O som político de Dicy

A artista em figurino de Claudio Costa e Marcos Ferreira, no encarte de Rosa semba. Design gráfico: Amanda Simões. Foto: Márcio Vasconcelos
A artista em figurino de Claudio Costa e Marcos Ferreira, no encarte de Rosa semba. Design gráfico: Amanda Simões. Foto: Márcio Vasconcelos

 

Rosa semba [2016, em CD e LP] é a metáfora perfeita para o canto de Dicy (que não usa o sobrenome Rocha para assinar seu disco de estreia). Semba é tanto a origem do centenário samba, gênero de música popular que é um dos sinônimos de brasilidade, quanto “música e dança de par tradicionais de Angola”, conforme o dicionário. A flor que precede a semba no título tem beleza, perfume e delicadeza inconfundíveis, mas a estes atributos somam-se os espinhos.

A voz bela e doce de Dicy está a serviço da denúncia social, o que extrapola inclusive sua carreira artística – com formação em comunicação e marketing, ela é assessora de comunicação do Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN/MA), entidade parceira na realização do disco, e da Rede Amiga da Criança –, sem fazer de sua obra mero panfleto ou coisa que o valha.

A negritude fala alto e as 10 faixas de Rosa semba remetem às origens do axé baiano, quando as letras do gênero ainda tinham um forte conteúdo político de acentuada denúncia social, sobretudo sobre a realidade da população negra habitante das periferias de Salvador e da Bahia, mas não só.

Um conjunto de composições de maranhenses reaproxima musicalmente o Maranhão da África ancestral. Voltando à faixa-título, seu subtítulo também ajuda a entender o conjunto, no feliz trocadilho de Beto Ehongue, seu autor: “Menina que Deus crioula”. “O samba que você me convidou estava bom/ não sei sambar mas ando pela rua de Nagô/ saúde no pé e boa da cabeça menina que Deus/ crioula/ Rosa semba”, diz a letra.

Acompanhada por Gerson da Conceição (contrabaixo e guitarra; voz em Jolie e Equinócio), Guillermo Caso (guitarra em Jolie), Isaías Alves (bateria), Javier Sirera (teclados), João Paulo Cardoso (contrabaixo), Josemar Reis (percussão em Jolie), Luiz Cláudio (percussão) e Marcos Lussaray (guitarra, violão, violão acústico, banjo), Dicy canta as coisas simples de seu lugar, entre lavadeiras na beira do rio (Lavadeira, de Beto Ehongue) e a cheia dos campos naturais da Baixada maranhense e o cotidiano de pescadores (Baixada, dela, em parceria com o marido-produtor Joaquim Zion, e Adeus campo, de Tataqui), além de exaltar a beleza da mulher negra (Neguinha do carrapatal, de João Madson e Gerson da Conceição, e Quem é essa nega, de João Simas).

Rosa semba tem ainda poema do chileno Pablo Neruda (1904-1973) musicado por Dicy (Se cada dia cai, extraído de Últimos poemas – O mar e os sinos, traduzido por Luiz de Miranda), e versão de André Gabeh para Ain’t no Sunshine when she’s gone (Bill Waters), que virou Não há nada em seu lugar, poderoso reggae que abre o disco, cerzido entre sons que irmanam África e Maranhão, ambos negros, nunca é demais frisar.

Equinócio (Eliseu Cardoso) é a síntese do som político de Dicy: música para dançar e pensar, um passeio musical e geográfico por cidades (negras) de Camarões, Costa do Marfim, Togo, Guiné, Níger, Guiné Equatorial, Gana e Tanzânia. Utópica e onírica, a música versa sobre o fim do racismo no mundo: “minha negra, minha preta meu amor/ dançai este tambor/ o continente negro dá o seu perdão/ ao mundo, a escravidão”.

Ouça Rosa semba, o disco:

Os tribunais nossos de todos os dias

O tribunal da quinta-feira. Capa. Reprodução
O tribunal da quinta-feira. Capa. Reprodução

 

Com Diário da queda [2011] e A maçã envenenada [2013], Michel Laub já havia inscrito definitivamente seu nome entre os grandes escritores contemporâneos no Brasil. O tribunal da quinta-feira [Companhia das Letras, 2016, 183 p.; leia um trecho], seu novo romance, é uma alegoria destes tempos em que não apenas as celebridades são passíveis de terem sua vida privada exposta em redes sociais.

Michel Laub tem pleno domínio da linguagem e da narrativa, no caso deste livro construída a partir de recortes: e-mails que dois amigos publicitários que se conhecem desde a faculdade trocam sobre assuntos os mais variados, vazados por sede de vingança da ex-esposa do protagonista.

O autor já provou não estar preso a uma fórmula em outros romances – Música anterior [2001], Longe da água [2004], O segundo tempo [2006] e O gato diz adeus [2009]. O tribunal da quinta-feira integra uma trilogia, junto a seus dois romances anteriores. Os três têm capítulos curtos, partem de um grande acontecimento – a segunda guerra mundial em O diário da queda, um genocídio étnico em Ruanda e o suicídio de Kurt Cobain em A maçã envenenada, e a epidemia de Aids no Brasil nos anos 1980, no livro recém-lançado.

Outra semelhança que guardam entre si os livros da trilogia são a mistura entre realidade e ficção. “Posso até falar de outros gostos dele, do prato que ele pedia nesses almoços, de como ele se posiciona sobre a situação política, econômica e moral do Brasil em 2016 se isso tiver alguma importância, mas no fundo o assunto não terá mudado”, anota, trazendo a triste realidade brasileira em tempos de golpe para dentro de sua ficção, ao apresentar Walter, personagem homossexual e soropositivo com quem José Victor, o protagonista, troca as mensagens de e-mails que serão vazadas ao longo da trama.

O autor aborda a crise de meia idade de um publicitário aos 43 anos, o mundo da publicidade – tira onda de slogans –, o ódio constante e comum de comentaristas de internet, a evolução na convivência com o vírus HIV ao longo dos anos – aqui volta a citar personagens reais como Cazuza, Lauro Corona, Sandra Bréa e Cláudia Magno, num jogo em que demonstra tanta habilidade quanto com as palavras: Laub não soa menor ou menos importante ao levar para seu texto – cheio de ironia – o “miguxês” de e-mails e redes sociais ou ao transcrever um áudio de whatsapp.

O enredo se passa em cinco dias, entre o domingo em que a ex-esposa distribui trechos de e-mails a amigas (e esposas de colegas de trabalho de José Victor) e estes viralizam internet (e consequentemente redes sociais) afora, até a quinta-feira do título: as redes sociais em que somos todos réus, promotores e juízes. As vidas dos envolvidos sofrem uma reviravolta até o fecho hitchcockiano de um romance sobre linchamento virtual e social, a ficção ajudando a entender a dura, cruel e nem sempre bem humorada realidade.

Melhores de 2016

Quase nunca me arrisco em listas de melhores do ano. Apesar dos olhos e ouvidos atentos ao que rola no mundo da arte/cultura/entretenimento, sei que ando longe de ter lido/ouvido/assistido a tudo, ou ao menos a maior parte, além do fato de o Maranhão ser um tanto fora de rota (apesar de louváveis esforços mais ou menos recentes) e as coisas (livros, discos, shows, filmes, peças etc.) demorarem (ou nem) a chegar(em) até aqui. O fato é que sempre acho que minhas listas estão aquém do que poderiam/deveriam ser. E nisto, certamente os poucos mas fiéis leitores concordarão comigo. E concordarão mais ainda os que discordarem da lista, vocês entendem.

O fato é que Marcelo Costa, um dos pioneiros do jornalismo cultural na internet brasileira, editor do Scream & Yell, convidou-me (baita honra!) para votar nos Melhores de 2016 de seu site. Ele esteve em São Luís em novembro passado, participando do Festival BR 135/ Conecta Música, ocasião em que mediei uma mesa com ele, Alexandre Matias (Trabalho Sujo) e Roberta Martinelli (Cultura Livre, Som a Pino).

Até o final de janeiro Scream & Yell publica seu resultado final, compilando os votos de cerca de 100 formadores de opinião de todo o Brasil – esta sim, a lista que vale a pena. Torno públicos, a seguir, meus votos, tendo deixado algumas categorias incompletas e outras sem preencher – ambos os casos frutos do exposto no parágrafo inicial.

MELHOR DISCO NACIONAL

Só vou chegar mais tarde. Capa. Reprodução

1. Só vou chegar mais tarde, Edvaldo Santana – O cantor e compositor de São Miguel Paulista já citava São Luís e o tambor de crioula na letra de Jataí, faixa-título de seu álbum anterior, com cujo show (no formato voz e violão) passou pelo Cine Teatro da Cidade de São Luís em novembro daquele ano. Neste novo disco volta a surpreender: o bolero Ando livre cita o Bar do Léo, que ele conheceu naquela viagem, e conta com a participação especial de Rita Benneditto. Mas ele não encabeça essa lista por puro bairrismo. Ouçam e entendam!

Tropix. Capa. Reprodução
Tropix. Capa. Reprodução

2. Tropix, Céu – Perfume do invisível estava na trilha de Velho Chico, o melhor acontecimento da teledramaturgia brasileira em 2016. Orgânico e eletrônico, o disco tem produção do francês Hervé Salters (General Elektriks) e Pupilo (Nação Zumbi). Merece destaque a regravação de Chico Buarque song, da mítica Fellini.

Fábrica de animais. Capa. Reprodução
Fábrica de animais. Capa. Reprodução

3. Fábrica de Animais, Fábrica de Animais – Não foi à toa “Fazendo do mundo um lugar mais legal pra viver” ter dado título à minha resenha do segundo disco da banda liderada por Fernanda D’Umbra, batizada por romance de Edward Bunker. Rock’n roll de alta voltagem poética.

Hóspede da natureza. Capa. Reprodução
Hóspede da natureza. Capa. Reprodução

4. Hóspede da natureza, Cátia de França – Disponível para download gratuito e legal na web, o disco novo de Cátia de França levou 10 anos maturando. Gravado em 2005, com músicos que tocaram com Cássia Eller, só foi lançado ano passado, revelando a força da autora de Kukukaya, gravada por Xangai e Elba Ramalho.

Bagaça. Capa. Reprodução
Bagaça. Capa. Reprodução

5. Bagaça, Bruno Batista – O quarto disco de Bruno Batista é o primeiro em que ele grava parcerias. Sempre que ouço o artista, em discos ou shows, me pergunto: quando é que Maria Bethânia e/ou Ney Matogrosso irão gravar suas canções?

MELHOR DISCO INTERNACIONAL

Day breaks. Capa. Reprodução
Day breaks. Capa. Reprodução

1. Day breaks, Norah Jones – O retorno da artista ao jazz.

You want it darker. Capa. Reprodução
You want it darker. Capa. Reprodução

2. You want it darker, Leonard Cohen – 2016 foi um ano de grandes baixas. A exemplo de Bowie, Cohen deixou um belo disco antes de partir.

Blue & Lonesome. Capa. Reprodução
Blue & Lonesome. Capa. Reprodução

3. Blue & Lonesome, Rolling Stones – Se o blues é o pai do rock, os vovôs Stones seguem na ativa com um belo disco na volta às origens.

Blackstar. Capa. Reprodução
Blackstar. Capa. Reprodução

4. Blackstar, David Bowie – A “necrofilia da arte” (como cantou o Pato Fu) em torno do camaleão ter previsto a própria morte não ofuscou (ainda bem!) a beleza e a importância de seu derradeiro registro.

I still do. Capa. Reprodução
I still do. Capa. Reprodução

5. I still do, Eric Clapton – Título autoexplicativo.

MELHOR SHOW NACIONAL

Foto: divulgação/ BR 135
Foto: divulgação/ BR 135

1. Nação Zumbi, Afrociberdelia – 20 anos, Festival BR 135, Praça Nauro Machado, São Luís – Uma noite mágica!

 

Foto: Marco Aurélio/ BR 135
Foto: Marco Aurélio/ BR 135

2. Di Melo, O Imorrível, Festival BR 135, Praça da Criança, São Luís – Outra noite mágica! O lendário Di Melo, pela primeira vez na ilha, acompanhado por instrumentistas locais. Show ao vivo não deixou nada a dever ao groove do disco inaugural de Di Melo, de 1975, um dos grandes álbuns do soul/funk brazuca. Apresentação misturou músicas daquele com faixas de O imorrível [2016], segundo álbum oficial de Di Melo.

Foto: Jotabê Medeiros
Foto: Jotabê Medeiros

3. Tássia Campos, Encontrando Belchior, Odeon Sabor e Arte, São Luís – 2016 foi o ano do #foratemer e do #voltabelchior. O show que a cantora dedica ao repertório do cearense teve algumas edições. Esta, particularmente, contou com a participação especial de Jotabê Medeiros, que contou uma história, uma das muitas que conta/rá em Pequeno perfil de um cidadão comum, belchiorgrafia que publica este semestre. O jornalista esteve em São Luís participando da Feira do Livro, ocasião em que leu um trecho inédito do livro que está escrevendo.

Foto: Márcio Vasconcelos
Foto: Márcio Vasconcelos

4. Bruno Batista, Bagaça, Mandamentos Hall – “O melhor show de Bruno Batista (até aqui)”, anotei em texto sobre o show.

Fotosca: ZR
Fotosca: ZR

5. Alexandra Nicolas, Eu vou bulir com tu, Espigão Costeiro da Ponta d’Areia, São Luís – A cantora realizou sete apresentações em praças públicas de São Luís, com repertório baseado em ritmos consagrados no Nordeste, pitadas de duplo sentido e um pé também no carimbó paraense. Os shows serviram também de teste de repertório para seu segundo disco, provisoriamente intitulado Bulir com tu, que ela começa a gravar neste primeiro semestre, a ser lançado ainda em 2017.

MELHOR FILME NACIONAL

Aquarius. Cartaz. Reprodução
Aquarius. Cartaz. Reprodução

1. Aquarius, de Kléber Mendonça Filho – Por tudo.

Matheus Nachtergaele e Rafael Nicácio em cena de Big jato. Frame. Reprodução
Matheus Nachtergaele e Rafael Nicácio em cena de Big jato. Frame. Reprodução

2. Big Jato, de Claudio Assis – Baseado na autoficção homônima de Xico Sá, o filme tem Mateus Nachtergaele em dois papéis e a participação especial de Jards Macalé interpretando o príncipe Ribamar da Beira Fresca, espécie de louco da aldeia.

Lua em sagitário. Cartaz. Reprodução
Lua em sagitário. Cartaz. Reprodução

3. Lua em sagitário, de Márcia Paraíso – Belo romance juvenil merece destaque por abordagem diferenciada em relação ao (quase) sempre criminalizado MST.

MELHOR LIVRO

O conto zero e outras histórias. Capa. Reprodução
O conto zero e outras histórias. Capa. Reprodução

1. O conto zero e outras histórias, Sérgio Sant’Anna – Melhor contista brasileiro em atividade.

Visões de um Poema Sujo. Capa. Reprodução
Visões de um Poema Sujo. Capa. Reprodução

2. Visões de um Poema Sujo, Márcio Vasconcelos – O fotógrafo faz sua releitura particular da obra prima de Ferreira Gullar. Este mês ele inaugura exposição em São Paulo.

Ostreiros. Capa. Reprodução
Ostreiros. Capa. Reprodução

3. Ostreiros, Bruno Azevêdo e Ana Mendes – Fotos e perfis de ambulantes da orla de São Luís. Um livro necessário e divertidíssimo.

Trinta e poucos. Capa. Reprodução
Trinta e poucos. Capa. Reprodução

4. Trinta e poucos, Antonio Prata – Coletânea de crônicas publicadas na Folha de S. Paulo do melhor cronista em atividade no Brasil (sorry, Luis Fernando Veríssimo).

Os visitantes. Capa. Reprodução
Os visitantes. Capa. Reprodução

5. Os visitantes, B. Kucinski – O autor confirmou seu nome entre os grandes da literatura brasileira já em seu livro de estreia (na ficção), K, de 2011. Os visitantes é uma espécie de errata literária: Kucinski faz um novo livro a partir de incorreções de obra anterior, com a ditadura militar brasileira como tenebroso cenário.

O MELHOR DA TV

Reprodução
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1. Cultura Livre, TV Cultura – Roberta Martinelli conviveu alguns anos com Fernando Faro, o nome mais importante para a música na televisão brasileira. Após sete temporadas de resistência com o Cultura Livre, ela estreou o diário Som a Pino, na Rádio Eldorado e assina uma coluna com o mesmo nome nO Estado de S. Paulo. Martinelli é uma das mais atentas observadoras da cena musical contemporânea no Brasil. Fernando Faro não deixa lacuna e certamente se orgulha dos esforços e resultados da discípula.

2. Baile do Baleiro, Canal Brasil – O maranhense Zeca Baleiro transformou em programa de tevê a ideia simples e eficiente de um show/festa em que se une a nomes das mais variadas gerações e estilos musicais para cantar suas memórias afetivas. Primeira temporada teve seis episódios e em seu palco nomes como Blubell, Wado, Odair José, Maria Alcina e Luiz Ayrão, entre outros, entre música e conversa. Que 2017 traga outra temporada, tão inspirada quanto.

Foto: divulgação/ Canal Brasil
Foto: divulgação/ Canal Brasil

3. Transando com Laerte, Canal Brasil – Nos últimos anos, Laerte deu algumas guinadas em sua vida/carreira, mostrando-se bastante competente em todas. No programa, explora sua veia de entrevistador e segue como a cartunista que melhor traduz a tragédia brasileira em tempos de golpe.

4. Velho Chico, Globo – A novela merece destaques pelo elenco, fotografia, locação e trilha sonora. Quase naufraga com a tragédia que levou Domingos Montagner, o Santo dos Anjos, um de seus protagonistas, que morreu afogado nas águas do Rio São Francisco, cujo apelido batizou a trama.

MELHOR VIDEOCLIPE

1. Perfume do invisível, Céu

2. Cuida com cuidado, Palavra Cantada

3. Bulir com tu, Alexandra Nicolas

4. Vida em vermelho, Blubell

Radiola em transe encerra longa espera do fã clube do Criolina

Radiola em transe. Capa. Reprodução
Radiola em transe. Capa. Reprodução

 

O duo Criolina acaba de lançar Radiola em transe [Sete Sóis], disco novo de inéditas, sucessor de Cine tropical [2009], há tempos aguardado pelo fã clube fiel de Alê Muniz e Luciana Simões. Nesse período eles optaram por tornar a morar em São Luís e produzir a partir daqui – Radiola em transe foi gravado em São Paulo, mas o show de lançamento aconteceu na capital maranhense, mês passado.

Nos anos que separam o segundo e o terceiro discos, o Criolina lançou o ep Latino-americano (aliviando a sede do fã clube) e o videoclipe da música homônima, em parceria com Bruno Batista, ampliando o leque de parceiros – em seu ótimo Bagaça, ele registrou outra parceria com o duo –, além de inventar e consolidar o Festival BR 135, incorporado ao calendário cultural do Maranhão e responsável por colocar definitivamente o estado na rota dos grandes festivais de música pop no Brasil. As 13 faixas de Radiola em transe são completamente inéditas – nada de Latino-americano foi requentado aqui.

Transe (Alê Muniz e Luciana Simões), que abre o disco, é um bom cartão de visitas: “na radiola ouço um disco tocando/ rock and roll, rock and roll/ e passa o tempo, a trilha vai mudando/ body and soul”, anunciam a que vieram. Radiola é tanto o apelido comumente dado a antigos aparelhos de som domésticos quanto aos paredões de caixas de som que embalam festas de reggae em todo o Maranhão. “E quando cai na pele/ o som se espalha, enraíza/ a música que bate, corta e não cicatriza/ um bom compositor não vira só um nome na camisa”, continuam, falando sobre os sentimentos que a música pode despertar.

Embalado em belo projeto gráfico (assinado por Amanda Simões, irmã de Luciana) de cores vibrantes, traduzindo literalmente os sons contidos nesta/e Radiola em transe, o disco aponta a importância do reggae para o cenário cultural do lugar de origem do casal musical e confessa a influência do ritmo jamaicano sobre sua obra – reverenciando Gregory Isaacs, Compacto 76 (Luciana Simões) é destaque, em repertório de alto nível. Dizer, no entanto, tratar-se de um disco de reggae é apequená-lo.

Radiola em transe/ acionando pedais gigs e beats/ aplacando dores edemas artrites/ tocando pedras raggas baladas e hits/ em kombis fuscas mavericks”, aponta o manifesto do poeta Celso Borges (parceiro de Alê Muniz em Essa menina e Ponta verde, ponte sonora entre a ilha de São Luís e a África, repetindo a experiência de São Luís-Havana, parceria dos dois com Luciana, do disco anterior) no encarte, citando a gíria “pedra”, que define o reggae de qualidade nos salões da ilha, em cena que afinal, ele, jornalista então em início de carreira, teve papel crucial na consolidação, pelos idos anos 1980. “Radiola em transe/ regando o gogó do cantor/ na veia jugular do cantador/ batucando crioula mina terreiro tambor”, continua, citando outras influências – sempre ampliando o leque.

Alê Muniz (guitarra, violão e voz) e Luciana Simões (gaita e voz) são acompanhados por Gerson da Conceição (contrabaixo e backing vocal), Isaías Alves (bateria e backing vocal), João Simas (guitarra e backing vocal), Michelle Abu (percussão), Ricardo Prado (piano, teclados e guitarra), Rovilson Pascoal (guitarra, banjo, moog e sintetizador) e Serelepe (trombone) em disco feito também de paisagens, para além das fotos da dupla (assinadas por Márcio Vasconcelos) no encarte.

Radiola em transe passeia por terreiro, tambor de crioula, lelê (danças típicas do Maranhão), Jaracaty (título de uma faixa, parceria de Alê e Lu), Vila Itaqui-Bacanga, Camboa, bairros da capital maranhense, e Bequimão e Cururupu (municípios maranhenses que dão título a Rocksteady de Bequimão a Cururupu, parceria de Alê Muniz, Luciana Simões e Gerson da Conceição).

O disco presta deferências ainda aos compositores Tião Carvalho (nascido em Cururupu, radicado há 30 anos na capital paulista), cuja A mulher mais bonita do mundo mistura-se a A menina do salão (Alê e Lu), e João Madson (o Madinho, tio de Alê, falecido em fevereiro passado), homenageado em Goodby my fella (Alê e Lu), que encerra o disco.

Ao “se melhorar estraga”, jargão do homenageado final, anotado ao pé da curta letra da música, sobre o disco eu acrescentaria apenas: valeu a pena esperar.

Ouça Compacto 76 (Luciana Simões):

Estreia solo de Silvério Pontes atesta sua grande qualidade como compositor

Reencontros. Capa. Reprodução
Reencontros. Capa. Reprodução

 

O trompetista Silvério Pontes é nome por demais conhecido no cenário da música instrumental brasileira, particularmente no universo do choro. Já se vão mais de 30 anos que seu nome é imediatamente ligado ao de Zé da Velha, trombonista com que integra o duo que é conhecido pela honrosa alcunha de “a menor big band do mundo”.

Além da longeva parceria, seu trompete e flugelhorn já apareceram também em fichas técnicas de discos e shows de nomes como Beth Carvalho, Cidade Negra, Dona Ivone Lara, Ed Motta, Luiz Melodia, Mário Sève, Pedro Miranda, Tim Maia e Yamandú Costa, para citar apenas alguns.

Silvério Pontes já declarou ter como uma de suas referências Chet Baker, nome fundamental de seu instrumento e do jazz. Reencontro [2016] soa exatamente como se o norte-americano encontrasse os ritmos do Brasil, sobretudo quando o brasileiro faz uso da surdina.

Mas enganam-se os que pensam em encontrar longas improvisações ou o desfile do virtuosismo de Silvério Pontes, que assina todo o repertório, mostrando-se competente em mais esta vertente – a de instrumentista já estava mais que provada, em discos como os dos artistas citados e na parceria consolidada com Zé da Velha, a quem dedica Tema pro Zé da Velha, em parceria com o trombonista Fabiano Segalote. O instrumentista é generoso e há espaço para que todos os músicos, a serviço do conjunto, apareçam, sem transformar qualquer faixa em guerra de egos ou coisa que o valha.

Estão lá, entre outros, Alessandro Cardozo (cavaquinho em Hoje tem marmelada), Bebê Kramer (sanfona em De Niterói à Vacaria, parceria com Kramer), Dudu Oliveira (flauta e flautim), Guto Wirtti (contrabaixo), João Rebouças (piano em Suntuosa, parceria com Leandro Saramago), Marcelo Caldi (sanfona em Piazzolla no choro, parceria com Caldi), Rogério Caetano (violão sete cordas em Polca da praia, que abre o disco, e As três meninas, ambas em parceria com Saramago) e Zé da Velha (trombone em Polca da praia) – ele e Guinga endossam o disco, em textos na embalagem.

Há faixas acentuadamente jazzy, como Amor eterno, que ele dedica a Deus. Mas Reencontro é uma lufada de brasilidade, mesmo em momentos em que ele brinca, por exemplo, com o tango argentino, caso de Piazzolla no choro, que evoca o Libertango do homenageado.

A faixa-título é delicioso bolero. Hoje tem marmelada é uma homenagem ao saudoso Palhaço Carequinha, cujos discos até hoje fazem sucesso entre a criançada (mas não só) e cuja bandinha era liderada por ninguém menos que Altamiro Carrilho, isto é, música infantil de forte acento chorístico.

Verão majestoso fecha Reencontro unindo as pontas. Silvério Pontes confessa a influência de outros trompetistas. “Não só pelo som, mas por sua história de vida, Louis Armstrong com a música de New Orleans ganha destaque. Essa música, composta sob o tapete do verão carioca, é inspiração desta influência americana”, encerra o trompetista em texto no encarte.

Do Maranhão ao Arizona

Sobrenatural. Capa. Reprodução
Sobrenatural. Capa. Reprodução

Em Sobrenatural: Impressões sobre os Lençóis Maranhenses e o Grand Canyon [2016], o fotógrafo Meireles Jr. volta às paisagens dos Lençóis Maranhenses, já abordado por suas lentes em Descobrindo os Lençóis Maranhenses [2003]. Desta vez, o maranhense viajou também até o Grand Canyon americano e os dois parques, dois dos cenários naturais mais impressionantes do mundo, são o objeto deste seu novo livro.

Conhecemos causos (verídicos) em que o clássico Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, foi parar nas estantes de botânica, ou que os poemas do Manual de pintura rupestre, de Fernando Abreu, foram parar em artes plásticas. Convém, portanto, alertar o leitor: Sobrenatural é basicamente um livro de fotografias de paisagens. Obviamente, em se tratando do Grand Canyon americano e dos Lençóis Maranhenses, estamos diante de algo sobrenatural, isto é, “superior à natureza”, em uma das acepções do termo. Mas isto não explica tudo.

“No Canyon, ora perdido, uma índia nativa sugeriu que nós […] a seguíssemos até o lugar de meu destino naquela noite fria no estado do Arizona. Não hesitei. Pareceu-me um gesto seguro e generoso. Seguimos seu carro sem perdê-lo de vista um só instante até pararmos, mas, para o nosso espanto, quando fomos lhe agradecer, inacreditavelmente não era mais a índia que nos oferecera ajuda, mas sim um senhor velho e soturno que saíra do carro. Arrepiamo-nos todos, pensativos e silenciosos. Senti, a partir desse evento inusitado e até agora inexplicável, que o livro só poderia se chamar Sobrenatural”, explica o autor, em texto no livro.

Realizado com patrocínio da Fribal através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, Sobrenatural começou a ser produzido em 2013, quando o autor participou da Wedding and Portrait Photography Conference & Expo, a WPPI, na sigla em inglês, Conferência e Exposição de Fotografia de Casamento e Retrato, em tradução livre – entre um livro e outro, Meireles Jr. é um dos fotógrafos maranhenses mais requisitados para casamentos, batizados e eventos similares.

Sobrenatural traz encartado um dvd, documentário/making of, dando ideia da dimensão do trabalho. Para chegar ao resultado final, Meireles Jr. fez mais de 54 mil imagens entre o Maranhão e o Arizona.

Veja o documentário:

Punk is not dead

Feliz ano velho [Brasiliense, 1982; Alfaguara, 2015], de Marcelo Rubens Paiva, que li no início da adolescência, foi um livro fundamental para meu interesse por literatura. Era um relato autobiográfico tendo por mote o incidente que o colocaria para sempre numa cadeira de rodas, mas sem perder o bom humor e dialogando com outras artes, sobretudo a música. Finalmente um livro não era chato como em geral eram os que líamos na escola por obrigação. Merecidamente virou um best seller, com sucessivas reedições.

Meninos em fúria. Capa. Reprodução
Meninos em fúria. Capa. Reprodução

Com vários títulos na bagagem o escritor, dramaturgo e jornalista, colunista de O Estado de S. Paulo, acaba de lançar, a quatro mãos, com Clemente Tadeu Nascimento Meninos em fúria: e o som que mudou a música para sempre [Alfaguara, 2016, 220 p.], livro que remonta à gênese da banda Inocentes – fundada e liderada por Clemente, hoje também vocalista e guitarrista da Plebe Rude, em paralelo –, pioneira do movimento punk no Brasil.

Não se trata de uma biografia, é mais um livro de memórias, contada por testemunhas privilegiadas da história. Clemente, ex-bancário e ex-vendedor de guarda-chuvas, era o frontman da banda que acabou por influenciar nomes como Gilberto Gil, que em 1983 lançou Punk da periferia, obviamente detestada pelos punks de então.

A prosa de Marcelo Rubens Paiva tem uma leveza que a distancia da objetividade e “imparcialidade” jornalísticas. Ele dá voz a familiares, parceiros, produtores e todos que rodeavam Clemente e os Inocentes, além do próprio – as falas de cada autor estão bem delimitadas em Meninos em fúria.

De quando o punk era assunto das páginas policiais dos jornais, época em que o movimento não tinha consciência de e era sempre associado à depredação e violência entre seus próprios integrantes, gangues de bairros diferentes, à assinatura de contrato com uma grande gravadora, colado ao boom do brock, quando enfim ganham as páginas de cultura, a participação dos Inocentes em shows e festivais ao lado de ídolos como Sex Pistols e Ramones, a falta de tato para lidar com o star system, além de toda a conjuntura da época – abertura, fim da ditadura, manutenção da censura, governos Sarney e Collor etc. –, nada escapa ao olhar e memória atentos da dupla.

Não é um livro saudoso. O punk continua vivo e seu espírito libertário e anarquista é hoje necessário. “E tudo parecia calmo e andando em direção a um final feliz quando, em 2016, fomos novamente atropelados pela história. O país entra em convulsão, a luta pelo poder trouxe fatos bizarros de volta, a manipulação de massa, uma perigosa e volátil arma política, está sendo usada sem escrúpulo nenhum, a Justiça se transformou em instrumento de vingança, totalmente parcial e claramente partidária”, anota Clemente, atestando a plena saúde do punk.

“A minha maior musa é a experiência”: o “punk junk” de Jonnata Doll e Os Garotos Solventes

Jonnata Doll em foto de Nino Andrés
Jonnata Doll em foto de Nino Andrés

 

Jonnata Doll não tem papas na língua. Seu “rock Fortaleza”, como classifica o som de seu grupo, Jonnata Doll e Os Garotos Solventes, não se limita ao rótulo. Ele não teme expor, em seu trabalho autoral ou em entrevista, sua relação com o universo das drogas, por exemplo.

Crocodilo. Capa. Reprodução
Crocodilo. Capa. Reprodução

Os Garotos Solventes são Leo Breedlove (guitarra), Edson Van Gogh (guitarra), Saulo Raphael (contrabaixo) e Marcelo Denidead (bateria). Em Crocodilo [2016], segundo disco de estúdio da banda, Jonnata Doll (voz, guitarra e violão) contou ainda com as participações especiais do conterrâneo Fernando Catatau (Cidadão Instigado, guitarra em Cigano solvente) e Dado Villa-Lobos (ex-Legião Urbana, guitarra em Swing de fogo e guitarra e violão em Quem é que precisa?).

Com o último e Marcelo Bonfá, participa da turnê que comemora os 30 anos de Legião Urbana [1985], primeiro disco da banda liderada por Renato Russo (1960-1996), de Será, Geração Coca-cola e outros clássicos do brock – Doll canta duas músicas no show e esteve em São Luís, quando a turnê passou por aqui, em junho passado.

Crocodilo é um álbum punk introspectivo, autobiográfico, com direito a um “glossário de gírias” locais, caso por exemplo de Gary, título de uma faixa: “arroz de festa, segura vela, o apaixonado que vira amigo da gata e não consegue ficar com ela”, aponta o encarte. A questão social também é abordada por Doll e Os Solventes: o turismo sexual é tema de Táxi. Engana-se quem pensa num álbum hermético ou “regional”.

Entre a correria das festas de fim de ano e a participação na turnê com os remanescentes da Legião Urbana, Jonnata Doll conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Nino Andrés
Foto: Nino Andrés

De onde vem o Doll de teu nome artístico?
Vem de um dia, há muito tempo atrás quando experimentei o medicamento haloperidol, é segura doido, fiquei travado, músculos retesados e escutando na cabeça dol, dol, dol, dol. Na época tava tentando achar um nome de guerra, aí coloquei mais um L para fazer referência a essa palavra que aparece muito dentro do punk, seja em nome de bandas ou músicas, mas também há motivos secretos…

A gente percebe muito fortemente o tema das drogas em tuas músicas, desde o nome da banda até mesmo ao título do disco, entre outras. Como você lida com a temática?
Eu vim de uma família evangélica pentecostal, aonde era 8 ou 80. Ou tu tava na igreja ou tava “desviado” afundado nas drogas e na cachaça. O resultado é que no início fazia questão de ouvir rock e não usar drogas. Uma vez a polícia me parou quando eu estava com minha primeira gang, os “jack legais”, e começaram a procurar drogas, bater, pressão psicológica, “tu é roqueiro e não usa droga, porra?”, me orgulhava de não usar. Até que minha amiga Érika, judia roqueira funkeira jornalista speedfreak, me convenceu a cheirar cola. Daí eu deslumbrei uma outra faceta da realidade, a noção de tempo se expandiu e daquele dia em diante percebi que só ouvir Pink Floyd e fechar os olhos não me levaria de volta àquele lugar. Virei um psiconauta autodidata, experimentei tudo que podia em diferentes contextos, sempre para ver como seria criar e apreciar arte sob efeito de algum alcaloide, até que encontrei a morfina e aí essa relação de experiência deu lugar a anos de vício, chegando até o fundo do poço, até conseguir sair, quando comecei a compor o Crocodilo isolado em um sítio e apaixonado por uma mulher estrangeira. Mas é isso, o homem tem que passar por experiências nessa vida que te tirem do lugar.

Como você classifica o som de Jonnata Doll e os Garotos Solventes?
Rock Fortaleza

A pegada punk se sobressai em Crocodilo, que conta com participações especiais de Dado Villa-Lobos e Fernando Catatau, músicos que têm uma história com este universo, além da produção de Kassin. De que modo eles influenciaram na sonoridade do disco?
Na verdade, tem a produção do [Yuri] Kalil também, que é nosso parceiro e já tinha produzido o primeiro disco. Táxi foi a única música que construímos em estúdio a partir de sugestões da dupla de produtores. No geral, a ideia era tentar chegar numa coisa mais crua, com sinths sujos e pedais fuzz, a ideia deles era trazer o espírito do show. Só que eu tava vindo do interior, de um sítio que pertence à minha família, aonde passei parte da infância e lá passei meses só com um violão e apaixonado, tentando entender a psicomagia, superar a relação de dependência com a morfina e eu cheguei com algumas propostas acústicas e letras mais voltadas para o interior. Daí o Crocodilo ter esse lado mais introspectivo, que não tem muito a ver com a ideia original dos produtores – pelo Kassin acho que seria mais esporrento. Mas eles curtiram esse punk de Cheira cola urbano ao lado da balada acústica Quem é que precisa?. Na época também trouxe elementos de música árabe, pois fazia dança do ventre com a esposa do Kalil, a incrível bailarina Lenna Beauty, que participa no disco [backing vocal na faixa-título] e eu tava apaixonado por uma espanhola, minha namorada que dançava flamenco. O Kalil foi importante para me ajudar a mergulhar nisso, pois ele tem um projeto musical com a Lenna, chamado Cearábia, do qual fui convidado, que é influenciado por músicas ibéricas e ciganas. Então é isso: Crocodilo é um disco de um punk junk mergulhando no amor por uma espanhola de sangue cigano andaluz

Crocodilo foi gravado em Fortaleza e seu encarte traz um dicionário de gírias usadas no Ceará. No entanto não se pode rotulá-los de som regional ou coisa que o valha. Como vocês lidam com as barreiras, sejam elas geográficas, culturais ou de qualquer ordem?
É um regional pós-moderno. A Fortaleza que eu vivi era uma cidade moderna, mas ao mesmo tempo provinciana, em que o senso comum era o forró eletrônico dominando tudo, ser cool era saber dançar forró e pegar meninas com uma dança de acasalamento. Mas para mim, que cresci lendo gibis, dançando Michael Jackson e ouvindo Elvis com minha tia doidona – aquela que aparece no clipe de Esqueleto e Rua de trás [ambas do álbum de estreia, de 2014]: Tia Zú –, juventude era outra coisa, tinha a ver com se rebelar e não aceitar aquele som medíocre e machista, que exultava o modo de vida consumista. Então o forró me influenciou na medida que eu o negava e me tornava mais rocker, mais maldito. Era um dos poucos caras que ouvia rock na escola e essa minoria, quase não havia garotas, se unia e o laço de amizade era muito forte, pois só a gente se entendia. Mais na frente eu percebi que radicalismos são por natureza burros, eles servem a revolução e a luta armada, por que naquele momento você tem que acreditar que preto é preto e branco é branco, mas isso não é a realidade, o mundo não é binário, é um fluxo e não importa aonde vamos chegar e sim seguir em frente.

Por falar em Ceará, no mesmo ano em que vocês lançam Crocodilo, Alucinação, de Belchior, considerado por muitos o melhor disco já lançado por um artista cearense, completa 40 anos. Que lugar ocupam nomes como Belchior, Fagner e Ednardo para vocês, seja na memória afetiva, seja enquanto influência ou referência?
Belchior… tenho mergulhado no trabalho dele desde que me mudei para São Paulo e até cantei ao vivo algumas músicas dele. Nos momentos de solidão e perrengue, ele é o cara que ensina, pois ele estava lá no Sudeste, sem dinheiro, na rua, nos anos 60. Belchior é um herói, a trajetória dele não se contradiz e acho o máximo ele ter ido embora. Escuto ele como escuto um irmão mais velho. Ele e o Catatau, este sim mais próximo, meu irmão de arte. A música deles me ensinou também a fugir do previsível, o que não é fácil com a pouca habilidade musical que eu tenho. O Ednardo tenho ouvido ultimamente e percebi que dos três ele é o mais enigmático e melancólico, embora a melancolia seja uma marca do cearense, nosso maracatu é lento e fúnebre. Eu e o Edson Van Gogh – moramos juntos em São Paulo – chegamos ao arranjo final de uma música nova ao ouvir o álbum O romance do Pavão Mysteriozo [1974]. Traduzir-se [1981], do Fagner, é o disco que tenho ouvido dele, que mistura as influências espanholas e ciganas, tem participação do Paco de Lucia e Camaron de la Isla, exatamente o som que eu ouvia na época em que compus o Crocodilo.

Você soa bastante autobiográfico em músicas como Ruth: “estou livre, mas realmente… eu não tou feliz!/ quebrei tudo na tua casa só pra não ter que quebrar minha cara no chão/ você me deu amor de verdade e eu retribuí com traição”. Em tempos de superexposição em redes sociais, o artista precisa, cada vez mais, ser sincero?
Eu faço assim por que os artistas que me tocam são assim. Talvez minha maior referência sejam os escritores beats William Burroughs e Jack Kerouac, assim como o carioca João do Rio. A minha maior musa é a experiência! O que seria de Lou Reed, Belchior se não fosse a experiência que te faz gozar e queimar? Agora tem vezes que dou lugar ao que observo na vida, as histórias urbanas, os lugares. O terceiro disco da gente vai ser sobre a nossa relação com São Paulo, os lugares… O Vale do Anhangabaú e as pessoas que moram embaixo do Viaduto do Chá que eu conheço quando vou comprar “chá” com eles, por exemplo.

Falando em sinceridade e exposição, como você lida com o universo das redes sociais e com a internet como um todo?
Eu uso para divulgar o trabalho dOs Solventes e cada vez menos por motivos pessoais. Também curto a pornografia caseira. Mas no geral tenho uma atitude conservadora com essa parada de selfies e coisas do tipo.

2016 foi um ano conturbado, do ponto de vista político. A palavra da vez foi crise. Qual o seu balanço pessoal do ano e quais as perspectivas para 2017?
Esse ano foi o ano que os conservadores levantaram a voz, por que até então, eles não precisavam, eles já estavam no poder. Agora que eles o tomaram outra vez, que o velho liberalismo econômico é apontado como solução, como se ele não estivesse sempre aí, tudo que é considerado descartável – arte e cultura – vai deixar de ter apoio da sociedade estabelecida. Meu plano em 2017 é tocar nas periferias, na rua, continuar realizando festivais independentes, como o festival Volume Morto, em São Paulo, e Fortaleza Cidade Marginal, em Fortaleza, para formar público, pois o artista só precisa de seu público e queremos agitar as cidades, divulgar o Crocodilo, viajar e brilhar na noite da América do Sul!

Literalmente antológico

Sambantologia. Capa. Reprodução
Sambantologia. Capa. Reprodução

 

A pergunta “letra de música é poesia?” ainda é ouvida aqui e acolá e uma das respostas possíveis é o exercício de separar letra e música e verificar se a primeira tem força para sobreviver sem a segunda. Isto é: há casos e casos.

O exercício contrário, no entanto, quase nunca se faz. Sobrevive a música sem sua poesia, no caso de uma música originalmente com letra ser tornada instrumental? A resposta será parecida à do exercício anterior.

Em Sambantologia [Biscoito Fino, 2016], os bambas do Nó em Pingo d’Água recriam instrumentalmente nove temas de nomes seminais do samba. O único originalmente sem letra é Nanã (Moacir Santos e Mário Telles), que a rigor nem samba é.

Mas esqueçam os rótulos pois é justo o que fazem Celsinho Silva (percussão), Mário Sève (flauta e saxofone), Rodrigo Lessa (bandolim e violão de aço) e Rogério Souza (violão), com a adesão de Romulo Duarte (contrabaixo).

É um disco para celebrar o centenário do samba, cujo marco é a gravação de Pelo telefone (Donga e Mauro de Almeida) em 1916 e seu estouro no carnaval do ano seguinte. Não à toa é sua cadência amaxixada que abre o disco.

O título do álbum justapõe três palavras: samba, banto e antologia. Doutor em Musicologia pela Universidade de Tours, França, Carlos Sandroni assina um ótimo texto remontando às origens do samba, o gênero e a palavra, terreiro cheio de incertezas.

O Nó em Pingo d’Água – que tampouco tem este nome à toa – reprocessa outras pérolas das mais variadas vertentes, já que é impossível falar em samba no singular, tantas são as ramificações deste irmão do choro – terreno lembrado nas execuções do grupo, oriundo desta praia.

Obviamente não há pretensão do grupo em fechar a questão: uma antologia de samba poderia ocupar facilmente 10 discos. Ou mais. O exercício é justamente este: como dizer o máximo com o mínimo? São pérolas fundamentais para “a ascensão do gênero à condição de ícone sonoro do país”, como afirma Sandroni em uma passagem do texto do encarte.

Ismael Silva (autor de Se você jurar, em parceria com Nilton Bastos e Francisco Alves) configurou o “samba do Estácio”, qualificativo do samba que leva o nome do bairro carioca em que morava o compositor – Chico Alves, como era moda e seu feitio à época, certamente comprou sua parte na parceria. Ele comparece ao repertório ao lado de nomes como Dorival Caymmi (Samba da minha terra) e João de Barro (Copacabana, em parceria com Alberto Ribeiro).

Re/inventores do samba, Noel Rosa (Último desejo e Conversa de botequim, esta em parceria com Vadico) e Tom Jobim (Samba de uma nota só, em parceria com Newton Mendonça, e O morro não tem vez, com Vinicius de Moraes) são os únicos cujos nomes figuram mais de uma vez nos créditos.

O repertório coeso de Sambantologia é uma demonstração da grandiosidade da música brasileira. O trunfo do Nó em Pingo d’Água é não se acomodar, injetando frescor em um repertório que pode soar “batido” à primeira vista – nunca à primeira audição e às que se sucederem.

Banda imaginária ajuda a entender melhor artista de real grandeza

 

The 42nd St. Band - Romance de uma banda imaginária. Capa. Reprodução
The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária. Capa. Reprodução

Renato Russo ainda era apenas Renato Manfredini Jr. quando, entre 1975 e 76, com de 15 para 16 anos de idade, recluso em seu quarto por conta de uma epifisiólise, rara doença óssea, escreveu The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária [Companhia das Letras, 2016, 221 p.; org.: Tarso de Melo; tradução: Guilherme Gontijo Flores; leia um trecho]. O nome da banda tem origem no endereço do bar Stonewall, palco de um massacre a LGBTs, que o cantor já havia homenageado em seu primeiro disco solo, The Stonewall Celebration Concert [1994].

O livro é uma espécie de diário da banda, como se um fã recortasse revistas e jornais sobre os ídolos e guardasse os recortes em uma pasta. Há entrevistas, formações, discografia, cronologia. O futuro líder da Legião Urbana constrói seus personagens inclusive do ponto de vista psicológico, uma prova disso é o comportamento dos integrantes da banda que dá título ao livro durante as entrevistas.

Renato Russo demonstra profundo conhecimento sobre a música pop mundial. Sua banda – Eric Russell, protagonista de The 42nd St. Band, é seu alter ego – tinha Jeff Beck (ex-Yardbirds) e Mick Taylor (ex-Rolling Stones), misturando personagens reais a personagens imaginários.

O mesmo acontece com faixas gravadas pela banda. No livro, Let me die in your footsteps é de Russell (e não de Bob Dylan) e Close the door lightly (when you go) é de Dylan (e não dos Smiths). Há vários outros exemplos e fica explícito a adoração da banda imaginária – e do autor – por Beach Boys, Stones, Beatles, Dylan.

Há algo de premonitório na obra. Renato Russo acabaria sendo um dos maiores nomes do pop rock brasileiro em todos os tempos e o livro relata (ab)uso de drogas, shows lotados, turnês bem sucedidas, amor e ódio da crítica especializada e mortes trágicas – entre os membros das várias formações da The 42nd St. Band, John Robbins morre de overdose aos 45, John Buck em um acidente de avião aos 62, e Eric Russell de câncer de pulmão aos 67 (Renato Russo morreu há 20, aos 36, de complicações decorrentes do vírus da aids). Aloha, título de uma música de A tempestade [1996], último disco lançado pela Legião Urbana com Renato Russo ainda vivo, já aparece no romance, como uma das faixas gravadas pela The 42nd St. Band.

É um romance fragmentário, montado a partir de anotações (em inglês) deixadas por Renato Russo em diversos cadernos, que muito provavelmente não seria publicado se ele ainda estivesse vivo. Como os diários de sua passagem por um rehab – Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço [Companhia das Letras, 2015, 168 p.; org.: Leonardo Lichote] –, The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária ajuda a compreender a mente inquieta e o espírito criativo de um dos maiores artistas surgidos no Brasil na segunda metade do século passado.