Ponte Brasil Portugal

Carminho canta Tom Jobim. Capa. Reprodução

Há vários pontos de interseção entre Carminho canta Tom Jobim [Biscoito Fino, 2016] e Até pensei que fosse minha [MP,B, 2016], discos mais recentes lançados pelos portugueses Carminho e António Zambujo, respectivamente. Ambos, de algum modo, são artistas de exceção: embora entre um círculo restrito, são conhecidos no Brasil, que em termos de música e artistas portugueses, com raras exceções, quase sempre para no Roberto Leal que serve de trilha sonora para danças portuguesas no período junino.

São dois dos maiores compositores brasileiros em todos os tempos relidos por uma das maiores intérpretes da terra de Fernando Pessoa e por um cantor e compositor idem bastante interessante. Ambos já haviam mostrado seus talentos em participações em discos de artistas do lado de cá do Atlântico.

Tanto no disco dela quanto no disco dele há participações especiais de brasileiros: Chico Buarque comparece a ambos (como intérprete e compositor), enquanto ela, além dele (em Falando de amor), recebe Marisa Monte (em Estrada do sol) e Maria Bethânia (em Modinha); já Zambujo tem, além do compositor tributado (em Joana francesa), Roberta Sá (em Sem fantasia) e a conterrânea Carminho (em O meu amor).

Até pensei que fosse minha. Capa. Reprodução

Em Carminho canta Tom Jobim, ela é acompanhada pela brasileiríssima Banda Nova: Paulo Jobim (violão), Daniel Jobim (piano), Jacques Morelembaum (violoncelo) e Paulo Braga (bateria). Em Até pensei que fosse minha – título tirado de um verso de Até pensei –, Zambujo é acompanhado por um time que mescla portugueses e brasileiros. Entre os virtuoses de cá estão Ronaldo do Bandolim, Zé Paulo Becker (violão) e Marcelo Gonçalves (violão sete cordas, divide com Ricardo Cruz a produção e assina a direção musical e arranjos), mais conhecidos como Trio Madeira Brasil, além de Marcelo Caldi (acordeom) e Paulino Dias (percussão).

Os tributos fogem do óbvio, vão além do superficial. As seleções de repertório, por exemplo, ultrapassam o mero “o melhor de”, e as releituras não desconstroem músicas já cristalizadas no imaginário do brasileiro. Em Carminho canta Tom Jobim, entre outras, Inútil paisagem, Triste, Sabiá, Luiza e A felicidade; em Até pensei que fosse minha, Futuros amantes, Injuriado, Cecília, Cálice, Januária, João e Maria, Tanto mar e Valsinha.

Com estes dois discos, Portugal redescobre um pequeno e importante pedaço de Brasil. Espero que o Brasil (re)descubra Portugal, para além deste comprovadamente talentoso par de artistas. E além: que o Brasil, cada vez mais, (re)descubra o Brasil.

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Veja o videoclipe de João e Maria (Chico Buarque/ Sivuca), com António Zambujo:

Veja o making of de Carminho canta Tom Jobim:

Via Gal, o Brasil musical de Jussara Silveira e Renato Braz

Fruta gogoia. Capa. Reprodução

 

Como boa tropicalista, Gal Costa flertou com a Bossa Nova, tendo dedicado um disco ao repertório de um dos papas do movimento, Tom Jobim, Gal Costa canta Tom Jobim, de 1999.

A releitura de Jussara Silveira e Renato Braz, dois dos mais talentosos cantores de nossos tempos, para o repertório da baiana, uma das maiores em todos os tempos, está mais para Bossa Nova, pelos refinados arranjos e direção musical de Dori Caymmi – a produção musical é de Mario Gil e a direção artística de Luiz Nogueira.

Cabe dizer que o par de intérpretes não se acomoda em zonas de conforto: releitura é palavra que aqui faz sentido, indo além de mera regravação. Nada soa forçado. Eles já dedicaram discos ao repertório de mestres: ela, Canções de Caymmi, em 1998; ele, Silêncio – Um tributo a João Gilberto, em 2014. Tudo se liga.

O Bicho Gal, da série Fauna Brasiliensis, de Regina Silveira, na capa, é o mais próximo da “psicodelia” tropicalista a que chega Fruta gogoia – Uma homenagem a Gal Costa [Selo Sesc, 2017; R$ 20,00].

O disco é, além de uma reunião de músicos talentosos, um abrangente songbook brasileiro, e não poderia ser diferente em se tratando de um mergulho na discografia de uma das mais talentosas cantoras brasileiras em todos os tempos, de longeva carreira – já são mais de 50 anos desde o compacto de estreia, quando ainda assinava Maria da Graça, seu nome de batismo, em 1965.

As bases são executadas por Dori Caymmi (violão), Mario Gil (violão), Swami Jr. (violão sete cordas), Sizão Machado (baixo), Toninho Ferragutti (acordeom), Itamar Assiere (piano), Teco Cardoso (sax), Celso de Almeida (bateria) e Bré Rosário (percussão), além de um octeto de sopros, mais cordas, violas e violoncelos, que passeiam por um repertório que abrange do citado Tom Jobim (Estrada do sol, parceria com Dolores Duran, e Tema de amor de Gabriela) a Caetano Veloso (nome mais presente na discografia de Gal Costa e não por acaso também neste Fruta gogoia: Tigresa, Meu bem, meu mal, Baby, Não identificado e Força estranha), passando por nomes como Chico Buarque (Folhetim), Jards Macalé (Vapor barato, parceria com Waly Salomão), Luiz Melodia (Pérola negra), Lupicínio Rodrigues (Volta) e Dorival Caymmi (Só louco e Modinha para Gabriela), além de nomes menos conhecidos mas fundamentais, como Tuzé de Abreu (Passarinho) e Pereira da Costa e Milton Villela (Teco, teco).

Fruta gogoia foca um repertório antológico e diverso de Gal Costa, passeando por diversas fases de sua carreira. A bela e merecida homenagem é mais uma prova de sua profunda e definitiva influência sobre cantoras e cantores brasileiros e de seu lugar na preferência dos apreciadores de música brasileira.

O poder de Karina Buhr

Cantora se apresenta hoje (22) em São Luís e conversou com exclusividade com o blogue

Karina Buhr é dona de uma das mais coerentes trajetórias artísticas do Brasil. A artista está acostumada a multiplicidades: é cantora, compositora, atriz, ilustradora e escritora. Com a infância passada entre o Recife natal e Salvador, hoje radicada em São Paulo, é cidadã do mundo. Vida, obra e militância confundem-se, não se sabe onde acaba uma e começa outra, tão impregnadas estão entre si, retroalimentando-se.

Com três discos solo na bagagem, ela já conta mais de 20 anos de artes, embora setores mais preguiçosos da grande mídia tenham saudado seu “aparecimento” como “novidade”, quando ela lançou o disco solo de estreia, Eu menti pra você, em 2010. Em 2015, com Selvática, o mais recente, Karina teve a capa, em que aparece com os seios à mostra, censurada por uma rede social. Se a vida te der limões, faça uma limonada: o tiro saiu pela culatra, o disco e diversos temas caros à artista acabaram ganhando ainda mais visibilidade.

Naquele ano ela esteve em São Luís em duas ocasiões: autora de Desperdiçando rima [Fábrica 231/Rocco, 2015], participou da Feira do Livro; pouco depois voltou para apresentar Selvática durante a Aldeia Sesc Guajajara de Artes. Hoje (22), ela volta à ilha para um show no Festival Elas, evento idealizado e realizado majoritariamente por mulheres que desde quinta-feira (20), ocupa o sempre simbólico Convento das Mercês (Desterro). Sua apresentação acontece no pátio interno, às 23h30.

De acordo com seu slogan, o Festival Elas “promove cultura e poder feminino”. Mais que apropriada a presença de Karina Buhr. Por e-mail, ela conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Priscilla Buhr

Cantora, compositora, atriz, ilustradora, escritora. Ser artista multimídia é um imperativo destes tempos? É possível separar as várias Karinas? Em que faceta você se sente mais realizada?
Pra mim isso não é “desses tempos” nem uma necessidade no sentido de “tenho que fazer mais coisas pras coisas rolarem mais”. Sempre fiz essas coisas todas e a cada hora uma se destaca mais, embora a música tenha acabado ficando de frente mesmo. Não tem como separar uma coisa da outra e não vejo muito como realização, no sentido de me sentir bem com o êxito de uma ou de outra. Não são várias, é tudo eu, na saúde e na doença [risos].

Pernambucana nascida na Bahia e radicada em São Paulo. O cosmopolitismo parece ser outra necessidade, hoje em dia. O quanto ajuda e atrapalha ser mais pássaro que árvore?
Isso é uma realidade da minha vida desde sempre, não sei como é ser de outro jeito. Meu pai nasceu na Bahia, minha mãe em Pernambuco e eu sempre pulei de Recife pra Salvador, sentindo as duas como minhas cidades. São Paulo veio pelo Teatro Oficina e acabei adotando como minha também. Não acho que ajude nem atrapalhe, só é assim. E gosto muito assim.

Quando do lançamento de Eu menti pra você [2010] você foi saudada como “revelação”, com parte da crítica ignorando sua participação, para citar apenas o campo musical, em grupos como o Eddie e o Comadre Florzinha. Como você avalia o episódio?
“O que era velho no norte se torna novo no sul” [risos]. Tem a ver com Rio e São Paulo serem considerados O Brasil e o resto ser “regional” e também tem machismo aí. Essa coisa de “novas cantoras”, de não saberem muito bem como tratar mulheres que cantam e compõem, de uma necessidade de colocar todas as cantoras no mesmo balaio – com recorte social também, afinal as cantoras de funk são tratadas como setor à parte, como se os outros setores todos tivessem também relação uns com os outros –, de me tratar como “nova cena”. Não sou nova cena, tenho 43 anos e comecei a tocar (nos maracatus Piaba de Ouro e Estrela Brilhante) em 1994. Enfim, tenho muita história antes de 2010, mas tem esse fetiche ainda de “São Paulo descobriu agora então existe a partir de agora”.

Sua obra e atitudes têm engajamento: letras de música, conteúdo de textos e ilustrações, engajamento presencial e virtual em causas, por exemplo, o feminismo e o movimento Ocupe Estelita, no Recife, para citar apenas dois. Nestes tempos duros, caretas e conservadores, é impossível ser diferente, não?
Pra mim isso também sempre foi uma realidade, de acompanhar de perto essas coisas e de dar opinião e botar mão na massa. Na verdade gostaria de botar bem mais a mão na massa, faço bem menos do que gostaria. Acho que, de um modo geral, somos muito apáticos na ação. Falamos demais e fazemos pouco de fato. Fosse diferente a polícia não tava exterminando pretos e pobres.

Capa de Selvática, censurada pelo Facebook. Reprodução

Quando do lançamento de Selvática [2015], seu disco mais recente, a capa foi censurada por uma rede social. A que você credita a caretice e o ridículo do episódio? Como reagiu?
Ao machismo, de novo. Mulheres estão nuas em todos os lugares, mas sob um olhar machista. Se elas resolvem ficar nuas do jeito que querem aí já é vandalismo. Na verdade essa censura, que é uma grande merda violenta e cafona, acabou alavancando não só a capa do disco como começaram discussões maravilhosas em torno dela e sobre liberdade dos corpos das mulheres e isso foi precioso. Uma coisa ruim gerou uma maravilhosa. Fiquei muito emocionada com esse desfecho e vendo questões que eu colocava nas músicas que ninguém tinha escutado ainda sendo levantadas a partir da capa. O que aconteceu depois é que foi bem ruim. Se você procurar na imprensa o que saiu sobre meu disco vai ler basicamente sobre meus peitos na capa. Dos meus três discos foi o mais fraco de imprensa a respeito do conteúdo mesmo, das letras e tal. Tem sempre o “o disco tem temática feminista”, que é uma frase que não diz absolutamente nada a respeito das composições. No caso, a frase correta seria “é um disco de temática feminista comentado por uma imprensa machista” [risos]. A sorte é que as músicas tocaram as pessoas e o público sacou tudo a fundo e de uma forma linda.

Selvática tem uma pegada mais punk, longe, no entanto, de rotulá-lo e/ou à tua obra. Essa guinada é sinal da urgência dos tempos?
Acho que não. Não sei [risos]. O tempo sempre foi urgente.

Em 2015 você esteve duas vezes em São Luís. Participou da Feira do Livro e pouco depois cantou na Aldeia Sesc Guajajara de Artes. Quais as impressões e lembranças da cidade e do público?
Foi maravilhoso, apesar de corrido. Fico triste de só ir aí correndo, dessa vez vai ser de novo assim. Quero voltar com calma, me devo isso, quero muito, sempre quis, chegar, ficar, respirar São Luís e essa maravilha toda, os tambores, a dança, que me ligam tanto a esse lugar.

Qual a expectativa para o show no Festival Elas?
Espero que seja massa, que vá um monte de gente e quem for fique feliz também e a gente faça junto esse show. É sempre junto, né, o que fazemos no palco reverbera em quem assiste e o que quem assiste sente e faz toca na gente também. Essa é a mágica da brincadeira. E que maravilha ser no Elas, com esse mote de feminismo, de mulheres ocupando todos os espaços, como deve ser.

Como você avalia a importância de um festival desse nível, feito principalmente por mulheres, destacando o protagonismo feminino?
É muito importante! Que a ideia se espalhe sempre! Quanto mais mulheres juntas falando, realizando, se encontrando e trocando mais a gente avança, mas a gente se fortalece.

Do golpe que tirou Dilma Rousseff do poder passando pela escalação do ministério, gestos, atitudes e declarações, o governo do ilegítimo é muito machista. O Brasil retrocedeu bastante. Há luz no fim do túnel?
A luz do túnel são as mulheres todas se organizando e agindo. É sintomático a primeira mulher presidente ser arrancada do poder. Mesmo enquanto ela estava lá isso era muito visível, o machismo todo, acompanhamos tudo, né, os discursos contrários a ela eram sempre com uma carga machista que impedia até de se ter contato com o que queria o problema real. Temos que lembrar também que mesmo com Dilma na presidência o machismo era reinante. Retrocedemos em muitas coisas e uma coisa muito grave foi ela sempre ter se colocado contrária a legalização do aborto, por exemplo. Uma tristeza muito grande vê-la se resignar e tratar o assunto dessa forma. Estamos falando de direitos humanos das mulheres e uma presidente mulher foi totalmente incapaz de tratar isso da forma que merecia e que é urgente. As mulheres seguem morrendo.

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Veja Karina Buhr em Eu sou um monstro (Karina Buhr) no Cultura Livre:

Terra de Ford, terra de ninguém

Divulgação

 

Voraz leitor de Tex Willer desde a infância, é em algo comum nas histórias do ranger que penso imediatamente ao ver Fordlândia [Brasil, 2008, 49 min.], documentário de Marinho Andrade e Daniel Augusto.

Nas HQs presenciamos constantemente o surgimento e abandono de vilarejos, principalmente ao redor da exploração de ouro e da instalação de ferrovias. O filme conta a história de uma cidade construída por Henry Ford na década de 30 do século passado, em pleno Pará, palco de outro Eldorado de triste memória.

Para tanto, a dupla de cineastas faz vir dos Estados Unidos Charles Townsend, nascido em Fordlandia, filho de um funcionário da Ford. O filme acompanha esse reencontro – a cena em que ele cumprimenta América, sua babá, com tapas no ombro e um abraço, é comovente para personagens (que vão às lágrimas) e espectadores. Fordlândia ainda tem uns poucos moradores, mas é o espírito de cidade fantasma que lhe habita.

A estratégia de Ford, que gastou alguns milhões de dólares na empreitada, era ter seu próprio seringal, para suprir a necessidade crescente de sua produção – no Brasil o ciclo da borracha já havia se encerrado, mas o empresário americano, dono da então maior indústria do planeta, acreditou que era possível revivê-lo artificialmente. Deu-se mal: uma praga dizimou os milhões de seringueiras, antecipando a derrocada. Famílias foram embora abandonando casas, móveis e talheres.

Fordlândia dá muito pano pra manga. A partir dele é possível pensar temas caros para a nossa sociedade, inclusive levando em conta a égide golpista, tendo em vista o incentivo ao desmatamento amazônico garantido pelo governo ilegítimo. Enriquecido por depoimentos do sempre combativo jornalista Lúcio Flávio Pinto, temas como urbanismo, planejamento urbano, capitalismo, migrações, trabalho e cultura – reparem num insólito bumba meu boi – passeiam pela geografia paraense, onde um dia se tentou produzir látex em modo fordista.

Bons documentários, como este de Marinho e Andrade, não se fazem em série. Este torna-se único ao abordar tema inusitado sob perspectiva idem.

Serviço

Fordlândia será exibido amanhã (22), às 18h, no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Uema, Rua da Estrela, Praia Grande), com entrada franca. Após a sessão haverá debate com o diretor Marinho Andrade, com mediação do professor Frederico Lago Burnett.

 

Veja o trailer:

Um repertório que já nasce clássico

Foto: Francisco Colombo

 

Foi a cantora Lena Machado, quando de sua participação, quem sintetizou o sentimento de quem compareceu ontem (20) ao Anfiteatro Betto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), quando Chico Saldanha lançou Plano B, seu mais recente disco, o quarto da carreira, em um show de bolso.

“Para mim é uma honra enorme estar aqui, participar deste disco, deste show. Este aqui é o Plano B De Buriti”, afirmou juntando a faixa-título com a música que cantam juntos, num trocadilho feliz – o disco quase muda de nome durante a elaboração do projeto gráfico. “Saldanha é imprescindível, é dessas pessoas que se não existissem a gente mandava fazer de buriti”, afirmou a cantora, o feitiço a favor do feiticeiro.

Um bom público foi prestigiar o compositor. A cidade tinha diversas opções a custo zero, como seu lançamento. Muita gente conhecida se reencontrava na plateia, mas a animação geral não tirou a atenção do que realmente importava: o desfile do bom repertório de Plano B, em que Saldanha foi acompanhado por Marquinhos (bateria e percussão), Rui Mário (sanfona), Luiz Jr. (violão sete cordas e guitarra) e Marcão (contrabaixo).

Saldanha abriu com Clichês e passeou por Afeganistão, Ela só queria ser Ella, Ela se move, Remoto botequim, Choro de memórias. É impressionante, e não sei se digo isto por estar por dentro do processo (meu nome figura, baita honra, como assessor de comunicação na ficha técnica do disco), mas a impressão é a de já conhecer aquelas músicas há tempos. Como se já nascessem clássicas.

Ou no dizer de Flávio Reis: “Saldanha é um artesão. Demora, leva um tempo de um disco pra outro”, a média de intervalo é de 10 anos, “mas não faz besteira”. Eu fico realmente feliz de ouvi-lo tocar no rádio, além do Santo de Casa.

Única música do repertório de ontem que não figura em Plano B, Itamirim, daqueles clássicos que a maioria das pessoas canta sem conhecer a autoria, fechou a noite como se espera quando se toca um hino: todo mundo cantando junto.

Foto: Francisco Colombo

Lennon no divã

Lennon. Capa. Reprodução

 

Como grupo ou individualmente a vida e a obra dos Beatles são por demais conhecidas em sucessivas edições, umas bem cuidadas, outras meros caça-níqueis. Até hoje, qualquer lançamento ou relançamento envolvendo os fab four rendem cifras incalculáveis, seja na música, literatura, teatro, cinema.

A graphic novel Lennon [tradução: Fernando Scheibe; Nemo, 2017, 151 p.; R$ 39,80; leia um trecho] aborda a trajetória de John Lennon sob um ponto de vista inusitado: sucessivas visitas do astro a uma analista.

Lennon se reencontra e enfrenta fantasmas do passado, desnudando-se no traço elegante de Horne Perreard e roteiro de Eric Corbeyran, baseados no texto original de David Foenkinos, autor do livro que deu origem à HQ.

Nada é novidade para beatlemaníacos médios – ok, a expressão é uma contradição em termos –, mas mesmo para estes, vale a pena conferir Lennon, narrado em primeira pessoa e de forma quase linear.

John Lennon revela a importância de Lewis Carrol para seu processo criativo, quando os desenhos de Perreard dão conta do onírico do autor, revela a podridão, mais que o glamour, do showbiz, e é ultrarromântico ao abordar o encontro de seu protagonista com Yoko Ono.

Em 18 sessões, um monólogo – só Lennon fala, nunca há a interferência de sua analista – dá conta da biografia daquele que, ao lado de Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, formou o mais importante grupo musical de todos os tempos e revolucionou para sempre a música pop.

Mesmo sem acrescer novos dados à biografia do ídolo, Lennon teria fecho perfeito se acabasse na 18ª. sessão. O epílogo é óbvio ao encerrar o álbum com o assassinato de John Lennon, quebrando o ritmo a que o leitor se acostuma logo nas primeiras páginas.

Para dançar e pensar: o samba do Criolo

Criolo já conta mais de 10 anos de carreira, contados desde a época em que ainda assinava Criolo Doido e era eminentemente rapper. De lá para cá lançou verdadeiros petardos da música popular brasileira contemporânea, extrapolando os limites do rap, sempre flertando com o samba, mas não só.

Neste meio tempo agradou medalhões como Chico Buarque (que devolveu homenagem em show), Milton Nascimento (com quem já dividiu o palco), Tom Zé (com quem gravou Banca de jornal em Vira-lata na via láctea, disco do baiano), Ney Matogrosso (que gravou sua Freguês da meia noite em Atento aos sinais) e Ivete Sangalo (com quem dividiu disco e show tributando Tim Maia).

Criolo já garantiu, pois, sua vaga entre os grandes. Artista oriundo da periferia e consciente de seu lugar e papel, não é de se acomodar em zona de conforto em geral ilusória. Depois de Nó na orelha (2011) e Convoque seu Buda (2013), discos em que seu rap dialogava com o samba e outros gêneros musicais, brasileiros ou não, ele lançou ano passado Ainda há tempo, que marcava um retorno ao rap puro, mas nunca simples.

Espiral de ilusão. Capa. Reprodução

Espiral de ilusão [Oloko, 2017; todos os seus discos podem ser ouvidos e baixados em seu site] talvez seja sua mais ousada guinada: um disco inteiramente dedicado ao samba. Tem de tudo, ingredientes consagrados desde sempre em rodas, discos e na obra de grandes bambas do gênero: amor, malandragem e denúncia social. Já nasce clássico, a começar pela capa, de Elifas Andreato, cujo talento já embalou Clara Nunes, João Nogueira, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Paulo Moura e Rolando Boldrin, para ficarmos em lista curta.

Se não, vejamos se a letra de Menino mimado não é metáfora perfeita para o triste momento político por que passa o Brasil, desde o golpe que tomou de assalto nossa democracia: “Então pare de correr na esteira e vá correr na rua/ veja a beleza da vida no ventre da mulher/ pois quem não vive em verdade, meu bem, flutua/ nas ilusões da mente de um louco qualquer/ e eu não aceito, não”, para arrematar, brilhantemente: “Eu não quero viver assim, mastigar desilusão/ este abismo social requer atenção/ foco, força e fé, já falou meu irmão/ meninos mimados não podem reger a nação”.

Filha do Maneco é crônica no melhor estilo Noel Rosa: um pai ciumento na favela, samba bem-humorado como o fino do poeta da Vila. Dolente, a faixa-título aborda uma desilusão amorosa, qual na ginga de Calçada: “Um belo dia, pensava que tava escrito/ era eu pra ela, ela pra mim, isso tá bonito/ esqueci de fechar uma porta e uma janela de uma outra casa/ toda verdade veio na minha calçada”.

Boca fofa emula a malandragem de Bezerra da Silva e o cagueta, personagem constante de sua obra – em tempos de delação premiada, faz todo sentido. Os temas – caguetagem e delação premiada, (quase) sinônimos –, voltam a aparecer em Cria de favela, que fecha o álbum: “Quem vai lucrar com essa patifaria/ é gente da alta na papelaria/ delação premiada jogo de poder/ e se for pra rua tentam me deter”.

Espiral de ilusão, o disco, é a prova de que é possível aliar a seriedade e a urgência de determinados temas caros e cruéis a alegria tipicamente brasileira, sambista. Artista com A maiúsculo, é também atestado de que Criolo pode enveredar por qualquer caminho mantendo-se coerente, instigante e interessante.

Ouça Espiral de ilusão na íntegra:

O artesanato musical de Chico Saldanha

[release]

Compositor lança Plano B, quarto disco de sua carreira

Plano B. Capa. Reprodução

Chico Saldanha tem importância fundamental para a moderna música popular produzida no Maranhão. Para ficarmos em apenas dois bons exemplos: foi ele quem tocou, ao violão, para Papete, as músicas que viriam a emocionar o publicitário Marcus Pereira, que imediatamente tratou de garantir seu registro no antológico Bandeira de aço (1978); como integrante da primeira formação do Regional Tira-Teima, ao violão, acompanhou Chico Maranhão no igualmente antológico Lances de agora (1978), também lançado pela gravadora Discos Marcus Pereira. Os dois álbuns são considerados divisores de águas. O resto é história.

Consciente de seu papel e lugar, e sem afobação, o rosariense só estrearia em disco solo 10 anos mais tarde, no LP homônimo Chico Saldanha (1988), que traria ao menos um clássico de nossa música popular: a toada Itamirim, interpretada por Tião Carvalho. Antes, Saldanha já havia prestado reverência e registrado em disco, ao lado dos então também produtores Giordano Mochel e Ubiratan Sousa, as vozes e talentos singulares de Agostinho Reis, Antonio Vieira, Cristóvão Alô Brasil e Lopes Bogéa, no compacto Velhos moleques (1986).

Levou 10 anos entre a estreia de Saldanha e o segundo disco, Celebração (1988). A média se manteve entre estes e os títulos seguintes: Emaranhado (2007) e o recém-lançado Plano B (2017). Dois motivos parecem justificar tanta espera entre um e outro: o primeiro é que o advogado de formação realiza seus trabalhos às próprias custas; o segundo é o capricho com que ele mesmo cuida de cada detalhe. Modesto, ele cita a poeta polonesa Wisława Szymborska: “a imperfeição é mais fácil tolerar em doses pequenas”.

Plano B reúne algumas características comuns à carreira de Saldanha, sem que isso signifique mais do mesmo. Está lá sua versatilidade como compositor (sozinho ou em parceria assina as 11 faixas da bolachinha), passeando por balada, blues, reggae, xote, bumba meu boi, tango, choro e bolero, com pitadas de brega – “Chico sempre o aborda com uma ironia muito particular” – e “a lírica amorosa quase sempre presente”, como destaca o poeta Celso Borges em texto no encarte.

Entre os temas abordados comparecem o jazz (Ela só queria ser Ella), a guerra conjugal (na bem-humorada Afeganistão), a dor de cotovelo (a faixa-título, Fio desencapado, Mano a mano e Remoto botequim, que cita o Tango pra Teresa, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, além dos cantores de tango Carlos Gardel e Armando Manzanero), a São Luís de outrora (Choro de memórias), a dança (Ela se move) e o amor (De buriti), além de diálogos com o cinema (Pano rápido) e a música eletrônica (Clichês).

Participação especial mais constante dos discos de Saldanha, Zeca Baleiro comparece em Clichês, que abre o disco, muito além do que promete o título. Na faixa eles ligam os londrinos da Groove Armada com o madredivino Cristóvão Alô Brasil. Milla Camões faz o vocalize em Ela só queria ser Ella, invocando a homenageada. Nosly divide o vocal com Saldanha em Ela se move, parceria deles com Jamil Damous (cunhado de Saldanha que faleceu após as gravações), que cita os bailarinos Mikhail Baryshnikov e Rudolf Nureyev. Lena Machado fecha o time de participações especiais imortalizando um dito popular da região do Turi, no interior do Maranhão, em De buriti (Saldanha/ Jamil Damous).

O disco tem arranjos e direção musical de Luiz Jr. (guitarra, violão, violão sete cordas, viola caipira) e conta ainda com músicos como Daniel Cavalcanti (trompete), Kleuton (contrabaixo), Rui Mário (teclado e acordeom) e Wanderson Silva (percussão), entre outros. O projeto gráfico é de Amanda Simões, sobre peças artesanais (em fibra de buriti) de Vilma Rosane, fotografadas por Beatriz Maia.

Plano B é um disco delicado, comovente e vigoroso. A cada disco, Saldanha sempre nos leva a pensar que “valeu a pena esperar”. O título soa também como uma metáfora para alguém que passou a vida se dividindo entre o expediente das repartições e a música. Quem sabe agora, aposentado do plano a, não careçamos esperar tanto entre um Plano B e outro do artista – agora em tempo integral.

SERVIÇO

Chico Saldanha lança Plano B em show no próximo dia 20 de julho (quinta-feira), às 19h, no Anfiteatro Betto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com entrada gratuita.

Dramas cruzados

Farol das orcas. Frame. Reprodução

 

Baseado em Agustín corazón abierto (Agustín coração aberto, em tradução livre), livro de Roberto Bubas, Farol das orcas [El faro de las orcas, 2016; direção: Gerardo Olivares; 110 minutos], drama argentino-espanhol, é uma bela prova de que o cinema e a literatura (e as artes em geral) podem tratar de qualquer tema, por mais delicado que seja, sem o risco de esbarrar no piegas ou no politicamente incorreto, quando a abordagem é inteligente.

Bubas (Joaquín Furriel) é uma espécie de agente florestal, que atua numa reserva ecológica na Patagônia, onde convive diretamente com as orcas, espécie de baleia tida como assassina – a seu ver, injustificadamente.

O filme, disponível no Netflix, aborda o drama de Lola (Maribel Verdú), mãe de Tristan (Guinchu Rapalini), um menino autista de nove anos. A partir de uma reação do garoto vendo um documentário sobre baleias no National Geographic, ela cruza meio mundo, da Espanha à Patagônia, para tentar a experiência. Só Beto pode ajudá-los.

O guarda-fauna reluta a princípio. Mas logo se afeiçoa ao garoto – e à mãe – e coloca o próprio emprego em risco para ajudá-los. Beto e Lola se apaixonam, num filme sem excesso ou pieguice, profundamente emocionante.

As locações naturais daquele trecho de praia da Patagônia ajudam a tornar tudo ainda mais bonito. Mergulhar (literalmente) no trabalho, num lugar remoto e com praticamente nenhuma opção de lazer, foi a forma que Beto encontrou para superar uma tragédia pessoal. Ele acaba contrariando a própria natureza ao se tornar “amigo” das orcas.

Cada personagem tem seu próprio drama e é neste entrecruzamento que residem a força e a beleza de Farol das orcas, que aborda o autismo por um viés poético. Quando Beto resolve fazer as coisas à sua maneira para ajudar Tristan não sobra espaço para enxergar o garoto como um coitado, estranho ou digno de pena – como em geral, infelizmente, ainda são vistas as pessoas com deficiência, seja qual for. Longe de panfletário, o filme acompanha seus passos, evoluções, a superação de seus medos e a paixão por orcas, mar e música.

Veja o trailer:

Encontro de almas

Nossas noites. Capa. Reprodução

Último romance publicado pelo americano Kent Haruf (1943-2014), Nossas noites [Our souls at night, tradução de Sonia Moreira; Companhia das Letras, 2017, 159 p.; R$ 39,90; leia um trecho] é um pequeno manifesto em favor da liberdade e do amor, abordando temas como a solidão e a velhice com delicadeza e elegância.

Conta a saga de Addie Moore e Louis Waters, viúvos setentões que resolvem passar as noites juntos, conversando no escuro, como forma de vencer a solidão decorrente dos falecimentos de seus cônjuges e das mudanças dos filhos para longe do condado de Holt, a pacata e provinciana cidade em que vivem no Colorado.

Vivendo há décadas na mesma rua, o par de protagonistas não era exatamente o que se pode chamar de amigos, embora soubessem um bocado da vida um do outro. Não tardam boatos maldosos sobre seus encontros noturnos – apesar disso, seguem adiante com seu intento.

Esta é uma grande lição do ótimo livro de Kent Haruf: em efeito dominó, idade e experiência trazem maturidade, que traz coragem e o necessário pouco ou nada ligar para a opinião alheia quando se trata da própria felicidade. O que nada tem a ver com egoísmo.

Recheado de diálogos bem construídos, Nossas noites passa por conflitos familiares, memórias e momentos tristes e felizes, brigas e pequenos prazeres simples, como a própria vida. Em meio a tudo isso, visitas dos filhos do “casal”, o neto de Addie, camundongos e uma cadela.

As outras grandes lições são: nunca é tarde e tudo vale a pena. Refiro-me à própria vida, mas metaforicamente também a acompanhar o cotidiano dessas noites (e dias) plenos de beleza e poesia – o poeta que Louis quis ser na juventude traz referências à obra, sem arrogância ou exagero.