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O tribunal da quinta-feira. Capa. Reprodução
O tribunal da quinta-feira. Capa. Reprodução

 

Com Diário da queda [2011] e A maçã envenenada [2013], Michel Laub já havia inscrito definitivamente seu nome entre os grandes escritores contemporâneos no Brasil. O tribunal da quinta-feira [Companhia das Letras, 2016, 183 p.; leia um trecho], seu novo romance, é uma alegoria destes tempos em que não apenas as celebridades são passíveis de terem sua vida privada exposta em redes sociais.

Michel Laub tem pleno domínio da linguagem e da narrativa, no caso deste livro construída a partir de recortes: e-mails que dois amigos publicitários que se conhecem desde a faculdade trocam sobre assuntos os mais variados, vazados por sede de vingança da ex-esposa do protagonista.

O autor já provou não estar preso a uma fórmula em outros romances – Música anterior [2001], Longe da água [2004], O segundo tempo [2006] e O gato diz adeus [2009]. O tribunal da quinta-feira integra uma trilogia, junto a seus dois romances anteriores. Os três têm capítulos curtos, partem de um grande acontecimento – a segunda guerra mundial em O diário da queda, um genocídio étnico em Ruanda e o suicídio de Kurt Cobain em A maçã envenenada, e a epidemia de Aids no Brasil nos anos 1980, no livro recém-lançado.

Outra semelhança que guardam entre si os livros da trilogia são a mistura entre realidade e ficção. “Posso até falar de outros gostos dele, do prato que ele pedia nesses almoços, de como ele se posiciona sobre a situação política, econômica e moral do Brasil em 2016 se isso tiver alguma importância, mas no fundo o assunto não terá mudado”, anota, trazendo a triste realidade brasileira em tempos de golpe para dentro de sua ficção, ao apresentar Walter, personagem homossexual e soropositivo com quem José Victor, o protagonista, troca as mensagens de e-mails que serão vazadas ao longo da trama.

O autor aborda a crise de meia idade de um publicitário aos 43 anos, o mundo da publicidade – tira onda de slogans –, o ódio constante e comum de comentaristas de internet, a evolução na convivência com o vírus HIV ao longo dos anos – aqui volta a citar personagens reais como Cazuza, Lauro Corona, Sandra Bréa e Cláudia Magno, num jogo em que demonstra tanta habilidade quanto com as palavras: Laub não soa menor ou menos importante ao levar para seu texto – cheio de ironia – o “miguxês” de e-mails e redes sociais ou ao transcrever um áudio de whatsapp.

O enredo se passa em cinco dias, entre o domingo em que a ex-esposa distribui trechos de e-mails a amigas (e esposas de colegas de trabalho de José Victor) e estes viralizam internet (e consequentemente redes sociais) afora, até a quinta-feira do título: as redes sociais em que somos todos réus, promotores e juízes. As vidas dos envolvidos sofrem uma reviravolta até o fecho hitchcockiano de um romance sobre linchamento virtual e social, a ficção ajudando a entender a dura, cruel e nem sempre bem humorada realidade.

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