Arquivos diários: 11 de julho de 2016

O respeitável cidadão faker

Frame de Cidadão Kane. Reprodução
Frame de Cidadão Kane. Reprodução

 

Antes da fama mundial com Cidadão Kane [1941, 119 minutos], Orson Welles transmitiu, em 1938, uma adaptação radiofônica de A guerra dos mundos, de H. G. Wells.

Em outubro de 1971, a rádio Difusora, ao completar 16 anos, repetiu a experiência, com a diferença de que, nos Estados Unidos de mais de 30 anos antes, os ouvintes sabiam tratar-se de obra de ficção.

A invasão marciana anunciada pelos radialistas de cá, entre os quais o sonoplasta Elvas Ribeiro, vulgo Parafuso, em cuja insuspeita opinião Cidadão Kane é o melhor filme de todos os tempos, foi tratada como se fosse real, assustando alguns ouvintes.

A história é deliciosamente contada em Outubro de 71: memórias fantásticas da Guerra dos Mundos, organizado pelo professor Francisco Gonçalves da Conceição, hoje secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular.

Lembro o episódio por conta da mostra Mr. Faker – Orson Welles e a autoria na indústria do cinema, que o Sesc/MA abre amanhã (12), às 18h30, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), de graça – os ingressos podem ser retirados na bilheteria do cinema, com meia hora de antecedência a cada sessão.

“Faker (impostor) é uma referência recebida por Orson Welles por criar um conceito estético em sua obra onde o falso foi utilizado como essência da própria arte para confrontar e desmascarar a realidade em busca da verdade”, explica o texto de divulgação da mostra.

Serão exibidos 11 filmes de Welles, a começar por sua estreia, Cidadão Kane, interpretado pelo próprio diretor. Indicado ao Oscar em várias categorias, o filme levou a estatueta de melhor roteiro original. O diretor tinha então, apenas 25 anos.

Cidadão Kane retrata a vida do fictício Charles Foster Kane, baseada na do real William Randolph Hearst, barão da mídia estadunidense, dono de uma rede com mais de 30 jornais, personagem fundamental para o conceito de imprensa marrom.

Entre os filmes da programação também está A marca da maldade [1958, 95 min.], misto de policial e suspense, digno de Hitchcock. Com música de Henri Mancini (autor do antológico tema de A pantera cor de rosa), a obra escancara a questão da corrupção e violência policial, com sua fábrica de provas contra quem deseja incriminar – mais atual, impossível.

Veja a programação completa da mostra Mr. Faker – Orson Welles e a autoria na indústria do cinema:

Amanhã (12)
18h30: Cidadão Kane

13 (quarta-feira)
16h: Grilhões do passado [1955, 93 min.]
18h: Verdades e mentiras [1973, 89 min., colorido]
20h: A marca da maldade

14 (quinta)
16h: Falstaff: o toque da meia noite [1965, 98 min.]
18h: O estranho [1946, 95 min.]
20h: Macbeth [1948, 89 min.]

15 (sexta)
14h: A dama de Shangai [1947, 87 min.]
18h: Dom Quixote [1992, 116 min.]
20h: Soberba [1942, 88 min.]

16 (sábado)
14h: O processo [1962, 107 min.]
18h: Cidadão Kane
20h: Verdades e mentiras

O axé político de Wado

Ivete. Capa. Reprodução
Ivete. Capa. Reprodução

 

Artista catarinense/alagoano remonta às origens do axé em Ivete, seu nono disco, recém lançado. Ele conversou com o blogue

Alagoano nascido em Santa Catarina Wado acaba de lançar o nono disco de sua carreira, descontada uma coletânea. O título, fina e ousada ironia, Ivete [independente, 2016]. Sim, uma homenagem a Ivete Sangalo, musa do axé, gênero a que o álbum presta uma espécie de tributo – ligeiro, o disco todo não tem 25 minutos.

São 15 anos de carreira desde a estreia com O manifesto da arte periférica [2001]. Ouvintes mais atentos – os que lhe acompanham a trajetória desde sempre – encontrarão links entre Ivete e Atlântico negro [2009], no som, na estética e no forte componente político dos álbuns – aliás, todos os álbuns de Wado estão disponíveis para download gratuito e legal em seu site.

Alabama (Wado e Thiago Silva), com seu “sangue nas folhas, sangue na raiz”, primeira música de trabalho do disco novo, remete ao açoite e linchamentos denunciados pelos versos de Abel Meeropol (sob o pseudônimo de Lewis Allan) em Strange fruit [1939] – o “fruto estranho” de que se apropria a letra, entre outros versos – gravada por, entre outras, Billie Holyday.

Acompanhado por Vitor Peixoto (guitarra e voz), Rodrigo Peixe (bateria), Dinho Zampier (teclado e programações), Bruno Rodrigues (contrabaixo), China Cunha (percussão) e Luciano Brandão (percussão), o axé de Wado (guitarra e voz) não soa estranho, isto é, não soa alheio ao conjunto de sua obra. Quer dizer: é axé, mas continua sendo Wado. Não tem “tira o pé do chão” ou “mexe a bunda para lá ou para cá”.

O axé de Wado, mesmo homenageando Ivete Sangalo no título do disco, remonta às origens do gênero, e seu tom de denúncia social, sobretudo contra o racismo e de exaltação à negritude, logo desvirtuado pela indústria, que fabricou ídolos tão descartáveis quanto despolitizados.

Em meio às 10 faixas do disco, releituras do hit Jesus é palestino (Carlinhos Brown, Gerônimo Santana e Alain Tavares), citada em meio a Terra santa (Jesus é palestino) (Wado, Junior Almeida e Dinho Zampier), Filhos de Gandhi, homenagem de Gilberto Gil ao bloco baiano de carnaval homônimo, e Um passo à frente (Moreno Veloso e Quito Ribeiro). As guitarras em profusão, desde o segundo inicial de Alabama, remetem ao Armandinho dos primeiros álbuns solo do também baiano Moraes Moreira, outra influência confessa.

Também desfilam parcerias por Ivete: Thiago Silva (Alabama e Sexo), Zeca Baleiro (em Mistério e Nós), Momo e Marcelo Camelo (em Você não vem, autores também de Samba de amor, sem Wado) e Beto Bryto (em Amanheceu). Sobre o disco, Wado conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

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Foto: Alzir Lima/HollyShot

Wado, você foi um dos primeiros artistas, de qualquer geração, a disponibilizar seus discos para download gratuito, logo no lançamento. O que te levou a esta postura e a mantê-la?
Acho que a música tem de chegar nas pessoas. Acho que até agora há pouco, antes das plataformas de streaming, essa era a melhor forma de chegar nas pessoas. Dinheiro ganhamos nos shows.

Como surgiu a ideia de um disco sobre o universo do axé?
É uma coisa que faz parte da minha formação, ouvi muito isso em Maceió no meio dos anos oitenta. É meio que um axe utópico de dentro da minha cabeça, adoro a estética, os temas.

E o título, Ivete?
Ele é um lance bem humorado mas respeitoso. É como se fosse uma tentativa de ser ela, sabendo que não chegaremos nunca lá. Como é um disco de axé e ela é um ícone, achei divertido e corajoso o título.

Sua música não soa nem pretende fácil como o axé, digamos, comercial. Reside aí uma fina ironia. É de propósito?
Acho que é verdadeiro em tentar ser, mas, também, verdadeiro em ser consonante com as minhas coisas. Ele é axé respeitando o gênero e sou eu também.

O repertório tem um forte componente político, inclusive nas regravações de Jesus é palestino e Filhos de Gandhi, meio que como uma volta às origens do axé. O gênero foi desvirtuado pela indústria?
Acho que nos anos noventa ele foi pra uma coisa super pop, mas a cultura é assim volátil. É bom que seja, mas o nosso foi bastante inspirado no início do gênero.

Outra referência citada no texto que apresenta o disco em teu site são os primeiros discos solo de Moraes Moreira. Terá o axé nascido ali?
Eu também fico pensando isso. O Moraes é um mestre da música festiva do Brasil e nesse primeiro disco solo dele já tinha Armandinho na guitarra baiana.

É um disco de axé, mas é um disco de Wado, no sentido de isso poder ser percebido, de cara, na primeira audição do disco. Alabama, primeira música de trabalho, remete a Strange fruit, retomando o elo do gênero predominantemente baiano com questões raciais e sociais. De algum modo, se lembrarmos Atlântico negro, mas não só, o axé e a política sempre estiveram presentes em teu trabalho, não é?
Sim, você pegou bem. Esse é meio que um desdobramento do disco Atlântico negro.

Quanto dessa preocupação social deriva do fato de você ser jornalista?
Deve ter isso sim embutido, nós somos esponjas, né?

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Ouça Alabama: