Sem amuleto

Agora, Lula fora do páreo, os candidatos do Maranhão que usavam a imagem de Lula como amuleto eleitoral, como Edison Lobão, Roseana Sarney e Waldir Maranhão, vão ter que virar o amuleto de si mesmo.

Dino ganha

A indicação do petista Fernando Haddad – ex-prefeito de São Paulo – como substituto de Lula na corrida presidencial tem, sim, reflexos diretos na disputa do governo do Maranhão. Há duas semanas, ele esteve num comício gigante na Praia Grande, para dizer que o candidato de Lula é Flávio Dino.

O protagonismo dos vices

A eleição presidencial daqui a 24 dias terá como protagonistas dois vices dos principais concorrentes ao Palácio do Planalto. O general da reserva Hamilton Mourão, vice do deputado Jair Bolsonaro, já se prepara para protagonizar a reta final da campanha. Bolsonaro, esfaqueado por um insano em Minas, permanece na UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Já o líder de todas as pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba, desistiu ontem da persistência na eleição. Passou o bastão a Fernando Haddad, agora, oficializado candidato a presidente, com Manuela D’Ávila na vice.

Faltando tão poucos dias para as eleições, o Brasil vive um dos momentos mais complicados da crise que se arrasta ao longo dos últimos quatro anos. É o confronto político e o ódio radicalizado nos extremos que já tornam tenebroso o ambiente eleitoral. Os extremistas de direita nunca foram tão extremistas. Os de esquerda também assumiram o papel de não deixar pedra sobre pedra, quando a discussão gira em torno do poder. Os militares, pela voz do comandante do Exército, Villas Bôas, não deixam dúvida de que sempre, nas crises extremadas, há espaço para o tinido das baionetas.

De vice-presidente em vice-presidente, a história da República vendo sendo contada mais por essas figuras secundárias, que não recebem um único voto, do que pelo eleitos. José Sarney foi o último governador eleito no amanhecer da ditadura e o presidente sem voto popular dentro do mesmo regime de 1964. Também, entre os vices, foi o mais aquinhoado
com o poder federal. Como vice de Tancredo, usufruiu de cincos anos completos no Planalto. Na primeira eleição direta para o Planalto, em 1989, o “salvador da Pátria”, Fernando Collor de Mello só ficou menos de três anos no cargo. O vice Itamar Franco completou o mandato, sem ter muito o que fazer.

Entre governos biônicos, generais ditadores, eleições indiretas, planos econômicos explosivos e malsucedidos, o Brasil marcha agora para a nova escolha presidencial, com o Palácio do Planalto ocupado pelo vice Michel Temer. Com apoio do Judiciário, do Parlamento e dos Estados Unidos, golpeou Dilma Rousseff. Hoje, solitário, ele amarga um dos finais de governo mais melancólicos da República. Para piorar, os dois líderes das pesquisas de intenção de votos – Lula e Bolsonaro – estão fora de combate. Um esfaqueado na UTI e o outro preso em Curitiba. Enquanto isso, os extremos da política se encarregam de toldar o ambiente. Ontem, com a definição de Fernando Haddad, o mercado reagiu explosivamente: o dólar saltou para R$ 4,1542 na venda, e o Ibovespa
caiu 2,33%, fechando com 74.656 pontos. É um termômetro da complicação que está por vir. Quem viver verá.

Eleição de vices

Agora lascou: a eleição presidencial vai ser a eleição dos vices. Fernando Haddad vai substituir Lula da Silva, preso em Curitiba. Espera só o fim da encrenca do PT com a Justiça sobre a candidatura de Lula.

O general da reserva Hamilton Mourão (PRTB) vai acabar sendo “protagonista” na atual fase da corrida eleitoral, como vice de Bolsonaro, internado na UTI. Por coincidência, Lula e Bolsonaro são os líderes desta campanha.

Visões opostas

Roseana Sarney promete, se eleita, “voltar” com toda força os programas do leite, “Luz para Todos” e gás de cozinha para os pobres. Flávio Dino promete mais arrojo nos programas de combate à pobreza, com 50 escolas construídas e recuperadas, além de hospitais e estradas asfaltadas, com interlocução com os prefeitos.

Dino diz que acabou o tempo da perseguição política contra prefeitos de partidos adversários. E foca na educação como elemento de combate à pobreza. De zero, ele já chegou a 19 de tempo integral – vários Institutos de Educação do Maranhão (Iema), além de “escolas dignas”, para o ensino fundamental.

Falsa informação

Por decisão do TRE-MA, a candidata do MDB ao governo do Maranhão terá que retirar do ar as inserções do horário eleitoral nas quais Flávio Dino é acusado de eliminar programas sociais deixados por ela. Roseana lembra “o fim do Programa do Leite”. A coligação de Flávio Dino provou à Justiça que o programa foi ampliado em 2017 e mantido em 2018.

O juiz eleitoral Alexandre Lopes de Abreu, relator do processo, considerou falsas a informação do fim dos programas sociais. Entendeu que não há a intenção de expor fatos de interesse público, e sim de macular a honra e a imagem do candidato adversário, configurando propaganda negativa, consistente na divulgação da falsa informação”.

Sem voto útil

As eleições estão a menos de um mês e a disputa pelo governo do Maranhão permanece com a polarização petrificada entre Flávio Dino, governador, e sua antecessora Roseana Sarney, tão conhecida do eleitorado, pelos 14 anos de governança no Palácio dos Leões, quanto o nome de José Sarney. Ele é mais, graças à mais longa permanência de um político brasileiro no poder oligárquico – 50 anos. Até agora não surgiu nem sinal de uma terceira via à esquerda, com Ramon Zapata (PSTU), ou à direita, com Maura Jorge, do PSL de Jair Bolsonaro.

As pesquisas são desencontradas, mas sempre sem mudar a posição de cada qual, dos seus postulantes ao Palácio dos Leões. Roseana se desdobra no vasto conhecimento do nome e sobrenome, mas com uma campanha engessada pelas regras eleitorais e pela pouca aderência de seu discurso como opositora. São meias palavras rubricadas com meias verdades. Já Flávio Dino navega “em céu de brigadeiro”, com o galardão de quem permanece à frente. É isso que as pesquisas indicam, ainda com a vantagem de carregar a força emanada do Poder Executivo, num estado onde nada acontece sem sua interferência.

Os demais candidatos – Roberto Rocha, Maura Jorge, Ramon Zapata e Odívio Neto – sumiram na fumaça do salão da festa. O horário eleitoral não provocou solavanco na corrida ao Palácio dos Leões e o eleitorado ainda não os chamou para a dança. Nem a turma do voto útil não percebeu a presença do quarteto em si. No Maranhão, em cada eleição, existem dois partidos: o dos Sarney e o dos anti-Sarney. É tipo a eleição
americana, guardada a necessária desproporção – democratas e republicanos. No Maranhão, é rara a disputa do governo quebrar essa corrente dicotômica eleitoral.

No sistema eleitoral brasileiro, cheio de nuances e artimanhas, o que caracteriza o voto útil é o mesmo que voto tático. Pode ser chamado também de voto estratégico. Ocorre em eleições com mais de dois candidatos. Um segmento de eleitores fornece informação enganadora
com o objetivo de maximizar a utilidade do seu voto. Se um eleitor acredita que o seu candidato preferido não tem chances de ganhar, por exemplo, ele pode optar por candidato que não gosta, com o objetivo de emparedar ou impedir a vitória do que detesta. A análise do voto tático é um tópico estudado pela teoria dos jogos. O jogo político o aproveita dentro de sua modelagem nativa e matreira.

Falta que faz

No Maranhão, o maior reflexo negativo da ausência de Bolsonaro na campanha de governador será contra Maura Jorge (PSL). Ela ainda patina ao redor de 3% das intenções de voto e, sem o presidenciável em seu palanque, fica ainda mais complicado ela decolar. Agora, Maura tem que puxar sua candidatura com a força e a coragem.

Fora das ruas

O deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), candidato a senador nas eleições 2018 e filho mais velho do presidenciável Jair Bolsonaro
(PSL), garantiu que o pai “inevitavelmente” não vai poder mais fazer campanha de rua. Mas, como usa as redes sociais como nenhum outro
candidato, sua militância vai ampliar a atuação.

Volta por cima

Imaginava-se que, diante da força das redes sociais, o comício popular havia dado adeus à campanha de 2018. Porém, vários candidatos estão provando que o apelo eleitoral do palanque ainda tem o seu espaço. Até nas cidades de porte médio, os comícios resistem, mesmo sem a força aglutinadora de antigamente.

Othelino Neto, Cleide Coutinho (candidatos estaduais), Flávio Dino e Weverton Rocha e Edison Lobão, entre outros, estão mostrando que o comício continua sendo um formidável ponto de encontro de candidatos com os eleitores. Mesmo sem os antigos showmícios, banidos pela legislação eleitoral desde 2014, essa jeito de campanha ainda é termômetro de força política.