Obituário: Serralheiro

 

Em torno da consolidação da cena reggae em São Luís há muito de lenda, hipérbole e imodéstia. Mineiro radicado no Maranhão desde a década de 1960, Edmilson Tomé da Costa, o Serralheiro – nome artístico herdado de sua antiga profissão, será? –, é um dos pioneiros na introdução do gênero jamaicano em festas em São Luís. “Serralheiro, Natty Nayfson e Ribamar Macedo”, declarou, falando de si mesmo em terceira pessoa, em entrevista ao jornalista Felipe Larozza, publicada há cinco dias.

Sem falar uma palavra de inglês, Serralheiro esteve em Londres 28 vezes e na Jamaica 17 vezes. “Sou o cara que tem mais coragem no mundo”, bravateou ao mesmo jornalista. “Não tem gente no mundo que goste do reggae como eu”.

O dono da mítica Voz de Ouro Canarinho – nome de uma de suas radiolas – era um colecionador inveterado, mas gostava de exclusividade – reza a lenda que ao comprar um disco, raspava os que ficassem nas lojas para que ninguém mais tivesse as músicas que tinha. Não repetia música em suas discotecagens. Uma que mereceu destaque foi sua aparição na Virada Cultural paulista, em 2011 (veja o vídeo que abre este obituário).

O DJ Tarcísio Selektah, que há alguns dias havia usado as redes sociais para solicitar doações de sangue a Serralheiro, manifestou-se sobre a perda. “O reggae nacional de luto. Faleceu em São Luís o DJ/radioleiro mais antigo do Brasil”, lamentou.

“Com profundo pesar comunico o falecimento do “Carrasco” Serralheiro. O reggae do Maranhão está de luto”, declarou o DJ Ademar Danilo usando outra alcunha pela qual era conhecido o discotecário, que chegou a ser seu parceiro na equipe África Brasil Caribe.

Especialista em reggae, o jornalista Otávio Rodrigues, o Doc Reggae, declarou: “Fico triste, porque era meu amigo, e lamento muito, porque parte da história se vai sem um bom registro” [leia depoimento completo e exclusivo no fim deste obituário].

Serralheiro faleceu hoje (29), aos 70 anos, em consequência de um acidente vascular cerebral (AVC) sofrido há cerca de um mês. Estava internado no Hospital Carlos Macieira. Que esteja com Jah! Como, aliás, sempre esteve!

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Assista trailer de Sintonizah, documentário de Lecuk Ishida e Willy Biondani (com depoimento de Serralheiro):

 

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A GENTE VAI FICANDO MAIS SOZINHO

OTÁVIO RODRIGUES

Doc e Serralheiro em 2004. Foto: Carol Bittencourt
Doc e Serralheiro em 2004. Foto: Carol Bittencourt

 

Conheci Serralheiro ainda em 1988, ano em que meu Cabral interior descobriu o Maranhão. Lembro que ele se recusou a posar pra uma foto, estava montando a radiola. “Ah, mas tô todo lambudo!” Meio que se apresentou dizendo que amava o reggae mais que tudo. “Reggae me gela o sangue”, disse, apontando as veias do braço. Eu não conseguia entender como aquele sujeito simples, quase rústico, de mãos grandes e com textura de lixa, conseguia ser tão refinado nas seleções musicais.

E com um apelido desses, que me levava a pensar nos artistas jamaicanos, que em sua maioria afirmam ter trabalhado como welders (soldadores) antes de iniciarem a carreira artística.

No dia em que deixei a Ilha, ele me apareceu com uma insuspeita fita cassete. “Gravei pra ti. Agora tu me manda umas pedras também.” A caminho do aeroporto, no fusca do Boaventura do Bairro de Fátima, coloquei a fita pra rodar e, ali de pronto, vi que a parada era séria (o Boaventura quase não me ouvia falar, só prestava atenção na fita). Com o tempo, estabelecemos um intercâmbio – mas com as regras dele. Eu enviava umas pedras do meu acervo, com total exclusividade, ou seja, eu não podia passar pra mais ninguém, nem tocar no rádio nem nada; e ele mandava umas dele também, que eu deveria manter no cofre e a sete chaves. Com o tempo, percebi que o acordo era imensamente bom pra ele, mas continuei com a brincadeira durante certo tempo – acho que, no fundo, eu adorava mesmo as cartinhas que vinham junto com o material.

Mais tarde, quando morei em São Luís, ele me virou a cara. Atônito, descobri por outros qual tinha sido a razão: eu reportara na revista Bizz a viagem que ele havia feito a Londres, levando uma fitinha com frases em inglês gravadas por Fauzi Beydoun: “Good morning!  I want to buy reggae records”, “I need a hotel” e outras básicas assim, pra que ele se salvasse em terras estrangeiras. Ficara ofendido com isso, não percebendo a admiração contida no relato. Demorou pra que fizéssemos as pazes.

Serralheiro morava na Rua da Salina, no João Paulo, lugar pouco percebido pela maioria, incluindo o poder público. Para um paulista classe média, caminhar por uma rua na qual o esgoto corre a céu aberto, como nos tempos coloniais, era uma experiência incomum. Imaginar que ali vivia um dos maiores DJs do Maranhão, um superstar, era uma incongruência sem tamanho. Na casa simples, repleta de discos fabulosos, eu pensava nas histórias que haviam me contado. Que Serralheiro costumava ir ao Rio e São Paulo atrás de discos e, quando encontrava algo realmente bom, comprava todas as unidades do mesmo álbum pra que nenhum outro gaiato tivesse acesso. E que, assim como Lee “Scratch” Perry fez com o próprio estúdio, um dia acordou e tacou fogo num monte desses ótimos discos. A esposa, ouvi dizer também, reclamava que a geladeira vivia vazia, que ele gastava tudo em reggae. Quem sabe a verdade?

Fico triste com a partida dele. Era meu amigo. Lamento ainda que sua história não tenha sido resgatada completamente, penso eu, e faço aqui um mea culpa. De onde ele vinha? Trabalhou com ferro mesmo? Como e onde começou no reggae? Guardarei pra sempre, porém, a imagem dele trabalhando de costas n’A Voz de Ouro Canarinho, manipulando o pause nos tape-decks durante toda a noite, quase sem olhar para o público, arrancando uivos de êxtase a cada tijolo.

A verdade é que, junto com Pai Euclides e o professor Carlos Lima, Serralheiro compunha meu panteão de santos maranhenses. O tempo passa, não tem jeito, a gente vai ficando mais sozinho. Descansem em paz, meu velhos.

Cora comovente

Lília Diniz encarna Cora Coralina. Foto: divulgação
Lília Diniz encarna Cora Coralina. Foto: divulgação

 

Já era mais que hora da atriz Lília Diniz estrear em São Luís. Só Cora dentro de mim: plantando roseiras e fazendo doces, a maranhense de Imperatriz já encena há 17 anos. Se demorou, a estreia foi triunfal: um primor de espetáculo.

Há muito de Cora em Lília, duas mulheres que não aceitaram ser rotuladas pelas sociedades em que vive(ra)m. Poeta que também é, Lília encarna Cora, não como uma tradução, mas como se a goiana se materializasse para além da poesia, da casa e do exemplo que deixou, após inventar seu pseudônimo justamente para fugir da opressão familiar. A cena em que acende uma vela em frente a um livro de Cora Coralina dá ideia da devoção da atriz em cena a poeta que encena.

Não é preciso ser versado em Cora Coralina para assistir e se emocionar com o monólogo. Com os sagrados corações de Maria e Jesus na parede, somos convidados a uns bons dedos de prosa na cozinha da casa da senhora, passando por poesia, música e vida.

Lília Diniz adentra o teatro cantando, vinda de trás da plateia, em procissão, pedindo bênção ao Rio Vermelho, como Cora Coralina fazia todas as manhãs e registrou em poesia. Está acompanhada por Maísa Arantes (rabeca, pífano e voz) e Léo Terra (viola e percussão), com quem tomará café no palco, enquanto desfia o rosário de conversa, nunca enfadonho.

Quando criança Cora gostava de conversar com gente mais velha, o que lhe valeu sofrer bullying antes do uso corrente do termo. Na plateia somos todos crianças e desistimos dos celulares para prestar atenção na conversa, com que a senhora atriz nos prende a atenção enquanto prepara um doce de banana – e não se trata de mera cenografia. No palco, até o fogo do fogareiro é verdadeiro.

O cenário aparentemente simples nos dá grandes lições. Engana-se quem pensa que é preciso de muito para ser feliz. Seu baú parece mágico: é só um baú, mas como tira coisas e memórias dali. Seu baú é mágico. E Cora dentro de mim é simplesmente comovente.

Cora se lembra da violência da palmatória, de quando fugiu de casa, de quando voltou, costura, cozinha, brinca de boneca, joga amarelinha, se emociona, nos emociona. Transporta-nos a outro tempo e lugar, conectando-nos à beleza e verdade de sua obra e vida.

Cora dentro de mim é peça que dura mais que sua hora de duração. Artista consciente de seu lugar e papel, Lília Diniz conversa com o público sobre os mais variados temas: a descoberta da poesia de Cora Coralina, a montagem do espetáculo, a viabilização desta circulação – que passará ainda por São Paulo/SP, Rio de Janeiro/RJ e Ceilândia/DF –, através do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC/DF), a necessidade de vigília permanente, não só de artistas, para a garantia de direitos culturais, sobretudo diante do atual momento político por que passa o país, e acessibilidade: o espetáculo conta com audiodescrição e intérprete de Libras.

Em São Luís Cora dentro de mim: plantando roseiras e fazendo doces tem mais uma sessão hoje (26), às 19h, no Cine Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro), com entrada franca e degustação de doces do chef Thiago Brito (Casa d’Arte) ao final do espetáculo. Os ingressos devem ser retirados na bilheteria do teatro a partir de 14h. Longe de qualquer clichê: imperdível!

Aprovados em vestibular destacam importância da oficina Trilhas e Tons

Cursistas com a trupe de Trilhas e Tons, ao fim da oficina em Viana, em outubro de 2016. Foto: divulgação
Cursistas com a trupe de Trilhas e Tons, ao fim da oficina em Viana, em outubro de 2016. Foto: divulgação

 

Há aproximadamente uma semana a Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) divulgou o resultado de processo seletivo simplificado vestibular para cursos na modalidade Educação à Distância. As vagas estão distribuídas por 35 polos em todo o Maranhão.

A oficina Trilhas e Tons, coordenada por Wilson Zara e ministrada por Nosly, com assistência de Mauro Izzy, os três, músicos bastante reconhecidos no estado, já percorreu, desde 2013, mais de 30 municípios em todas as regiões maranhenses, sempre com apoio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Alguns dos aprovados no vestibular participaram da oficina e elogiaram a formação como um fator decisivo para o resultado positivo que alcançaram na seleção.

Caso de Emílio de Jesus Moraes, de Viana. “A oficina itinerante trouxe aos participantes uma forma prática e diferenciada de associar a música, no seu contexto teórico, com as características da música popular. Particularmente serviu de grande apoio e estímulo, pois a forma como o conhecimento musical foi repassado nos possibilita também desenvolver nossos próprios métodos de ensino. Cabe a nós, agora, com o decorrer da formação universitária e possivelmente quando estivermos lecionando a disciplina Música, utilizar também as técnicas demonstradas durante este curso, visando assim o melhor aproveitamento por parte de nossos futuros educandos”, declarou em perspectiva.

“Com certeza foi de grande importância a oficina Trilhas e Tons no meu processo de aprovação no vestibular. Essa oficina veio agregar conhecimentos que eu não tinha. Eu estudo música há um bom tempo, toco sax alto e violão e a oficina me fez ter um conhecimento ainda maior e me ajudou bastante na aprovação no vestibular”, destacou Rodrigo Batista Freitas, também aprovado no polo de Viana.

Natural de São Luís, Syldenilson Santos mora em Arari, polo para o qual foi aprovado no vestibular. Ele também apontou a importância da formação. “Ano passado eu participei da oficina itinerante Trilhas e Tons em Arari. As teorias abordadas no contexto educacional pelo professor Nosly foram de extrema importância e enriquecimento cultural-musical para mim. Mesmo não direcionadas especificamente para a prova, as aulas ministradas pelo professor Nosly abriram em minha vida um entusiasmo esplendoroso, com o sonho de ser aprovado e estudar mais esmiuçadamente a mais bela das artes”, declarou.

“O projeto Trilhas e Tons, além de aprimorar mais meus conhecimentos, veio na hora certa. Faltando dois dias para terminar a oficina veio alguém para falar sobre o seletivo da UemaNet, com vagas para licenciatura em música. O Nosly disse: “façam, pessoal, que vocês passam!”. Ele estava certo. Estou muito grato pelo projeto”, reconheceu José Manoel Lindoso Mendes, o Zeca, vianense que mora em Penalva onde tem uma pequena escola de música, aprovado para o polo Viana.

“Estamos no caminho certo ao educar com música, tendo o despertar para a cidadania como objetivo. Se a semente for bem plantada, o fruto será colhido”, finalizou Nosly, que se declarou contente com o bom desempenho dos cursistas no vestibular.

Gerô duplamente lembrado nos 10 anos de seu martírio

Foto: Ronald Almeida Silva
Foto: Ronald Almeida Silva

 

Há exatos 10 anos o artista popular Jeremias Pereira da Silva, o Gerô, foi torturado até a morte por policiais militares. A partir de 2008, por iniciativa da então deputada estadual Helena Heluy, o dia 22 de março foi instituído como Dia Estadual de Combate à Tortura.

No fim da tarde de 22 de março de 2007, Gerô foi supostamente confundido com um assaltante nas imediações da cabeceira da Ponte do São Francisco, no Centro da cidade. Ali começou seu calvário, que duraria algumas horas até o óbito. Gerô era negro. Escrevi um texto na ocasião, indignado com o acontecimento.

No ano seguinte, o Bloco Tradicional Pau Brasil, do bairro do Anjo da Guarda, homenageou o artista. O samba-tema Salve Gerô! (ouça aqui) tem música de Gigi Moreira e letra de Gigi Moreira, Jeovah França, Josias Sobrinho e deste blogueiro.

O episódio cujo desfecho trágico foi seu assassinato não era o primeiro nem o único em que Gerô foi vítima de racismo. Lembro-me de uma vez em que estávamos em um bar, na Praia Grande, e o artista foi arrancado à rua com seu violão. Supostamente buscando alguma droga, Gerô foi revistado de forma vexatória, ao tempo em que tirava onda dos policiais: “eu carrego é na mente”, gritava com sua voz peculiar, lutando contra as injustiças sem perder o bom humor.

Gerô publicou diversos cordéis com o pseudônimo Linguafiada. Nunca se furtou a denunciar a violência, opressão, racismo, desigualdade social. Sempre teve lado: o dos oprimidos.

Após sua morte, a então Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma) lançou A peleja de Gerô, disco compilando gravações que havia deixado, entre as quais Canto de passarinho, parceria com o violonista Domingos Santos que, defendida por Fátima Almeida no Festival Viva de Música Popular de 1985, acabou por dar nome artístico a uma de nossas mais populares cantoras: Fátima Passarinho.

O martírio de Gerô e seu legado serão lembrados hoje (22), às 17h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), por iniciativa do cordelista Moisés Nobre, seu parceiro. O evento contará com exposição de objetos pessoais de Gerô, debate sobre direitos humanos, igualdade racial e combate à tortura, além de sarau poético-musical.

Entre os nomes confirmados estão os secretários de Estado Francisco Gonçalves (Direitos Humanos e Participação Popular), Gerson Pinheiro (Igualdade Racial), além de artistas como Joãozinho Ribeiro, Cesar Teixeira, Fátima Passarinho, Arlindo Carvalho, Gigi Moreira e Rosa Reis, entre outros.

Na próxima sexta-feira (24), às 18h30, Gerô será homenageado também na Faculdade Estácio, por iniciativa do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, professor da instituição, no evento As várias mortes de Gerô.

O debate contará com a presença de diversos docentes da Estácio, além de Moisés Nobre, Carlos Antonio (advogado do caso Gerô, que garantiu a indenização paga recentemente à família), o sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos, além deste que vos perturba. Ambos os eventos são abertos ao público e têm entrada gratuita.

Com gingado, Lira Neto conta histórias do samba

[O Imparcial, ontem]

Inaugurando nova trilogia, Uma história do samba: volume I (As origens), novo livro do autor das biografias de Padre Cícero e Getúlio Vargas, conta as histórias do início do samba e sua consolidação como gênero musical brasileiro por excelência

Uma história do samba: volume I (As origens). Capa. Reprodução
Uma história do samba: volume I (As origens). Capa. Reprodução

 

Autor das bem sucedidas biografias de Padre Cícero [Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão; Companhia das Letras, 2009] e Getúlio Vargas [Getúlio: dos anos de formação à conquista do poder (1882-1930); Companhia das Letras, 2012; Getúlio: do Governo Provisório à ditadura do Estado Novo (1930-1945); Companhia das Letras, 2013; e Getúlio: da volta pela consagração popular ao suicídio (1945-1954); Companhia das Letras, 2014] – trilogia que vendeu 250 mil exemplares – o escritor Lira Neto se põe agora a contar as histórias do samba em Uma história do samba: volume I (As origens) [Companhia das Letras, 2017, 342 p.; R$ 64,90], primeiro volume de uma nova trilogia.

Lira Neto acerta ao usar o artigo e o plural no título de seu novo livro: trata-se de uma história, sua versão, digamos, das origens do brasileiríssimo gênero musical, do qual até hoje é impossível falar no singular.

De quando o samba ainda era uma denominação comum para festas, em vez de designar um gênero musical, até o início do primeiro governo de Getúlio, o autor passeia por diversos momentos e nomes fundamentais para a consolidação do samba como essa espécie de atestado de brasilidade em que se configurou.

Sem se pretender dono da verdade, o autor tem a ginga e a malemolência para entrecruzar diversos episódios e contar várias histórias deliciosas. Não é, no entanto, um livro menos sério, fruto de árdua pesquisa – notas e fontes somam quase 40 páginas.

O livro começa com o convite de Heitor Villa-Lobos, então diretor do Departamento de Música da Secretaria de Educação e Cultura do Distrito Federal – à época ainda o Rio de Janeiro – a Zé Espinguela para o resgate de um cordão carnavalesco.

Passa pelas parcerias inaugurais do maranhense Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco, pela fundação das primeiras escolas de samba, como a Deixa Falar – que viria a dar na Estácio de Sá – e a Estação Primeira de Mangueira, por Cartola, Carlos Cachaça e companhia, pela gravação de diversos músicos e músicas populares brasileiros a bordo de um navio, numa jogada de marketing e política de boa vizinhança americana, entre os quais estavam Cartola e a santíssima trindade da música brasileira: Pixinguinha, Donga e João da Baiana.

Uma história do samba: volume I (As origens) visita também a polêmica em torno de ter sido (ou não) o maxixe Pelo telefone [1916], de Donga, o primeiro samba – a música é considerada marco inaugural do gênero e em torno de sua data de gravação celebrou-se, ao longo de 2016, prolongando-se por este ano, o centenário do samba.

Conta deliciosas histórias sobre Noel Rosa – que trocou a medicina pelo samba, até morrer tuberculoso aos 26 anos –, outro nome fundamental para a popularização e “urbanização” do samba, Ismael Silva, Francisco Alves e Mário Reis – estes, dois dos maiores cantores de sua época, ganharam fama também como “comprositores”, isto é, pagavam para ter seu nome em parcerias em que não puseram nada além da voz, uma espécie de pedágio ou jabá, antes de esta acepção ter sido inventada.

Lira Neto foge da enfadonha linearidade, escreve como se sambasse, e, qual um passista na avenida, leva o leitor a Paris com Os Oito Batutas, naturalmente liderados por Pixinguinha, passeando depois pelas agruras que o grupo enfrentou em turnê pela vizinha argentina. Lembra ainda Sinhô, autor de Jura, tido como o Rei do Samba, que faleceu na miséria, vítima da tuberculose que venceu tantos artistas, além das primeiras competições entre as escolas de samba cariocas, organizadas pelo efêmero Mundo Sportivo, jornal comandado por Mário Filho – que viria a batizar o estádio do Maracanã.

Com pitadas de indispensável bom humor, Lira Neto acompanha as evoluções do samba neste curto período inaugural. Merecem atenção do leitor também o destacado papel da crítica e o racismo vigente à época. Ao fim da leitura, impossível não ansiar pelo/s próximo/s volume/s da trilogia Uma história do samba. Este primeiro já se configura obra imprescindível, não só sobre a história do samba, mas sobre a história da música (popular) brasileira.

Autobiografia do criador

Incrível, fantástico, inacreditável. Capa. Reprodução
Incrível, fantástico, inacreditável. Capa. Reprodução

 

A ideia é ao mesmo tempo tão extraordinária quanto óbvia: uma biografia de Stan Lee em quadrinhos. Escrita pelo próprio, com Peter David e Colleen Doran. Trata-se de Incrível, fantástico, inacreditável: a biografia em quadrinhos do gênio que criou os super-heróis da Marvel [Amazing, fantastic, incredible: a marvelous memoir; tradução: Maurício Muniz; Novo Século Editora, 2016, R$ 59,90].

É o próprio Stan Lee, tornado personagem, quem narra seus feitos, sem medo de soar imodesto. Pelo contrário: não teme afirmar ter sido fundamental para a revolução no universo não apenas dos quadrinhos, mas de toda a cultura pop do planeta no século passado.

Lembra a infância difícil, quando se manifesta o interesse precoce por literatura, alguns subempregos no começo da adolescência, a passagem pelo exército – já na condição de escritor – e a paixão avassaladora pela futura escritora Joan Lee, autora de O palácio do prazer, com quem está casado desde os 25 anos.

Suas aventuras pelo mundo das HQs começa com o convite para escrever um roteiro do Capitão América. Nunca mais a nona arte foi a mesma. Tanto que, anos depois, a concorrente DC Comics convidaria Stan Lee para re/fazer seus personagens a seu modo.

O começo não foi fácil: comumente visto como arte menos importante, autoridades americanas, à época, relacionavam histórias em quadrinhos ao uso de drogas e durante algum tempo certo bom mocismo acabou por censurar muitas histórias. Quem ousou peitar as autoridades foi justamente Stan Lee, que após a encomenda de uma agência do próprio governo americano, não achou justo deixar de publicar uma série de histórias que versava justamente contra o uso de drogas.

Incrível, fantástico, inacreditável é uma verdadeira declaração de amor a super-heróis como o Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, O Incrível Hulk, Thor, O Homem-Formiga e sua companheira Vespa, O Homem de Ferro, Conan, o Bárbaro, O Justiceiro e os X-Men, entre outros que, de tão populares, são por demais conhecidos até mesmo por quem não se interessa por quadrinhos, além de nomes importantes para o desenvolvimento e/ou consolidação de vários destes personagens, como John Romita, Steve Ditko e, entre outros, Larry Lieber, classificado pelo próprio Lee como “um dos heróis desconhecidos dos quadrinhos. Um incrível escritor, criador de layouts, desenhista. Ele faz seu trabalho de maneira linda e eficiente. Em sua carreira, ele escreveu e desenhou quase todo tipo de quadrinho com louvor. Pra ser justo, acho que às vezes eu tinha que fazer força pra não favorecê-lo frente a outros profissionais por ser meu irmão”.

A biografia vai tão a fundo que resgata episódio pouco conhecido: o beatle Paul McCartney procurou Stan Lee para que fosse produzido um gibi sobre o lançamento de Seaside woman, canção de sua banda Wings, cantada por sua esposa, Linda McCartney, sob o pseudônimo de Suzy and The Red Stripes, apelido de Linda na Jamaica, graças a uma versão reggae de Suzie Q e Red Stripe a cerveja mais popular da terra de Bob Marley. Linda faleceu antes de o projeto se concretizar. Em 1977 Stan Lee lançaria um gibi protagonizado pelo Kiss.

Imodéstia e bom humor caminham em paralelo nesta obra fundamental também para a compreensão da indústria em torno destes seres dotados de superpoderes. Quando lembra de uma máquina de escrever quebrada em meio a uma briga qualquer com a esposa, da qual sobraram peças para todo lado, arremata: “foi antes de existir o Ebay. Pena. Eu poderia ter leiloado as partes por muito dinheiro”.

Cifras monumentais giram em torno de Stan Lee, que lembra que, após uma longa batalha judicial, o Homem-Aranha dirigido por Sam Raimi no cinema, em 2002, foi orçado em 139 milhões de dólares, tendo rendido mais de 800 milhões no mundo inteiro – há uma cena do filme em que ele aparece, puxando uma menina para longe dos destroços de um prédio. Desde 1989 ele fez mais de 20 aparições em filmes baseados em personagens que criou ou ajudou a criar.

Conduzida como se fosse uma palestra em que remonta sua vida e obra – e Stan Lee já deu várias voltas ao mundo fazendo isso –, ele deixa ainda preciosos conselhos para quem quiser se aventurar (literalmente) por este universo. Os adjetivos do título ainda são poucos para classificar esta HQ que já nasce antológica.

Best of

Para Belchior com amor. Capa. Reprodução
Para Belchior com amor. Capa. Reprodução

 

O desaparecimento do compositor cearense Belchior tem causado verdadeira comoção aos brasileiros, de maneira geral. Sobram especulações sobre seus motivos, apesar de anunciados ao longo de sua obra, e homenagens. Discos como Belchior Blues [2012], que destaca a porção blueseira de quem disse que “um tango argentino me vai bem melhor que um blue” [em A palo seco, de 1973], e Ainda somos os mesmos [2014], organizado pelo site Scream & Yell, além de shows – o Encontrando Belchior, de Tássia Campos, e a releitura do disco Alucinação [1976] por Gero Camilo –, e até mesmo bloco de carnaval: o Volta Belchior, de Belo Horizonte/MG. Sem contar os gritos e a hashtag #voltabelchior, que se irmanam aos gritos e hashtag #foratemer, para protestar contra o atual estado de coisas no Brasil.

Lançado na altura do aniversário de 70 anos do compositor, completados em 26 de outubro de 2016, soma-se a este lote de homenagens Para Belchior com amor [Miragem Editorial, 2016, 96 p.], livro organizado pelo cearense Ricardo Kelmer reunindo 14 escritores conterrâneos – inclusive ele próprio – em textos para 14 clássicos do bigodudo mais querido do Brasil. Há contos, cartas, ensaios, memórias.

O conto de Claudene Aragão para Coração selvagem [1977] imagina um encontro seu com Belchior. Escondido num lugar óbvio, o compositor acede vê-la e falar-lhe, ocasião em que revela ter mais de 300 músicas inéditas. Em determinada passagem, o personagem Belchior afirma, sobre seu desaparecimento: “Todas as respostas sempre estiveram nas minhas canções. Fui preparando isso por muito tempo, e nas minhas composições fui deixando pistas sutis do meu plano […]. Não me perdi. Não fugi. Não me escondi. Me permiti viver como eu queria. Afinal de contas, não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja”, citando trecho da composição revivida.

Também merece destaque o conto de Raymundo Netto, que recria, de forma bem humorada, o encontro de Belchior com policiais, como cantado em Fotografia 3×4 [1976]. Cai na brincadeira do nome inventado pelo compositor em entrevista aO Pasquim, quando entre várias lorotas, disse chamar-se Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenele Fernandes – esparrela em que cai também o organizador, ao citar o falso nome de batismo na orelha e numa pequena biografia do homenageado ao final do livro. O verdadeiro nome de Belchior é apenas Antonio Carlos Belchior, como afirma o jornalista Jotabê Medeiros, que lança este ano Pequeno perfil de um cidadão comum, biografia de Belchior em que trabalha já há alguns anos.

A jornalista Ana Karla Dubiela parte das lembranças de um show de Belchior no campus da UFSC em 1984, quando ela estava em lua de mel em Florianópolis, para recontar A palo seco. “Quando fomos testemunhas do desespero que virou moda em 76, éramos adolescentes – e, com algumas exceções, os nossos desesperos eram outros. Pouco mais tarde, universitários, andávamos meio descontentes, é verdade, sem entender muito bem por que o ar era mais denso, os silêncios mais gritantes, as conversas cifradas”, lembra ela, que foi para o show, que “durou bem mais que as duas horas previstas”, “com os LPs debaixo do braço para pedir autógrafo”.

Alucinação [1976], por Thiago Arrais, e Apenas um rapaz latino-americano [1976], por José Américo Bezerra Saraiva, extrapolam o universo das canções escolhidas e do próprio compositor, espraiando-se por outras obras suas, de conterrâneos que buscavam o sucesso no mesmo período, e de artistas (da música ou não) com quem a obra de Belchior sempre dialogou. Com seu estilo peculiar Xico Sá recria Todo sujo de batom [1974] e Gero Camilo amplifica o drama familiar de Na hora do almoço [1971], enquanto Ethel de Paula, em Conheço meu lugar [1979], atesta: “eis que o nome Belchior, segundo o dicionário, significa exatamente isso: “Rei da luz. Rei luminoso”. Ou ainda o seu correspondente terreno, plebeu: “mercador de objetos usados; alfarrabista”. Um simples cantador das coisas do porão. Uma pessoa. E a palavra pessoa, nele, ainda soa bem”.

Ouça Alucinação, eleito por internautas e críticos do jornal O Povo, “o melhor disco cearense de todos os tempos”:

Caixa reúne álbuns clássicos de Cartola e compilação de parte menos conhecida de sua obra

O compositor mangueirense em fotografia de Walter Firmo de 1980, ano em que veio a falecer
O compositor mangueirense em fotografia de Walter Firmo de 1980, ano em que veio a falecer

 

Nome fundamental da música brasileira em qualquer tempo, Cartola foi um dos responsáveis pela popularização do samba, sendo um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, uma das primeiras e até hoje mais populares escolas de samba do Brasil. Deixou ao menos dois discos definitivos, ambos batizados simplesmente com o nome do compositor, lançados pela gravadora Discos Marcus Pereira, em 1974 e 1976, respectivamente.

Como assim, Cartola só chega ao disco na década de 1970, se décadas antes havia ajudado a transformar o carnaval carioca? Pois é, a coisa se deu tardiamente, e ele já contava mais de 60 anos ao estrear no mercado fonográfico, após o escritor Sérgio Porto – ou Stanislaw Ponte Preta – descobri-lo lavando carros – já havia sido pedreiro, onde ganhou o apelido: usava um chapéu coco para proteger os cabelos contra a poeira das obras.

Depois da re/descoberta – já era um compositor apreciado em Mangueira – o produtor João Carlos Botezeli, o Pelão, responsabilizou-se pelo resto e a estreia de Cartola vendeu mais de 20 mil exemplares em poucos meses e é até hoje um dos mais bem sucedidos discos do catálogo de Marcus Pereira – que lançou mais de 100 discos ao longo de pouco mais de década de atuação, muitos deles inéditos no formato digital.

“Ele não só fundou a Estação Primeira como lhe deu o nome e as cores verde-e-rosa. Foi o seu primeiro diretor de harmonia”, afirma o jornalista Sérgio Cabral (não confundir com seu filho) no texto da contracapa do LP original. “Villa-Lobos […] era um grande admirador de Cartola e o convidou várias vezes para participar de espetáculos que promovia. Foi parceiro de Noel Rosa e seus sambas foram gravados por intérpretes como Francisco Alves, Mário Reis, Silvio Caldas, Carmen Miranda, Elizeth Cardoso e Paulinho da Viola. São muitos, portanto, os títulos de Cartola, o mestre de tantos compositores importantes (o próprio Paulinho da Viola o aponta como a sua grande influência)”, continua, destacando a importância do mangueirense.

Todo tempo que eu viver. Capa. Reprodução
Todo tempo que eu viver. Capa. Reprodução

“O sucesso de vendas e de crítica do LP de estreia de Cartola abriu as portas de um novo mundo para o sambista, que passou a fazer muitos shows por todo o país. Pela primeira vez, Cartola estava vivendo apenas de sua arte. Os mais de 50 mil LPs vendidos em menos de um ano também animaram a gravadora Discos Marcus Pereira a levar Cartola novamente para o estúdio”, aponta o jornalista e pesquisador musical Eduardo Magossi em texto no encarte da reedição do disco de 1976, que, ao lado da estreia e de Tempos idos, integra a caixa Todo tempo que eu viver [Universal, 2016, R$ 79,90], caprichada reedição que inclui fichas técnicas e textos das contracapas dos LPs originais.

Pelão e o diretor artístico Aluízio Falcão haviam deixado a Marcus Pereira no ano anterior e a produção do novo disco ficou a cargo de Juarez Barroso, que trabalhava no caderno cultural do Jornal do Brasil. Dino 7 Cordas, arranjador do disco anterior, foi mantido no posto.

Se, do primeiro disco, além de Dino, haviam participado da gravação músicos como Elton Medeiros (ritmo), Jayme Florence, o Meira (violão), Canhoto (cavaquinho), Copinha (flauta) e Raul de Barros (trombone), entre outros, o segundo trazia também Abel Ferreira (sax tenor) e Altamiro Carrilho (flauta), além de marcar a estreia em disco do violonista Guinga.

Se a estreia era completamente autoral, com algumas faixas assinadas em parceria, no segundo disco Cartola cantou sambas de sua lavra e de outros bambas. Considerado o oitavo melhor disco da música brasileira em eleição da revista Rolling Stone Brasil, o álbum de 1976 tem clássicos como O mundo é um moinho (Cartola), Sala de recepção (Cartola) – que Pelão arrependia-se de não ter incluído no repertório da estreia –, Preciso me encontrar (Candeia), Peito vazio (Cartola), Acontece (Cartola), Meu drama (Senhora tentação) (Silas de Oliveira) e Cordas de aço (Cartola). A inclusão do portelense Candeia e do imperiano Silas de Oliveira no repertório demonstra que as preocupações primeiras eram a beleza e qualidade dos sambas.

Hoje um clássico, Sala de recepção, foi composta em 1941 quando “Paulo da Portela, desgostoso com a escola que fundara, mudou-se para a casa de Cartola, na Mangueira. Queria mudar de escola, mas os mangueirenses convenceram-no do contrário: seu lugar era na Portela, para onde o levaram de volta, em comitiva. Sobre a permanência de Paulo na Mangueira, Cartola fez na época este samba, inédito e aqui apresentado em diálogo com Creusa [filha de criação de Cartola, ela também canta em Ensaboa]. O inimigo que, na Mangueira, “se abraça como se fosse irmão”, evidentemente é Pauo da Portela”, afirma em um faixa-a-faixa na contracapa do LP original o jornalista/produtor Juarez Barroso. Preciso me encontrar tem o fagote de Airton Barbosa, do Quinteto Villa-Lobos.

Se é bastante conhecido o repertório dos dois títulos inaugurais de Cartola, bem como de outros, lançados posteriormente, já fora da gravadora Marcus Pereira, a “surpresa” da caixa Todo tempo que eu viver reside em Tempos idos, que “compila toda a discografia avulsa de Cartola registrada durante os anos de 1967 e 1976 em discos de outros artistas e projetos especiais para gravadoras como Copacabana, Tapecar, Odeon, Discos Marcus Pereira, e até para uma série de fascículos da Editora Abril”, anuncia Eduardo Magossi em texto no encarte.

O jornalista, que assina a curadoria do lançamento, explica a origem da faixa que dá título ao terceiro disco da caixa: “ela foi composta em 1961 – ano em que Cartola voltava para a Mangueira depois de um afastamento de 21 anos – como candidata a samba-enredo da escola no carnaval. A música, contudo, que fazia um relato saudosista e poético da história das escolas de samba e do carnaval carioca, não foi escolhida, segundo a escola, por não ter elementos capazes de empolgar o público”.

“Pelos salões da sociedade/ sem cerimônia ele entrou/ já não pertence mais à Praça/ já não é samba de terreiro/ vitorioso, ele partiu para o estrangeiro/ e muito bem representado/ por inspiração de geniais artistas/ o nosso samba, humilde samba/ foi de conquistas em conquistas”, diz a letra da parceria com Carlos Cachaça.

A compilação inclui pot-pourris em que o compositor aparece ao lado de Clementina de Jesus e Elizeth Cardoso e Odete Amaral, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho e Carlos Cachaça, além de gravações ao vivo de clássicos como Quem me vê sorrindo, O sol nascerá, Alvorada e Acontece. Traz ainda os sambas-enredo Vale do São Francisco, de 1948, e Chega de demanda, de 20 anos antes, “uma das primeiras composições de Cartola e o primeiro samba-enredo da recém-fundada Mangueira”, atesta Magossi.

Entre clássicos e músicas menos conhecidas, mas fundamentais para uma melhor compreensão do universo de Cartola, Todo tempo que eu viver é um mergulho indispensável na obra daquele que era considerado por Nelson Cavaquinho “o maior compositor da nossa música”, conforme declarou em entrevista a Sérgio Cabral.

Ouça Cartola e Creusa em Sala de recepção:

Praia Grande exibe hoje última sessão de Elis

De amanhã a quarta (22) será exibida a mostra Cinema por elas, com filmes dirigidos por mulheres e ingressos a preços promocionais

Andréia Horta encarna Elis à perfeição. Frame. Reprodução
Andréia Horta encarna Elis à perfeição. Frame. Reprodução

Elis [drama/biografia, Brasil, 2016], a cinebiografia da cantora gaúcha, emociona por diversos aspectos. Falar da trilha sonora é quase uma obviedade. O grande destaque é a atuação estonteante de Andréia Horta, no papel da protagonista: há ali uma entrega de tal maneira, que ela encarna a personagem à perfeição. É convincente e surpreendente, além de ousado: trata-se da estreia de Hugo Prata na direção cinematográfica, encarando logo um furacão cujo apelido era Pimentinha.

O filme se concentra entre a chegada de Elis Regina ao Rio de Janeiro para tentar o sucesso, no exato instante em que os militares tomavam o poder através de um golpe, até a morte da cantora, passando pelos casamentos e seus altos e baixos na carreira artística e na vida doméstica, além dos embates à direita e esquerda – Henfil (Buce Gomlevsky), cartunista dO Pasquim, desenhou-a cantando em um túmulo, quando a mesma, com medo, cantou nas Olimpíadas do Exército, a que acabou obrigada após críticas ao regime em entrevista a jornalistas durante uma turnê no exterior.

O cartunista e seu irmão Betinho, o sociólogo Herbert de Souza, então exilado, seriam homenageados em O bêbado e a equilibrista, parceria de João Bosco e Aldir Blanc, um dos maiores sucessos de Elis Regina até hoje.

Elis orbita em torno de personagens fundamentais para a carreira da artista: Ronaldo Boscôli (Gustavo Machado), Miéle (Lúcio Mauro Filho), Lennie Dale (Júlio Andrade), Nelson Motta (Rodrigo Pandolfo), Jair Rodrigues (Ícaro Silva) e César Camargo Mariano (Caco Ciocler), entre outros. É feliz ao reconstituir a atmosfera de uma época em que brigavam entre si a bossa nova, a jovem guarda e uma miríade de gêneros abrigada pela genérica sigla MPB, em cuja consolidação Elis Regina teve destacado papel, participando de festivais e programas de tevê.

Compositor que Elis Regina ajudou a projetar, Belchior abre e fecha o filme, com as interpretações da cantora para os clássicos Como nossos pais e Velha roupa colorida, ambas gravadas por ela no disco Falso brilhante [1976], após o sucesso da turnê homônima. Desaparecido há alguns anos, reside aí bela homenagem ao cearense – e mais um bom motivo de emoção para o espectador.

Elis terá sua última sessão no Cine Praia Grande hoje (15), às 18h. Os ingressos custam R$ 16,00 (metade para estudantes com carteira e demais casos previstos em lei).

A partir de amanhã (16), além da programação normal, entra em cartaz a mostra O cinema por elas, inteiramente composta por filmes dirigidos por mulheres – com ingressos promocionais a R$ 6,00 para todos/as –, que exibirá os seguintes títulos:

Amanhã (quinta, 16)
16h20: A cidade onde envelheço, de Marília Rocha
18h20: Às cinco da tarde, de Samira Makhmalbaf

Sexta (17)
16h20: As patricinhas de Beverly Hills, de Amy Hackerling
18h: Selma, de Ava DuVernay

Sábado (18)
16h: Olympia – Volume 1, de Leni Riefenstahl
18h: Point break: caçadores de emoção, de Kathryn Bigelow

Domingo (19)
16h20: Tomboy, de Céline Sciamma
18h: Encontros e desencontros, de Sofia Coppola

Segunda (20)
16h20: Pasqualino Sete Belezas, de Lina Wertmuller
18h15: Psicopata americano (versão da Diretora), de Mary Harron

Terça (21)
16h20: Um divã em Nova Yorque, de Chantal Akerman
18h: Fogo sagrado, de Jane Campion

Quarta (22)
16h20: Maldito coração, de Asia Argento
18h: Sessão Especial Coletivo Salé (entrada franca)

MPB-7

Quase 1.500 almas lotaram completamente ontem (11) o Centro de Convenções Pedro Neiva de Santana para prestigiar um histórico encontro de gigantes: MPB-4, Toquinho e Ivan Lins (por ordem de subida ao palco) trouxeram à ilha o espetáculo com que comemoram seus 50 anos de carreira, com produção local de Mário Moraes e Alegria Produções. Vinham de Teresina/PI, onde a apresentação foi cancelada por falta de público.

“50 anos da gente, mais 50 do Toquinho, mais 50 do Ivan Lins, que eu acho que esconde a idade, são na verdade 150 anos de música”, brincou Miltinho (voz e violão), após abrirem com De frente pro crime (João Bosco/ Aldir Blanc).

É um show descontraído, não há guerra de egos ou coisa que o valha. Estão todos irmanados em oferecer o melhor de si, em nome da música, com muito bom humor. “Espero que vocês aí gostem. Aqui no palco, podem ter certeza que adoramos”, continuou Aquiles (voz) – o grupo se completa com Paulo Malaguti (voz, teclado e percussão) e Dalmo Medeiros (voz e percussão, ex-Céu da Boca).

Destaque, na apresentação do MPB-4, para a sequência Chico Buarque, em que entoaram Yolanda (Pablo Milanés, versão de Chico Buarque), Apesar de você, Roda viva e Cálice (Chico Buarque/ Gilberto Gil).

A interpretação de Amigo é pra essas coisas (Aldir Blanc/ Silvio Silva Jr.), certamente uma das mais aguardadas da noite, foi algo sublime, de arrepiar, um show à parte.

O espetáculo como um todo, não podia ser diferente, era uma espécie de antologia ao vivo. Não à toa surgiu Toquinho, violão em punho, atacando de Tarde em Itapuã (Toquinho/ Vinicius de Moraes). Ainda com o MPB-4 no palco desfilou seu repertório infantil: A casa (parceria com Vinicius de Moraes), Ar (O vento) (idem), A bicicleta (Mutinho/ Toquinho), O caderno (Toquinho/ Mutinho) e Aquarela. Em meio a tudo isso, O pato (Toquinho/ Vinicius de Moraes), com direito a incidental de Miltinho imitando a voz do Pato Donald ao entoar Ninguém me ama (Antonio Maria). “O pato tá fodido!”, gracejou ainda no timbre do personagem da Disney.

Discípulo de Paulinho Nogueira, Toquinho reverenciou seus mestres do violão, incluindo Gente humilde (Garoto; a música depois ganhou letra de Chico Buarque e Vinicius de Moraes) no repertório. Não esqueceu também seu primeiro sucesso: Que maravilha (parceria com Jorge Ben). Tampouco deixou de fora Samba de Orly, outra parceria “adulta” com Vinicius de Moraes.

Antes de sair do palco, anunciou Ivan Lins, que seria acompanhado, na percuteria, por outra lenda viva da música brasileira, o que garante a sigla-soma do título desta resenha: João Paraíba, integrante do mítico Trio Mocotó – que gravou com Jorge Ben no início da carreira, e com o jazzista Dizzy Gillespie, cujas sessões, por anos desaparecidas, renderam o ótimo Dizzy Gillespie no Brasil com Trio Mocotó, gravado em 1974 e lançado apenas em 2010.

Pouco depois de subir ao palco, Ivan Lins reclamou do excesso de luzes de celulares apontados em direção ao palco. Alegou desconcentrar-se e pediu a compreensão da plateia. Em sequência, pouco ligando para se a plateia atendeu ou não a seu apelo, passeou por repertório autoral, incluindo, entre outras, Abre alas, Lembra de mim e Madalena, além de Sou eu (parceria com Chico Buarque). A plateia foi ao delírio.

Foi um show recheado de histórias engraçadas, muito bem humorado. Toquinho, por exemplo, lembrou de quando o compositor e cronista Antonio Maria se passou por Vinicius de Moraes ao encontrar uma mulher muito bonita num avião, lendo um livro do poetinha – não havia no livro foto de seu autor e Maria morria de medo de aviões. Levou a mentira até o fim, tendo saído com a mulher, a quem convidou para jantar. Ao encontrar Vinicius, contou: “você broxou!”.

Ivan Lins lembrou-se de quando, entrevistado por Alcione, Tom Jobim respondeu que a única saída para a música popular brasileira era o aeroporto – resposta que ele não mudou apesar da insistência da direção da emissora. “Era um tempo em que a Globo ainda tinha programas de tevê dedicados a boa música. Mas isso foi há muito tempo”, afirmou, entre o lamento e a galhofa, para aplausos da plateia.

Lembrou-se também de Cauby Peixoto, gravando um “difícil” como “difíxil”, como se imitasse o Jorge Ben de Por causa de você menina, o “você” pronunciado como se grafado com x. Lembrou-se até de Latino, que gravando uma participação em um disco, foi advertido várias vezes pelo diretor: “você desafinou”, seguido de “está fora do ritmo”, “tem que ter sentimento”. Ao que o cantor retrucou: “eu sou só um: ou canto afinado, ou no ritmo, ou com sentimento”.

O apoteótico final reserva o encontro no palco de sete grandes artistas, passeando por Regra três e, no bis, Quem te viu, quem te vê, dos onipresentes Vinicius de Moraes (parceria com Toquinho) e Chico Buarque, respectivamente. “Noite de gala”, como (quase) diz a letra da saideira.

BASTIDORES

Passagem de som de 50 anos de música. Foto: Zema Ribeiro
Passagem de som de 50 anos de música. Foto: Zema Ribeiro

Pouco antes do show, Homem de vícios antigos foi até os camarins e conversou rápida e exclusivamente com os astros da noite

Homem de vícios antigos – Vocês têm uma relação com o Maranhão de longa data, desde que defenderam Gabriela, num festival em 1967, e depois gravaram Descampado verde, ambas de Chico Maranhão. Qual a sensação de visitar a terra de um parceiro das antigas? Vocês mantêm algum tipo de contato até hoje? Há algum número de Chico Maranhão previsto no roteiro?
Aquiles
– Não. A gente não canta há muito tempo Gabriela, nem Descampado verde. Descampado verde por acaso eu até ouvi recentemente a gravação. Eu falo com ele por facebook, ele disse que vai a São Paulo e a gente está combinando de se encontrar para tomar uma cachaça. Ele falou que vai para passar um tempo, tem umas coisas para fazer, e a gente vai se encontrar. A gente foi muito junto com ele, no início da nossa carreira, exatamente aquele festival, outros festivais, a gente andava junto, era uma turma de amigos que por acaso cantavam, faziam sucesso, a gente ficou bem próximo naquela época, depois cada um espalhou. A gente já veio algumas vezes, fazia tempo que a gente não vinha à São Luís e eu espero que para vir uma próxima vez não demore tanto.

Vocês estão comemorando 50 anos de carreira, começaram dentro de um período turbulento da história brasileira, a ditadura militar. Que paralelo vocês fazem com o momento político vivido no Brasil, hoje?
Aquiles
– Quando a gente começou a gente vivia sob uma ditadura. Agora a gente não vive sob uma ditadura, ao contrário, estamos em um regime democrático, mas existe uma crise política muito forte, que em alguns momentos parece até que não estamos em uma democracia. Mas o fato é que a gente está numa democracia e temos que descobrir jeitos de endireitar o que está torto, completamente torto.

Você tocou muitos anos com Papete, que nos deixou recentemente. Qual o lugar e a importância de Papete?
Toquinho
– Eu conheci o Papete e trabalhei com ele durante muitos anos. Fizemos tantos shows, fora do brasil, aqui. Papete era um dos melhores percussionistas do mundo. Ele tinha uma precisão incrível, matemática, parecia um cientista tocando percussão. Ele tocava tudo, eu fazia meus discos com ele. Eu queria fazer uma escola de samba, ele gravava toda a escola de samba, gravava o bumbo, depois o pandeiro, depois o tantã, repinique, ele fazia instrumento por instrumento, gravava tudo. Cantava muito bem, fez vários discos importantes, resgatando toda uma cultura popular, tanto daqui quanto de outras regiões do Brasil. Era um músico fantástico, trabalhou com pessoas importantes, não só comigo, com Vinicius, Almir Sater. Fiz uma turnê com ele, só violão e percussão na Itália, nós trabalhamos muito, gravamos muito, muitos discos. Eu tinha uma confiança enorme musical nele, como amigo também, claro. Dividimos vários momentos, não só no palco, mas no cotidiano, fizemos grandes investidas musicais. Meus discos quase todos foram gravados com a percussão do Papete. Era um dos maiores percussionistas do mundo, não só do Brasil. Acho que se ele tivesse ido para os Estados Unidos ele seria um percussionista como alguns brasileiros que estão lá e são conhecidos mundialmente. Ele seguramente estaria ali no nível desses grandes músicos, mas aqui no Brasil ele fez um trabalho muito bonito mesmo, vai deixar saudade e uma lacuna que não pode ser preenchida facilmente. Ou melhor, não vai ser preenchida à maneira dele. Ele tinha uma sensibilidade, uma precisão e uma sutileza para tocar que realmente eu não vejo em outros percussionistas até hoje.

Você ficou muito conhecido por Aquarela, há pouco na passagem de som você tocou O vento, A bicicleta. Tua obra vai muito além dessa faceta infantil. O fato de você ser mais reconhecido por ela te incomoda?
Toquinho
– Eu não concordo com isso, não acho que eu sou conhecido como música infantil. Acontece que essas músicas estão ficando mais que as outras. É um dos caminhos que eu segui. São gerações que estão passando e elas ficam novas para as crianças que estão vindo e vai ficando, de geração em geração. Essas músicas não estão morrendo. Tarde em Itapuã é uma geração que ouviu. Quando você pega Aquarela, A bicicleta, O caderno, os colégios estão fazendo festa de final de ano com elas. As crianças estão vendo essas canções como canções novas. O cara que tem 50 anos hoje cresceu ouvindo essas músicas, o filho dele, pode ser que ele já tenha netos. Na minha geração eu sou o único que tem essa vantagem. O que tem de gente, criança no shopping que vem me pedir autógrafo, às vezes a mãe quer o autógrafo, faz a criança cantar [risos]. Toda essa geração de 15 anos me conhece, pode conhecer o resto, mas vem por esse lado. Vem aqueles adultos falar comigo: “cresci ouvindo sua música” [risos]. [O disco] A Arca de Noé foi [lançado em] 1980, nós estamos falando de quase 40 anos. Aquarela é de 1983, são 33 anos. Quem tem 40 anos hoje, tinha sete quando ela foi feita. Isso que você ouviu [na passagem de som] é por que nós temos um momento no show só de música infantil. É de um show que eu faço com o MPB-4, nós resgatamos essa célula do show. Eu não posso deixar de fazer no show um momento lúdico. Eu tou pra fazer um show, uma produção grande, só de música infantil. Eu tenho quatro discos de música infantil, A Arca de Nóe [volumes] 1, 2, Casa de brinquedos e os Direitos da Criança [Canção de todas as crianças, de 1987], que é uma coisa reconhecida pela ONU. O público mais forte que existe é o infantil, ele carrega três quando vai assistir, leva mãe, pai, tia, avó.

Vinicius de Moraes é tua maior saudade na música?
Toquinho
– Ele me dá saudade mais pessoal do que musical. [Quando] Ele morreu, um ano antes eu já estava trabalhando sem ele. Me dá saudade dessa hora, ele aqui tomando uísque, o que ele diria do Brasil hoje, seria muito bom ouvir a piada dele com o Tom Jobim, eram pessoas muito inteligentes. Faz falta isso, o que eles diriam de tudo, que músicas eu teria feito com ele esse tempo todo. Mas ao mesmo tempo eu esgotei com o Vinicius. Foram 10 anos, a gente morava junto, foram mais de 130 músicas, mais de 1000 shows. Chegou um momento que tinha que parar a parceria, ele foi embora na hora que tava madura já a coisa. Parece que ele me deu um aval para seguir a carreira sozinho, e foi um grande aprendizado com ele, que eu tou usufruindo até hoje, nós estamos falando dele até agora. Ele quem me passou esse lado infantil, esse lado lúdico, eu nunca pensei que eu fosse fazer música infantil na minha vida. Ele era muito mais jovem que eu, o tempo inteiro, eu era muito mais o fio-terra da relação, ele era o cosmonauta, o Vinicius era jovem, eu era muito mais velho. Eu comecei a musicar os poemas infantis dele, O pato, O pinguim, brincando, nunca pensei que a gente ia ficar disco. A gente gravou na Itália, a gente não tinha coragem de gravar no Brasil, essas cançõezinhas, a gente não tinha noção de como ia ficar. Na Itália estourou o disco, La casa [cantarola trecho de A casa em italiano]. Aí o Vinicius falou “vamos gravar no Brasil”. Chamamos vários artistas, que é A Arca de Noé, Chico, Milton Nascimento, todos toparam, foi um estouro, especial de televisão, Globo. A gente percebeu que tinha um caminho que estava aberto, era o blá blá blá, o refrãozinho, a gente começou a fazer isso de uma maneira mais séria, sem subestimar a criança. Tá dando no que deu. Estou com um trabalho muito bonito para fazer com o Elifas Andreato, que é A casa dos sonhos. São sentimentos que ganham vida e cada sentimento tem uma canção. O primeiro sentimento que eu fiz foi a mentira, é uma personagem maravilhosa, é ela quem canta. Tem muita coisa para se fazer no mundo infantil, eles me ensinaram muito, as crianças. É muito mais difícil você fazer música infantil, tem que ter humor, e ao mesmo tempo não subestimar a criança. Tem coisas que ela não entende que vai perguntar pro pai, aí o pai já tem que se interessar pela música. O caderno é um exemplo típico, é uma canção que as pessoas se emocionam até hoje. É uma canção infantil, mas ao mesmo tempo não é, você mexe no emocional da mulher, da menina, o caderno acompanha a gente desde os primeiros rabiscos, passando por várias fases. É infantil isso? Não sei, mas ficou sendo. Aquarela? Nunca foi música infantil, é uma música, só que as crianças adotaram, a publicidade da Faber Castell foi importante, tem 25 anos já, fazendo Aquarela, Aquarela, claro, as crianças adotaram isso, a coisa do lápis de cor. A vida é feita de circunstâncias, você não tem às vezes a intenção de fazer aquilo ou de dar a dimensão que ela assume, é a vida que faz isso, não sou eu. Eu só faço a música.

Você é um dos artistas brasileiros de mais prestígio internacional. Qual o segredo?
Ivan Lins
– Essa aceitação não sou eu só, é toda uma comunidade de compositores que mantiveram dentro de sua música as raízes brasileiras. O grande diferencial que tem nisso tudo é o fato de que nós temos raízes brasileiras no nosso trabalho e ao mesmo tempo, quer dizer, nós temos a influência da música clássica, do jazz, da música folclórica brasileira. Nós somos uma mistura e a forma como nós desenvolvemos essa mistura é que cria essa identidade. Nossa linguagem é completamente diferente da deles. Tem similaridade nos acordes, nas harmonias, mas nós temos uma maneira muito particular de compor, e eu estou inserido nisso. Minha forma de compor agrada muito a eles pelas melodias e harmonias. Minhas harmonias vêm de Antonio Carlos Jobim, vem de Milton, vem de Dori [Caymmi], Ravel, Debussy, basicamente, Carlos Lyra, são assim os mais importantes. E veio também do jazz, antes de começar a compor eu era pianista de jazz e bossa nova, nem cantava, só música instrumental. Essa mistureba toda, a gente tem uma maneira muito particular de processar as informações, a gente percebe que fora, em outros lugares, é o que os encanta, surpreende. O Brasil também tem uma coisa, nós não temos uma escola definida de música. O Quincy Jones falou uma vez uma frase que eu achei incrível: “eu fico impressionado como vocês fogem da didática harmônica que é ensinada nos conservatórios. Vocês, depois de um dó maior perfeito, colocam um si menor com sétima, nona, décima primeira, com a maior naturalidade e totalmente fora da didática, e fica lindo, e fica lindo” [risos]. Talvez até pelo fato de grande parte da gente não estuda música da maneira como a música é ensinada no primeiro mundo, nesses conservatórios. Brasileiro é muito intuitivo e isso é o que faz com que a gente crie essa identidade completamente diferente, e eles levam um susto.