São Luís em palavras hoje (17) na FeliS

São Luís em palavras. Capa. Reprodução

 

Em suas 11 edições, já participei da Feira do Livro de São Luís (FeliS) em várias condições: comprador compulsivo de livros, repórter, compondo mesas de debates, ou como integrante de sua equipe de curadoria.

Hoje, pela primeira vez, participo como autor: integro o time de 33 vozes de São Luís em palavras [Aquarela Brasileira, 2017, 195 p.], organizado por Celso Borges e Wagner Merije, que será lançado hoje (17), às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande).

Baita honra dividir o volume com, entre outros/as, Andréa Oliveira, Bruna Castelo Branco, Celso Borges, Eduardo Júlio, Ed Wilson Araújo, Félix Alberto Lima, Fernando Abreu, José Reinaldo Martins, Lissandra Leite, Marilda Mascarenhas, Otávio Rodrigues, Talita Guimarães e Wilson Marques, para citar apenas os/as colegas de profissão.

Compareço às páginas com Contradições ilhéus, que é uma versão atualizada deste texto que publiquei em 2008 na bilíngue-francesa Brazuca, a convite do jornalistamigo Daniel Cariello, que conheci nos tempos do Overmundo.

Apareçam!

A atualidade de Guilherme Arantes

A simples menção ao nome de Guilherme Arantes evoca diversos sucessos de sua autoria, não poucas baladas radiofônicas facilmente assobiáveis até hoje e temas em trilhas sonoras de novelas. Ouvir seu disco sem os encartes – sim, são dois – à mão nos leva a pensar em como ele tornou à sonoridade oitentista que o alçou ao gosto popular, apesar de certa sofisticação melódica.

Flores & cores. Capa. Reprodução

Ouvir seu disco com os encartes à mão é perceber que evocar aquela sonoridade foi justamente sua intenção. Um dos encartes traz longo texto reproduzindo a caligrafia do compositor, pianista e cantor, em que ele se debruça sobre a gênese de Flores & cores [2017], seu 27º. álbum em 41 anos de carreira – após o lançamento, ano passado, de um documentário e um box comemorativo das quatro décadas de trajetória, iniciada com a banda progressiva Moto Perpétuo, que lançou um único disco, homônimo, ele se sentiu livre para recomeçar.

Revolveu velhas fitas cassetes e papéis amarelados que estavam se esfarelando com o tempo, retomou coisas antigas, mexeu em coisa ou outra entre letras e melodias e o resultado é um disco que conjuga a sonoridade de seu período de maior sucesso com os dias atuais.

Semente da maré é um dos primeiros hits do disco, apesar do tema árido e urgente: os refugiados ao redor do mundo. “Me vejo em qualquer morada…/ não conheço mais qual país/ corresponde a qual lembrança/ onde fui parar, o que eu fiz…/ duelo perdido, desde a tenra infância…/ …e o refugiado olha ao redor…/ sem ver semelhança”, diz a letra, facilmente assobiável, perfeita para o rádio na hora do rush.

A banda base de Guilherme Arantes, que pilota diversos pianos e teclados, é formada por Gabriel Martini (percussão e violões), Willy Verdaguer (contrabaixo) e Alexandre Blanc (violões e guitarras). O projeto gráfico do disco evoca ares psicodélicos, em diálogo com o tema de amor da faixa-título. Gravado no estúdio Coaxo do Sapo, na Bahia, há momentos solares, como Numa onda (Nada no mar) e Praia linda, músicas que falam de amor, tal qual Chama de um grande amor, mais escancarada.

Em tempos de música feita para consumo imediato e descarte idem, Guilherme Arantes recicla o conteúdo de seu baú, a revelar o porquê de sua longevidade artística. Música boa não tem idade e o paulista é um artista dos dias atuais.

Ouça Semente da maré:

Um rasante na Ilha magnética

Foto: ZR

 

É inevitável: a poética de Estrela Leminski é impregnada de seu DNA. Filha de ninguém menos que Paulo Leminski e Alice Ruiz, suas composições, com parceiros diversos, entre os quais a mãe e o marido guitarrista Téo Ruiz, com quem divide discos, palcos e a vida, dão continuidade à melhor tradição (re)inventada pelo casal que agitou Curitiba nas décadas de 1970 e 80, quando a capital paranaense chamava a atenção de todo o Brasil por motivos mais poéticos.

Acompanhados por um power trio da pesada, Diego Perin (contrabaixo), Ruan Castro (guitarra) e Doug Vicente (bateria), Estrela Leminski (voz e efeitos) e Téo Ruiz (voz e guitarra) fizeram uma apresentação meio que de surpresa, na noite de ontem (12), no Reocupa (Rua Afonso Pena, Centro), em mais uma demonstração prática do conceito da casa, de ocupação artística do Centro da capital maranhense.

Vontade de fazer e brecha na agenda, entre um show em Teresina/PI e outro em Belém/PA (amanhã, 13, no Festival Se Rasgum), artistas dispostos a fazer sua arte chegar a mais gente, o cachê no melhor esquema “pague o quanto puder”.

O repertório do show é o do recém-lançado Tudo que não quero falar sobre amor, título longo e bonito, que embala 12 faixas, todas cantadas no show, a que Estrela, “desde sempre estudante de astrologia”, como declarou, acabou atrelando, cada uma a um signo – os poucos mas fiéis leitores que me perdoem, mas não vou conseguir lembrar que música corresponde a que signo.

Começaram o show por Quase feliz, parceria de herdeiras, Estrela Leminski e Anelis Assumpção, filha de Itamar, outro nome cuja poesia e melodia são evocadas no caldeirão de referências de Estrela e Téo. Depois foi a vez de Hit agressivo (Alice Ruiz/ Estrela Leminski/ Jossane Ferraz/ Téo Ruiz): “Tudo anda meio agressivo/ brigo com as ideias sem motivo/ não sou do tipo que se joga/ nem que fica para baixo/ quando tá indignado”, diz a letra.

Biografia (Bernardo Bravo/ Estrela Leminski/ Téo Ruiz) evoca o “vazio agudo/ ando meio/ cheio de tudo”, haicai da lavra de Paulo Leminski: “eu tô vagando na vida/ ando vivendo no vácuo/ minha cabeça tá cheia/ de tanto esvaziar”, cantam num trecho. O vento não ajudava, a noite estava quente. “Eu não sabia que aqui era mais quente que Teresina”, gracejou Téo. Adiante, perguntou: “a gente ouviu todo mundo falando que aqui é a Ilha magnética. Por quê?”. Da plateia alguém respondeu: “é por que depois que você vem você não consegue mais sair”. “Então já estamos todos magnetizados, pois estamos adorando”, retribuiu Téo.

Ruiz de mãe e Leminski de pai, Estrela se casou com um Ruiz. “A gente consegue explicar tudo, só não consegue explicar que não é irmão”, brincou. Eu, ué (Estrela Leminski/ Téo Ruiz), título palíndromo, é mais uma canção a demonstrar a alta voltagem poética da dupla-casal: “se tá confuso assim, sem saída,/ eu vou chamar meu outro eu/ se você duvida/ fui conviver comigo/ eu sei, isso é difícil/ até eu me confundi/ no início/ eu é osso/ eu é ócio/ eu é isso/ e foi virando vício”.

Uso da palavra (Bernardo Bravo/ Estrela Leminski/ Lívia Lakomy/ Mayara Santarem/ Renato Negrão/ Téo Ruiz) brinca com a própria língua portuguesa e suas contradições, de forma bem humorada, com ecos da Isca de Polícia: “vou dirigir a palavra mas não vou atropelar”, começa. O Blues do encanto (Luiz Rocha/ Téo Ruiz) preparou o terreno para Gostável (Estrela Leminski/ Lívia Lakomy/ Rogéria Holtz/ Téo Ruiz), facilmente um hit, tocassem a tevê e o rádio o que realmente vale a pena, a letra passeando entre diversas situações em que alguém lembra de outro alguém: “a culpa é sua se te esquecer é inviável/ você é que é uma pessoa tão gostável”.

Quando cantaram Novela das seis (Estrela Leminski/ Téo Ruiz), Estrela agradeceu: “obrigado por terem vindo. Obrigado por não estarem em casa assistindo tevê”. O título da faixa é o lugar em que alguma/s faixa/s do disco deveria/m estar, talvez não ela própria, seria pedir demais, uma crítica aos meios de comunicação: “entre a idade média e a idade mídia/ fogueira das vaidades distraída/ um argumento sem lógica/ contando sempre a mesma história”. No rodapé de cada faixa, no encarte do disco, uma observação sobre a música ou sua feitura. Nesta, diz o seguinte, vale refletir: “Muitos não leem a notícia mas já formulam sua opinião pela chamada. Já passamos pela idade média e agora parece que chegamos na idade mídia. Vamos ter que substituir o termo “jornalismo” pelo “manchetismo”?”.

É duro ter coração mole (Alice Ruiz/ Estrela Leminski) é trocadilho delicioso, enquanto Nosso livro (Estrela Leminski/ Téo Ruiz) é inspirada declaração de amor. A vida não é justa (Estrela Leminski/ Líria Porto/ Téo Ruiz) é tecida a partir de apetrechos de costura, metáfora da própria vida, esse zig-zag.

A próxima parada de Estrela e Téo é o Pará, amanhã (14), no Festival Se Rasgum. Em ritmo de carimbó, Poliamor (Estrela Leminski/ Téo Ruiz) cita o próximo destino: “esse amor não é gaiola/ você pode sair e voltar qualquer hora/ de Paris até o Pará/ esse amor tem passe livre/ é vip, gif, pra uns é fetiche/ um pinhão no tacacá”.

“Eu ouvi um mais um aí?”, riu Téo Ruiz, antes do bis. Alguém gritou “essa noite vai ter sol”, pedindo Luzes (Paulo Leminski). “Essa banda já toca com a gente há um tempão, mas essa a gente não ensaiou”, Estrela saiu pela tangente. Atacaram de Hard feelings (Itamar Assumpção/ Paulo Leminski), com a letra em inglês misturada a Vinheta I, que abre o disco de estreia de Itamar Assumpção: “Benedito João dos Santos Silva, Beleléu/ vulgo Nego Dito/ Nego Dito, cascavel”.

Referências explícitas, recado dado, não a poucos privilegiados, mas aos curiosos, que se dispõem a sair de casa para sacar um som, mesmo, às vezes, sem conhecer, como o próprio Téo Ruiz elogiou a disposição da plateia. “Ah, eu já sei por que tá tão quente. É o calor de vocês”, reiterou os agradecimentos ao público presente. A noite afinal teve sol, talvez por isso fizesse tanto calor em São Luís.

Jornada poética

Como falar com garotas em festas. Capa. Reprodução

 

Como falar com garotas em festas [How to talk to girls at parties; Quadrinhos na Cia., 2017, 80 p.; R$ 44,90; leia um trecho] não é, ao contrário do que o título porventura possa sugerir, um manual com fórmulas para serem seguidas à risca ou com desconfiança, tampouco um guia politicamente incorreto.

Em primeiro lugar, é o encontro de três artistas geniais, que dispensam apresentações: Neil Gaiman [Sandman e Coraline, entre outros], autor do conto, e os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá [10 pãezinhos, Daytripper e a adaptação aos quadrinhos de Dois irmãos, de Milton Hatoum, entre outros], responsáveis pela adaptação da história aos quadrinhos.

É redundante dizer que uma graphic novel é cinematográfica, já que os conceitos se confundem um tanto entre a sétima e a nona artes. Além do mais, Como falar com garotas em festas ganhou também adaptação para a telona, com direção de John Cameron Mitchell e elenco com Elle Fanning e Nicole Kidman, que estreia este ano (ainda sem data para chegar ao Brasil).

É um álbum sobre amor e amizade, as confusões destes e outros sentimentos no período turbulento chamado adolescência. Enn e Vic são amigos na Londres dos anos 1970, durante a explosão do punk rock. Um é tímido e não tem sorte com as garotas; o outro é bonitão e espalhafatoso e sempre desperta a inveja do amigo.

O traço de Moon e Bá já é um clássico há tempos e a atmosfera do conto de Gaiman o envolve em poesia, não que eles não já tivessem, mas aqui a questão é particular e direta. Numa casa, em uma festa a que o par de amigos chega por acaso, Enn conhece Triolet, a “garota-poema”. “Você não consegue ouvir um poema sem que ele te transforme”, ela lhe diz em determinada altura.

Há várias metáforas colocadas: nada é apenas o que parece ser e perde quem se contentar com a/s aparência/s, do título ao caderno de rascunhos ao final do volume (que permite perceber detalhes do processo de desenvolvimento da obra).

A hq aborda esse turbilhão de sentimentos adolescentes com um pé na ficção científica, como se a adolescência não fosse um período complicado por si só. Um período de descobertas, experiências, aventuras. De quebrar a cara. De transição. De diversão e de começar a se preocupar com novas responsabilidades. No texto de Gaiman e no traço e nas cores de Moon e Bá tudo se torna mais poético e com poesia é menos duro seguir a jornada.

A poesia indo além

Paulo Leminski dizia que a pessoa que não escreve um verso, mas não consegue dormir sem ler umas páginas de Fernando Pessoa ou outro poeta de sua preferência, é tão poeta quanto quem escreve. Muita gente desiste da poesia às vezes pela forma como ela é enfiada goela abaixo, sobretudo nas escolas, sendo associada, no imaginário popular (preconceituoso), quase sempre a professores/as chatos/as, por detrás de grossas lentes, isso sem falar na “utilidade” da poesia.

Caco Pontes comanda o Baião de Spokens no Teatro Oficina, durante a gravação do dvd. Foto: Mundo em Foco

Mas poesia pode ser outra coisa, poesia deve ser outra coisa, poesia precisa ser outra coisa. Um bom exemplo é o Baião de Spokens, idealizado e capitaneado pelo ator e poeta Caco Pontes (autor, entre outros, do ótimo Sensacionalíssimo, com poemas baseados em notícias de jornais sensacionalistas, editora Kazuá, 2013), projeto multimídia que agrega diversos nomes de várias áreas e já teve várias apresentações em festivais, feiras e mostras.

#Opendrive. Capa. Reprodução

Gregário por natureza, o projeto chega ao disco, recheado de parcerias e participações especiais. Disco é modo de falar, evocando o conceito de álbum: o trabalho do Baião de Spokens é lançado (também) em pendrive, mesclando diversos suportes, com a mídia permitindo ao proprietário/colecionador/usuário salvar seus próprios arquivos além do disco, livro e dvd (com a videoperformance de show gravado ao vivo no Teatro Oficina, enquanto Silvio Santos não lhe veda com suas torres e a “força da grana que ergue e destrói coisas belas”), uma sacada-trocadilho inteligente com o título do trabalho: #Opendrive.

Além de parceiros, participações especiais, linguagens e suportes, #Opendrive também é ponto de encontro de várias referências, da vanguarda paulista ao Nordeste de Luiz Gonzaga (evocado, além de musicalmente, nas xilogravuras do projeto gráfico de Daniel Minchoni), passando pela Bossa nova e pelo rap, afinal de contas, abreviatura de rhythm and poetry.

Melô do pendrive, que abre o disco com a participação especial de Sandra X (voz), dialoga com o rap e o canto-falado de Linton Kwesi Johnson. Réu, com a participação especial de Alzira E e Iara Rennó evoca Itamar Assumpção, melodicamente, no jeito em que o canto é entoado e no sample de Vinheta I (Itamar Assumpção), que abre Beleléu, leléu, eu (1980), disco de estreia do tieteense.

Sophia Lacoste evoca outra obra-prima oitentista, Clara Crocodilo (1980), citada nominalmente, e sua ficção científica. “São Paulo, 25 de abril de 2037”, começa Arrigo Barnabé, convidado especial da faixa, ao lado de Suzana Salles (Isca de Polícia), outra vanguardista paulistana-paranaense.

O nosso bem, com Alice Ruiz, é pura doçura, poemúsica escrito a quatro mãos com o anfitrião. Sinhá D’Oyá é candomblé elétrico, na melhor levada “tecnomacumba”, com a guitarra sempre em pirueta de Kiko Dinucci.

A viola caipira de Daniel Viana ponteia a introdução de Osso, com participação de Gustavo Galo (Trupe Chá de Boldo), coautor da faixa, uma equação de nossos tristes tempos sob o domínio de golpistas: “ói/ a vida aqui/ tá osso/ (…)/ muito carnê/ & pouca carne/ muito negócio/ & pouco ócio”. Gustavo Galo assina ainda, em parceria com Caco Pontes, Osso – Parte 2 (O preço do terço), faixa que se ouvirá mais à frente.

Mariposas suicidas é uma distopia (no fim das contas muito próxima de nossa realidade, como toda distopia) em que o planeta gira e pira, enquanto seres humanos “vivendo seus próprios dramas/ e a caça de insetos/ outra prestação se dando por vencida/ muriçocas temerosas zunido orelhas”.

Com João Sobral, Evoluo indo “desjustapõe” a evolução, entre encontros e despedidas, fluxos, chegadas e partidas, esta “arte do encontro” chamada vida. Firmino Chão, com Lirinha, trocadilha o nome nordestino com a firmeza sertaneja, o nordestino é “antes de tudo, um forte”, seu Euclides, seu Belchior.

Orecular, com Dani Nega, dialoga com as pistas, “poesia pra/ rimar_comer / viver_sentir / obrar_morrer/ …cantar…/ (desconstruir)/ e o que mais tiver de ser”, então, por que não?, dançar.

O Baião de mashups encerra o disco como propõe o título da faixa: remixa e liquidifica Luiz Gonzaga (Baião, parceria com Humberto Teixeira), Caetano Veloso (que cita Gonzagão em You don’t know me, do antológico Transa, de 1972) e João Gilberto (em seu baião autoral Bim bom).

Eis um ótimo exemplo de que poesia sempre pode ser bem mais.

Ouça #Opendrive:

Ceumar e o Maranhão

A cantora Ceumar durante sua apresentação ontem (4) na Ponta do Bonfim. Foto: Fafá Lago

 

A programação atrasou bastante e o por do sol que dá nome ao projeto acabou se transformando em luau. O público não arredou pé e acompanhou com atenção as três atrações que precederam Ceumar.

Eu nunca tinha visto/ouvido Vanessa Serra discotecar: em território predominantemente masculino ela desponta já como um nome importante, com repertório sensível ao ambiente (isto é, o que ela toca dialoga com o universo ao redor do evento), que demonstra profundo conhecimento de música brasileira – resultado de seus anos de jornalismo cultural e colecionadora de vinis, entre os quais esbanjou Papete, Zé Keti, Paulo Diniz, Raimundo Sodré, Roberto Carlos, Nara Leão, Betto Pereira…

Mano Borges (voz e violão), acompanhado de Darklilson (percussão), fez um show no estilo “som do barzinho”, passeando por um repertório de clássicos da MPB, entre Chico Buarque (A Rita), Peninha (Sonhos), Cesar Teixeira (Oração latina, num andamento muito festivo, destituindo o “hino” de sua solenidade), Zeca Baleiro (Mamãe Oxum, tema de domínio público adaptado pelo maranhense, cuja letra errou) e Caetano Veloso (A luz de Tieta). O projeto Ponta do Bonfim tem um público cativo: ele poderia ter apostado em uma coletânea de sua própria obra, embora não tenham faltado Bangladesh (Marco Cruz), que intitula seu melhor disco, Ça va (Mano Borges), Amagni (Koko Dembele, versão de Mano Borges) e, a pedido, Os nós (Mano Borges).

Fernando de Carvalho, acompanhado por Darklilson (que havia ido para acompanhá-lo e acabou tocando com Mano Borges de improviso) e Luiz Jr. (violão sete cordas), fez um apanhado de seus quase 20 anos de carreira, entre músicas de seus discos e constantes no repertório de shows temáticos que faz, como Saudosa maloca (Adoniran Barbosa), Lenda das sereias, rainha do mar (Vicente Mattos/ Dinoel/ Arlindo Velloso), Fiz a cama na varanda (Dilu Mello), O que vier eu traço (Alvaiade/ Zé Maria) – samba de que ele cantou apenas a primeira parte – e, entre outras, Cry me a river (Arthur Hamilton) – que gravou em disco com a participação de Alcione. Abriu o show com Canto de luz (Zé Pereira Godão), com a participação especial de Regina Oliveira (Grupo Lamparina), tocando caixa do divino.

Atração mais aguardada da sétima edição do projeto Ponta do Bonfim – Música, amizade e por do sol, Ceumar subiu ao palco às 21h20, divertindo-se com o vento e agradecendo a oportunidade de estar mais uma vez no Maranhão. “Sempre fui muito bem recebida aqui, desde a primeira vez que vim, em 2001, quando cantei no Canto do Tonico. O Maranhão me deu muita coisa, quando eu comecei a carreira, muita gente perguntava se eu era daqui”, apresentou-se para emendar Oração do anjo (Ceumar/ Mathilda Kóvak) e O seu olhar (Arnaldo Antunes/ Paulo Tatit). Depois lembrou Reinvento, parceria com Estrela Ruiz Leminski, “filha dos poetas Paulo Leminski e Alice Ruiz”. Na sequência, foi de Encantos de sereia (Osvaldo Borgez), do repertório de Silencia (2014), seu disco mais recente.

Depois de Cantiga (Zeca Baleiro), Ceumar lembrou-se de seu encontro com Josias Sobrinho, em meados da década de 1990, na casa de Zeca Baleiro, em São Paulo. “Eu pensei que era meu irmão do Maranhão, a gente tinha os mesmos cabelos, os mesmos olhos”, contou, rindo. “E eu gostei muito de um boizinho que ele fez para a filha dele, Luiza, e eu gravei no meu primeiro disco, como uma canção”, contou, anunciando As ‘perigosa’. Voltou a Zeca Baleiro em Boi de haxixe, seguida de Avesso (Ceumar/ Alice Ruiz).

“Quase todas as vezes em que venho a São Luís eu tenho a honra de poder contar com o auxílio luxuoso de um amigo que levou muito Maranhão pra meu primeiro disco, sonoridades incríveis, até hoje eu encontro músicos que me perguntam que som é aquele, referindo-se ao pandeirão com vassourinha, que Luiz Cláudio inventou”, contou, chamando ao palco o paraense radicado no Maranhão.

Revezando-se entre o pandeiro e o pandeirão, Luiz Cláudio acompanhou-a em Maldito costume (Sinhô), em que se reveza categoricamente entre as platinelas e o couro do pandeiro, Dindinha (Zeca Baleiro), Galope rasante (Zé Ramalho), em que ele imprime o andamento percussivo de uma tribo de índio maranhense. Em Gírias do Norte (Jacinto Silva/ Onildo Almeida) Ceumar trocou o violão pelo pandeiro e Luiz Claudio percutiu o pandeirão com baquetas, evocando uma zabumba. No mesmo esquema, Xodó de motorista (Dilson Dória/ Elino Julião), música que não está em nenhum de seus discos. De volta ao violão e ainda com Luiz Cláudio no palco voltou a Josias Sobrinho, em Rosa Maria, quando um grupo de mulheres da plateia espontaneamente fez um trenzinho circular o salão evocando o cacuriá e levando Ceumar a emendá-la a Maçariquinho (Pedro Caetano/ Clemente Muniz).

Novamente sozinha, demonstrou em Rãzinha blues (Lony Rosa) todo o poder de sua voz, espécie de autenticação do encanto de todos os ali presentes. Após as síncopes de seu violão em Achou! (Dante Ozzetti/ Luiz Tatit), uma demonstração de humildade de Ceumar. “Há alguns anos, quando eu estive aqui, eu tive a oportunidade de conhecer uma cantora e, de longe, acompanho sua trajetória, com atenção”, revelou, antes de chamar ao palco Tássia Campos, de surpresa, sem ensaio. Juntas cantaram (Péri).

Ceumar cumpriu à risca o que anunciou ao subir ao palco: não havia roteiro, era seguir o coração. Todos os corações presentes estavam devidamente tocados enquanto ela procurava mais repertório. Mandou ainda Pecadinhos (Zeca Baleiro) e depois trocou o violão por um par de conchas, que percutiu ao longo de Onde qué (Sérgio Pererê), usando os saltos dos sapatos no tablado também como instrumentos. A plateia cantava em peso e ela desceu e circulou em meio a ela, esbanjando simpatia.

O povo queria mais e ela não se fez de rogada: voltou ao palco para encerrar com outra música que não figura em seus discos. Luiz Cláudio também voltou a acompanhá-la, fazendo o bis antes dos tradicionais pedidos de “mais um”. Já passava pouco das 23h quando encerraram o espetáculo com Engenho de flores (Josias Sobrinho).

A plateia estava em êxtase. Superadas todas as expectativas, quem há de dizer que Ceumar não é (também) daqui?

Ceumar faz show na Ponta do Bonfim

Projeto terá ainda apresentações da DJ Vanessa Serra e dos cantores Fernando de Carvalho e Mano Borges. A cantora mineira conversou com exclusividade com o blogue

Foto: divulgação

“É sempre uma alegria voltar pro Maranhão”, revela Ceumar em conversa exclusiva com Homem de vícios antigos. A cantora mineira se apresenta novamente em São Luís neste sábado (4), no projeto Ponta do Bonfim – Amizade, Música e Por do Sol, iniciativa de um grupo de amigos que se reúne e viabiliza a vinda de artistas que lhes interessam, em clima de confraria, que já chega a sua sexta edição. O evento acontece em uma casa na localidade que dá nome ao evento, os ingressos são limitados e o fundo de palco são o mar e a cidade de São Luís vista do outro lado. Pelo palco do projeto já passaram nomes como Cida Moreira, Danilo Caymmi, Paulinho Pedra Azul e Renato Braz, entre muitos outros.

“Lembro muito bem da primeira vez que eu fui [ao Maranhão]. Fui muito bem recebida, um carinho tão grande de todo mundo, com certeza por causa de Zeca [Baleiro, cantor e compositor que produziu Dindinha, álbum de estreia dela, de 2000], de Josias [Sobrinho, compositor de quem gravou As ‘perigosa’ e Rosa Maria em Dindinha], de Rita [Benneditto, cantora], que foi minha parceira de apartamento em São Paulo. Eu tinha uma curiosidade muito grande em conhecer a energia aí do Maranhão. E vocês todos, Gilberto [Mineiro, radialista, já produziu shows de Ceumar em São Luís], você, sempre gente muito querida, com paixão mesmo, fazendo tudo com paixão. A experiência o ano passado foi incrível, no festival de jazz [Ceumar se apresentou no 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival], achei muito massa participar com meu sobrinho [o contrabaixista Daniel Coelho], e este ano eu percebi mesmo o empenho dessas pessoas para que eu pudesse ir participar desse projeto”, relembra Ceumar.

Pergunto-lhe se iniciativas como a deste grupo de amigos podem ser uma alternativa, num momento de sucessivos golpes à cultura brasileira. “Acredito que é um caminho muito possível e necessário nesse momento em que os projetos estão cada vez mais escassos, que as pessoas que gostam de música, são apaixonadas e que possam contribuir, como mecenato, acho muito válido, é uma saída bastante importante para nós nesse momento”.

Em uma tarde que terá ainda apresentações da DJ Vanessa Serra – que começa a tocar seus vinis às 14h30 – e dos cantores Fernando de Carvalho e Mano Borges, Ceumar subirá ao palco da Ponta do Bonfim com seu violão, para um show intimista. Ela adianta: “Já vou soprar que vou ter um convidado especial, meu amigo Luiz Cláudio [percussionista] se prontificou a ir lá tocar algumas coisas comigo. Ele é muito importante pra minha história, trouxe muitas sonoridades incríveis pro Dindinha, o primeiro disco, Luiz Claudio chegou cheio de Maranhão na linguagem e foi muito rico, assim. Luiz vai dar uma canja. Eu quero mostrar um repertório variado, não vou fazer o show do cd novo, o Silencia [de 2014], vou passear um pouquinho pelos outros álbuns”.

Insisto no momento conturbado que o país atravessa. Ela responde com a elegância habitual. “Eu voltei da Holanda já faz quase dois anos, muito por que eu me sinto mais útil aqui no meu país, principalmente agora, num momento tão caótico. O que minha música traz, o que eu tento trazer através dela é o lugar da emoção, do contato direto com as emoções mais profundas de cada ser. Não sei se eu consigo fazer da melhor maneira, mas é o meu intuito, que as pessoas despertem para o que elas têm de melhor e através desse bem maior, assim, a gente possa, cada um possa fazer o seu papel. Acho que é essa a minha função dentro da minha música, dentro do meu país, trazer um pouco de humanidade e de alento também, para que a gente tenha força para lutar quando for necessário, se juntar e lutar pelo que a gente merece, como povo, como país, com essa riqueza toda. Eu sei que não é fácil, sou apenas uma mera cantadeira, mas acredito que o afeto ele segura muita coisa e não quero que pareça pretensioso, mas o povo brasileiro é muito afetivo, a gente não pode perder essa força que a gente tem no abraço, no sorriso, para que a gente tenha um futuro mais organizado pros nossos filhos, pras nossas famílias e essas crianças que vão vir por aí”.

Pergunta sempre inevitável: e o disco novo? “Ano que vem tem disco novo, já estou começando os trabalhos, escolha de repertório, composições novas, uma nova sonoridade também que eu estou buscando, o processo natural. Eu sou uma mineira bem [risos] caipira, faço tudo no meu tempo e assim vou indo. Mas tem um projeto para 2018 e vamos lá!”.

*

Ouça Ceumar em Rosa Maria (Josias Sobrinho), com a participação especial de Itamar Assumpção fazendo a “voz de preto velho” na introdução:

Anacronismo para retratar o Brasil

Mensur. Capa. Reprodução

 

O bullying transformou o protagonista de Mensur [Quadrinhos na Cia., 2017, 208 p.; R$ 54,90; leia um trecho] em Gringo. Filho sem pai de uma dona de casa, ele ganhou o apelido na escola. São seus dramas que o leitor acompanha ao longo das páginas da nova graphic novel de Rafael Coutinho, que já dispensa apresentações.

A luta de espadas que dá título ao álbum se parece com a esgrima, mas tem o claro objetivo de produzir ferimentos no rosto do oponente e estas cicatrizes serão motivo de orgulho para seus praticantes. Era uma prática de estudantes universitários alemães no século XV e o autor traz para o Brasil, entre Caxambu, Ouro Preto e São Paulo, cidades que dão nome às partes do livro.

Engana-se, no entanto, quem acredita que espadas ferindo rostos são a maior violência nas páginas de Mensur. É uma obra de ficção, mas Rafael Coutinho retrata um Brasil violento e desigual, em que tudo, por mais grave que seja, é banalizado e dado como absolutamente normal – vide a sequência de golpes perpetrados no ambiente político.

Gringo é ao mesmo tempo um personagem anacrônico e um brasileiro comum. E ao mesmo tempo também, para alguns, um herói. Lida com fantasmas do passado, busca tornar-se um ser humano melhor, valoriza a palavra e a honra – instituições que em geral funcionam mal, como tantas no Brasil –, busca ganhar a vida honestamente, mesmo em subempregos, apaixona-se e tem o CPF negativado apesar de já ter pagado a fatura – experiências comuns de tantos brasileiros comuns.

O letramento de Mensur utiliza a caligrafia do autor em resultado charmoso. Rafael Coutinho não se limita ao quadrinho: por vezes determinadas cenas – e particularmente as “danças” dos espadachins – escorrem, tornando-se páginas inteiras, transformando-as em verdadeiras obras de arte – o que de resto, Mensur é, desde a capa.

Sobras completas

Conversei com a cantora e flautista carioca Alice Passos e o violonista paulista João Camarero por whatsapp. Fiz três perguntas a cada um, para usar no release de divulgação do projeto RicoChoro ComVida na Praça, de que sou assessor de comunicação, que os traz à Ilha para uma roda de conversa sexta-feira (27) e uma apresentação sábado (28), em noite que terá ainda o DJ Franklin e o Trítono, na ocasião um quarteto: com o violonista Israel Dantas viajando, além dos integrantes da formação original Rui Mário (sanfona) e Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho), a estes somam-se Mauro Sérgio (contrabaixo) e Ronald Nascimento (bateria). Veja a programação completa aqui.

Alice é filha da cavaquinhista maranhense Ignez Perdigão e lançou seu disco de estreia, Voz e violões [Fina Flor, 2016], ano passado, em diálogo com grandes mestres, entre compositores e instrumentistas, num time que inclui Aldir Blanc, Guinga, Mário Gil, Paulo César Pinheiro, Théo de Barros e Zé Paulo Becker, além do jovem e talentoso João Camarero, que chega à São Luís com a responsabilidade de representar esta constelação.

Para não perder nada, resolvi colar a seguir as duas nanoentrevistas.

João Camarero e Alice Passos. Foto: divulgação

ALICE PASSOS

Você já participou do projeto, antes de ele ser gratuito e ganhar as praças. Qual a sua lembrança e quais as expectativas para esta nova participação?
Sim! Lembro de ser muito bem recebida, tanto pelos músicos, pela produção e pelo público. Cantar em praça é uma delícia. É um desafio fazer a maioria de show de voz e violão – no final teremos a participação do Trítono – mas vamos com muita vontade de levar a música do Rio de Janeiro, fazer uma homenagem ao [violonista e compositor] Baden Powell, que estaria fazendo 80 anos este ano.

Você vem acompanhada por João Camarero, um bom representante desta nova safra de violonistas. Como começou essa parceria?
Conheci o João em São Paulo, começamos tocando juntos sem pretensão e logo estávamos fazendo diversos shows no Rio e fora dele. Temos o gosto musical muito parecido e por isso a parceria flui super bem!

Qual a base do repertório da apresentação de vocês?
Vamos fazer uma homenagem aos 80 anos do Baden Powell, incluímos músicas do João Camarero em parceria com o Paulo César Pinheiro e alguns clássicos da música brasileira, como A voz do morro, de Zé Keti.

JOÃO ​CAMARERO

É sua primeira vez em São Luís? Quais as expectativas?
É a minha primeira vez, sim. ​​As expectativas são as melhores possíveis. Há tempos que quero conhecer São Luís e os músicos do Maranhão e tenho certeza que essa oportunidade vai me proporcionar grandes encontros.

Você participou do disco de estreia da Alice Passos, ao lado de grandes mestres do instrumento. Qual a sensação e o tamanho da responsabilidade, inclusive de vir à ilha representando aquele grupo?
​​Pra mim é uma responsabilidade grande, mesmo. Porém, como eu e Alice já desenvolvemos um trabalho juntos há algum tempo, isso deixa com que as coisas possam fluir com mais naturalidade. De qualquer maneira, gosto de encarar essa experiência de ler a música de outros violonistas sob a ótica deles.

São Luís tem ao menos três nomes de destaque internacional em se tratando de violão: Turibio Santos, João Pedro Borges e Joaquim Santos. Qual a sua relação com a obra deles?
O Maranhão é uma terra pródiga em artistas; não seria diferente com o violão. Joaquim Santos e o João Pedro Borges eu conheci através da Camerata Carioca. O grande Turíbio Santos é um caminho quase que obrigatório pra qualquer violonista brasileiro. Todo mundo acaba passando por ali em algum momento. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente há pouco tempo, e tocamos um pouco juntos. Sou um grande admirador do seu legado.

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Veja Alice Passos e João Camarero em Poema dos olhos da amada (Baden Powell/ Vinicius de Moraes):

Batatinha revisitado em formação inusitada

O amor entrou como um raio. Capa. Reprodução

 

Aos 20 anos do falecimento de Oscar da Penha (1924-1997), sambista baiano que atendia pela alcunha de Batatinha, o cantor e compositor Celso Sim presta bela homenagem ao autor em O amor entrou como um raio [Circus, 2017]. O título é verso de Conselheiro (Batatinha/ Paulo César Pinheiro), uma das pérolas do repertório.

Os sambas existencialistas de Batatinha encontram par na obra de Nelson Cavaquinho, embora aquele seja bem menos conhecido e reverenciado que este, apesar de o baiano ter sido gravado por nomes como Beth Carvalho, Caetano Veloso, Jussara Silveira, Ligiana Costa, Maria Bethânia e Pedro Miranda, entre outros, além de Adriana Moreira, que dedicou a seu repertório o disco Direito de sambar (2006), outra que comparece a esta nova homenagem.

Celso Sim – que já dividiu disco com Jorge Mautner (Pedra bruta, de 1992) e é autor de Benedita (em parceria com Pepê Mata Machado), em que divide os vocais com Elza Soares em A mulher do fim do mundo (2015), seu festejado trabalho mais recente – é escoltado por Webster Santos (violões, cavaquinho, bandolim, guitarras, viola caipira), Maurício Badé (percussão) e Filipe Massumi (violoncelo), formação pouco usual no universo do samba, este último em geral garantindo a moldura trágica aos versos de Batatinha.

Caso de, por exemplo, Imitação (Batatinha): “Ninguém sabe quem sou eu/ também já não sei quem sou/ eu bem sei que o sofrimento/ de mim até se cansou/ na imitação da vida/ ninguém vai me superar/ pois sorrio da tristeza/ se não acerto chorar”. Ou a citada Conselheiro (Batatinha/ Paulo César Pinheiro): “Sou profissional do sofrimento/ professor de sentimento/ do amor fui artesão”. Em Bolero, os parceiros Batatinha e Roque Ferreira assumem a persona feminina ao narrar as desventuras de uma bailarina: “fui bailarina na festa/ dancei para lhe contentar/ sorria/ a rodar/ a rodar/ gastei a ilusão e a pintura/ nesta ribalta de sonhos azuis/ num papel que destrói/ mas seduz”.

Samba sincopado, Foguete particular (Batatinha) é ponto fora da curva, no disco e na obra de Batatinha: “numa prova de alegria/ eu vou chegar sambando”, diz a letra.

O projeto gráfico de O amor entrou como um raio é um espetáculo à parte: no miolo, fotografia do etnólogo franco-brasileiro Pierre Verger; na capa, foto inédita de Batatinha, clique de Pedro de Moraes, o artista em ambiente natural – um bar –, com um sorriso que não condiz com a tristeza da maioria de suas composições. Seriam personagens seus protagonistas que sofrem por amor ou a criança por não pode comprar um ingresso para ver o circo?, caso de O circo (Batatinha): “todo mundo vai ao circo/ menos eu, menos eu/ como pagar ingresso/ se eu não tenho nada/ fico de fora escutando a gargalhada”.

Em 11 faixas, Celso Sim e seu trio dão um tapa no visual da obra de Batatinha, o que certamente lhe trará novas atenções, outros olhares – e ouvidos. Merece, o Oscar.

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Ouça Celso Sim em Foguete particular (Batatinha):