Arquivos mensais: Janeiro 2018

O blogueiro Zema Ribeiro está atendendo em novo endereço

Após ano e meio de parceria com o jornal O Imparcial, o jornalista Zema Ribeiro voltou à independência na blogosfera: Homem de vícios antigos está atendendo novamente no velho endereço.

No mais, é colunista do site do Instituto Itaú Cultural, onde assina mensalmente Emaranhado, e apresenta, aos sábados, com Gisa Franco, de meio dia às 14h, o Balaio Cultural, na Rádio Timbira AM, e colabora eventualmente com Farofafá, site de jornalismo musical da revista CartaCapital.

Nas redes sociais atente em @zemaribeiro, além de pelo e-mail [email protected]

Melhores de 2017

Saiu hoje (17) a sempre aguardada lista de melhores do ano do Scream&Yell, um dos mais respeitados e longevos sites de cultura pop do Brasil, capitaneado pelo queridamigo Marcelo Costa. Pelo segundo ano consecutivo tive a honra de participar (a eleição do S&Y já conta 15 anos).

Contribuo em algumas categorias com meus votos sempre capengas. O resultado da votação final, com um time recorde de 126 votantes, quase nunca bate com meus pitacos, que de um modo ou de outro buscam levar em conta a questão regional, além de assumirem minhas falhas enquanto jornalista que cobre cultura (em São Luís) e, de algum modo, o fato de a ilha ser ainda distante (em relação, por exemplo, a cidades que recebem shows internacionais com maior frequência, entre outros aspectos), apesar da diluição dos conceitos de centro e periferia promovidos sobretudo pela internet – não à toa a votação é promovida por um site.

A seguir a lista com os votos nas categorias nas quais me atrevi a opinar. A quem quiser conferir os resultados de todas as categorias, lista de votantes etc., basta ir ao Scream&Yell. Para quem quiser lembrar minha lista com os melhores de 2016, aqui. Em tempo e modéstia à parte: sou o único jornalista maranhense a participar da votação.

MELHOR DISCO NACIONAL

Isca. Vol. 1. Capa. Reprodução

1. Isca – Vol. 1, Isca de polícia


2. Campos neutrais, Vitor Ramil

Tranqueiras líricas. Capa. Reprodução

3. Tranqueiras líricas, Marcelo Montenegro

Plano B. Capa. Reprodução

4. Plano B, Chico Saldanha

Rosa dos ventos. Capa. Reprodução

5. Rosa dos ventos, Claudio Lima

MELHOR SHOW NACIONAL

Foto: Zema Ribeiro

1. Baiana System, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Laila Razzo

2. Quartabê, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Zema Ribeiro

3. Eddie, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Laila Razzo

4. Karina Buhr, Festival Elas, São Luís/MA

5. Carlos Pial, Lençóis Jazz e Blues Festival – Circuito São Luís, São Luís/MA

MELHOR FILME INTERNACIONAL

1. Star Wars: os últimos Jedi, de Rian Johnson

2. Neve negra, de Martin Hodara

3. Bye bye Alemanha, de Sam Garbarski

MELHOR FILME NACIONAL

Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Cartaz. Reprodução

1. Manuel Bernardino: o Lenin da Matta, de Rose Panet

2. Laerte-se, de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva

Martírio. Cartaz. Reprodução

3. Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tita

MELHOR LIVRO

Belchior: apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução

1. Belchior – Apenas um rapaz latino-americano (Todavia), de Jotabê Medeiros

O risco do berro. Torquato, neto Morte e loucura. Capa. Reprodução

2. O risco do berro – Torquato neto Morte e loucura (ed. da autora), de Isis Rost

Anjo noturno. Capa. Reprodução

3. Anjo noturno (Companhia das Letras), de Sérgio Sant’Anna

Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus. Capa. Reprodução

4. Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus (Civilização Brasileira), de Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz

Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo. Capa. Reprodução

5. Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo (Dubolsinho), de Sebastião Nunes

MELHOR MÚSICA NACIONAL

1. Adeus (Mestre Zió), Luiz Claudio ft Zeca Baleiro

2. Paçoca (Andreia Dias/ Anelis Assumpção/ Iara Renno/ Luciano Nakata Albuquerque/ Max B.O.), Curumin ft Andrea Dias, Anelis Assumpção, Edy Trombone, Iara Rennó e Max B.O.

3. As chuteiras do Itamar (Paulo Lepetit/ Vange Milliet/ Ortinho), Isca de Polícia

4. Choro de memórias (Chico Saldanha), Chico Saldanha

5. São Luís: variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae (Celso Borges/ Michael Riley), Claudio Lima

Fazendo literatura com a vida

A escritora Fabiane Pereira. Foto: Divulgação

Fabiane Pereira é jornalista e trabalha com música – entre outras coisas, já que ela pertence à geração barra, isto é, pessoas que fazem várias coisas para somar um salário digno no fim do mês: isso, barra aquilo, barra aquilo outro. Uma equilibrista, como ela diz num texto. Sua prosa é permeada por essas referências – o jornalismo e a música. É dona de um texto fluido, agradável de ler, doce feito receita de vó.

amadorA. Capa. Reprodução

amadorA [Galateia, 2017, 113 p.; capa e ilustrações de Roberta Ferro; R$ 30,00 em média] é uma coleção de textos recheados de poesia – a forma como ela escreve prosa ou poemas mesmo – flashes do cotidiano, reflexões. No texto de abertura, Três ponto cinco, que alude à idade da autora, ela se apresenta: “Moro no Rio de Janeiro. Nasci em Volta Redonda. Feminista. Tenho um irmão mais novo. Católica por formação. Budista por identificação. Espiritualizada por opção. Jornalista. Escritora. Produtora cultural. Trabalho com o que amo”, etc. temas que ela irá aprofundar ao longo de amadorA.

O termo amador designa quem em geral não é profissional naquilo que faz. Seu feminino, amadorA – e a autora fez questão de grafar o a última letra em caixa alta para deixar as coisas bem claras – “vai além do feminino de amador. “amadorA” é o adjetivo usado para indicar alguém que gosta muito de alguma coisa”, diz no texto-título. E arremata, mais à frente: “é aí que eu me encaixo: sou uma amadora da escrita. Não sou escritora profissional”. Após terminarmos a leitura de amadorA ficamos cá com nossas dúvidas.

É, de algum modo, também um livro de formação, acompanhando uma fase da vida de sua autora. Se no início ela afirma morar no Rio de Janeiro, no último texto ela anuncia: “Daqui a poucos dias me mudarei para Lisboa, Portugal”, onde, a esta altura, já deve estar cursando o Mestrado. Fabiane Pereira não se esquiva de política: “Calhou que estou indo num momento em que, pela primeira vez, desejo realmente estar longe do Brasil – já que Temer fica, saio eu”. Muitos certamente gostariam de poder fazer o mesmo, embora ela lamente, por exemplo, seu desligamento do programa Faro MPB, na MPB FM, um de seus maiores orgulhos como jornalista e cidadã, como afirma no mesmo texto.

amadorA é um livro sobre amizade, cidade, amor, família, sexo, jornalismo, trabalho, geração, empatia, maternidade, tecnologia, afeto(a). “Pouco importa o que uma pessoa faz DA vida. O que me interessa é o que ela faz COM a vida”, reflete em determinada altura. Que Fabiane Pereira continue fazendo com sua vida esta ótima literatura.

Covers de responsa

Foto: Dovilé Babraviciuté

 

“A Nação acende Radiola de clássicos”, anuncia a Nação Zumbi já na capa de seu álbum de covers, Radiola NZ Volume 1 – o que já deixa o fã clube em polvorosa: certamente vem um volume 2 aí, mas quando?

Radiola NZ. Capa. Reprodução

É disco curto – nove faixas – mas coeso: a banda não desmonta as faixas que relê, mas tem a pegada mangue, o peso da Nação.

Gilberto Gil, que gravou com a Nação Zumbi ainda nos tempos de Chico Science, em Afrociberdelia (1996), comparece ao repertório: é dele Refazenda, faixa que abre o disco unindo os tambores dos pernambucanos aos metais dos baianos da Orquestra Rumpilezz, liderada pelo maestro Letieres Leite. É como se a banda devolvesse uma gentileza, mais de 20 anos depois.

Causou frisson o anúncio, ano passado, do encontro, no Rock’n Rio, da Nação Zumbi com Ney Matogrosso, para um show baseado no repertório do Secos & Molhados. Uns gostaram, outros não, especulou-se sobre um disco do cantor com o grupo (como aconteceu em Vagabundo, que Ney assina com Pedro Luís e A Parede). Em Radiola NZ o encontro entre Ney e a Nação é eternizado em Amor (João Ricardo/ João Apolinário), que contrasta a leveza da letra (“leve, como leve pluma, muito leve, leve pousa”) e do canto de Ney com o peso da Nação, uma de suas marcas.

O disco reverencia ainda o ídolo soul Tim Maia (Balanço) – que já comparecia ao repertório do Almaz, projeto paralelo de Seu Jorge com o guitarrista Lúcio Maia e o baterista Pupillo –, Roberto Carlos (Não há dinheiro que pague, de Renato Barros, autor de muitos hits da Jovem Guarda), The Specials (Do nothing, de Lynval Golding), o muito censurado Taiguara (Dois animais na selva suja da rua), Beatles (Tomorrow never knows, de Lennon/McCartney), Marvin Gaye (Sexual healing, de Gaye com David Ritz e Odell Brown) e David Bowie (Ashes to ashes).

O repertório é quase inteiro de clássicos, músicas muito conhecidas e por vezes muito regravadas. Não deve ter sido fácil, mas a Nação Zumbi cumpriu com coerência o desafio a que se propôs, atraindo novos públicos para a própria banda e para os autores que releem.

Talvez a camisa 10, digo, a faixa 10 pudesse trazer um Jorge Benjor, outro ídolo confesso da rapaziada. Mas para isso Jorge dü Peixe e companhia têm outro projeto paralelo, o Los Sebozos Postizos, em que integrantes da Nação Zumbi dedicam-se a reler a obra do carioca.

Ninguém é comum

 

O capacete de astronauta que Auggie Pullman usa em Extraordinário [Wonder, EUA, drama, 2017, 114 min.] é metáfora para aqueles dias em que queremos nos isolar do mundo. Está para além de alguém que, por qualquer deficiência (caso do protagonista) ou condição outra, se sinta rejeitado e evite o convívio com outros seres humanos – esta espécie tão cruel, como vimos no filme.

“Ninguém é comum”, diz uma personagem a certa altura. Se pararmos para pensar, eis a síntese. O filme de Stephen Chbosky nos leva a refletir sobre o quanto podemos ser cruéis e preconceituosos, às vezes involuntariamente. É um chamado à mudança de comportamento. O filme guarda momentos para rir e para chorar e isto nem de longe significa irregularidade. Pode parecer por demais “romântico” em determinadas situações? Talvez, por sua própria característica ficcional. Mas isto também não é um problema.

Auggie é um garoto que nasceu com uma deformação facial, passou por 27 cirurgias e só vai à escola na altura da quinta série do ensino fundamental, após anos estudando em casa com a mãe. O fato de não sabermos exatamente qual o problema de saúde do personagem ao longo do filme é um acerto. Trazendo da película para a vida real: isso realmente importa? Devemos, sim, estar dispostos a aceitar as pessoas como elas são.

Com leveza e delicadeza, mas sem perder a seriedade, Extraordinário discute diversas questões de nosso tempo, passando principalmente por bullying na escola, psicologia infantil e conflitos adolescentes, em uma narrativa costurada a partir dos olhares, histórias de vida e percepções sobre Auggie – cujo ponto de vista predomina – por aqueles que o rodeiam.

Baseado no livro homônimo [2012] de R. J. Palacio, Extraordinário tem ótimas atuações de Jacob Tremblay [Auggie] e Julia Roberts [sua mãe]. Há uma ponta com Sônia Braga: a aparição é ligeira, mas a brasileira nasceu mesmo para roubar a cena. Merecem destaque ainda a atuação de Mandy Patinkin, que interpreta o diretor da escola de Auggie, e as citações à franquia Star Wars.

“Entre estar certo e ser gentil escolha ser gentil”, diz um preceito de um dos professores de Auggie. Cada ser é um ser, independentemente de sua condição. Cada espectador terá sua própria reação, aprenderá uma lição ao assistir Extraordinário. Difícil será ficar indiferente a ele.

O comovente e fundamental Stanislaw Ponte Preta

Autoria desconhecida

 

“O forte de Stanislaw Ponte Preta era justamente extrair humorismo dos fatos, das notícias da imprensa. Leitores enviavam-lhe recortes de jornais, colaborando mais ou menos com a metade das histórias contadas no Festival de besteiras que assola o país. Pouco antes de morrer ele lançava um jornalzinho humorístico, chamado A Carapuça: era ele mais uma vez à procura de piadas concretas” (Paulo Mendes Campos).

Domingo passado, almoçando em casa de amigos, lembrei-me de quando aos 11 ou 12 anos de idade, num livro de gramática, li uma crônica em que Stanislaw Ponte Preta – ou Sérgio Porto: “O nome todo era Sérgio Marcos Rangel Porto” (Paulo Mendes Campos) – contava a história de um cidadão que, aficionado por livros, batizava todos os filhos com nomes relativos à sua mania, sendo pai de Prefácio, Tomo, Capítulo e assim sucessivamente, até que a esposa faz uma promessa: se viesse uma menina, batizaria de Maria. A menina vem e só ao ir registrá-la o pai descobre a promessa: para não contrariar a mulher nem a Nossa Senhora, batiza-lhe Errata Maria. Isto resumidamente, que lendo o próprio Stanislaw tem muito mais graça.

O fato é que passei anos até me reencontrar com este texto, em O homem ao lado (graças a Deus, as obras de Stanislaw e Paulo Mendes Campos, dois de meus favoritos, têm sido reeditadas sucessivamente – até por que o Febeapá continua atual, municiado cotidianamente por nossa imprensa e classe política).

Eu ainda nem conhecia a expressão comovido como o diabo, que já nem sei se dele ou de Paulo Mendes Campos, mas apaixonei-me imediatamente por Stanislaw Ponte Preta. Aos 11 ou 12 anos. Não sabia se achava mais engraçada a história do homem que batizava os filhos com nomes relacionados a livros ou o próprio nome do autor. Em minha cabeça de criança pairava a curiosidade: por que alguém escolhe um nome artístico mais complicado que o de batismo? Até hoje as prosas de Stanislaw Ponte Preta e Paulo Mendes Campos me deixam comovido como o diabo.

“Uma vez Vinicius de Moraes chegou depois de longa temporada diplomática nos Estados Unidos. Havia batido um longo papo com Louis Armstrong. No bar Michel, nas primeiras horas da noite, ainda portanto com pouco combustível na cuca, a ilustre orquestra não demorou a formar-se. Instrumentos invisíveis foram sendo distribuídos entre Sérgio, Vinicius, Fernando Sabino, José Sanz, Lúcio Rangel, Sílvio Túlio Cardoso. Eram o saxofone, o piano, o contrabaixo, o trompete, o trombone, a bateria.

“Não me deram nada e tive que ficar de espectador. Mas valeu a pena. A orquestra tocou por mais de duas horas, alheada das mulheres bonitas que entravam e até esquecida de renovar os copos. A certa altura Sérgio pediu a Vinicius que trocassem de instrumentos, ele queria o piano, ficasse o poeta com o saxofone. Feito. Só que os dois, compenetrados e desligados, trocaram de lugar efetivamente, como se diante da cadeira de Vinicius estivessem de fato as teclas de um piano. Foi a jam session mais surrealista da história do jazz.

“O humorista começou a surgir no Comício, um semanário boêmio e descontraído, onde também apareceram as primeiras crônicas de Antônio Maria. Mas foi no Diário Carioca, também boêmio e impagável, que nasceu Stanislaw Ponte Preta, que tem raízes no Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, e em sugestões de Lúcio Rangel e do pintor Santa Rosa. Convidado por Haroldo Barbosa, precisando melhorar o orçamento, Sérgio foi fazer graça no rádio, depois de passar um mês a aprender na cozinha dos programas humorísticos da rádio Mayrink Veiga” (Paulo Mendes Campos).

Não há outro adjetivo possível para Stanislaw Ponte Preta: gênio. Você mesmo já deve ter usado a expressão mais perdido que cego em tiroteio achando tratar-se de um dito popular: é invenção dele, que “fez rádio, cinema, televisão, teatro, show de boate” (Sérgio Augusto) e era “uma usina de expressões, gírias, neologismos, ditados e definições impagáveis – cocoroca, teatro rebolado etc. – que muitas vezes pareciam saídas da boca de um malandro” (Sérgio Augusto).

Por falar em invenção: “Fernando Pessoa inventou três heterônimos, Millôr escondeu-se atrás de quatro ou cinco pseudônimos, Sérgio contentou-se com um alter ego apenas, o suficiente para torná-lo o mais lido e citado gozador da imprensa brasileira nos anos 1950 e 1960 do século passado” (Sérgio Augusto). Além de ser nome fundamental para afirmarmos, ainda hoje, que o Brasil é o país da crônica.

Não bastasse tudo isso, foi Sérgio Porto quem – funcionário do Banco do Brasil por 22 anos, até decidir trocar o emprego dos sonhos definitivamente pelo jornalismo, que já praticava paralelamente ao ofício de bancário – descobriu Cartola lavando carros em um estacionamento. Levou o sambista ao produtor Pelão e este lançou, pela Discos Marcus Pereira, o elepê de estreia do autor de As rosas não falam. O resto é história.

“De que morreu Sérgio Porto? Todos os seus amigos dizem a mesma coisa: do coração e do trabalho” (Paulo Mendes Campos). Falecido em 1968, aos 45 do primeiro tempo, ele completaria hoje (11) 94 anos.

Kucinski, definitivamente grande

Pretérito imperfeito. Capa. Reprodução

 

Poucas estreias literárias foram tão surpreendentes quanto a de B. Kucinski, apenas aos 74 anos e com uma respeitável carreira como jornalista e professor universitário – sim, é o mesmo Bernardo Kucinski a que estávamos acostumados a ler sobre economia e política. A novela K: relato de uma busca [Expressão Popular, 2011; Cosac Naify, 2014; Companhia das Letras, 2016, 176 p.; leia um trecho] contava, com ares de ficção, a cruel realidade do desaparecimento de sua irmã, também professora da USP, mais um entre muitos episódios até hoje nunca esclarecidos da ditadura militar brasileira.

A K seguiram-se Você vai voltar pra mim [Cosac Naify, 2014, 188 p.], cujos contos passam-se também durante a ditadura militar, e Alice: não mais que de repente [Rocco, 2014, 191 p.], romance policial que trata das investigações do assassinato de uma professora da USP, e a novela Os visitantes [Companhia das Letras, 2016, 85 p.; leia um trecho], espécie de errata, em que um escritor recebe várias visitas em seu apartamento questionando este ou aquele aspecto de seu livro anterior [K], discordando de datas, episódios e imprecisões outras sobre acontecimentos do regime, em geral envolvendo parentes dos reclamantes.

Se em grande parte de suas obras anteriores o inferno é a ditadura militar, agora Kucinski aborda a conturbada relação entre um pai e um filho adotivo sobrevivendo noutro inferno: a dependência química. Com pleno domínio da linguagem, em prosa límpida e cerzida por referências nunca exageradas ou ocas, aborda outras literaturas de ficção produzidas a partir da busca por paraísos artificiais – expressão de Baudelaire –, além de pedagogia e psicanálise.

Pretérito imperfeito [Companhia das Letras, 2017, 151 p.; R$ 39,90, em média; leia um trecho] parte de uma carta escrita pelo pai (mas não revelada aos leitores), desresponsabilizando-se do filho problemático (no fundo, nunca se desliga por completo), a busca frenética deste pelos prazeres proporcionados por estados alterados de consciência (seja lá a substância que se use para obtê-los – ou, antes, com o que quer que se pague para obter estas substâncias), a cruzada em busca de regeneração, recaídas, passagens por presídios e centros de reabilitação.

Em sua ficção, Kucinski questiona a responsabilidade de casais em processos do que chama particularmente de adoção à brasileira, geralmente realizada para suprir alguma carência do casal – e não da criança.

O consumo de drogas é tema desde sempre por demais abordado em quaisquer campos da arte, não só no Brasil. Kucinski equilibra a elegância na escrita com o domínio do assunto, nunca prolixo, controlando qualquer tendência ao enciclopedismo barato, num exercício que o aproxima de mestres como Rubem Fonseca e Sérgio Sant’Anna. Em suma: mesmo tendo estreado tardiamente – mais correto talvez seria dizer que estreou na hora certa – Kucinski o fez já como gente grande.

Baile quer manter as tradições do carnaval brasileiro

Festa idealizada por Joãozinho Ribeiro terá presença de 15 artistas, entre intérpretes e instrumentistas

Célia Maria (à esquerda) solta o vozeirão durante ensaio, observada por Joãozinho Ribeiro (de chapéu). Foto: Hugo Carafunim

 

Sobre Joãozinho Ribeiro já afirmou Zeca Baleiro: um Quixote musical. Onde houver dois ou mais cristãos interessados em boa música, ali estará João. Dois é modo de dizer, que com apenas dois nem ele mesmo faz qualquer coisa. Seu espírito agregador sempre transforma qualquer empreitada sua em um grande acontecimento.

É o caso do Baile Allah-lá-ô no Ali Babá, que ocupa o restaurante especializado em comida árabe no próximo sábado (13), a partir das 17h. Na banda, os Arlindos Carvalho (bateria) e Pipiu (contrabaixo), Marcão (guitarra), Fleming (percussão), Gonzaga (sax), Gerson (trompete) e Walber Carvalho (voz), egresso de Nonato e Seu Conjunto. O time de intérpretes que se revezará no palco tem, além do idealizador e idealista Joãozinho Ribeiro, Célia Maria, Gabriela Flor, Rosa Reis, Josias Sobrinho, Cesar Teixeira, Celso Reis e Chico Neis. Os ingressos custam apenas R$ 10,00 e podem ser adquiridos no local.

“Carnaval é a festa brasileira da liberdade, dos reencantamentos artísticos e, por que não, da PAZ? “Bandeira Branca, amor”, com “tanto rei vestido de mendigo; tanto mendigo vestido de rei”, “procurei pela cidade, não achei o meu amor”, “antes que o Carnaval nos separe… te gruda no meu fofão””, afirma Joãozinho Ribeiro, antecipando alguns clássicos carnavalescos que comparecerão ao repertório, incluindo músicas autorais.

“Será possível reunir, ajuntar, compartilhar Ari Barroso, Nássara, Lamartine Babo, Noel Rosa, Braguinha, Cristóvão Alô Brasil, Caboclinho, Zé Pivó, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro e um rol de intérpretes do mais reluzente quilate, tais como Celia Maria, Rosa Reis, Celso Reis, além de um time de músicos de prima, sob a batuta destes dois patrimônios das nossas humanidades, Arlindo Pipiu e Arlindo Carvalho? Será o Benedito? Ou a Benedita?”, indaga-se/nos, provocador.

A festa promete, valorizando as melhores tradições do carnaval brasileiro. Joãozinho Ribeiro arremata, certeiro: “plena certeza de que a jardineira não terá motivação nenhuma para ficar triste…”.

Instantes eternizados

Tranqueiras líricas. Capa. Reprodução

 

De Marcelo Montenegro, Chacal já disse: é o Manoel de Barros urbano. Chacal (que ele lê em Desabutino, único poema não assinado por Montenegro em Tranqueiras líricas) sabe das coisas:  a analogia tem fundamento. Ambos os poetas têm a capacidade de eternizar a banalidade da vida, aqueles acontecimentos que, de tanto se repetirem, já ninguém se ocupa.

Como por exemplo, “agora mesmo alguém deve estar limpando/ cuidadosamente o cd com a camisa,/ pulando a ponta do pão Pullman,/ sentindo o baque da privada gelada”, em Velhas variações sobre a produção contemporânea, poema que abre Tranqueiras líricas, disco que Marcelo Montenegro lançou no apagar das luzes de 2017.

O autor lançará mês que vem, pela Companhia das Letras, Forte apache, que reúne, além do livro-título, os livros Orfanato portátil e Garagem lírica. É poeta bom de ler e ouvir, dono de uma das obras mais originais da poesia brasileira contemporânea.

Tranqueiras líricas, espetáculo que já apresenta há mais de uma década, é recheado de referências, mas não hermético, tem um pé no rock, outro no blues, a voz de Marcelo Montenegro, talhada “equilibrando/ a lata e o cigarro” (ainda do poema de abertura), acompanhada por guitarras, violões e arranjos de Fábio Brum, seu parceiro de palco e empreitada também de longa data – em 2013 o poeta apresentou o espetáculo durante a Feira do Livro de São Luís, na companhia do guitarrista Marcelo Watanabe.

O título é verso de Buquê de presságios: “Tranqueiras líricas/ na velha caixa de sapato./ De tudo, talvez, restem/ bêbadas anotações/ no guardanapo./ E aquela música linda/ que nunca toca no rádio”.

Tranqueiras líricas é daqueles discos cujo anúncio deixa ansiosos os que acompanham mais de perto o trabalho de Marcelo Montenegro – leva anos entre a ideia e a concretização do objeto disco, às próprias custas s/a. Uma vez lançado, resenhistas correm sério risco ao citar este ou aquele trecho, e não outros, numa bolacha em que tudo é sublime, mesmo o supostamente mórbido: “PENSO em alguém que, na manhã/ do dia de sua morte, desiste/ de usar a camisa que mais gosta,/ preferindo guardá-la para uma festa/ que terá na noite seguinte” (de Três pensatos).

“Tudo o que é bom para o lixo é bom para a poesia”, já disse Manoel de Barros. Como o poeta rural, a poesia do poeta urbano se ocupa destas insignificâncias, tornadas grandes ao serem eternizadas pelo olhar atento e sensível de Marcelo Montenegro. Como, por exemplo, no poema Filme: “Você pede para eu apertar o pause/ e vai ao banheiro/ deixando ao meu lado/ seu cheiro quente/ no travesseiro amassado”, começa. Há outros momentos grandiosos, mas: corta! E termina: “Você volta ao quarto dizendo/ – Está me dando uma fome!/ enquanto rimos da pose engraçada/ que o ator parou./ Antes de apertar o play/ chego a esboçar que algumas pessoas/ são incapazes/ de tirar a poesia do sério”, o que não é o caso de Marcelo Montenegro e eis uma possível síntese para Tranqueiras líricas (e, de resto, toda a sua obra).

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Ouça Velhas variações sobre a produção contemporânea (Marcelo Montenegro):