O horror recontado com bom humor

 

Bye bye Alemanha [Bye Bye Germany; Es war einmal in Deutschland…; comédia, Alemanha/Inglaterra, 2017, 102 min.; em cartaz no Cine Lume – Office Tower, Renascença] aborda tema espinhoso, o horror da segunda guerra mundial e seus campos de concentração, de maneira bastante inusitada. É um misto de drama e comédia (romântica), mas não se assuste o leitor mais apegado ao politicamente correto ou o que porventura imaginar que este não é um tema para se brincar: o filme é ao mesmo tempo ousado e delicado. Reconstituição primorosa, merecem destaque figurino e fotografia.

Conta a história de um punhado de amigos judeus cujo objetivo é um só: deixar a Alemanha, passada a segunda grande guerra. Como precisam de muito dinheiro para isso, desenvolvem uma estratégia bastante peculiar para empurrar a desconhecidos produtos de cama, mesa e banho. De porta em porta tornam-se pequenos golpistas – longe do status dos que ocupam o poder central no Brasil, hoje, outro horror – que se equilibram entre fugir do passado e qualquer senso de ética.

A graça toda desta comédia dramática reside no depoimento recheado de flashbacks prestado por David Bermann (Moritz Bleibtreu) à agente americana Sara Simon (Antje Traue), sobre serviços prestados por ele ao nazismo. Graças a seu talento como piadista, descoberto por agentes do exército alemão, ele sobreviveu aos campos de concentração onde morreram seus pais e irmãos.

Insólita, a história é baseada em fatos reais: o filme se apoia em um romance de Michel Bergmann – que assina o roteiro com o diretor Sam Garbarski – e refaz a trajetória deste inusitado personagem, que ensinará piadas a Hitler, para que este, com sua prodigiosa memória, impressione Mussolini, quando de uma visita do fascista italiano ao alemão.

Por falar em livros, eu mesmo só havia visto tanta graça em uma obra sobre tema tão difícil no autobiográfico Reminiscências do sol quadrado [José Olympio, 2014, 112 p.], em que o ator e compositor (comunista) Mário Lago narra, com bom humor suas agruras nas prisões políticas que enfrentou durante as ditaduras no Brasil. No caso de Bye bye Alemanha, a história beira o absurdo e o próprio protagonista afirma que em determinados momentos não consegue acreditar em si próprio ou no que conta – ou canta? – à agente.

Em tempos caretas e neoconservadores, o filme desperta o riso, tão necessário quanto difícil diante do triste estado de coisas atual, mas vai além de mero entretenimento ao contribuir para o debate sobre os limites da (sétima) arte quando se trata de abordar tema tão espinhoso através de sua recriação ficcional, ainda que baseada em fatos reais.

4 comentários sobre “O horror recontado com bom humor

  1. Assisti ontem. Sinceramente esperava muito mais. Especialmente porque em uma das resenhas que li havia um comparação com “A vida é bela”, esse sim uma obra magistral. Mas Bye, Bye… não deixa de ser uma boa opção.

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