Martírio é talvez o mais importante filme sobre a questão indígena já realizado no Brasil

Martírio. Frame. Reprodução
Martírio. Frame. Reprodução

 

Um policial é assassinado e causa comoção em membros da bancada ruralista, após a viralização de um vídeo em que agoniza dizendo-se amigo de indígenas. Os conflitos entre Guarani-Kaiowas registram um placar de ao menos 50 lideranças indígenas assassinadas ao longo dos últimos 30 anos contra três policiais, embora a questão não seja relativizar ou hierarquizar a importância de vidas.

Martírio. Cartaz. Reprodução
Martírio. Cartaz. Reprodução

Nada é excessivo nas quase três horas de Martírio [Brasil, 2017, 160 min.], documentário em que o antropólogo e indigenista francês radicado no Brasil Vincent Carelli – narrador da película –, Ernesto de Carvalho e Tita registram a luta por terra da população indígena sul-mato-grossense, entre os rios Paraná e Paraguai. O filme amealhou entre outros prêmios os de melhor longa-metragem (especial do júri e do júri popular) no 49º. Festival de Brasília e melhor documentário (do público) na 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo.

É talvez o mais importante filme sobre a questão indígena já realizado no Brasil. Embora se concentre nos Guarani-Kaiowas e nos últimos 30 anos de História, cobre mais de 100 anos de luta indígena (as reivindicações pouco mudam, variando o grau de violência empregado contra os povos originários), abordando desde a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), em 1910, o decreto de Getúlio Vargas que institui 19 de abril como Dia do Índio, espécie de “prêmio de consolação” pelo “embranquecimento” promovido pelo Estado, passando pela criação da Fundação Nacional do Índio (Funai), durante a ditadura militar, e a fatídica guarda indígena, quando indígenas recebiam treinamento militar para a prática de torturas, até a Assembleia Constituinte, que só garantiu aos indígenas o papel de sujeitos de direitos graças às suas mobilizações.

Vincent Carelli tem cerca de 40 anos de atividade indigenista e Martírio é um filme fartamente documentado – afirmação que pode soar redundante, já que estamos tratando de um documentário. Isto é: vai além da colheita de depoimentos de indígenas – alvo de críticas aos antropólogos e seus laudos pelos ruralistas e simpatizantes de plantão – mostrando a realidade nua, crua e quase sempre sangrenta. Tudo lhe serve de fonte: de documentos históricos a imagens de arquivos de emissoras de tevê, passando por filmagens dos próprios indígenas, com câmeras e celulares – para espanto de alguns, que os imaginam como se ainda estivéssemos em 1500. Em determinados momentos o espectador se vê no meio de um conflito, inclusive entre a religiosidade e o modo de viver indígena e o capitalismo.

Sem muito esforço, Martírio mostra também o que há de mais retrógrado no Congresso Nacional, ao exibir trechos de reuniões de empresários do agronegócio e da bancada ruralista, formada por alguns daqueles ou seus lobistas, em sua sanha pela retirada dos direitos dos indígenas, sem poupar munição verborrágica contra antropólogos, organizações internacionais, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) – braço da Igreja Católica para a questão indígena –, e até mesmo a Funai, órgão do governo que pretendem desmantelar para mudar as responsabilidades pela demarcação de terras indígenas.

O documentário é, como são os bons filmes do gênero, uma espécie de longa reportagem, em que os diretores demonstram que a questão indígena é um problema complexo e, longe de ser responsabilidade exclusiva dos governos federais do Partido dos Trabalhadores, mostra o quão pouco foi feito nos mandatos de Lula e Dilma, situação que piora após sua destituição pelo golpe parlamentar-jurídico-midiático.

Martírio acompanhou o drama que levou a região e a etinia a um dos mais altos índices mundiais de suicídio – entre os indígenas Guarani-Kaiowas, ocasião em que muitos usuários adotaram o sobrenome indígena em seus perfis em redes sociais, embora o problema exista desde muito antes da invenção do facebook.

Martírio integra a programação da Sessão Vitrine Petrobrás e está em cartaz no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com sessões às 15h20 (de terça a sexta-feira). Os ingressos da Sessão Vitrine Petrobrás custam R$ 12,00 (meia entrada: R$ 6,00).

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