Musa Rara

Há tempos o poeta Edson Cruz me falou dum projeto que estava desenvolvendo e convidou-me a colaborar, do Maranhão. Topei. Há  tempos o Musa Rara foi ao ar e eu ali, sem saber o que escrever no meio de tanta gente e tanta coisa boa. Pra não mais esperar, joguei, na estreia, o mesmo texto que havia escrito pro Vias de Fato de fevereiro, que, motivos de força maior, só foi às bancas agora no comecinho de março.

Estreio pois no Musa Rara com um texto que escrevi sobre Ho-ba-la-lá, livro em que me viciei após a recomendação certeira do professoramigo Flávio Reis. Impossível escapar ileso, imune, impune à leitura. Eu, que sempre tive “problemas” com a Bossa Nova, passei ao menos a ouvir seu papa, João Gilberto, com outros ouvidos.

A MALDIÇÃO DA BUSCA DO CORAÇÃO DA BELEZA

Jornalista alemão relata suas aventuras e desventuras à caça do mitológico João Gilberto

POR ZEMA RIBEIRO

João Gilberto completou 80 anos em 2011. Para celebrar a data chegou-se a anunciar uma turnê, com ingressos a preços exorbitantes. Não aconteceu. O cantor e violonista baiano adoeceu, uma gripe ou coisa que o valha impediu-o de realizá-la.

Pouco antes da quase-turnê, o jornalista alemão Marc Fischer empreendeu corajosa, obcecada, apaixonada e apaixonante viagem ao Brasil: queria encontrar João Gilberto e ouvi-lo tocar Ho-ba-la-lá em seu centenário violão.

Chega de saudade. Capa. Reprodução
Chega de saudade. Capa. Reprodução

Ho-ba-la-lá, todos sabem, é título de uma das poucas músicas compostas por João Gilberto. Ele que pouco precisou fazê-lo, já que, espécie de Midas, transforma tudo o que toca em seu. Invariavelmente será de suas interpretações que lembraremos ao citarmos Chega de saudade e Garota de Ipanema, para ficarmos em apenas duas parcerias da dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes, mesmo elas, sobretudo a segunda, tendo sido gravadas e regravadas milhares de vezes, around the world. O mito apropriou-se mesmo de canções de Cole Porter e Ernesto Lecuona.

Papa da Bossa Nova, João Gilberto é, direta ou indiretamente, responsável pela existência artística de nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque e os Novos Baianos. Se os primeiros “tornaram-se” artistas após ouvir sua inconfundível batida, completamente nova e revolucionária, diferente de tudo o que se havia ouvido até então, os últimos abrasileiraram-se após terem ouvido Brasil Pandeiro, de Assis Valente – cuja gravação definitiva é deles –, que lhes foi apresentada por nosso personagem central.

Ho-ba-la-lá - À procura de João Gilberto. Capa. Reprodução
Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto. Capa. Reprodução

É em busca de sua instigante e misteriosa figura que Marc Fischer passa alguns meses no Brasil, fazendo o que entrega o subtítulo de seu Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto [Companhia das Letras, 2011, 183 p.; leia um trecho]. Herdeiro do new journalism, detetive improvisado, a vida do jornalista alemão mudou completamente depois que ele ouviu, na casa de um amigo em Tóquio, ao LP Chega de saudade (1959), marco um da Bossa Nova – o zero é Canção do amor demais, de Elizeth Cardoso, que no ano anterior reuniria pela primeira vez músicas de Tom Jobim, letras de Vinicius de Moraes e o violão de João Gilberto em duas faixas –, em especial a faixa que batizaria seu livro. Fischer foi contaminado por João Gilberto: “O vírus havia me contaminado” (p. 22).

Travestido de Sherlock Holmes – trata a assistente brasileira Rachel por Watson ao longo de sua narrativa – ele entrevista uma pá de nomes ligados ao mentor bossanovista: Garrincha, que durante anos lhe serviu o prato predileto, sempre pedido em telefonemas de, em média, 40 minutos (nunca se encontraram pessoalmente); Marcos Valle, autor de Samba de verão; João Donato, outro João, outro papa da música brasileira, com quem nosso protagonista meio que dividiu o início de carreira; Roberto Menescal, autor de diversos clássicos da Bossa Nova; Otávio Terceiro, espécie de faz-tudo joão-gilberteano; Cláudia Faissol, jornalista com quem João Gilberto tem uma filha e autora de um documentário – obviamente inédito – sobre ele; Anselmo, que canta e toca “exatamente” como João; Miúcha, ex-mulher, mãe de Bebel Gilberto…

Marc Fischer lê Ruy Castro – Chega de saudade, que ele considera a bíblia da Bossa Nova –, visita um Rio de Janeiro que já não tem o suposto charme da época do movimento musical – atualíssimo, ele estava aqui quando do lançamento de Tropa de Elite 2 –, tendo ido inclusive, saindo antes do fim, a uma festa para o elenco da saga teen Crepúsculo. Também viajou a Diamantina, no interior mineiro, para encontrar o banheiro em que João Gilberto havia encontrado sua batida diferente. “A Bossa Nova foi inventada na privada!” (p. 107), afirma em um capítulo.

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” (Vinicius de Moraes), uma busca regada a álcool, cigarros, ideias – levadas a cabo ou abortadas –, planos, perseguições, telefonemas, internet – Marc Fischer tornou-se amigo de João Gilberto no Facebook, embora ninguém saiba até hoje se se trata ou não de um fake – e, antes de tudo, paixão. Tudo costurado em narrativa que, qual um bom disco – um disco de João? – nos desperta a vontade de apertar novamente o play, de devolver a agulha ao início: “melhor do que o silêncio só João” (Caetano Veloso). Contaminados pelo vírus de João Gilberto – ou de Marc Fischer (?) – quando nos vemos já estamos numa segunda leitura.

O alemão não queria uma entrevista, uma fotografia ao lado do ídolo, um autógrafo, nada disso. Queria apenas ouvi-lo tocar Ho-ba-la-lá em seu violão. “Cada vez mais, avanço na direção do coração da Bossa Nova, que, para mim, é o coração da beleza. (…). O senhor toca sua obra-prima para mim, “Ho-ba-la-lá”, e eu desapareço em seguida. Não precisamos falar muito. Uma ideia maravilhosa, não é?” (p. 166), implora num bilhete. Acompanhá-lo em seu intento é mergulhar de cabeça numa trama com ar de romance policial: é ir ao encontro de quem não deseja ser encontrado.

O suicídio, capítulo curto de Ho-ba-la-lá, a princípio soa deslocado. Marc Fischer suicidou-se aos 40 anos, sem motivo aparente, “sem recado e sem bilhete” (Noel Rosa), sem ver o livro publicado. Roberto Menescal o havia advertido: “João é perigoso. Tem alguma coisa de sombrio. Ele muda as pessoas com quem tem contato. Capaz de mudar você também. (…). De repente, é capaz de você se tornar um amaldiçoado para todo o sempre.” (p. 65).

Reler Marc Fischer, reouvir João Gilberto: bendita maldição!

3 comentários sobre “Musa Rara

  1. sério? putz, ainda tou sob o impacto: li duas vezes para escrever este texto e vez em quando me pego lembrando fortemente dalguma passagem. fora que agora ouço joão gilberto direto, o negócio bateu forte…

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