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Melhores de 2017

Saiu hoje (17) a sempre aguardada lista de melhores do ano do Scream&Yell, um dos mais respeitados e longevos sites de cultura pop do Brasil, capitaneado pelo queridamigo Marcelo Costa. Pelo segundo ano consecutivo tive a honra de participar (a eleição do S&Y já conta 15 anos).

Contribuo em algumas categorias com meus votos sempre capengas. O resultado da votação final, com um time recorde de 126 votantes, quase nunca bate com meus pitacos, que de um modo ou de outro buscam levar em conta a questão regional, além de assumirem minhas falhas enquanto jornalista que cobre cultura (em São Luís) e, de algum modo, o fato de a ilha ser ainda distante (em relação, por exemplo, a cidades que recebem shows internacionais com maior frequência, entre outros aspectos), apesar da diluição dos conceitos de centro e periferia promovidos sobretudo pela internet – não à toa a votação é promovida por um site.

A seguir a lista com os votos nas categorias nas quais me atrevi a opinar. A quem quiser conferir os resultados de todas as categorias, lista de votantes etc., basta ir ao Scream&Yell. Para quem quiser lembrar minha lista com os melhores de 2016, aqui. Em tempo e modéstia à parte: sou o único jornalista maranhense a participar da votação.

MELHOR DISCO NACIONAL

Isca. Vol. 1. Capa. Reprodução

1. Isca – Vol. 1, Isca de polícia


2. Campos neutrais, Vitor Ramil

Tranqueiras líricas. Capa. Reprodução

3. Tranqueiras líricas, Marcelo Montenegro

Plano B. Capa. Reprodução

4. Plano B, Chico Saldanha

Rosa dos ventos. Capa. Reprodução

5. Rosa dos ventos, Claudio Lima

MELHOR SHOW NACIONAL

Foto: Zema Ribeiro

1. Baiana System, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Laila Razzo

2. Quartabê, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Zema Ribeiro

3. Eddie, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Laila Razzo

4. Karina Buhr, Festival Elas, São Luís/MA

5. Carlos Pial, Lençóis Jazz e Blues Festival – Circuito São Luís, São Luís/MA

MELHOR FILME INTERNACIONAL

1. Star Wars: os últimos Jedi, de Rian Johnson

2. Neve negra, de Martin Hodara

3. Bye bye Alemanha, de Sam Garbarski

MELHOR FILME NACIONAL

Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Cartaz. Reprodução

1. Manuel Bernardino: o Lenin da Matta, de Rose Panet

2. Laerte-se, de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva

Martírio. Cartaz. Reprodução

3. Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tita

MELHOR LIVRO

Belchior: apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução

1. Belchior – Apenas um rapaz latino-americano (Todavia), de Jotabê Medeiros

O risco do berro. Torquato, neto Morte e loucura. Capa. Reprodução

2. O risco do berro – Torquato neto Morte e loucura (ed. da autora), de Isis Rost

Anjo noturno. Capa. Reprodução

3. Anjo noturno (Companhia das Letras), de Sérgio Sant’Anna

Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus. Capa. Reprodução

4. Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus (Civilização Brasileira), de Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz

Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo. Capa. Reprodução

5. Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo (Dubolsinho), de Sebastião Nunes

MELHOR MÚSICA NACIONAL

1. Adeus (Mestre Zió), Luiz Claudio ft Zeca Baleiro

2. Paçoca (Andreia Dias/ Anelis Assumpção/ Iara Renno/ Luciano Nakata Albuquerque/ Max B.O.), Curumin ft Andrea Dias, Anelis Assumpção, Edy Trombone, Iara Rennó e Max B.O.

3. As chuteiras do Itamar (Paulo Lepetit/ Vange Milliet/ Ortinho), Isca de Polícia

4. Choro de memórias (Chico Saldanha), Chico Saldanha

5. São Luís: variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae (Celso Borges/ Michael Riley), Claudio Lima

Covers de responsa

Foto: Dovilé Babraviciuté

 

“A Nação acende Radiola de clássicos”, anuncia a Nação Zumbi já na capa de seu álbum de covers, Radiola NZ Volume 1 – o que já deixa o fã clube em polvorosa: certamente vem um volume 2 aí, mas quando?

Radiola NZ. Capa. Reprodução

É disco curto – nove faixas – mas coeso: a banda não desmonta as faixas que relê, mas tem a pegada mangue, o peso da Nação.

Gilberto Gil, que gravou com a Nação Zumbi ainda nos tempos de Chico Science, em Afrociberdelia (1996), comparece ao repertório: é dele Refazenda, faixa que abre o disco unindo os tambores dos pernambucanos aos metais dos baianos da Orquestra Rumpilezz, liderada pelo maestro Letieres Leite. É como se a banda devolvesse uma gentileza, mais de 20 anos depois.

Causou frisson o anúncio, ano passado, do encontro, no Rock’n Rio, da Nação Zumbi com Ney Matogrosso, para um show baseado no repertório do Secos & Molhados. Uns gostaram, outros não, especulou-se sobre um disco do cantor com o grupo (como aconteceu em Vagabundo, que Ney assina com Pedro Luís e A Parede). Em Radiola NZ o encontro entre Ney e a Nação é eternizado em Amor (João Ricardo/ João Apolinário), que contrasta a leveza da letra (“leve, como leve pluma, muito leve, leve pousa”) e do canto de Ney com o peso da Nação, uma de suas marcas.

O disco reverencia ainda o ídolo soul Tim Maia (Balanço) – que já comparecia ao repertório do Almaz, projeto paralelo de Seu Jorge com o guitarrista Lúcio Maia e o baterista Pupillo –, Roberto Carlos (Não há dinheiro que pague, de Renato Barros, autor de muitos hits da Jovem Guarda), The Specials (Do nothing, de Lynval Golding), o muito censurado Taiguara (Dois animais na selva suja da rua), Beatles (Tomorrow never knows, de Lennon/McCartney), Marvin Gaye (Sexual healing, de Gaye com David Ritz e Odell Brown) e David Bowie (Ashes to ashes).

O repertório é quase inteiro de clássicos, músicas muito conhecidas e por vezes muito regravadas. Não deve ter sido fácil, mas a Nação Zumbi cumpriu com coerência o desafio a que se propôs, atraindo novos públicos para a própria banda e para os autores que releem.

Talvez a camisa 10, digo, a faixa 10 pudesse trazer um Jorge Benjor, outro ídolo confesso da rapaziada. Mas para isso Jorge dü Peixe e companhia têm outro projeto paralelo, o Los Sebozos Postizos, em que integrantes da Nação Zumbi dedicam-se a reler a obra do carioca.

Baile quer manter as tradições do carnaval brasileiro

Festa idealizada por Joãozinho Ribeiro terá presença de 15 artistas, entre intérpretes e instrumentistas

Célia Maria (à esquerda) solta o vozeirão durante ensaio, observada por Joãozinho Ribeiro (de chapéu). Foto: Hugo Carafunim

 

Sobre Joãozinho Ribeiro já afirmou Zeca Baleiro: um Quixote musical. Onde houver dois ou mais cristãos interessados em boa música, ali estará João. Dois é modo de dizer, que com apenas dois nem ele mesmo faz qualquer coisa. Seu espírito agregador sempre transforma qualquer empreitada sua em um grande acontecimento.

É o caso do Baile Allah-lá-ô no Ali Babá, que ocupa o restaurante especializado em comida árabe no próximo sábado (13), a partir das 17h. Na banda, os Arlindos Carvalho (bateria) e Pipiu (contrabaixo), Marcão (guitarra), Fleming (percussão), Gonzaga (sax), Gerson (trompete) e Walber Carvalho (voz), egresso de Nonato e Seu Conjunto. O time de intérpretes que se revezará no palco tem, além do idealizador e idealista Joãozinho Ribeiro, Célia Maria, Gabriela Flor, Rosa Reis, Josias Sobrinho, Cesar Teixeira, Celso Reis e Chico Neis. Os ingressos custam apenas R$ 10,00 e podem ser adquiridos no local.

“Carnaval é a festa brasileira da liberdade, dos reencantamentos artísticos e, por que não, da PAZ? “Bandeira Branca, amor”, com “tanto rei vestido de mendigo; tanto mendigo vestido de rei”, “procurei pela cidade, não achei o meu amor”, “antes que o Carnaval nos separe… te gruda no meu fofão””, afirma Joãozinho Ribeiro, antecipando alguns clássicos carnavalescos que comparecerão ao repertório, incluindo músicas autorais.

“Será possível reunir, ajuntar, compartilhar Ari Barroso, Nássara, Lamartine Babo, Noel Rosa, Braguinha, Cristóvão Alô Brasil, Caboclinho, Zé Pivó, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro e um rol de intérpretes do mais reluzente quilate, tais como Celia Maria, Rosa Reis, Celso Reis, além de um time de músicos de prima, sob a batuta destes dois patrimônios das nossas humanidades, Arlindo Pipiu e Arlindo Carvalho? Será o Benedito? Ou a Benedita?”, indaga-se/nos, provocador.

A festa promete, valorizando as melhores tradições do carnaval brasileiro. Joãozinho Ribeiro arremata, certeiro: “plena certeza de que a jardineira não terá motivação nenhuma para ficar triste…”.

Bruno Batista lança hoje (27) em São Luís videoclipe de Caixa preta

Divulgação

 

Logo mais às 20h, de graça, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), o cantor e compositor Bruno Batista lança o videoclipe de Caixa preta (classificação indicativa: 14 anos), faixa de Bagaça (2016), seu quarto disco.

Este que vos perturba terei o prazer de mediar um papo entre o artista, o diretor Arturo Saboia, a produtora Luna Gandra e o ator Raffaele Petrini, diretor do Cine Praia Grande. Após a conversa e a exibição do videoclipe, uma after party com entrada gratuita aguarda o público no Chico Discos (esquina de 13 de Maio com Afogados, Centro), em que Petrini assume seu terceiro papel: o de dj da festa.

Com patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, o videoclipe Caixa preta foi rodado em dois dias em um casarão do Centro Histórico ludovicense. É estrelado por Ana Carolina De Dea e Petrini e a equipe técnica se completa com Arturo Saboia (roteiro e direção), Luna Gandra (produção executiva/set), Elden Magrão (direção de fotografia), Cris Quaresma (direção de arte/figurino), Manoel (logger/drone) e Magaive (gaffer).

Nesta faixa de Bagaça, Bruno Batista (voz) é acompanhado por Rovilson Pascoal (violão e produção), Gustavo Ruiz (guitarra e synth), Meno del Picchia (contrabaixo), Felipe Roseno (percussões e percussões eletrônicas), Pedro Mibielli (violino), Glauco Fernandes (violino), Dhyan Toffolo (viola) e Marcus Ribeiro (violoncelo). O arranjo de cordas é de João Carlos Araújo.

Letra de Bruno Batista e música de Demetrius Lulo, Dandara e Paulo Monarco, Caixa preta é uma canção de amor com referências que vão de Caetano Veloso a Mestre Leonardo. Ouça e chegue cantando ao lançamento do videoclipe:

Luiz Claudio de volta às raízes

Encantarias. Capa. Reprodução

 

Outra agradável surpresa que nos chega no apagar das luzes de 2017 é Encantarias [Na Music, 2017, disponível por enquanto apenas no formato digital], primeiro EP solo do percussionista Luiz Claudio, paraense radicado no Maranhão há mais de 40 anos.

Luiz Claudio é um mago, um mestre, um bruxo, um… escolha o melhor clichê para classificar alguém que é muito bom naquilo que faz, embora clichês não sejam suficientes para traduzir sua musicalidade.

Encantarias, título mais que apropriado, dá conta do que Luiz Claudio pretende e consegue abarcar: tem bumba meu boi de zabumba, tambor de crioula, reggae, divino e choro, mas nada em formato puro. O percussionista reprocessa, reinventa, mas nada ali sobra. Não é o tipo de músico que, ao querer exibir suas habilidades, esconde àqueles que se somam ao trabalho.

Em Adeus (Mestre Zió), toada de despedida do Bumba meu boi de Leonardo da Liberdade, que abre o EP, o naipe de metais evoca o maestro pernambucano Moacir Santos, em arranjo assinado por Elder Ferreira (trombone) e Zeca Baleiro. O naipe de metais se completa com o trompete de Ramon Pinheiro e o time com Jeff Soares (violão e contrabaixo), Luiz Claudio, Ribão Zabumbaça, Ricardo Sandoval e Bruno Zabumba (percussões), Djalma Chaves e Anna Claudia (vocais), irmã de Luiz. Convidado especial, Baleiro canta e toca violão.

Figura fácil em fichas técnicas de shows e discos de diversos artistas brasileiros, alguns deles comparecem a Encantarias. Chico César enfeita Paracatu (Luiz Claudio e Mano Borges) com sua voz. A música já havia sido gravada por Luiz Claudio com os garotos do Som da Lata, projeto social e musical desenvolvido pelo percussionista, que trabalhava a fabricação de instrumentos de percussão e o ensino de música a jovens da periferia de São Luís – sob a batuta de Luiz Claudio o grupo participou de Shopping Brazil (2004), disco de estreia do compositor Cesar Teixeira. Ao final, a voz e o toque de Mestre Felipe, homenageado da faixa, batizada por onomatopeia que imita o som do meião e do crivador. “Era como ele imitava o som dos tambores quando nos ensinou. Eu juntei e fiz a música, que no final homenageia também outra dança antiga, dançada pelos avós dele, o conduru”, revela Luiz Claudio a Homem de vícios antigos.

Se “reggae e boi têm semelhantes passos”, como nos alertou Inaldo Bartolomeu na toada Luzes e estrelas, do Bumba meu boi da Mocidade de Rosário, Maranhão terra de poeta (Chico Coimbra) e Morena bonita (Dançador) é a perfeita tradução da assertiva: Luiz Claudio canta e toca em ritmo de reggae duas toadas de boi de zabumba. “Eu até batizei [informalmente] essa faixa de Melô da Liberdade, é uma homenagem que eu faço ao bairro, cujas expressões culturais mais fortes são o boi de zabumba e o reggae, e uma homenagem a estes mestres, compositores, já falecidos”, afirma.

Ufanista, a faixa afirma sobre o bumba meu boi: “nós temos o melhor folclore brasileiro”. Um apito em seu início faz o ouvinte mais apressado imaginar que ouvirá uma toada, mas logo é desenganado pela pulsação do contrabaixo, em diálogo com o andamento do boi de zabumba: “morena, vem olhar meu boi/ é feito de gente feliz/ o cartaz dele é grande/ se espalhou pelo país/ se tu é da região Norte/ pega um transporte/ e vem pra São Luís”. A faixa tem a adesão de Victor Freire (contrabaixo), Vini Freire (vocal) e Igor Freire (vocal), integrantes da banda Cena Roots, relativamente nova no cenário local, mas demonstrando dar conta do recado, nesta prova de fogo, o fogo que afina os tambores do anfitrião.

Divino (Luiz Claudio) reaproxima o cacuriá e o divino. A dança tem origem na festa do catolicismo popular, mas há algum tempo sacro e profano se dissociaram. Luiz Claudio religa as pontas, citando Mariquinha, tema de domínio público (como a quase totalidade das cantigas do divino e do cacuriá), emoldurado pela rabeca de Thomas Rohrer, suíço radicado no Brasil há mais de 20 anos, com quem Luiz Claudio já havia se encontrado nos estúdios, durante as gravações de Vô imbolá (1999), segundo disco de Zeca Baleiro.

Janela (Allan Carvalho e Luiz Claudio) é um diálogo entre raças e geografias. À faixa comparecem o choro (brasileiro), o fado (português), a morna (cabo-verdiana), o lelê (de São Simão), o bumba meu boi (de Pindaré), executados por Marcelinho Sete Cordas (violão e cavaquinho), Luiz Claudio, Allan Carvalho e Thiago Albuquerque (percussões). Embora os xodós confessos de Luiz Claudio sejam o boi de zabumba e o tambor de crioula, esta última música, por sua diversidade, funciona como uma espécie de síntese de Encantarias.

“Esse trabalho é fruto de um momento muito introspectivo meu, estou voltando às raízes. Eu comecei a música com a cultura popular, tocando em grupos na década de 1970, tocando com Leonardo. Depois viajei mundo afora, encontrei o jazz, toquei com músicos eruditos, músicos de jazz, MPB, sempre, graças a Deus, da mais alta qualidade. Agora estou voltando e pretendo seguir esse caminho, que é trabalhar os diversos ritmos aqui do Maranhão. Trabalhá-los de forma rítmica, de forma melódica, tentar mostrar ao público que os tambores não são apenas ritmo, mas têm harmonia, melodia, como eu fiz nesse cd, misturando com instrumentos tradicionais, e aos poucos mostrando esse meu lado autoral. Eu tenho muita coisa escrita, eu escrevo bastante. Nesse EP eu canto, tem duas músicas minhas. O lado b desse EP vai ter mais músicas autorais, sempre trabalhando no resgate dos ritmos da cultura popular maranhense, cantando, compondo, arranjando”, adianta.

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Ouça Adeus (Mestre Zió):

O jazz brasileiro de Caymmi

Dorival. Capa. Reprodução

 

Vem de longa data o reconhecimento da sofisticação da música popular brasileira, uma das mais interessantes do planeta. Voltemos no tempo para permanecer no universo do homenageado, Caymmi, de quando sua O que é que a baiana tem?, interpretada por Carmem Miranda, integrou a trilha sonora do filme Banana da terra, em 1939, para gringo ver. Ou quando sua Doralice conquistou o Carnegie Hall e a bossa nova (com jazz) de João Gilberto (e Stan Getz) conquistou o mundo.

Dorival [2017], disco que reúne Tutty Moreno (bateria), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), André Mehmari (piano) e Nailor Proveta (saxofone e clarinete), “time dos sonhos, reunião de bambas, quarteto fantástico”, como assinala Joyce Moreno em texto no encarte, “levando a música de Dorival Caymmi, gênio da raça, a mares nunca dantes navegados”.

Individualmente os integrantes deste quarteto têm relevantes serviços prestados à música brasileira, aqui e no exterior – Dorival foi gravado no Rainbow Studio, em Oslo –, assim como o homenageado. Há quase 20 anos já haviam se reunido em disco, em Forças d’alma, como Tutty Moreno Quarteto. Agora, assinando pura e simplesmente com seus próprios nomes, credenciais que lhes bastam, presenteiam os ouvidos mais atentos com “uma daquelas provas de que o Brasil que o Brasil merece é possível”, para continuarmos citando Joyce.

Em 10 faixas abordam o universo criativo de Dorival Caymmi, dono de uma das obras mais particulares da história da música brasileira – Morena do mar e Milagre reaparecem na Suíte Caymmi, que traz ainda entre uma e outra, que se repetem, Dois de fevereiro. A abordagem é original, o baiano elevado a jazz, mesmo quando se trata do Samba da minha terra, sem perder a essência de brasilidade, a brejeirice, o clima praieiro. Entre outras, comparecem ao repertório Sargaço mar, João Valentão, A vizinha do lado e Só louco – se uma das forças da obra de Caymmi reside na lírica, é tanto o talento dos instrumentistas reunidos em Dorival que a supressão das letras não diminui o brilho e valor de sua obra.

Praia, mar, céu e Caymmi são evocados na arte que embala o disco, assinada pelo talentoso Gal Oppido. Não é o primeiro disco inteiramente dedicado ao cancioneiro caymmiano. Espero que não seja o último. O grande trunfo de Dorival é que os craques do time jogam para o conjunto. Aqui e ali sobressaem-se seus talentos individuais, mas não há vontade ou necessidade de um querer demonstrar maior virtuosismo que outro. O importante é re/embalar, em beleza diversa da original, a obra do gênio a quem escolheram acertadamente homenagear.

Constroem, a partir da desconstrução da obra de Caymmi, uma nova obra, com respeito e reverência, singela e comovente como o pai de Dori, Danilo e Nana inventou.

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Ouça A vizinha do lado (Dorival Caymmi), com Tutty Moreno, Rodolfo Stroeter, André Mehmari e Nailor Proveta:

A nova saída de Dado Villa-Lobos

Exit. Capa. Reprodução

 

No apagar das luzes de 2017 o ex-Legião Urbana Dado Villa-Lobos lança Exit [Rockit, 2017]. O disco abre com a pegada rock de 7×1 (Dado Villa-Lobos/ Nenung/ Gabriel Muzak), letra de forte cunho político: “e é só assombração/ no reino dos parasitas/ e todo bom cidadão/ sabe fingir que acredita/ e quanto custa morrer/ nesse consórcio de azar?/ que é comprar pra manter/ tanta mentira no ar/ vagabundos com controle total/ assassinos além do bem e do mal”, termina.

A letra de Fogueira de natal (Dado Villa-Lobos/ Nenung) é apropriada para estes tempos em que o disco chega: “o natal foi fogo/ o fogo eu que comecei/ quem sabe o ano novo/ me devolva o que eu sonhei”. A sonoridade evoca Os The Darma Lóvers, de Nenung, parceiro de Dado Villa-Lobos em seis faixas – além de assinar sozinho Partida.

Dado Villa-Lobos canta (melhor que nunca) e pilota vários instrumentos (guitarra, violão, cigarbox, fender e ebow) em um disco pop cuja sonoridade dialoga com Legião Urbana, Os The Darma Lóvers, Beastie Boys – cujo rap I don’t know vira Então vem, em versão dele –, New Order – cuja Every little counts é citada em Voltando pra escola (Dado Villa-Lobos/ Nenung/ Roberto Pollo) –, Belchior – os versos “piscava o sinal vermelho/ quando peguei na sua mão”, de A saudade dos unicórnios (Dado Villa-Lobos/ Nenung/ Estevão Casé), evocam Medo de avião instantaneamente – e Serge Gainsbourg, na língua e ritmo de L’oeil du drone (Lucas Vasconcelos, com versão de Dado Villa-Lobos para o francês), cujo título é mais uma demonstração de que o artista está sintonizado com estes tempos trágicos.

A time que se completa com o percussionista Estevão Casé e o violonista e guitarrista Lucas Vasconcellos, que assinam a produção do disco, passeiam ainda por Exit, entre outros, Marcelo Callado (percussão), Bruno Di Lullo (percussão), Nina Becker (coro), Roberto Pollo (hammond, moog e melotron), Diogo Gomes (trompete), Thiago Queiroz (saxofone barítono) e Everson Nunes (trombone).

Um resumo possível de Exit é o que aponta Lucas Vasconcellos em texto no encarte do disco: “Um cavalo que avança sobre as certezas. Esse bicho sem freio é a vida vindo, irremediável encontro e desencanto. Exit é a visão crua e mágica desses tempos, onde os seres imaginários convivem com o incêndio do dia-a-dia numa harmonia contundente”, diz um trecho.

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Veja o making of de Fogueira de natal (Dado Villa-Lobos/ Nenung):

Show da Eddie coroou o já consagrado BR 135

Foto: Zema Ribeiro

 

Com 30 anos de estrada, a Eddie é menos conhecida – mas não menos importante – que seus pares de manguebit, principalmente Nação Zumbi e mundo livre s/a. Mas os meninos de Olinda já estavam na área quando o boom se deu e seguem firmes, fortes e tendo o que dizer.

No camarim, após o show da banda ontem (2), na última noite de Festival BR 135, Fábio Trummer me contou que o grupo foi convidado a gravar o disco de estreia no mesmo período em que Chico Science o fez. “Vamos lá! A gente só vai acontecer se for em bando”, vaticinava o malungo. A Eddie, com sua sabedoria, recusou: “Chico, nós ainda não estamos preparados para isso”.

Só estreariam em disco em 1998, com o ótimo Sonic Mambo. Nação Zumbi e mundo livre s/a já tinham dois discos cada uma e o vocalista da primeira já havia falecido em um trágico acidente automobilístico no carnaval do ano anterior. A pressa é inimiga da perfeição e o segundo disco só sairia em 2002, Original Olinda Style, título que bem cabe de rótulo ao som da banda, que mistura punk, rock, maracatu, ciranda, frevo, surf music e outros carnavais. Sobre este disco, uma curiosidade: a grana dos direitos autorais pela gravação de Quando a maré encher (Fábio Trummer/ Roger Man/ Bernardo Chopinho) por Cássia Eller, em seu Acústico MTV (2001), ajudou enormemente em sua feitura. A música, aliás, foi um dos pontos altos – e não foram poucos – do show vibrante de ontem, um passeio por todas as fases destes 30 anos de carreira – quase 20, se contarmos a partir do debut discográfico.

Fábio Trummer (guitarra e voz), Alexandre Urêa (percussão e voz), Andret Oliveira (trompete, teclados e samplers), Rob Meira (contrabaixo) e Kiko Meira (bateria) botaram o público para cantar, dançar e aplaudir. De Quebrou, saiu e foi ser só (de Morte e Vida, o disco mais recente, de 2015) a Veraneio (que batiza o disco de 2011), passando por Danada (de Metropolitano, de 2006), Desequilíbrio (de Carnaval no Inferno, de 2008), Sentado na beira do rio e Pode me chamar (ambas de Original Olinda Style).

Quando um fã mais afoito gritou pedindo por O Baile Betinha, Urêa retrucou, bem humorado: “você já quer acabar o show, rapaz?”. Fazia calor, Trummer deu mais um gole na long neck e agradeceu à polícia: “pelo expediente eles já podiam ter ido embora, mas ainda estão aí para garantir a segurança de todo mundo”. A programação da noite estava atrasada e ao se despedirem, lamentou, para desespero do ótimo público presente: “ainda tínhamos umas seis ou sete músicas”. Atenderam aquele pedido e não voltaram para o bis.

Em uma rede social da banda, um comunicado postado por volta de meio dia de hoje (3) anuncia a remarcação de um show em Londrina/PR para o ano que vem, em virtude de não terem conseguido “logística em tempo hábil para sair de São Luís”. O BR 135 marcou, então, o encerramento desta turnê da Eddie – não poderia haver coroamento mais adequado para ambos. Este mês a Eddie disponibilizará outro single do disco novo, a ser lançado em 2018.

Pessoalmente, Fábio Trummer é ainda mais simpático. Em seu braço esquerdo cheio de tatuagens, mostro a ela a mosca que dá nome à banda, que compareceu ao encarte do primeiro disco. Aos 47, ele entra de férias para curtir outra estreia: esperar a chegada de seu primeiro filho.

O novo som de Brasília

Foto: BR 135/Divulgação

 

A Muntchako não entrega o ouro ao bandido de cara: a princípio o show lembra uma espécie de Buena Vista Social Cover, trocadilho infame, o que não seria pouco. No palco, o trio só evoluiu ao longo de sua apresentação, ontem (2), na última noite do Festival BR 135. Não demorou para o público estar completamente entregue, dançando, aplaudindo, erguendo os braços.

Os teclados de Samuel Mota (guitarra, banjo, programação e synths) evocam bandoneons e logo um tango argentino me vai bem melhor que uma cumbia. Com Rodrigo Barata (bateria e samplers) e Macaxeira Acioli (percussão, samplers e voz), ele assina todas as faixas do álbum de estreia do grupo [2017], um caprichado vinil com sete faixas e produção musical de Curumin, mago cujo toque de Midas é uma espécie de certificado de qualidade – o álbum está disponível para audição e download gratuito e legal no site do Muntchako. A capa é desenhada pelo paraibano Shiko e evoca o Edy Star glam de Sweet Edy [1974], com o personagem mascarado que a estampa usando um botton com a inscrição “Temer jamais”. Não à toa o disco abre com Golpe.

Não há fronteiras ou quaisquer limites para a sonoridade do trio, convergência de experiências distintas. São três cabeças, mas a lista de instrumentos usados no disco e no palco é enorme. Na apresentação de ontem, destaque para o sample da voz da funkeira carioca Deize Tigrona, trazida virtualmente à ilha em Cardume de volume, faixa de que participa no disco – sem ela a festa não estaria completa.

Brasília não é berço apenas de escândalos políticos nem estacionou no rock brazuca oitentista.

O sistema é bruto

Foto: Zema Ribeiro

 

Musical e geograficamente o Baiana System está localizado entre a pernambucana Nação Zumbi e a carioca O Rappa. Como o nome indica, Russo Passapusso e companhia vêm da Bahia.

A sonoridade do grupo é uma salada que vai de samba-reggae, axé, pagode, rock, reggae, rap, um som urbano urgente que discute questões idem – especulação imobiliária, desigualdades sociais, racismo, trabalho – embaladas em bases de contrabaixo, guitarra, percussão, programações eletrônicas e a guitarra baiana na linha de frente. As projeções, com a máscara-símbolo do Baiana System em destaque, são outro elemento à parte, compõem o cenário mas estão para além disso.

Russo Passapusso é um showman sui generis: bota o público pra dançar, erguer os braços, fazer barulho, mas sabe que está ali para abrir cabeças, diferente da polícia que, Brasil afora, o faz a base de cassetetes, como ele mesmo disse, a frisar com um exemplo engraçado, de Salvador, em que policiais chegaram para espancar populares que estavam “fazendo a roda” e caíram na gargalhada em resposta às risadas com que foram recebidos. Ufa, foi por pouco. “Salve a polícia simpática, educada”, cumprimentou.

O vocalista e compositor se divertiu: fez a maior parte do show em frente ao palco, um nível abaixo da banda, dançando com um par de cazumbas que fazia as honras da casa. “Cadê o boi?”, perguntou ao perdê-los de vista. Várias vezes foi até o gradil cumprimentar o público, exalando simpatia.

Lançado ano passado, Duas cidades, base do repertório do show de ontem (30/11), na Praça Nauro Machado, na programação do Festival BR 135, figurou em quase todas as listas de melhores discos do ano. Lucro (Descomprimindo) dialoga diretamente com Aquarius, filme de Kléber Mendonça Filho estrelado por Sônia Braga: ambos têm a especulação imobiliária como personagem central.

Eletronicamente malemolente a faixa-título retrata o abismo social entre as periferias e bairros nobres de qualquer cidade do mundo: “diz em que cidade você se encaixa?/ cidade alta, cidade baixa”, provoca, reflete, a partir da realidade soteropolitana. “Dignidade é poder trabalhar”, diz verso de Mercado, em tempos de reformas trabalhista e previdenciária sob a égide golpista. O coro de “Fora, Temer!”, estimulado por Passapusso, soou tímido.

Não houve bis. O Baiana System dá seu recado – seco, duro, preciso, direto, urgente – mas não faz charminho.