Arquivos diários: 30 de julho de 2016

Geraldo Vandré está de volta

Geraldo Vandré. Capa. Reprodução
Geraldo Vandré. Capa. Reprodução

 

“Incluindo Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando) proibida desde 1968”, anuncia uma faixa no canto superior esquerdo da capa do LP homônimo de Geraldo Vandré lançado em 1979, ano da controversa lei da anistia.

Geraldo Vandré, o disco, recentemente relançado em cd, abre e fecha com versões ao vivo e em estúdio da música que acabou símbolo da resistência à ditadura militar, defendida pelo artista no 3º. Festival Internacional da Canção, em 1968, no Maracanãzinho, ocasião em que foi feita a foto da capa.

Geraldo Vandré, o artista, é uma das mais radicais e controversas figuras da música popular brasileira a qualquer tempo. Seu completo sumiço, ainda na década de 1970, contribuiu para a proliferação de uma mitologia particular ao redor de sua figura.

Com toda a discografia fora de catálogo este álbum certamente contribuirá para a redescoberta (de parte) da obra do artista, por vezes injustamente tratado como um one hit wonder, além dessa mitologia de almanaque ao redor do personagem.

O repertório demonstra a versatilidade de Vandré para além do estigma de cantor de protesto. Ardoroso defensor da cultura nacional, estão ali, com o acompanhamento do Trio Novo (Airto Moreira, Heraldo do Monte e Théo de Barros, que se tornariam Quarteto Novo após o ingresso de Hermeto Pascoal), a apropriação de temas nordestinos (Canção nordestina e Fica mal com Deus), a evolução da bossa nova, superando estereótipos de sua origem, como os diminutivos e a paisagem carioca (Quem quiser encontrar o amor, parceria com Carlos Lyra, com o violão de Baden Powell), o carnaval (a belíssima marcha rancho Porta estandarte, parceria com Fernando Lona) e o diálogo com Guimarães Rosa (Réquiem para Matraga, da trilha sonora de A hora e a vez de Augusto Matraga [1966], filme de Roberto Santos baseado em conto do mineiro).

Réquiem para Matraga, aliás, está na trilha sonora da novela global Velho Chico: é tema do personagem Santo dos Anjos (Domingos Montagner). Originalmente lançado pelo selo Som Maior, da RGE, o disco é relançado pela Som Livre, braço fonográfico das organizações Globo, que apoiou o golpe militar de 1964 – que obrigaria artistas como Vandré e outros ao exílio.

“As músicas deste álbum tornaram mais leve a vida do brasileiro e mais encorajada a vontade de liberdade daqueles que viveram em um dos períodos mais obscuros da nossa história”, diz, no entanto, um trecho de um cínico texto na parte interna da embalagem.

Apesar de tudo, o relançamento e a transposição de sua trilha são mais uma possibilidade de mais gente conhecer a obra de Vandré, que segue recluso, fazendo raríssimas aparições públicas. Bem poderia esta reedição ser o início da de toda sua breve discografia.