Antonio Giovinazzi fez grande prova e chegou perto dos pontos com o pior carro na Austrália

Antonio Giovinazzi confirmou a tradição de boas estreias no GP da Austrália
Antonio Giovinazzi confirmou a tradição de boas estreias no GP da Austrália.

Falem o que quiserem, o nome do GP da Austrália foi Antonio Giovinazzi. que confirmou a tradição de boas estreias _ que inclui Felipe Nasr em 2015 e Stoffel van Doorne ano passado _ da prova em Albert Park. Alegando ainda não ter se recuperado plenamente de um acidente sofrido no período de férias, Pascal Wehrlein decidiu não participar da primeira etapa de 2017. Com o alemão machucado, coube ao italiano Giovinazzi pilotar o que deve ser o pior carro da categoria. A contusão de Wehrlein permitiu o raro luxo dele participar dos testes pré-temporada, quando o normal seria que ele permanecesse apenas pilotando os simuladores da Ferrari, onde é terceiro piloto sem grandes méritos nem esperanças.

Veja bem, o reserva da Ferrari tem uma carreira respeitável nas divisões de base. Trata-se de um piloto muito mais preparado e merecedor de uma vaga no mundial do que o polêmico endinheirado Lance Stroll. Algo, aliás, que ele mostrou na pista, segurando o canadense por várias voltas apesar da enorme disparidade em termos de equipamento. usando um motor Ferrari do ano passado, ele teve a vantagem transitória da confiabilidade, que deve desaparecer nas próximas provas, que dificilmente contarão com a sua presença. O estreante manteve ritmo suficiente para bater o belga Stoffel Van Doorne, piloto de talento reconhecido que teve chance semelhante pela McLaren ano passado e virou titular em 2017.

O mais provável é que carros como Haas e McLaren ganhem me confiabilidade e desempenho o suficiente para fazer a Sauber comer muita poeira já nas próximas corridas e que o time suíço não volte a rondar a zona dos pontos tão cedo. Mesmo Lance Stroll deve melhorar o suficiente para chegar ao meio do pelotão. Giovinazzi teve uma chance e fez o melhor que poderia ter feito. Wehrlein e Marcus Ericsson, os titulares, devem se revezar nos dois últimos lugares até o final do ano. A Manor vai fazer muita falta por aquelas bandas…

A enorme torcida da Ferrari aguarda a confirmação do Milagre de Barcelona ainda para Março, no GP da Austrália

Sob pressão, a prata da casa parece ter operado o milagre da competitividade na Ferrari SF70H
Sob pressão, a prata da casa parece ter operado o milagre da competitividade na Ferrari SF70H

Com a política interna digna de um clube de futebol brasileiro, a Ferrari viu tantas cabeças rolarem em seu time de engenheiros e projetistas que já era considerada carta fora do baralho para disputar o pódio. Ao melhor estilo Eurico Miranda, Sergio Marchione (Presidente de Fiat e Ferrari) demitiu James Allison e pulverizou as responsabilidades do antigo diretor técnico pela “prata da casa”, sob a responsabilidade de Mattia Binotto. Uma verdadeira receita para o desastre num momento de tantas mudanças técnicas. Mesmo assim, os italianos surpreenderam dominando os testes em Barcelona. Qual a explicação para tamanha reviravolta?

A última vez que a F1 viu algo parecido foi quando, em 2009, depois de uma sequencia de projetos e resultados ruins, a Honda abandonou a categoria e vendeu sua equipe para Ross Brawn. Para a surpresa de todos, a Brawn GP dominaria a temporada, indicando que os japoneses abandonaram o barco logo quando haviam acertado a receita. Pode ser que a Ferrari tenha feito o mesmo com relação a seus ex-funcionários. Jamais saberemos. Em caso de sucesso confirmado, é de se esperar que a prata da casa seja louvada pelo improvável feito de terem recriado mais um projeto fadado ao fracasso em questão de poucos meses, da mesma maneira que Alisson seria considerado o culpado de caso de desastre do SF70H em 2017. Se dermos crédito aos tempos da pré-temporada, o fato é que alguém acertou.

A equipe tem em Sebastian Vettel e Kimi Raikonen a dupla mais forte e equilibrada do grid. Os dois podendo brigar por vitórias tendem a aumentar a tensão em toda parte. Na Mercedez, por exemplo, Hamilton vai ter de se apressar em enquadrar Valteri Bottas como segundo piloto de fato para se concentrar no combate ao inimigo externo.

Outra possibilidade é a de a prata da casa ferrarista estar forçando a barra para aparecer bem, colocando nos testes um carro fora do regulamento para andar rápido e ganhar tempo para manter seus empregos e melhorar o desempenho de fato ao longo do ano. Trata-se de uma manobra comum em equipes menores no sentido de impressionar os patrocinadores. Não é bem o problema da Ferrari, mas não podemos descartar nada até que o milagre de Barcelona se repita na Austrália agora em Março.

Williams divulga imagens oficiais do carro de 2017

O que mais chama a atenção em relação ao FW40 é a fidelidade com que o novo modelo reflete as especulações que vimos na imprensa especializada desde a aprovação das mudanças para 2017. Parece que a aerodinâmica já avançou de tal maneira no mundial que não devemos esperar mais surpresas ou designs exóticos. O segredo do sucesso tende a ficar cada vez mais escondido nos detalhes.

A Manor se despede com dignidade de uma F1 que mudou tarde demais para que ela tivesse uma chance

A equipe não parou de trabalhar enquanto houve esperança. Fica a lembrança do modelo do carro de 2017 para túnel de vento.
A equipe não parou de trabalhar enquanto houve esperança. Fica a lembrança do modelo do carro de 2017 para túnel de vento.

A notícia mais triste deste início de ano acabou atropelada pela troca de comando na categoria. A Manor encerrou suas atividades pouco depois do prazo estabelecido por eles mesmos (20 de Janeiro) para conseguir fechar o orçamento para competir em 2017. Última das equipes que ingressaram no mundial em 2010 a fechar as portas, ela debutou como Virgin por causa do patrocínio de Richard Branson. Com o dinheiro russo veio a mudança de nome para Marussia, marcando a sociedade com esta montadora do país de Vladimir Putin de 2011 a 2015, quando eles faliram pela pela primeira vez.  Na bacia das almas, a administração judicial conseguiu investidores, evitando o leilão de carros e equipamentos em geral.

Desde o início dos patrocínios na Formula 1, lá no fim dos anos 60, que muitas equipes assumem oficialmente os nomes de seus patrocinadores. Em geral, tratava-se de algo com efeito burocrático, fazendo aparecer em tabelas oficiais de classificação nomes como John Player Team Lotus ou Marlboro Team McLaren que, quando muito, eram pronunciados apenas em eventos promocionais e solenemente ignorados pela imprensa. Esse respeito pela real identidade das escuderias deixou de existir recentemente, confundindo o público em nome da farsa com investidores e empresas sem tradição nas corridas insistiam em dar a impressão de que realmente haviam montado uma equipe de Formula 1.

Se a imprensa é o termômetro desta mudança de atitude, não podemos ignorar que a mão invisível por trás dela é, ou era, a de Bernie Ecclestone que, até uns dias atrás, administrava a Formula 1 com a anuência da Federação Internacional de Automobilismo (FIA). É fato conhecido que Bernie espremeu essa laranja até a última gota e parte desse processo passava por assegurar que os patrocinadores tivessem toda a visibilidade possível e imaginável e publicações oficiais, legendas nas transmissões de TV e todo tipo de merchandising. Por essas e outras, a Manor participou oficialmente apenas da temporada de 2016, apesar de estar no mundial desde 2010 carregando nomes alheios em troca do vil metal que sustentou o sonho durante a maior parte de sua trajetória na F1.

Não é a toa que os substitutos de Ecclestone já chegaram falando em rever a divisão do bolo, aumentando os recursos disponíveis para as equipes, entre outras medidas na contramão do que Bernie vinha fazendo, aliviando a pressão extrema com que o baixinho grisalho espremia cada gota da F1. Já com 84 anos, podia-se duvidar que a gestão dele estivesse preocupada com o futuro do mundial. O fato é que o grid vem tendo dificuldades em manter mais de 20 carros. De 2010 pra cá, Lotus/Caterham, Hispania e Manor caíram por problemas financeiros e só alguns milagres podem explicar o fato de a Sauber ter escapado do mesmo destino.

Infelizmente, essa nova filosofia chegou tarde demais para a Manor. O limite entre o crescimento e o colapso na F1 que herdamos de Bernie Ecclestone é tão tênue que a perda do prêmio pela décima posição na tabela, que foi para o espaço com o milagroso nono lugar de Felipe Nasr em Interlagos, significou o fim de tudo. Não havia tempo hábil para conseguir outra fonte de recursos. É mais do que plausível imaginar que uma divisão menos mesquinha da fortuna movimentada pelo mundial teria evitado o desastre. Não estamos falando de amadores ou aventureiros. O time inglês é bem tradicional, com uma história vencedora em outras categorias desde 1990. Eles vinham melhorando e 2017 prometia ser o ano em que poderiam bater a Sauber e deixar nas mãos do time suíço a lanterna da F1.

Agora é tarde. Mesmo que alguém injete dinheiro ou compre a equipe, o lapso no desenvolvimento para esta temporada já fez um enorme estrago. A Manor já vinha, inclusive, trabalhando apenas em adaptar o carro do ano passado para o novo regulamento, um verdadeiro tiro no escuro, para não falar em receita para o desastre. Sairia bem mais barato que desenvolver um modelo novo e plenamente adaptado para as radicais mudanças previstas para 2017. Retomar os trabalhos agora traria a quase certeza de um ano frustrante. A oportunidade de bater a Sauber se dissipou no ar, os funcionários já foram dispensados e muitos já devem ter outros empregos.

O circo muda de mãos e a Formula 1 segue sob nova direção

Chase Carey lidera ao centro, com Ross Brawn como diretor esportivo à direita e Sean Bratches à esquerda, cuidando da parte comercial.
Chase Carey lidera ao centro, com Ross Brawn como diretor esportivo à direita e Sean Bratches à esquerda, cuidando da parte comercial.

Em meio ás aposentadorias de Button, Rosberg e de Massa (esta última já revogada), para não falar do drama da Manor e da novela de quem ficaria com a segunda vaga na campeã Mercedes, quase passou desapercebida a conclusão da troca de mãos da própria Formula 1, cuja aquisição pelo grupo americano Liberty Media finalmente se concretizou. O sinal mais evidente do choque de gestão que os ianques vem anunciando aconteceu nos últimos dias, com o anúncio do afastamento de Bernie Ecclestone. O homem que comanda o circo há 38 anos, que transformou no maior negócio esportivo do mundo foi gentil e respeitosamente rebaixado de manda-chuva para conselheiro ou assessor especial, dos novos donos da bola, ainda não está claro.

Por mais que exista um medo generalizado entre os aficionados de que os americanos queiram “nascarizar” o mundial, deixando-o mais parecido com o automobilismo de sua terra natal, que joga todas as suas fichas no show em detrimento dos aspectos técnicos que mantem a ligação umbilical entre as corridas de automóvel e as grandes montadoras, é inegável que a F1 enfrenta desafios inéditos, que ameaçam a própria sobrevivência do esporte.

De um lado, temos um campeonato com regras cada vez mais exóticas e complexas a ponto de escapar à compreensão do público e transformar o ato de acompanhar uma corrida em um exercício psicotécnico enquanto a base de fãs vai envelhecendo sem encontrar substitutos nas novas gerações, para as quais ter um carro já não é uma de suas maiores ambições. Há quem diga que quem nascer em 2017 jamais tocará num volante e, quando muito, há de conviver com um tráfego já automatizado. Some-se a isso o desdem de Bernie pelas redes sociais, o que deixou a F1 na lanterna entre os grandes eventos desportivos que se servem da rede para manter o contato com o público.

E agora?

Um bom meio de entendermos o tamanho que Ecclestone tinha  na gestão da categoria é o fato de seus antigos poderes terem sido divididos num triunvirato composto por Chase Carey, CEO da Liberty Media, Sean Bratches, diretor comercial e Ross Brawn, que atuou como conselheiro do grupo durante as negociações.

Mesmo vindo com a promessa de grandes mudanças, os americanos apontarem Brawn para a gestão esportiva não deixa de ser um aceno para quem teme medidas que possam afastar a F1 de suas raízes. Fala-se já do fim do DRS (asas que abrem na reta facilitando as ultrapassagens) a partir de declarações dele no sentido de simplificar as regras, o que provavelmente pode ser uma indicação de menos restrições para as manobras de ultrapassagem. É o caso de aguardar para conferir, mas há razões para ser otimista.

Mesmo Carey e Bratches vem se manifestando de maneira a tranquilizar o circo, falando em dividir melhor os lucros entre as equipes e priorizar a permanência e o retorno de GPs tradicionais que passaram décadas sendo achacados por Bernie e seus contratos leoninos. Carey, inclusive, chegou a ventilar que pretende acabar com os privilégios da Ferrari, que recebe mais por razões históricas.

De todo modo, já não se esperava qualquer novidade por parte de Ecclestone aos 86 anos. O inglês baixinho, ex-piloto e ex-dono de equipe, realmente transformou a F1 no maior evento esportivo do mundo, mas já faz tempo que parecia mais preocupado em espremer a fruta até a última gota do que em preparar um sucessor (o que jamais fez) ou em deixar um mundial sustentável, pronto para seguir depois de sua aposentadoria.

Pascal Wehrlein está para ser anunciado na Sauber, fechando a penúltima vaga para o mundial de 2017

Mesmo preterido para a vaga na Force India, Pascal Wehrlein segue prestigiado pela Mercedes
Mesmo preterido para a vaga na Force India, Pascal Wehrlein segue prestigiado pela Mercedes

Já em sua primeira semana, 2017 fortaleceu ainda mais a tendência de a Mercedes fechar com Valtteri Bottas. O boato da vez é de que o finlandês, ainda sob contrato com a Williams, já teria visitado a fábrica do time alemão. Não seria uma surpresa se a ocasião já tiver servido para pegar as medidas do piloto, moldar o banco e preparar o conteúdo para o anúncio oficial de um acordo que já pode estar fechado há mais tempo do que se imagina. A surpreendente aposentadoria de Rosberg deixou os alemães em uma situação difícil, que exigiu muita diplomacia para se resolver sem desagradar todas as partes envolvidas, incluindo equipes clientes, patrocinadores e pilotos de seu programa de desenvolvimento.

 Outro sinal de que as peças já se moveram é o “vazamento” na imprensa especializada de que Pascal Wehrlein já teria acordado a sua transferência da Manor para a Sauber. O jovem alemão era, teoricamente, o primeiro da fila de pilotos tutelados pelo time campeão de 2016. O curioso do caso dele é justamente a mudança para uma escuderia que não é cliente da Mercedes. Depois de ter sido preterido em benefício de Esteban Ocon para a vaga aberta na Force India (que usa os motores alemães, assim como Williams e Manor). Será que a Mercedes acenou com o fornecimento de seus ótimos motores para os suíços da Sauber em 2018? Para os coitados, que já haviam aceitado correr com motores Ferrari defasados em 2017 para não gastar, seria uma luz no fim do túnel. Mesmo assim, seria mais fácil manter Wehrlein na Manor, que já corre com os propulsores alemães e, inclusive, já vinha superando a Sauber desde o ano passado.

Manor morrendo na praia

Acontece que, nesta mesma semana, esse mistério foi desvelado. Os ingleses da Manor acabaram dando entrada com um pedido de falência. O resultado mais do que surpreendente de Felipe Nasr em Interlagos, com um nono lugar e dois pontos quase no apagar das luzes do campeonato fez a Sauber tomar a 10ª posição no mundial de construtores e as dezenas de milhões de euros a que ela dava direito, criando um enorme buraco no orçamento de seus adversários mais próximos, deixando muito pouco tempo hábil para que eles conseguissem uma solução alternativa. O caso é sério o suficiente para Totto Wolf (cartola da Mercedes) se preocupar em evacuar seus pupilos para equipes que estejam garantidas no grid esse ano. Dúvidas são péssimas para os negócios.

Mesmo preterido para a vaga na Force India, Pascal Wehrlein segue prestigiado pela Mercedes. Na pista, ele bateu seus dois companheiros de equipe em 2016 e marcou o único ponto da Manor. Seria uma enorme injustiça perder a promoção para Esteban Ocon e ainda ficar a pé em 2017.

Felipe Nasr não sabe aonde está nem para onde vai

Com a grana curta, os dias de Felipe Nasr na Formula 1 parecem contados
Com a grana curta, os dias de Felipe Nasr na Formula 1 parecem contados

Nos anos 80, o presidente americano Ronald Reagan, em visita à América do Sul, teria saudado o povo colombiano em uma coletiva de imprensa durante sua estada na Bolívia. Alertado para a gafe diplomática,  o ex ator de faroeste disparou a Colômbia seria a sua próxima parada, o que também não era verdade. Na manhã seguinte, a manchete de um grande jornal afirmava que: Reagan não sabe onde está nem para onde vai. Trata-se de uma insinuação carregada de ironia contra o homem que demoliu a URSS, mas que pode ser verdade se aplicada a Felipe Nasr.

Com os pontos conquistados heroicamente no Brasil, o jovem brasiliense pode ter selado seu destino negativamente. O nono lugar garantiu dois pontos e 30 milhões de euros para a Sauber que, graças a eles, superou a Manor no mundial de construtores. O dinheiro pertence já ao time suíço, que pode dispor dos recursos e da vaga de Nasr para encher ainda mais seus cofres vendendo o assento para outro piloto. Se ele realmente pensa que uma equipe de F1 pode se sentir constrangida a renovar seu contrato por causa de um dinheiro que já está em suas mãos, ele está muito enganado e, decisivamente, não sabe aonde está.

Praticamente abandonado pelo Banco do Brasil, Felipe poderia levar o que resta de seus patrocínios justamente para a Manor. A equipe inglesa seria uma ótima pedida para o brasileiro. Em 2016, ela já começou a emparelhar com a Sauber. Enquanto a tradicional equipe da Suíça lutava para sobreviver, já havendo acertado o uso de motores velhos da Ferrari para 2017, a Manor vinha ascendente, mantendo o desenvolvimento de seus carros e tendo o melhor motor do grid graças ao apoio da Mercedes. O segundo semestre de 2016 via o recente equilíbrio entre as duas escuderias começar a pender em benefício dos ingleses. Tudo indicava que a próxima temporada seria a da virada, quando a Manor deixaria a lanterna da Formula 1 definitivamente nas mãos da Sauber.

Acontece que o resultado que Nasr conquistou no Brasil bagunçou o coreto. Agora, sem dinheiro, a Manor pode ter de ser vendida para manter a sua operação. Ron Dennis, recém limado da McLaren por um grupo de investidores, já aparece como candidato e ninguém sabe quem ele pensa em colocar atrás dos volantes. Com  as cartas tão reembaralhadas, qualquer coisa pode acontecer. No entanto, é certo que cada centavo é importante e, com grana curta, o brasileiro ainda não sabe para onde vai.

Uma aposentadoria anula a outra e saída de Rosberg traz Massa de volta para 2017

Podemos dizer que o campeonato de 2017 começou com o anúncio da aposentadoria de Nico Rosberg. As razões mais ou menos públicas seriam o excesso de pressão provocado pelo constante atrito com Lewis Hamilton. Rosberg mesmo disse que prevaleceu a sensação de alívio depois da bandeirada em Abu Dabi. Ele está exausto e sabe que teve de lutar contra um piloto tecnicamente muito superior cuja personalidade imatura abre as portas para as atitudes mais desrespeitosas no dia a dia de um trabalho esquadrinhado pela mídia a todo momento.

Nico achou forças para se aproveitar dos erros e da arrogância de seu adversário, levou o caneco, mas resolveu sair. Por um lado, é uma maneira de negar a Hamilton a chance de uma revanche da qual o alemão sabe que teria poucas chances de sair com vencedor. Pior, o histórico de Hamilton indica que ele voltaria com força total em sua insistente vontade de humilhar Rosberg. Ao saber da aposentadoria, Lewis disse que não era surpresa, que esta teria sido a primeira vitória de Nico sobre ele em 18 anos, destilando uma falta de elegância que ainda pode tisnar a sua reputação.

A bomba caiu mesmo no colo da Mercedes. Quem colocar no lugar de Rosberg? O fato de não ter anunciado imediatamente um de seus pupilos como Paschal Werlein ou Steban Ocon, os alemães preferiram agir nos bastidores, deixando no ar especulações sobre Alonso, já dissolvidas pelo emaranhado de problemas contratuais. Experiencia é um produto muito valorizado em tempos de mudança de regulamento. Ficou claro que a equipe quer uma solução de curto prazo, alguém comprovadamente competitivo para andar próximo de Hamilton e garantir o time no multimilionário campeonato de construtores. O eleito parece ter sido Valtteri Bottas, piloto da Williams, que usa motores Mercedes e pode ser pressionada.

Pois bem, as engrenagens dos bastidores se moveram. O time de Grove não podia ficar sem um piloto experiente para liderar sua campanha já fragilizada pela estreia de Lance Stroll, canadense de apenas 18 anos. Eis então que Felipe Massa renovou com a Williams para 2017. Trata-se de uma decisão obviamente provocada pela surpreendente aposentadoria de Nico Rosberg e praticamente uma prova de que a Mercedes fechou com Bottas  para substituir o campeão de 2016. Para Massa, fica aquela situação chata em que se faz a festa de despedida e ela não se concretiza. O Brasil ganha mais um ano com presença garantida no mundial.

Todos respiram aliviados? Ainda não. Todas essas reviravoltas podem ter fechado a tampa do caixão da campanha de Felipe Nasr por uma vaga para o ano que vem. Algo a ser tratado com mais calma no próximo post…

E foi assim que a tartaruga venceu a lebre.

Como na fábula, o trabalho duro venceu o talento temperado com arrogância
Como na fábula, o trabalho duro venceu o talento temperado com arrogância

Há quem tente vender a conquista de Nico Rosberg como uma espécie de redenção dos “segundos pilotos”. Essa figura do escudeiro, tão desprezada pela crítica, é uma realidade menos presente do que estamos acostumados a pensar. Trata-se de uma narrativa talhada ainda pelo rancor que grande parte da torcida e da imprensa (?) sente por Rubens Barrichello, que para sempre carregará a culpa de não ter dado continuidade ao ciclo vitorioso do Brasil no mundial de Formula 1 depois da morte de Ayrton Senna.

Por um lado, é verdade que Nico foi bem sucedido em vencer um piloto tecnicamente muito superior com o mesmo equipamento, mas também é fato que a Mercedes jamais impôs sobre ele uma pressão semelhante à que a Ferrari, por exemplo, exercia sobre Rubens Barrichello em relação a Michael Schumacher ou, posteriormente, sobre Felipe Massa em relação a Fernando Alonso, no sentido de trabalhar pela conquista de seus colegas. Podemos incluir na conta também o escandaloso crash gate, quando Nelsinho Piquet recebeu ordens para bater deliberadamente de modo a beneficiar o mesmo Alonso em 2008, no GP de Singapura.

A rigor, Rosberg teve algumas vantagens em relação aos dois brasileiros. A primeira é o fato de o jogo de equipe pegar muito mal desde que começou a ser feito de maneira muito escancarada pelos italianos, como na Áustria em 2002 e na Alemanha em 2010. Mais recentemente, pilotos que se rebelaram abertamente contra esse tipo de ordem de equipe acabaram saudados pelo público, empurrando ainda mais para debaixo do tapete essas manipulações de resultado. Sim, estou falando de Max Verstapen, mas outros lhe seguiram o exemplo. Adicione-se à equação o fato de Nico ser alemão e de já estar na equipe desde 2010, além de ter batido Schumacher de maneira totalmente inesperada quando o heptacampeão mundial retornou da aposentadoria para liderar o time das Flechas de Prata, enchendo Nico de moral em três temporadas que merecem uma análise a parte.

Mesmo quando começou a dividir o time com Lewis Hamilton, Rosberg sempre foi capaz de andar bem próximo do inglês, sendo grande o número de dobradinhas entre eles. Nico sempre estava perto o suficiente para se aproveitar de qualquer erro de Lewis. A partir de 2014, quando começou a hegemonia da Mercedes, isso se traduziu em conquistas tranquilas de dois vice campeonatos por parte do alemão em três anos. Rubens Barrichello, por exemplo, foi vice duas vezes em cinco anos com Schumacher na Ferrari, num período maior e em que a concorrência de outras equipes era mais próxima. Diferentemente do brasileiro, Nico jamais precisou agir como escudeiro de Hamilton.

Na verdade, a imagem de piloto competente e cerebral de Rosberg só seria arranhada por ele mesmo. Ninguém esperava que ele pudesse bater Lewis Hamilton. O inglês sempre foi reconhecidamente mais talentoso. O que pegou relativamente mal foi o fato de Nico ter tido duas ou três vezes a oportunidade de abrir na liderança graças a erros ou problemas do inglês e ter se mostrado repetidamente incapaz de aproveitar as chances. O alemão parecia não ter a única vantagem que se esperava dele diante de um adversário sabidamente instável psicologicamente.

Com o tempo, Hamilton também passou a acreditar que podia brincar com Nico, que ele não representava um risco real para suas conquistas, como demonstrou em grosserias como arremessar seu boné num Rosberg já derrotado, na ante sala do pódio em Austin, 2015. Iniciou-se então uma versão ao vivo da fábula da Lebre e da tartaruga. Lewis simplesmente não resistia a uma oportunidade de humilhar seu colega, sentia-se onipotente e continuou esticando a corda até que ela finalmente arrebentou em 2016.

Isoladamente, pode-se escolher quando foi que Hamilton jogou o mundial fora. Pode ter sido ao não ter paciência para ultrapassar Nico em Barcelona, quando os dois bateram ainda nas primeiras curvas, ou ao não se esforçar para estudar os complexos controles do carro quando proibiram as instruções pelo rádio e ele se embananou em Baku, quando ele largou mal no Japão e acabou preso numa arriscada batalha com Max Verstapen. O próprio Lewis chegou a insinuar que sua quebra de motor enquanto liderava na Malásia teria sido suspeita, mas o fato é que ele falhou mais de uma vez com suas obrigações. Enquanto Nico estava virando a noite estudando os manuais dos complexos controles do volante, o inglês era figurinha fácil das badalações com celebridades e chegou a lançar um disco! Cada um dos vacilos citados neste parágrafo, se evitado, poderia ter feito a diferença para superar os cinco pontos de vantagem que deram o caneco para Rosberg.

Provavelmente, o mais correto é atribuir a conquista do alemão a seu trabalho duro e sistemático, aliado á ausência de outras equipes competitivas nós últimos anos e, finalmente, a falta de foco de Hamilton. O título é mais do que merecido e deve ficar para a história como uma daquelas raras ocasiões em que a Formula 1 puniu a arrogância premiando quem simplesmente deu o melhor de si.

Com pressão até o fim, Hamilton acabou sublinhando o merecido título de Rosberg

Contra todas as expectativas, Nico Rosberg finalmente bateu Lewis Hamilton e se fez campeão mundial
Contra todas as expectativas, Nico Rosberg finalmente bateu Lewis Hamilton e se fez campeão mundial

É tentador afirmar que Lewis Hamilton atirou o fair play pela janela na etapa de encerramento do mundial de 2016. Por um lado, é verdade que ele simplesmente não tinha outra opção se quisesse interferir com Rosberg. Manter a liderança na largada e segurar o ritmo era só o que ele podia fazer para expor Nico aos ataques de Red Bull e Ferrari e, quem sabe, vê-lo perder as duas posições que lhe dariam o título junto com a vitória. Por outro lado, ele sabia que a manobra seria polêmica e que só poderia ser tentada em Abu Dabi. Fizesse o mesmo em corridas anteriores, é bem provável que a polêmica tivesse tempo de se transformar em punições para ele ou em novas regras no já bizantino manual da Formula 1.

É preciso dizer que Lewis poderia ter sido bem mais agressivo em sua abordagem. Apenas na última volta o inglês segurou o pelotão a ponto de os quatro primeiros aparecerem juntos no vídeo. No resto da corrida, Hamilton evitou sumir na liderança, mas sempre deixou espaço para Rosberg correr poucos riscos. A retranca do líder chegou a colocar Max Verstapen entre ele e Rosberg depois de uma rodada de pit stops da qual o jovem holandês se absteve. Nico colocou a faca nos dentes e ultrapassou Max que já vinha com pneus muito desgastados.

O engarrafamento provocado por Hamilton bem poderia ter sido causado naturalmente por algum problema ou confusão. Prefiro acreditar que a manobra ocorreu dentro dos limites de segurança, o que pode legitimá-la para uso futuro, sendo levada ao limite apenas no final, quando Vettel se aproximou perigosamente. Acabou abrilhantando a conquista do piloto alemão.

O horroroso autódromo de Yas Marina tem um traçado problemático me termos de ultrapassagens (Alonso que o diga), mas acabou servindo bem ao plano de Hamilton. Se o campeonato do ano que vem não trouxesse tantas mudanças de regulamento técnico, as equipes teriam investido mais no desenvolvimento dos carros de 2016 na expectativa de aproveitar os resultados na temporada seguinte. Ferrari e Red Bull poderiam ter encostado mais na Mercedes, quem sabe?

No final, foi como deveria ser. Rosberg deu tudo de si e conseguiu aproveitar os erros de um piloto sabidamente superior para conquistar o mundial e isso tem muito mérito. Ele sabe que essas circunstâncias dificilmente se repetirão e surpreendeu o mundo com o anúncio de sua aposentadoria dias após a conquista, notícia que caiu como uma bomba no mercado de pilotos e é assunto para outro post. Por hora, ficam os parabéns e a certeza de que Nico deixou a sua marca.

Na semana marcada pela tragédia que se abateu sobre a delegação da Chapecoense, fica a lição de que a vida é muito maior que o esporte, que deve ser respeitada e vivida fazendo o que se gosta e perto de quem se ama. Nico Rosberg escolheu ter mais tempo para a família e teve o privilégio de fazê-lo depois de sua maior conquista. Uma oportunidade negada às vítimas do criminoso voo da LAMIA, que acabou matando dezenas de pessoas por insistir em economizar um punhado de dólares.