Arquivos diários: 24 de julho de 2016

Vidas breves em perfis idem

A vida louca da MPB. Capa. Reprodução
A vida louca da MPB. Capa. Reprodução

 

“Vida louca vida, vida breve”. Os versos de Vida louca vida, parceria de Lobão e Bernardo Vilhena, gravada por Cazuza, são uma espécie de cartão de visitas apropriado aos 17 artistas perfilados em A vida louca da MPB [Leya, 2016, 271 p.], de Ismael Caneppele, autor de Os famosos e os duendes da morte.

Estão lá, por ordem de aparição, Carmen Miranda, Noel Rosa, Mario Reis, Orlando Silva, Dalva de Oliveira, Nelson Cavaquinho, Vinicius de Moraes, Maysa, Wilson Simonal, Tim Maia, Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Itamar Assumpção, Júlio Barroso, Cazuza, Renato Russo e Cássia Eller, gênios da música produzida no Brasil em todos os tempos em suas mais variadas vertentes, a maioria de morte precoce, todos dados a exageros, entre drogas lícitas e ilícitas.

O pé na jaca comum é perspectiva interessante para reunir a constelação caricaturada por Rafael Nobre, na capa e abertura de cada perfil biográfico, mas estes nada acrescentam a qualquer conhecedor médio de histórias de bastidores envolvendo figurões da música brasileira, a maioria dos personagens fartamente biografada, grande parte também tema de documentários.

A exceção talvez seja Júlio Barroso, mentor da Gang 90, apesar do sucesso efêmero em tema de novela global – Nosso louco amor [1983] –, cujo tema de abertura era a música homônima do grupo. Mesmo Itamar Assumpção, da Vanguarda Paulista ao lado de nomes como Arrigo Barnabé e os grupos Rumo e Premeditando o Breque, vem, ao longo dos anos, ganhando certa popularidade, por exemplo com o lançamento da Caixa preta [Selo Sesc/SP, 2010] e gravações e regravações de nomes como Zélia Duncan, que dedicou um álbum inteiro a seu repertório [Tudo esclarecido, de 2013], e Chico César, que ao refazer o disco de estreia, Aos vivos [1994], incluiu a faixa bônus Dor elegante, composta pelo Negão Beleléu sobre poema de Paulo Leminski [em Aos vivos agora, de 2011].

Sobre Dor elegante, aliás, há uma incorreção no perfil de Itamar Assumpção: o autor cita-a como “Sofrer vai ser a minha última obra”, um dos versos do poema, afirmando que Itamar a teria composto em 2002, após uma de suas várias internações na luta contra o câncer que acabou vencendo-o em 2003 – a música foi gravada por Itamar em Pretobrás, último disco lançado em vida pelo artista, em 1998.

Há outros erros: no perfil dedicado a Tim Maia, por exemplo, o autor escreve Cachoeira do Itapemirim ao referir-se à cidade natal de Roberto Carlos, Cachoeiro de Itapemirim. No de Sérgio Sampaio, omite o “é” ao citar sua música mais conhecida, Eu quero é botar meu bloco na rua, que deu nome a seu primeiro disco solo, de 1973, e intitulou também a biografia do cantor e compositor, escrita por Rodrigo Moreira, constante na curta bibliografia citada ao final do volume.

O conjunto de perfis ao menos não esbarra em moralismo nem faz apologia ao uso e abuso de álcool, maconha, cocaína, heroína, mandrix, ecstasy ou LSD, vícios que percorrem suas páginas e as vidas dos personagens que por ela desfilam.