos que estão tocando no Festival BR 135 esse ano e muitos outros que não vieram esse ano, mas virão nos próximos.

 

Em Streets Bloom, seu clipe mais recente, você homenageia São Paulo, a maior cidade do Brasil. Agora chega pela primeira vez a São Luís, capital com características completamente diversas daquela megalópole. Quais as tuas expectativas?
​As melhores possíveis. De conseguir fazer um show legal para as pessoas. De trocar energia e ideias com elas. Mas, sobretudo, de fazer amigos. O que sempre mudou para mim em relação às cidades que já toquei várias vezes é que quando você faz amigos, voltar àquela cidade se torna algo completamente diferente. Em certa medida é como re-visitar parentes, entende? Tenho amigos de longa data em Recife, em Belo Horizonte, em Brasília… e voltar para tocar nessas cidades é saber da alegria de revê-los. Espero que role o mesmo em São Luís.

Quando você ouve falar em Maranhão, no que você pensa, musicalmente falando?
​As Radiolas, Tambor de Crioula, a festa do Boi​, e mais recentemente do governo do Flávio Dino, que foi apontado pela FGV como o governo mais transparente do Brasil. Precisamos valorizar tudo que é público. Isso é ser patriota de verdade.

“O produtor deve tentar sempre se ater à melhor qualidade possível de sua época”

“Me pegou desprevenido mesmo! Mas vou te respondendo no voo… Ó aí!”, escreveu o produtor musical Bruno Giorgi na resposta ao e-mail que lhe enviei com as perguntas desta entrevista.

O filho de Lenine ainda não tem 30 anos e já é um dos nomes mais requisitados do Brasil em sua área. Praticamente nasceu dentro de estúdios e viu produtores lendários em ação, como Tom Capone (1966-2004).

Em 2006, Bruno Giorgi abriu o estúdio O Quarto, na Urca, Rio de Janeiro, onde atua como produtor e engenheiro de som. Uma busca com seu nome na internet levará a um escultor brasileiro homônimo (1905-1993). Nosso entrevistado foi indicado ao Grammy latino pela engenharia de som de Chão (2011), disco de seu pai. Ele assina a mixagem e masterização de Ottomatopeia (2017), disco mais recente do também pernambucano Otto.

Bruno Giorgi está em São Luís ministrando a oficina Introdução à produção musical, hoje (30), amanhã (1º./12) e depois (2/12), das 14h às 17h, no Centro Cultural Vale Maranhão, na programação do Conecta Música, evento paralelo de formação do Festival BR 135.

Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Flora Pimentel/ Divulgação

 

Bruno, qual é efetivamente o papel de um produtor musical e quais os limites de sua interferência no trabalho de um artista?
Tudo depende do projeto a ser produzido. Há projetos em que o produtor cria toda a parte musical em conjunto com o artista. Também existem os projetos em que só cabe ao produtor gravar da melhor forma possível, com a menor interferência possível.  Isso, hoje em dia, é definido pelo artista, não mais pelo produtor.

Um produtor musical necessariamente não precisa ser músico, mas isso ajuda?
Todo conhecimento ajuda. O produtor está no meio de um diálogo entre o artista (ou a banda), músicos, técnicos e público. Para conseguir trabalhar com essa gama de profissionais, quanto mais ferramentas ele tiver, melhor.

Pelão [o produtor João Carlos Botezelli, responsável pelo lançamento em disco de nomes como Adoniran Barbosa, Cartola e Nelson Cavaquinho], Hermínio Bello de Carvalho [letrista de música popular, descobridor de Clementina de Jesus] e o escritor Sérgio Porto [assinava com o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, foi ele quem encontrou o compositor Cartola trabalhando como flanelinha] produziram discos fundamentais, sem serem instrumentistas. São exceções?
Existem vários outros ótimos produtores que não são músicos. Esta é uma discussão interessante, inclusive. Quem é músico? É só quem toca um instrumento?

O quanto sentimento ajuda no trabalho de um produtor? Explicando melhor: cumprir o papel de produtor apenas pelo cachê resulta num trabalho menos bom que um produzido por alguém que se emocione com o trabalho do produzido?
Esta pergunta é muito boa e vai ser um dos motes da nossa oficina! Obrigado por ela. Acho que existem produtores que já chegaram em um grau de experiência que os permite trabalhar satisfatoriamente com quase qualquer projeto. No caso desta pergunta, que julgo ser bastante pessoal, respondo apenas por mim… Acho que o interesse de todas as partes é fundamental para o sucesso de qualquer material artístico. No fim das contas, o trabalho envolvido na produção de um disco é lento e muito subjetivo; é difícil conciliar projetos, pois o trabalho requer imersão… No meu dia a dia, acabo priorizando os projetos em que me sinto necessário de alguma forma e isso tem a ver, claro, com interesse. Respondendo mais diretamente: prefiro indicar algum profissional que imagino que se adeque melhor à proposta do artista se o projeto não me despertar interesse. Por outro lado… É muito difícil um trabalho não me interessar hoje em dia. A maioria das bandas e artistas que chegam até mim me conheceram através de algum projeto anterior em que trabalhei. Isso acaba fazendo uma espécie de “seleção natural”: quem me procura o faz por notar alguma afinidade estética com o que já produzi…

O barateamento das tecnologias facilitou a vida dos artistas por um lado. Por outro, pulverizou a produção. Com tanta oferta e tanta exposição, como se destacar? O produtor tem também algum papel fundamental nisso?
Não costumo pensar no avanço tecnológico como uma ameaça aos profissionais que precisam dominar alguma técnica. Também não acredito que a facilidade que veio com a tecnologia reduziu a qualidade das produções; acho o exato contrário. Tendo dito isso, acredito que só se sobressai o profissional com um trabalho consistente. Isso é difícil. Mas está muito mais fácil do que há 20 anos.

As formas de produzir e consumir música mudaram ao longo das últimas décadas: vinil, cd, download, streaming, a volta do vinil. Como você avalia esta linha do tempo?
O material base continua sendo a música. Acredito que o mercado muda, a forma de se ouvir música também muda, mas seguimos tentando fazer uma música que se conecte com o resto das pessoas no mundo. Por isto, acredito que esta mudança de paradigmas só venha como uma atualização do objeto que dá play na música e não em alguma característica desta arte. Acho que o produtor, diante disso, deve tentar sempre se ater à melhor qualidade possível de sua época. O meio dita pouca coisa (hoje em dia, quase nada).

Você já trabalhou com nomes importantes da música brasileira, entre os quais Lenine e Otto, em seu disco mais recente. Pode revelar aos leitores com o que você está ocupado atualmente?
Entreguei a versão física do disco novo da banda pernambucana Kalouv esta semana. Estou finalizando o primeiro disco do Deriva, projeto do Mateus Guedes, também de Recife. Mês que vem começarei o disco novo do Lenine. Esta semana também sai o disco novo do Cicero, que gravei ao lado do Pedro Carneiro.

Brilha um Estrela

Foto: Zema Ribeiro

 

Lucas é Estrela desde o sobrenome. O guitarrista paraense colocou a multidão para dançar e aplaudir, ontem (25), na Praça Nauro Machado (Praia Grande), na programação do Festival BR 135 Instrumental.

É bastante jovem, pouco mais de 20 anos, mas toca como se tivesse mais tempo de experiência que de idade. Tem pose de rock star, mas é generoso: não quer o palco só pra si. O grupo que lhe acompanha, um percussionista, um tecladista e uma guitarrista que também toca banjo, se reveza na função de band leader. Todos falam, interagem com o público.

Lucas Estrela brilha e isto não é um trocadilho barato. Para além da música, o que por si só bastaria, usa uma camisa com paetês e um sapato lustradíssimo, parece que acabou de sair do engraxate, realçam-lhe o brilho.

É um homem bonito, com cabelos compridos inicialmente presos, mas que depois ele solta, balançando ao ritmo do que toca: siriá, tecnobrega, guitarrada, tecnoguitarrada, lambada. Nunca ouvi um brega de churrascaria tocado com tanta sofisticação. A sonoridade do quarteto faz o público parecer um enorme grupo de figurantes em cena de festa em filme de cineasta pernambucano com trilha sonora de DJ Dolores.

O Pará é tradicionalmente um celeiro de bons guitarristas. Lucas Estrela perpetua a tradição sendo moderno, ousado. Ano passado lançou Sal ou Moscou, seu disco de estreia. O primeiro a me falar dele foi o jornalistamigo Jotabê Medeiros, que assistiu a seu show no Se Rasgum em 2016, entrevistou-o e publicou uma matéria na CartaCapital. Quando comentei há poucos dias que o veria no Festival BR 135, o crítico musical mandou: “o garoto arrebenta”. De fato.

Ao fazer os agradecimentos, Lucas Estrela disse ter parentes no Maranhão, “metade da família no Pará, metade aqui em São Luís”. Várias pessoas na fila do gargarejo responderam ao cumprimento. Depois o artista desceu para o meio da multidão, empunhando sua guitarra, dançando e engrossando o coro de “Fora, Temer!”.

Ao anunciar o fim do show, Lucas Estrela ouviu de um ou outro tirador de onda mais exaltado: “toca Raul!” e “Calypso!”. Quando voltou para o bis, mandou: “vamos fazer mais uma. Não, vamos fazer logo mais duas” e seguiu com seu repertório autoral e dançante, cúmplice do público em êxtase do início ao fim.

Da Europa à Ilha

O grupo Quartabê se apresenta pela primeira vez em São Luís hoje (24). O show acontece às 21h30, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), na programação do Festival BR 135 Instrumental – a programação de hoje na praça tem início às 19h e por ela passarão ainda os maranhenses DJ Pedro Sobrinho e Black & Tal, o paraense Lucas Estrela, além do Instrumental Pixinguinha, às 17h, na Feira da Praia Grande. A programação completa pode ser acessada no site do festival.

 

O Quartabê estreou em disco em 2015, com o ótimo Lição #1 Moacir, dedicado ao repertório de Moacir Santos. Este ano lançaram o EP Depê, também dedicado ao repertório do genial maestro pernambucano, com participações especiais de Juçara Marçal, MC Sofia, Tulipa Ruiz, Tim Bernardes e Arrigo Barnabé.

 

Após uma baixa – a saída da contrabaixista Ana Karina Sebastião –, Joana Queiroz (saxofone tenor, clarinete, clarone e flauta), Maria Beraldo (clarinete, clarone e sax alto), Mariá Portugal (bateria) e Rafael Montorfano, o Chicão (teclados) acabaram de chegar de sua primeira turnê europeia. O agora quarteto passou por Alemanha, Áustria, Espanha, França e Portugal. Foram 10 apresentações em 22 dias.

“Rumamos para o Festival BR135, no Centro Histórico de São Luís do Maranhão! Primeira vez da banda no Estado! Estamos ansiosíssimos para chegar nessa cidade maravilhosa que é São Luís, num Festival lindão, DE GRAÇA, tão cheio de gente bacana tocando. Dia 24 (sexta)”, assim a banda anunciou sua chegada à ilha em um boletim distribuído por e-mail a seu fã clube.

Por e-mail a baterista Mariá Portugal conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

O quarteto em foto de José de Holanda

Vocês estiveram recentemente em turnê pela Europa e gravaram um single na Alemanha. Como foi a receptividade do público? Este single aponta algum caminho para um novo disco?
Na verdade gravamos um single na Espanha junto com a banda Forastero, dentro do Projeto SON Estrella Galicia, depois de ter dividido o palco no El Sol, em Madrid. Já participaram deste projeto Anelis Assumpção e Tulipa Ruiz. Este single significou principalmente uma troca de vivência com a banda, o que é uma forma muito interessante de entrar no ambiente musical do lugar, bem mais profundo que apenas fazer um show e ir embora. Passamos um dia inteiro no estúdio e gravamos uma música deles, e eles uma nossa.

No primeiro disco vocês homenagearam Moacir Santos. O próximo disco seguirá a trilha das lições de um mestre? Quem será o homenageado?
Sim, já estamos preparando nossa Lição #2, que será novamente sobre um compositor brasileiro (que não podemos revelar por enquanto, mas quem for ao nosso show consegue adivinhar).

A Quartabê agora é um quarteto. Como é se adaptar à nova formação?
Sim, desde setembro somos um quarteto. Como agora não temos baixista, dividimos a função do baixo entre nós quatro – ora o Chicão faz o baixo com sintetizadores, ora Joana ou Maria no clarone com auxílio de pedais, ora eu faço no MPC. Estamos bem felizes com a sonoridade que conseguimos, que sai do formato tradicional de quinteto de jazz que tínhamos com a Ana Karina Sebastião. Creio que essa mudança abriu uma série de possibilidades estéticas bem interessantes, e que com certeza refletirão no Lição #2.

A ida de Joana para uma residência artística na Argentina ano que vem pode vir a modificar novamente a formação do grupo? Ou ainda não se pensa efetivamente nisso?
A residência da Jojô será de apenas duas semanas, mas a verdade é que já estamos acostumadas com o fato de nós quatro sermos muito ativas profissionalmente e termos projetos paralelos. Isso é uma das coisas que fazem com que a Quartabê seja a banda que é. Todos nós estamos bem empolgadas com as conquistas dos últimos tempos e a fim de fazer acontecer. Ao que tudo indica, 2018 será um ótimo ano para a Quartabê.

Vocês tocam pela primeira vez em São Luís. Quais as expectativas? Musicalmente, o que vem à sua cabeça ao ouvir falar no Maranhão?
Estamos super empolgadas! Sabemos da riqueza musical maranhense e que tem muita gente esperando pela Quartabê por lá. Musicalmente nos vêm muitos nomes como os de Mestre Antonio Vieira, Dona Teté, Papete, a geração de Zeca Baleiro e Rita Benneditto, todo o mundo do Boi e do Tambor de Croula, toda a cena de reggae maranhense, Tião Carvalho, Lopes Bogéa… tantos outros. Pessoalmente, tenho uma história antiga com São Luís. Quando tinha por volta de 17 anos me hospedei junto com minha mãe na casa do percussionista Arlindo Carvalho. Aprendi muita coisa com ele e conheci vários outros músicos incríveis. Foi uma experiência inesquecível e transformadora.

E para além de musicalmente?
Arroz de cuxá, camarão seco com farinha d’água do Mercado Central e Guaraná Jesus!

Qual a base do repertório que vocês estão preparando para tocar aqui?
Será uma mistura dos nossos dois discos, Lição #1: Moacir e Depê (ambos dedicados à obra de Moacir Santos), com uma palhinha do Lição #2.

Você e Maria gravarão no próximo disco de Elza Soares. Para você, qual o significado de estar no sucessor de A mulher do fim do mundo?
Sem dúvida é um privilégio imenso. Nos dá a sensação de que estamos fazendo parte de um momento histórico. Só temos a agradecer.