Arquivos diários: 13 de julho de 2016

Era domingo: pop para qualquer hora do dia, qualquer dia da semana

Era domingo. Capa. Reprodução
Era domingo. Capa. Reprodução

 

Aos quase 20 anos de carreira, isto se contarmos apenas a partir do lançamento de seu disco de estreia, Zeca Baleiro é um dos maiores trabalhadores da música popular brasileira. Desde Por onde andará Stephen Fry? [1997], o maranhense nunca se acomodou, nem nunca fez dois discos iguais. Ou seja: sempre se arriscou a testar o gosto, a paciência e a fidelidade do público que cativou desde então. Ainda remontando ao início de sua carreira discográfica, basta lembrarmos as quebras que significaram entre si os seguintes Vô imbolá [1999] e Líricas [2000].

Estas rupturas seguem presentes: após um disco infantil [Zoró – Bichos esquisitos, de 2014], um disco especial dividido com Paulo Lepetit e Naná Vasconcelos [Café no bule, de 2015] e outro dedicado ao repertório de Zé Ramalho [Chão de giz – Zeca Baleiro canta Zé Ramalho, também de 2015], Baleiro apresenta ao público seu disco mais pop: Era domingo [Fidellio/Som Livre, 2016].

Todas as 11 faixas são facilmente assobiáveis e plenas candidatas a hits de rádio – imaginemos um mundo livre do jabá. Quando parece não haver o que inventar, o artista se reinventa e lança a si mesmo o desafio: cada faixa tem um produtor diferente. Ou um par. Sim, o disco tem mais de 11 produtores/arranjadores: Tuco Marcondes, Pedro Cunha, Rogério Delayon, Kuki Stolarski, Marcelo Lobato, Marcos Vaz, Fernando Nunes, Haroldo Ferreti, Henrique Portugal, André Bedurê, Rovilson Pascoal, Érico Theobaldo e Adriano Magoo. O resultado, no entanto, é coeso.

Era domingo, a faixa-título, abre o disco, traduzindo o granulado voyeurismo de celular estampado na capa: uma foto praieira feita pelo próprio Baleiro. “Toda beleza/ na Fortaleza/ de um céu cheio de azuis/ música bela/ pela janela/ soava feito um blues”, diz a letra.

Ela parou no sinal e seu naipe de sopros ecoa os momentos mais dançantes dos dois volumes de O coração do homem bomba [2008]. De mentira lembra o adágio do poeta português Fernando Pessoa: “você se diz poeta/ mas é só um fingidor/ finge tão completamente/ que até crê na sua dor/ tanta é a dor que mente”, arremata.

A presença de outro poeta no repertório do disco é mais uma prova de que Zeca Baleiro não se contenta com caminhos fáceis ou atalhos para o sucesso. A letra de Desesperança, penúltima faixa do disco, parceria dele com Paulo Monarco, é trecho do poema homônimo do maranhense Sousândrade, do livro Harpas selvagens [1857]. A outra parceria do disco é Deserta, com Lokua Kanza.

A hiperbólica Pequena canção remete ao Roberto Carlos de Eu te darei o céu [Roberto e Erasmo Carlos]: “eu te daria o Polo Norte/ qualquer brinquedo/ o meu segredo/ o samba-enredo/ das minhas penas/ te dava a Grécia/ te dava Troia/ a maior joia do meu garimpo/ o meu cavalo, o meu Olimpo”, promete a letra.

Desejo de matar é dor de cotovelo digna de Lupicínio travestida de rock’n roll: “você me transformou/ num cão vulgar e sujo/ um fulano vagabundo/ um maldito o dito cujo/ de quem todos falam/ sem nenhum respeito/ o pilantra, o pilintra/ o vilão, o feio, o mau sujeito” é o cartão de visitas do protagonista da letra que cita Charles Bronson.

Em Homem só, O amor é invenção e Ultimamente nada, com seus femininos gritos de gozo no grand finale, Baleiro tira um sarro da vida pequeno-burguesa, cujas ambições rotineiras parecem bobagens para poetas, sonhadores e que tais. “Os amigos falam que é isso, brou?/ nunca mais passou no café, no bar/ tenho trabalhado pra caramba e/ o trabalho é que/ pode nos salvar”, afirma o artista, que apenas finge se contentar.

Ouça Desejo de matar: